Jorge Sampaio termina o mandato como começou. Emocionado, com a lágrima ao canto do olho, profundamente empenhado numa “causa nacional” propícia ao sentimento fácil e à irrelevância política.
ccs


Ao país parecia que a hora do apocalipse tinha chegado e a ninguém mais do que aos católicos. Sob pretexto de que a Igreja insistia em manter comunidades religiosas (no caso, de freiras), seis bispos foram expulsos das suas dioceses só em 1917. A guerra, a mobilização geral e o exacerbamento da ditadura jacobina intensificaram também a perseguição ao clero menor. À medida que os desastres se acumulavam os padres e os católicos iam pagando o desespero dos "bons republicanos". Eram os culpados por excelência e as vítimas predestinadas de tudo o que corria mal, e quase tudo corria mal. Os portugueses não gostavam da guerra? Influência e perfídia da padralhada, mancomunada com os monárquicos. O povo revoltava-se nas cidades porque não tinha pão e, na província, por causa da requisição de cereais? Manobras do ultramontanismo. Os preços subiam? Intrigas dos jesuítas. Portugal não estimava o dr. Afonso Costa de acordo com os seus muitos méritos? "Monomania religiosa". As represálias vinham a seguir: padres presos por tocarem sinos; procissões interrompidas porque o bispo se atrevera a pôr vestes talares; igrejas fechadas porque tinham admitido mulheres e crianças durante o dia, ou porque o padre local dissera missa por um "conspirador", ou porque oficiais de uniforme haviam ajudado à missa (papel delicadamente descrito como "passar os panos"), ou porque o sacristão expendera na mercearia opiniões "defetistas" (derrotistas) e germanófilas.
Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de Dona Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade do antigo regime. Infelizmente, uns meses depois um pronunciamento (a "Vilafrancada") acabou com esta devoção. Em 1915 e 1916, os "pastorinhos" Lúcia de Jesus Santos, de 8 anos, e os seus primos, Jacinta e Francisco, de 7 e 5 anos, viram oito vezes, em várias freguesias de Fátima, um anjo que declarou ser o anjo de Portugal, estando evidentemente entendido que a República era demoníaca. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Mas pouco a pouco foi-se explicando. Ninguém deu importância a estas visitas, normais em adolescentes e na pastorícia. Em 1917, as coisas correram de outra maneira. Entre Maio e Outubro, a Virgem apareceu quatro vezes a Lúcia, Francisco e Jacinta (agora respectivamente com 10, 9 e 7 anos), sempre no dia 13, sempre à mesma hora e sempre na Cova da Iria (excepto em Agosto, por motivos de que não vale a pena explicar aqui). As relações das crianças com a Virgem variavam: Lúcia via, ouvia e falava; Jacinta via e ouvia, sem falar; e Francisco via, sem ouvir nem falar. Nunca se esclareceu a óbvia desconfiança da Virgem em Jacinta e, principalmente, em Francisco.
Lúcia e Jacinta receberam a "mensagem" do Céu, uma série de trivialidades evangélicas, com duas alusões à realidade, ambas sobre assuntos correntes. A Virgem comunicou, nomeadamente, que a II Guerra Mundial seria "horrível", quando o horror da primeira sufocava o país, e preveniu que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais e os padres anunciavam dia sim, dia não, desde de Fevereiro. As profecias, manifestamente corrigidas por quem de direito, resumiam as preocupações do conservadorismo indígena e reflectiam as opiniões e os sentimentos do clero, esmagado pela ditadura jacobina. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era um fenómeno insusceptível de espantar os bem-pensantes e a Igreja portuguesa em 1917. A fortuna posterior de Fátima deve muito à sobrevivência do regime até 1926 e à visão moderna da Virgem, que apareceu perto do Entroncamento, isto é, na confluência da vias férreas do centro e do norte do país. Tivesse ela aparecido em Tavira ou Bragança, dez anos mais tarde, nunca se teria sabido.


