sábado, fevereiro 18, 2006

AGRADEÇO A BONDADE

Agradeço ao Nuno Ramos de Almeida a bondade de me lembrar o período de retrocesso e decadência do Império Turco e as malfeitorias que lhe fizeram a Rússia, a Inglaterra e França. Mas talvez seja bom notar que foi por causa da hostilidade entre a Inglaterra e a Rússia que esse Império durou mais dois séculos do que duraria por si próprio. Sem a oposição constante da Inglaterra e a guerra da Crimeia contra a Inglaterra e a França, a Rússia teria com facilidade chegado a Constantinopla e acabado com o poder muçulmano no Médio Oriente. A Inglaterra, de resto, tirando obviamente o Egipto, não tocou na Turquia asiática e africana até 1918 e foi a Turquia que lhe declarou guerra, não o contrário.
De qualquer maneira, o Nuno parece que perdeu a moral da história. A saber: que desde a origem o Islão avançou agressivamente no Mediterrâneo e no coração da Europa e só parou quando não se conseguiu "modernizar". A partir do século XVIII, o Império era um "homem doente", que as potências trataram, apesar de tudo, com moderação.
vpv

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

DIAS SEM ÁGUA


A EPAL persiste em me deixar sem água entre 15 e vinte vezes por ano. Por causa de uma "ruptura" na minha rua, na rua do lado ou na rua da frente. Sempre uma ruptura "imprevista", que surpreende a EPAL e provoca "perturbações no abastecimento". Ontem e hoje, à mesma hora, houve imprevistamente "perturbações". Ontem, como de costume, telefonei à EPAL e fui informado por uma voz langorosa de que "a situação" seria "normalizada às 20" (eram três da tarde). Às 20, nada; e às 21, ainda sem água, fui informado de que a "situação" seria "normalizada às 23", coisa que de facto aconteceu, se a lama que saiu das torneiras se pode considerar normal. Hoje já me disseram (por volta das cinco) que "a situação" seria "normalizada" "às 20", para me dizerem depois que será "normalizada" às 23. Por respeito pelo consumidor, as mentiras da EPAL nunca são imprevistas. A EPAL só não consegue prever rupturas nos três colectores do bairro desde 1991. O longo prazo excede a capacidade da EPAL.
O meu problema é um velho problema do jornalismo português: o que fazer? Ramalho, a quem tinham cortado a água, não conseguiu cortar nada à "Companhia" da altura. Por mim, pensei em organizar uma campanha a exigir a privatização da EPAL, o que, pelo menos, dava uma causa ao "imparável movimento" de Alegre. Mas, privatizado ou não, um monopólio é um monopólio e não me cheira que ganhasse muito com isso. Fica a paciência. Em Portugal, um fim nada imprevisível para uma ruptura imprevista.
vpv

INVISÍVEL


Não sei onde andam os entusiastas da democracia-cristã que tanto rejubilaram com a eleição de Ribeiro e Castro para a presidência do CDS. No CDS não andam. Ou, se andam, não se dá por isso: o partido entrou na clandestinidade onde se arrasta penosamente perante a indiferença geral. Este súbito desaparecimento não causa sequer estranheza. Reduzido à sua total insignificância, o CDS deixou de merecer o benefício da dúvida ou o incómodo de uma crítica. No último congresso, quando se despediu de Paulo Portas, o partido ia deixar de ser “populista” e recuperar, com as luminárias do costume, a “respeitabilidade” perdida. Dez meses depois é o que se vê. Ou melhor, o que não se vê. Este novo CDS, moderado e centrista, tem a triste particularidade de ser...invisível.
ccs

