terça-feira, fevereiro 21, 2006

"NEGACIONISMOS"

Há várias maneiras de negar o Holocausto, conforme os fins políticos de cada um:

1. Negar que o número de mortos fosse mais do que um milhão e meio, dois milhões. Esta "redução" parece em princípio moral e politicamente irrelevante, mas de facto refuta a ideia de genocídio.

2. Negar a existência ou o papel central das "fábricas da morte". Isto dá ao Holocausto um carácter vagamente aleatório e colateral à guerra e pretende passar a responsabilidade do regime para forças fora da cadeia hierárquica central, como os Einsatzgruppen SS e voluntários locais (nomeadamente da Ucrânia e dos países bálticos).

3. Negar que o Alto-Comando do exército soubesse o que estava a acontecer na sua própria área de operações. Neste caso, o objectivo é à superfície separar os militares do nazismo para absolver os militares. Só que implicitamente também separa a Alemanha (inocente e honrada), que o exército encarnava, da ignomínia nazi.

4. Negar que Hitler tivesse ordenado ou tivesse tido conhecimento do Holocausto. É uma tentativa radical de "limpar" o nazismo.

5. Negar que a natureza única do Holocausto, para o apresentar como uma resposta, se não legítima, pelo menos justificada ao Gulag: uma ideia que chegou a ganhar uma certa respeitabilidade durante a "guerra-fria" e se destinava a estabelecer a Alemanha como um parceiro democrático de confiança.

Nenhuma das cinco teses do "negacionismo" é historicamente sustentável.
vpv

LIBERDADE ACADÉMICA

Repito: um homem que falsifica deliberadamente a história não é um historiador. No caso de David Irving, por exemplo, não se trata só de um problema de interpretação, mas de modificar, truncar e suprimir documentos para "estabelecer" uma tese. Isto não pode ser considerado, sob nenhum pretexto, trabalho académico, ou julgado como trabalho académico. É pura propaganda. A liberdade política de fazer propaganda, mesmo a favor de uma causa abominável, não se confunde com a liberdade de investigação. Espero que o João Miranda concorde.
vpv

UM ANO (I)

Paulo Gorjão diz que o principal trunfo de José Sócrates não é a memória de Santana Lopes mas “o facto de Marques Mendes não ser (ainda?) uma alternativa credível”. Resta saber por que é que Marques Mendes não é ainda uma alternativa credível. Em parte, porque o PSD ainda não recuperou da liderança de Santana Lopes. Em parte, porque o estado de graça do governo se prolongou, para além do habitual, por causa do governo de Santana Lopes. Em parte também, por responsabilidade de Marques Mendes. Mas essa responsabilidade, por enquanto, dilui-se na responsabilidade maior de Santana Lopes. Daí o “ainda” e o ponto de interrogação que auspiciosamente o acompanha.
ccs

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

UM "NEGACIONISTA"


David Irving foi condenado a uma pena de prisão na Áustria, por ter negado o Holocausto. David Irving não é um historiador, é um homem que falsificou deliberada e muito competentemente a história. Não se enganou: quis fazer o que fez. Não se pode invocar a favor dele o "cepticismo" académico e o direito ao erro. Só se pode invocar o direito político que lhe assiste de escrever e publicar tudo o que entender. Há quem o ache "perigoso", porque, ao contrário do malfeitor comum, estudou com minúcia e seriedade a evidência arquivística para a distorcer. Talvez seja "perigoso". Mas não escapou ao exame da comunidade dos pares. Ninguém o leva a sério há mais de quinze anos. Desprezado, isolado e já sem sombra de influência, recebeu agora uma espécie de consagração perversa por culpa de uma lei estúpida e de uma atmosfera persecutória, num país que se quer livrar do seu abominável passado à custa de uma virtude postiça. David Irving estava na rua como o lixo. Se por acaso se conseguir levantar é porque esquecemos que a liberdade nos defende.
vpv

UM ANO DE SÓCRATES

Um ano de Sócrates, segundo o índice geral do Público:

1. Défice abaixo dos seis por cento: Conseguido pelo aumento de impostos (fundamentalmente, o IVA) e por uma maior eficácia na cobrança. A redução das despesas, ensaiada aqui e ali, com muito medo e uma grande tendência para fugir, continua a ser uma figura de propaganda.

2. Plano Tecnológico: Fora o amadorismo e o cheiro a "truque" da moda, é o que as corporações de interesses permitem que seja, por outras palavras, quase nada. Mas sempre deu a oportunidade para uma espécie de "Herman-SIC", com Bill Gates, convidado da noite, e o MIT, conjunto folclórico. Um orgasmo precoce.

3. Reestruturação da Administração Pública: Comissões, comissões, comissões. Quem se quer esconder e ficar quietinho, nomeia uma comissão. A farsa do costume.

4. Ota e TGV: Quando se deve muito dinheiro, só as dívidas nos salvam. Décimo quarto episódio do "Vigarista milionário", uma peça clássica portuguesa.

5. Fim dos regimes especiais de Segurança Social e de Saúde: Aqui, sim: contra a fraqueza a autoridade não cede. Bater nos criados foi sempre uma tradição indígena.

6. Lei das rendas: Com um tresloucado atrevimento, o governo lá se atreveu a um passinho oblíquo para evitar que os centros das cidades se tornem num montão de ruínas. Não resolveu nada, mas com certeza ficou muito bem com a sua inovadora consciência.

7. Colocações de professores por quatro anos: Consola saber que de quando em quando a FENPROF concorda com o ministro da Educação.

8. Lei da nacionalidade: Abrir a porta, com o pé firmemente na porta. Quem é xenófobo é o Portas.

9. Medicamentos fora das farmácias: Uma guerra contra o lobby das farmácias que excede as façanhas de Eurico, o Presbítero. Não toca no principal, isto é, no estatuto absurdamente privilegiado da "classe", uma excrescência do século XIX. Não se pode querer tudo.

10. Férias judiciais: Para o parolo ver. Um acto que passa com majestade ao lado dos problemas.

11. Combate a incêndios: Esperemos que da confusão estabelecida, saia luz. Não fogo.
12. Evasão fiscal: A esquerda sempre gostou de tosquiar a carneirada.

13. Fundos da "Europa": A sopa do convento ainda não acabou.
14. Acordo de Bolonha: Atrasado. Quanto mais tarde, melhor. Não se manda um coxo para os 100 metros de obstáculos.

15. Aborto: Por favor, não arranjem sarilhos ao sr. eng.

16. Taxa de carbono: Isso era na oposição.

Fora do índice geral do Público:

17. Nomeações: O Vara, o Gomes, o Oliveira Martins são beneméritos da Pátria e só por acaso criaturas do PS.
vpv

UM ANO

Um ano depois de ter ganho as eleições, o principal trunfo de Sócrates é a memória ainda viva do que foi Santana Lopes.
ccs