O EMBAIXADOR E O MINISTRO

irao
O embaixador do Irão em Portugal, Mahommed Taheri, ficou satisfeitíssimo com a atitude do governo português no caso dos cartoons. Particularmente com "as coisas muito boas", que Freitas disse e redisse e que o primeiro-ministro em silêncio confirmou. Grato pela ajuda, Taheri presumiu que encontrara um amigo no Ocidente. Que havia ele de pensar? O primeiro comunicado de Freitas criticava a Dinamarca por não "compreender" o Islão e pedia respeito para Maomé, Cristo e a Virgem Maria, sem sequer falar na violência organizada da "rua" islâmica. Nunca ninguém na Europa fora tão longe. Como ninguém na Europa se lembrou de apontar o Ocidente como agressor por excelência do mundo muçulmano e de invocar a propósito as cruzadas (aparentemente, um episódio de "anteontem") e outros "crimes" da intolerância e da prepotência cristã. Freitas não percebeu que estava a inverter a história e a adoptar as mais grosseiras falsificações da ortodoxia "fundamentalista". Mas Taheri com certeza percebeu. O Islão, desde a origem militar e expansionista, conquistou, dominou e converteu à força quatro quintos do Mediterrâneo. Ainda em meados do século XVII Viena estava cercada pelo exército turco e mesmo hoje o sonho da ressurreição do Califado não morreu. Taheri, que provavelmente se orgulha dessas velhas façanhas, só podia interpretar as divagações de Freitas como fraqueza e arrependimento da "Europa".
Pior. Na cabeça iraniana de Taheri, se Freitas rejeitava com tanta intensidade os terríveis pecados do Ocidente, por maioria de razão rejeitava também o maior de todos: quem condena as cruzadas, condena logicamente o Estado de Israel. Taheri julgou que Portugal o compreendia e resolveu explicar em público que os cartoons não passavam de uma conspiração zionista e transgrediam a liberdade de imprensa (ponto com que o próprio Sócrates, de resto, concordara). Até aqui Taheri agira com a implícita aprovação de Freitas. Mas faltava o Holocausto e Taheri não resistiu e negou o Holocausto. Suspeito que o escândalo e o protesto o surpreenderam. Freitas tinha aberto o grande caminho da "compreensão". Que essa "compreensão" parasse no Holocausto não lhe ocorreu. Se não parara ou se inibira com a mentira, a demagogia, o terrorismo, a promessa de arrasar Israel e a ameaça nuclear, que diferença fazia o Holocausto? Taheri é um bom embaixador, porque representa com zelo o sentimento e as convicções do Islão. Freitas não é um bom ministro porque representa com excesso as mais torpes tendências de Portugal e da "Europa". Para conciliar a "rua" muçulmana, condenou, de facto, o que nós somos.
vpv
(publicado no jornal Público)

RIDÍCULO

Vários leitores pediram-me para explicar por que é que num post anterior considerei ridículas as afirmações de Pacheco Pereira sobre os “tempos miseráveis e humilhantes” que se arriscava a viver por criticar “livremente” a Procuradoria-Geral da República e os seus agentes. Confesso que o ridículo, o exagero levado até ao umbigo, me pareceu que dispensava explicações de maior. Aparentemente, não dispensava. Assim sendo e a bem dos leitores, passo a explicar: uma coisa é criticar as buscas feitas ao jornal 24 Horas (uma iniciativa, aliás, que ainda não ouvi ninguém defender e que ainda não foi também devidamente esclarecida) ; outra, completamente diferente, é ver na Procuradoria-Geral da República, nomeadamente em Souto Moura, um perigo à liberdade de opinião e, em particular, à liberdade de opinião de Pacheco Pereira. Ao longo dos últimos tempos, Souto Moura tem revelado um apreciável conjunto de defeitos: mas só por má fé ou por puro exibicionismo se pode considerá-lo uma perigosa ameaça à liberdade de Pacheco Pereira (ou de qualquer outro) opinar semanalmente sobre as mais diversas matérias.
P.S. Como não quero saber das "leis da blogosfera" para nada, não deixo de lembrar que Pacheco Pereira, no curto período de tempo que teve responsabilidades no grupo parlamentar do PSD, não se notabilizou propriamente pela defesa da liberdade de expressão. Por ele, os jornalistas não punham o pé nos corredores da Assembleia da República. Agora, pelos vistos, viraram heróis numa luta gloriosa contra os abusos do Procurador. Ridículo? No mínimo.
ccs