domingo, fevereiro 19, 2006

FÁTIMA

Ao país parecia que a hora do apocalipse tinha chegado e a ninguém mais do que aos católicos. Sob pretexto de que a Igreja insistia em manter comunidades religiosas (no caso, de freiras), seis bispos foram expulsos das suas dioceses só em 1917. A guerra, a mobilização geral e o exacerbamento da ditadura jacobina intensificaram também a perseguição ao clero menor. À medida que os desastres se acumulavam os padres e os católicos iam pagando o desespero dos "bons republicanos". Eram os culpados por excelência e as vítimas predestinadas de tudo o que corria mal, e quase tudo corria mal. Os portugueses não gostavam da guerra? Influência e perfídia da padralhada, mancomunada com os monárquicos. O povo revoltava-se nas cidades porque não tinha pão e, na província, por causa da requisição de cereais? Manobras do ultramontanismo. Os preços subiam? Intrigas dos jesuítas. Portugal não estimava o dr. Afonso Costa de acordo com os seus muitos méritos? "Monomania religiosa". As represálias vinham a seguir: padres presos por tocarem sinos; procissões interrompidas porque o bispo se atrevera a pôr vestes talares; igrejas fechadas porque tinham admitido mulheres e crianças durante o dia, ou porque o padre local dissera missa por um "conspirador", ou porque oficiais de uniforme haviam ajudado à missa (papel delicadamente descrito como "passar os panos"), ou porque o sacristão expendera na mercearia opiniões "defetistas" (derrotistas) e germanófilas.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de Dona Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade do antigo regime. Infelizmente, uns meses depois um pronunciamento (a "Vilafrancada") acabou com esta devoção. Em 1915 e 1916, os "pastorinhos" Lúcia de Jesus Santos, de 8 anos, e os seus primos, Jacinta e Francisco, de 7 e 5 anos, viram oito vezes, em várias freguesias de Fátima, um anjo que declarou ser o anjo de Portugal, estando evidentemente entendido que a República era demoníaca. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Mas pouco a pouco foi-se explicando. Ninguém deu importância a estas visitas, normais em adolescentes e na pastorícia. Em 1917, as coisas correram de outra maneira. Entre Maio e Outubro, a Virgem apareceu quatro vezes a Lúcia, Francisco e Jacinta (agora respectivamente com 10, 9 e 7 anos), sempre no dia 13, sempre à mesma hora e sempre na Cova da Iria (excepto em Agosto, por motivos de que não vale a pena explicar aqui). As relações das crianças com a Virgem variavam: Lúcia via, ouvia e falava; Jacinta via e ouvia, sem falar; e Francisco via, sem ouvir nem falar. Nunca se esclareceu a óbvia desconfiança da Virgem em Jacinta e, principalmente, em Francisco.
Lúcia e Jacinta receberam a "mensagem" do Céu, uma série de trivialidades evangélicas, com duas alusões à realidade, ambas sobre assuntos correntes. A Virgem comunicou, nomeadamente, que a II Guerra Mundial seria "horrível", quando o horror da primeira sufocava o país, e preveniu que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais e os padres anunciavam dia sim, dia não, desde de Fevereiro. As profecias, manifestamente corrigidas por quem de direito, resumiam as preocupações do conservadorismo indígena e reflectiam as opiniões e os sentimentos do clero, esmagado pela ditadura jacobina. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era um fenómeno insusceptível de espantar os bem-pensantes e a Igreja portuguesa em 1917. A fortuna posterior de Fátima deve muito à sobrevivência do regime até 1926 e à visão moderna da Virgem, que apareceu perto do Entroncamento, isto é, na confluência da vias férreas do centro e do norte do país. Tivesse ela aparecido em Tavira ou Bragança, dez anos mais tarde, nunca se teria sabido.
vpv
(Adaptação de A República Velha)

UM AVISO


Quem abre a televisão tem assistido dia a dia ao protesto geral contra a "racionalização" da rede escolar. Professores, pais, Juntas de Freguesia rebentam de indignação. O governo, Lisboa, a gente sem forma e figura humana que todo lo manda quer tirar ao bom povo a escola da aldeia e subtrair as criancinhas ao olho vigilante da família. Surpreendentemente, os manifestantes, quase sempre entre os 30 e os 40 anos, viveram toda a sua vida em democracia e assistiram, ou sofreram, a prodigiosa transformação do interior. Mas resistem à mudança, com um genuíno desespero, sem perceber que para os filhos uma escola com meia dúzia ou dúzia e meia de alunos, isolada e primitiva, só os pode prejudicar. Claro que o governo, como de costume, começou pelo fim, ou seja, começou a "racionalização" sem escolas modernas, que demonstrassem materialmente a superioridade do ensino e a diversidade da experiência de que os "transferidos" passariam a beneficiar. De qualquer maneira, é lógico supor que bastaria o alargamento do convívio, a especialização dos currículos e a maior competência dos professores para convencer os pais. Não bastou. A coisa foi vista como um insulto e uma imperdoável atropelo.
Sucedeu o mesmo com a "racionalização" da "rede de saúde". O ministério resolveu fechar umas dezenas ou centenas de "centros", que não serviam para nada ou quase nada e tinham um número ridículo de consultas, para concentrar e melhorar os meios de tratamento. Em princípio, esta pequena reforma parecia benéfica e urgente. Engano. Houve cenas de fúria, entre o melodrama e a violência, a que as Juntas de Freguesia também deram o seu autorizado contributo.
Políticos são políticos, estejam onde estejam, e quando chegou a vez delas, as Juntas por um pouco não morriam de raiva. Das 3.000 e tantas que existem por esse país fora, uma larga parte não é útil, nem justificável. Fundir as mais pequenas nas grandes traz vantagens de eficiência imediata e aumenta o poder negocial das que ficarem. Infelizmente, também aqui, não vale a pena argumentar. O bom povo quer ouvir. E porquê? Porque usa a Junta como posto médico, caixa de correio e pronto-socorro. Por causa da história, da tradição, da vizinhança. Numa palavra, por patriotismo. Por essa espécie patriotismo de paróquia que ainda em 1980 fazia com que as pessoas se matassem em nome da fronteira entre Vila Velha e Vila Meia.
Os retóricos da "inovação", de Cavaco a Sócrates, que se excitam com o Portugal da "Europa", do telemóvel e do computador, nunca medem bem o peso e a pertinácia do outro Portugal, do Portugal imóvel, arcaico, conservador, que detesta o governo como um inimigo e um ladrão e aspira principalmente a que o deixem em paz.
vpv
(publicado no Público)

TRÊS NOTAS

1.Já o disse e repito: considero grave a busca feita ao jornal 24 Horas. Por poder pôr em causa a liberdade de imprensa e o segredo profissional dos jornalistas. E por escamotear o que devia ser o verdadeiro objectivo do inquérito conduzido pela PGR: a existência do já famoso "envelope 9" com a sua comprometedora lista de números de telefone e respectivos contactos. Na ausência de outras explicações, pode-se concluir que o inquérito esqueceu o essencial e se centra apenas no acessório: ou seja, na forma como os jornalistas tiveram acesso às suas informações.

2.Exigir pronunciamentos da parte do Presidente da República ou do Primeiro-Ministro, sem estar na posse de todos os elementos, revela, no mínimo, alguma irresponsabilidade. O que se pode (e deve) exigir, agora com maioria de razão, é que o inquérito chegue rapidamente ao fim, conforme foi exigido por Jorge Sampaio há um mês. Não é admissível que uma situação, como esta, se mantenha, por mais tempo, embrulhada num inquérito obscuro, que se tornou ainda mais obscuro depois da busca ao jornal 24 Horas.
3.Os erros e o desnorte que vingam no Ministério Público e na Procuradoria-Geral da República justificam que se peça, como tem sido pedida, a demissão de Souto Moura. Mas, até prova em contrário, não justificam que se ponha em causa a seriedade e a honestidade do Procurador. Souto Moura terá muitos defeitos e uma acentuada inabilidade para pôr ordem na casa e para lidar com determinados processos. Mas transformá-lo num "inimigo" da liberdade de expressão, capaz das maiores patifarias para salvar a "honra" da coorporação corre o risco de ser um erro tão ou mais grave do que todos os que ele cometeu.
ccs

sábado, fevereiro 18, 2006

QUEM ANDA À CHUVA...