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

UMA VELHA CHANTAGEM

chirico10
Sócrates resolveu dizer, em defesa de Freitas, que Portugal precisa a todo o preço de conciliar o Islão, porque tem soldados em "países muçulmanos". Mas disse mais: disse que a nossa liberdade, se for responsável, deve ser limitada pela necessidade militar. Parece que não engolir humildemente a campanha de intimidação e violência, que se organizou a pretexto dos cartoons, prejudica a nossa "missão de paz" e que Freitas, por tabela, é um benemérito. Na minha idade, já ouvi este argumento torpe a Salazar, a Marcelo, a Johnson e a Nixon. Em vez de fazer chantagem, era bom que Sócrates nos conseguisse explicar que espécie de interesse nacional nos leva a apoiar as loucuras de Bush.
vpv

O INQUÉRITO

Sobre a busca policial ao jornal 24 Horas:

1. Antes de mais, é no mínimo estranho que depois de um mês de total quietude, o Ministério Público decida avançar contra o 24 Horas no dia seguinte ao ministro da Justiça ter referido a morosidade do processo. Se é apenas uma coincidência, não parece.

2. A questão levantada pelo Presidente da República (que deu origem ao inquérito da Procuradoria-Geral) não tinha a ver com a publicação do caso pelo 24 Horas mas sim com a existência do caso: ou seja, com o facto de haver no processo, sem que nada o justificasse, uma extensa lista de números de telefone de titulares de cargos públicos com o registo dos respectivos contactos. Seria de esperar que o Ministério Público, antes de se debruçar sobre “o acesso a dados pessoais” por parte dos jornalistas, esclarecesse a forma como esses dados pessoais foram parar ao processo. E é exactamente isso que ainda não foi feito.

3. A apreensão de instrumentos de trabalho (nomeadamente de computadores) de jornalistas põe naturalmente em causa o direito à confidencialidade das fontes. Ao que parece esse direito terá sido acautelado embora, para já, não se compreenda a que título foi feita a busca ao 24 Horas.

4. Dito isto, não vale a pena fechar os olhos à “investigação” que tem sido feita pelo jornalista em causa (Jorge Van Kriekan) ao serviço de um dos arguidos. O facto não desvaloriza a notícia dada pelo 24 Horas mas levanta algumas dúvidas sobre o papel dos advogados de defesa em todo este imbróglio.

P.S
. Ridículas as afirmações de Pacheco Pereira sobre a possibilidade de “viver tempos miseráveis e humilhantes” pelo simples facto de discordar, nas suas colunas de opinião, da actuação da Procuradoria-Geral da República.
ccs

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A VIDINHA


Como seria de esperar, Sócrates lá acabou por dar cobertura às declarações do seu ministro Freitas do Amaral. Não foi ao ponto de defender um campeonato de futebol entre árabes e europeus e não consta que tenha referido os símbolos sagrados de Cristo e da Virgem Maria. Mas apelou à “moderação”, ao “sentido de responsabilidade”, explicando, pelo caminho, que é isso que tem feito o ministério dos Negócios Estrangeiros. Freitas do Amaral fez muito mais do que isso: filosofou sobre a história das religiões, evocou o colonialismo, chegou às cruzadas que parece que foram “anteontem”, criticou duramente a política “canhoneira” inglesa, dissertou sobre os limites da liberdade de expressão e terminou, em beleza, com um elogio fúnebre proferido pelo embaixador do Irão. Sócrates evitou estes desvios e ficou-se pela moderação. Em certa medida compreende-se. A alternativa era correr com o ministro elogiado. O que já custa a compreender é a passividade com que o grupo parlamentar do PS ouviu este sermão. Que se saiba, não houve uma voz que pusesse em causa a versão oficial do primeiro-ministro. As críticas em surdina que se passearam, nos últimos dias, pelas páginas dos jornais, sumiram como que por encanto. Durante a reunião entre Sócrates e os deputados socialistas, não houve uma pergunta, uma reticência, uma nota fora de tom. O poder anestesia. Manuel Alegre e o seu movimento bem podem ficar com as despesas da cidadania. O PS quer é sossego. E tratar da sua vidinha.
ccs