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Desde sempre, quando o PS ou PSD têm perante si um longo período de oposição começam a falar em "abrir" o partido, que presumivelmente estava antes "fechado". O exercício pressupõe a má fama dos políticos da casa e presume que "atrair" gente de fora, sem o estigma da corrupção, da intriga e do carreirismo, ligará por um processo obscuro a "máquina" à sociedade ou mesmo remeterá a "máquina" para um papel secundário. Na realidade, apesar de várias tentativas, nunca "abertura" alguma trouxe a mínima mudança ao PS e ao PSD, para lá da "adesão" provisória de "figuras" de puro valor ornamental ou de gente já marcada para um futuro governo. Há ainda no PSD quem insista nesta velha receita, mas muito pouca e muito "cavaquista". O populismo veio para ficar e a "abertura", como panaceia, foi largamente substituída pela "democratização" da "máquina".
Essa presuntiva reforma consiste sobretudo na eleição directa do Presidente. Só que não pára aqui. Os descendentes de Santana querem mais. Querem que os candidatos do PSD, das Juntas de Freguesia ao parlamento, sejam "ratificados" pelo "sufrágio universal" dos militantes. Que isto, num país pequeno e pobre como Portugal, possa transformar o PSD num perpétuo tumulto, não lhes passa pela cabeça. As "bases" tomaram um estatuto mítico. O homem de Gaia, Luís Filipe Menezes, fala do "poder das bases" como outrora Otelo falava do "poder do povo" e ataca com a maior seriedade o "centralismo democrático", que, segundo ele, é na prática o regime do partido.
Entretanto, Marques Mendes, que nem "abriu" o PSD e nem parece entusiasmado com a "democratização da máquina" (embora aceite a eleição directa do Presidente, a que até recentemente se opunha), perde o tempo e a paciência numa fronda tradicional contra o governo. Uma fronda que não leva a nada, como não levou com Guterres, com Barroso ou com Ferro, não por falta de autoridade, dele próprio ou de quem o segue, mas porque a retórica abstracta de protesto não interessa a ninguém. O mal do PSD não é ser "fechado" ou "centralizado e aparelhístico" (Menezes dixit), é o de fazer uma oposição arcaica. Vive, sem um único spin doctor, à mercê da oratória de S. Bento (que o regimento ainda por cima prejudica) e do lugar que a imprensa e as televisões lhe querem dar. Anda atrás da agenda do governo e do aleatório dia a dia do país. Não tem política, nem políticas. Ou um gabinete-sombra para dar uma cara a cada crítica e vigiar cada ministro. Não admira que nesse vácuo os "notáveis" resmunguem e os demagogos se agitem. Quem anda à chuva…
vpv
(publicado no jornal Público)

PORTUGAL E O AFEGANISTÃO

Caro Paulo Gorjão, fez bem em perguntar. "Advogo", as you put it, a retirada imediata da NATO do Afeganistão. Não acredito em qualquer espécie de nation building, sob ocupação estrangeira. De resto, falei num reforço de 300.000 homens, porque é o número geralmente indicado em Inglaterra. Por mim, acho que nem 3 milhões conseguiam mudar fosse o que fosse.
vpv

VALE A PENA?


Animado dos melhores propósitos o ministro da Saúde achou que tinha chegado a altura de brindar o país com uma luminosa evidência: se a despesa não parar de aumentar, os doentes vão ter, mais dia, menos dia, que começar a pagar a Saúde. Caiu-lhe o país em cima, é claro. Os partidos da oposição mostraram-se imediatamente dispostos a defender com a vida o Serviço Nacional de Saúde. E até o CDS, num acesso de entusiasmo, recorreu à Constituição (a mesma que o partido quer alterar) para recordar “a gratuitidade tendencial” do sistema. Tentando (em vão) acalmar os ânimos, o PS prestou-se aos esclarecimentos habituais, esclarecendo que a ideia do ministro (a existir alguma ideia) só se concretizaria num futuro longínquo, depois de esgotadas todas as possibilidades do sistema e de se realizarem todos os estudos possíveis. Tudo isto, presume-se, não passou de um “balão de ensaio” para testar a abertura da sociedade a eventuais alterações na Saúde. Infelizmente, pelo caminho, testa-se também o funcionamento dos partidos. Na oposição, o PS criticou asperamente o aumento das taxas moderadoras proposto pelo defunto Governo de Santana Lopes. Agora, no Governo, “descobre” a necessidade de um novo financiamento do sistema. No governo, PSD e CDS propuseram o aumento das taxas moderadoras. Agora, na oposição, agarram-se com unhas e dentes à gratuitidade do sistema e aos pergaminhos da Constituição. Vale a pena levá-los a sério?
ccs

CALADINHO

Os comentários, anónimos ou não, deixam pouca margem para dúvidas: sossegado e caladinho é como o CDS deve estar. O “défice de oposição” é um exclusivo do PSD que Marques Mendes tem que saber compensar com congressos, alterações de estatutos e eleições directas para a liderança do partido. O CDS, aparentemente, não entra nessas andanças: tem um presidente estimável que só não aparece porque não gosta de alaridos e de populismos fáceis. A moderação e a respectiva seriedade implicam uma dose grandiosa de invisibilidade. Conferências de imprensa, à meia-noite, com meia dúzia de jornalistas ensonados? Fazem parte da vida de um euro-deputado. Bruxelas ocupa-lhe a semana e o dia; Lisboa só às quintas-feiras, à hora de jantar, para reunir com os seus pares e fazer a uma comunicação ao país, de importância relativa, pela calada da noite. O partido é pequeno, basta-lhe uma liderança em part-time. Para todos os efeitos, o CDS só quer chegar ao governo em 2009, patrocinado pelo novo Presidente da República que, caladinho, ajudou a eleger. Criticar este feliz estado de coisas é pedir chinfrim, enviar recados, abrir o caminho a Paulo Portas e à sua insuportável visibilidade. O CDS deve continuar caladinho. E invisível, como de depreende. Paz à sua alma! É o que ocorre dizer.
ccs

AGRADEÇO A BONDADE

Agradeço ao Nuno Ramos de Almeida a bondade de me lembrar o período de retrocesso e decadência do Império Turco e as malfeitorias que lhe fizeram a Rússia, a Inglaterra e França. Mas talvez seja bom notar que foi por causa da hostilidade entre a Inglaterra e a Rússia que esse Império durou mais dois séculos do que duraria por si próprio. Sem a oposição constante da Inglaterra e a guerra da Crimeia contra a Inglaterra e a França, a Rússia teria com facilidade chegado a Constantinopla e acabado com o poder muçulmano no Médio Oriente. A Inglaterra, de resto, tirando obviamente o Egipto, não tocou na Turquia asiática e africana até 1918 e foi a Turquia que lhe declarou guerra, não o contrário.
De qualquer maneira, o Nuno parece que perdeu a moral da história. A saber: que desde a origem o Islão avançou agressivamente no Mediterrâneo e no coração da Europa e só parou quando não se conseguiu "modernizar". A partir do século XVIII, o Império era um "homem doente", que as potências trataram, apesar de tudo, com moderação.
vpv

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

DIAS SEM ÁGUA


A EPAL persiste em me deixar sem água entre 15 e vinte vezes por ano. Por causa de uma "ruptura" na minha rua, na rua do lado ou na rua da frente. Sempre uma ruptura "imprevista", que surpreende a EPAL e provoca "perturbações no abastecimento". Ontem e hoje, à mesma hora, houve imprevistamente "perturbações". Ontem, como de costume, telefonei à EPAL e fui informado por uma voz langorosa de que "a situação" seria "normalizada às 20" (eram três da tarde). Às 20, nada; e às 21, ainda sem água, fui informado de que a "situação" seria "normalizada às 23", coisa que de facto aconteceu, se a lama que saiu das torneiras se pode considerar normal. Hoje já me disseram (por volta das cinco) que "a situação" seria "normalizada" "às 20", para me dizerem depois que será "normalizada" às 23. Por respeito pelo consumidor, as mentiras da EPAL nunca são imprevistas. A EPAL só não consegue prever rupturas nos três colectores do bairro desde 1991. O longo prazo excede a capacidade da EPAL.
O meu problema é um velho problema do jornalismo português: o que fazer? Ramalho, a quem tinham cortado a água, não conseguiu cortar nada à "Companhia" da altura. Por mim, pensei em organizar uma campanha a exigir a privatização da EPAL, o que, pelo menos, dava uma causa ao "imparável movimento" de Alegre. Mas, privatizado ou não, um monopólio é um monopólio e não me cheira que ganhasse muito com isso. Fica a paciência. Em Portugal, um fim nada imprevisível para uma ruptura imprevista.
vpv

INVISÍVEL


Não sei onde andam os entusiastas da democracia-cristã que tanto rejubilaram com a eleição de Ribeiro e Castro para a presidência do CDS. No CDS não andam. Ou, se andam, não se dá por isso: o partido entrou na clandestinidade onde se arrasta penosamente perante a indiferença geral. Este súbito desaparecimento não causa sequer estranheza. Reduzido à sua total insignificância, o CDS deixou de merecer o benefício da dúvida ou o incómodo de uma crítica. No último congresso, quando se despediu de Paulo Portas, o partido ia deixar de ser “populista” e recuperar, com as luminárias do costume, a “respeitabilidade” perdida. Dez meses depois é o que se vê. Ou melhor, o que não se vê. Este novo CDS, moderado e centrista, tem a triste particularidade de ser...invisível.
ccs

O EMBAIXADOR E O MINISTRO

irao
O embaixador do Irão em Portugal, Mahommed Taheri, ficou satisfeitíssimo com a atitude do governo português no caso dos cartoons. Particularmente com "as coisas muito boas", que Freitas disse e redisse e que o primeiro-ministro em silêncio confirmou. Grato pela ajuda, Taheri presumiu que encontrara um amigo no Ocidente. Que havia ele de pensar? O primeiro comunicado de Freitas criticava a Dinamarca por não "compreender" o Islão e pedia respeito para Maomé, Cristo e a Virgem Maria, sem sequer falar na violência organizada da "rua" islâmica. Nunca ninguém na Europa fora tão longe. Como ninguém na Europa se lembrou de apontar o Ocidente como agressor por excelência do mundo muçulmano e de invocar a propósito as cruzadas (aparentemente, um episódio de "anteontem") e outros "crimes" da intolerância e da prepotência cristã. Freitas não percebeu que estava a inverter a história e a adoptar as mais grosseiras falsificações da ortodoxia "fundamentalista". Mas Taheri com certeza percebeu. O Islão, desde a origem militar e expansionista, conquistou, dominou e converteu à força quatro quintos do Mediterrâneo. Ainda em meados do século XVII Viena estava cercada pelo exército turco e mesmo hoje o sonho da ressurreição do Califado não morreu. Taheri, que provavelmente se orgulha dessas velhas façanhas, só podia interpretar as divagações de Freitas como fraqueza e arrependimento da "Europa".
Pior. Na cabeça iraniana de Taheri, se Freitas rejeitava com tanta intensidade os terríveis pecados do Ocidente, por maioria de razão rejeitava também o maior de todos: quem condena as cruzadas, condena logicamente o Estado de Israel. Taheri julgou que Portugal o compreendia e resolveu explicar em público que os cartoons não passavam de uma conspiração zionista e transgrediam a liberdade de imprensa (ponto com que o próprio Sócrates, de resto, concordara). Até aqui Taheri agira com a implícita aprovação de Freitas. Mas faltava o Holocausto e Taheri não resistiu e negou o Holocausto. Suspeito que o escândalo e o protesto o surpreenderam. Freitas tinha aberto o grande caminho da "compreensão". Que essa "compreensão" parasse no Holocausto não lhe ocorreu. Se não parara ou se inibira com a mentira, a demagogia, o terrorismo, a promessa de arrasar Israel e a ameaça nuclear, que diferença fazia o Holocausto? Taheri é um bom embaixador, porque representa com zelo o sentimento e as convicções do Islão. Freitas não é um bom ministro porque representa com excesso as mais torpes tendências de Portugal e da "Europa". Para conciliar a "rua" muçulmana, condenou, de facto, o que nós somos.
vpv
(publicado no jornal Público)

RIDÍCULO

Vários leitores pediram-me para explicar por que é que num post anterior considerei ridículas as afirmações de Pacheco Pereira sobre os “tempos miseráveis e humilhantes” que se arriscava a viver por criticar “livremente” a Procuradoria-Geral da República e os seus agentes. Confesso que o ridículo, o exagero levado até ao umbigo, me pareceu que dispensava explicações de maior. Aparentemente, não dispensava. Assim sendo e a bem dos leitores, passo a explicar: uma coisa é criticar as buscas feitas ao jornal 24 Horas (uma iniciativa, aliás, que ainda não ouvi ninguém defender e que ainda não foi também devidamente esclarecida) ; outra, completamente diferente, é ver na Procuradoria-Geral da República, nomeadamente em Souto Moura, um perigo à liberdade de opinião e, em particular, à liberdade de opinião de Pacheco Pereira. Ao longo dos últimos tempos, Souto Moura tem revelado um apreciável conjunto de defeitos: mas só por má fé ou por puro exibicionismo se pode considerá-lo uma perigosa ameaça à liberdade de Pacheco Pereira (ou de qualquer outro) opinar semanalmente sobre as mais diversas matérias.
P.S. Como não quero saber das "leis da blogosfera" para nada, não deixo de lembrar que Pacheco Pereira, no curto período de tempo que teve responsabilidades no grupo parlamentar do PSD, não se notabilizou propriamente pela defesa da liberdade de expressão. Por ele, os jornalistas não punham o pé nos corredores da Assembleia da República. Agora, pelos vistos, viraram heróis numa luta gloriosa contra os abusos do Procurador. Ridículo? No mínimo.
ccs

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

UMA VELHA CHANTAGEM

chirico10
Sócrates resolveu dizer, em defesa de Freitas, que Portugal precisa a todo o preço de conciliar o Islão, porque tem soldados em "países muçulmanos". Mas disse mais: disse que a nossa liberdade, se for responsável, deve ser limitada pela necessidade militar. Parece que não engolir humildemente a campanha de intimidação e violência, que se organizou a pretexto dos cartoons, prejudica a nossa "missão de paz" e que Freitas, por tabela, é um benemérito. Na minha idade, já ouvi este argumento torpe a Salazar, a Marcelo, a Johnson e a Nixon. Em vez de fazer chantagem, era bom que Sócrates nos conseguisse explicar que espécie de interesse nacional nos leva a apoiar as loucuras de Bush.
vpv

O INQUÉRITO

Sobre a busca policial ao jornal 24 Horas:

1. Antes de mais, é no mínimo estranho que depois de um mês de total quietude, o Ministério Público decida avançar contra o 24 Horas no dia seguinte ao ministro da Justiça ter referido a morosidade do processo. Se é apenas uma coincidência, não parece.

2. A questão levantada pelo Presidente da República (que deu origem ao inquérito da Procuradoria-Geral) não tinha a ver com a publicação do caso pelo 24 Horas mas sim com a existência do caso: ou seja, com o facto de haver no processo, sem que nada o justificasse, uma extensa lista de números de telefone de titulares de cargos públicos com o registo dos respectivos contactos. Seria de esperar que o Ministério Público, antes de se debruçar sobre “o acesso a dados pessoais” por parte dos jornalistas, esclarecesse a forma como esses dados pessoais foram parar ao processo. E é exactamente isso que ainda não foi feito.

3. A apreensão de instrumentos de trabalho (nomeadamente de computadores) de jornalistas põe naturalmente em causa o direito à confidencialidade das fontes. Ao que parece esse direito terá sido acautelado embora, para já, não se compreenda a que título foi feita a busca ao 24 Horas.

4. Dito isto, não vale a pena fechar os olhos à “investigação” que tem sido feita pelo jornalista em causa (Jorge Van Kriekan) ao serviço de um dos arguidos. O facto não desvaloriza a notícia dada pelo 24 Horas mas levanta algumas dúvidas sobre o papel dos advogados de defesa em todo este imbróglio.

P.S
. Ridículas as afirmações de Pacheco Pereira sobre a possibilidade de “viver tempos miseráveis e humilhantes” pelo simples facto de discordar, nas suas colunas de opinião, da actuação da Procuradoria-Geral da República.
ccs