O MAL ESTÁ FEITO


O ministro dos Negócios Estrangeiros, depois de prolongada reflexão, decidiu aproveitar as declarações do embaixador do Irão sobre o Holocausto para tentar “polir” o seu enviesado discurso. Como se pode ler numa nota do ministério, essas declarações “ofendem gravemente a consciência colectiva da humanidade e, em particular, a comunidade judaica espalhada pelo mundo, cujos sentimentos exigem o mesmo respeito do que aquele que o Governo português tem vindo a defender em relação aos povos islâmicos”. Ou seja e traduzindo diplomaticamente a nota, Freitas do Amaral pretende mostrar que critica o discurso do embaixador sobre o Holocausto com a mesma coragem e o mesmo discernimento com que criticou os cartoonistas dinamarqueses que se atreveram a desenhar Maomé. Se alguém duvidava da firme posição do Governo (encarnada na sua ilustre pessoa) aqui está a prova de que a razão, mais tarde ou mais cedo, acaba por vir ao de cima. Ao contrário do que alguns extremistas andam por aí a dizer, Freitas acha que está onde sempre esteve: no meio, equidistante dos excessos e do zelo fanático com que alguns defendem os pergaminhos das suas civilizações. Ele (visto por ele, é claro), tanto levanta a voz aos dinamarqueses como exige explicações ao Irão. Ele quer é respeito! E que todos se respeitem a todos, respeitando escrupulosamente sentimentos, símbolos e religiões. Esquece-se, porventura, como já foi referido por Paulo Gorjão, que um embaixador representa e fala em nome de um Estado; enquanto nenhum Estado democrático pode falar pela direcção de um jornal. Mas isso são pormenores formais com os quais não vale a pena perder tempo. O mal está feito. E, como se vê, não tem emenda possível.
ccs

PORTUGAL E O AFEGANISTÃO

Parece que as tropas portuguesas continuam no Afeganistão até 2007. O que se espera que lá façam com o governo cercado em Cabul e a economia dependente da papoila do ópio não é claro. Os senhores da droga, os senhores da guerra e os chefes tribais mandam no país. Pouco a pouco, os Taliban começam a voltar. A NATO precisava de 300.000 homens para impor um mínimo de segurança e ordem. Tem 15.000. Para serve esta comédia e por que razão Portugal participa tão submissamente nela? O sr. Amado, ministro, não explicou.
vpv

ANTES DA SAÚDE


O governo de Blair continua a suprimir a liberdade inglesa com um zelo beato. Anteontem, lá conseguiu o bilhete de identidade e a proibição total de fumar. O bilhete de identidade, em princípio, só se aplica a quem pedir o passaporte. Mas quem não pede o passaporte? A proibição de fumar, essa, é total, mesmo nos pubs que não servem comida e nos clubes privados, em que até hoje o Estado nunca se tinha atrevido a tocar. A Inglaterra excêntrica, singular e anárquica de antigamente, que foi uma alegria e um refúgio, está condenada.
O Ocidente que deixou de acreditar fosse no que fosse, acredita fervorosamente na saúde. Não se percebe este amor ao corpo. Um indivíduo que não fume, que não beba, que se obrigue disciplinadamente a uma dieta punitiva e faça exercício sem parar ganha o extraordinário privilégio de trabalhar muito mais, durante muito mais tempo. Ou, pior ainda, acaba por cair numa velhice patética e por morrer entubado e espicaçado e com médicos que o tratam como quem trata o problema de uma rã.
Não espanta que a esquerda goste deste exercício de melhoramento do homem. É repressivo e abre um belo e vasto campo à intolerância dos não-fumadores. Quando qualquer mentecapto pode perseguir um tabagista como um ente sub-humano, a populaça aprecia. Até Hitler era dado a esse desporto. Como dizia o outro, não tarda muito que ninguém se lembre como a vida era doce, antes da saúde se tornar a religião oficial.
vpv

REFORMAS


O sr. Alberto Costa iniciou hoje uma ronda de contactos com os partidos para debater a eventual reforma do Código Penal. A ronda, presume-se, é apenas um sinal de boa-vontade, uma forma de publicitar a afeição que o ministro nutre pelo consenso nas chamadas questões de Estado. Ouvidos os partidos, o Governo fará como muito bem entender, como aliás já começou a fazer, quando aprovou em Conselho de Ministros, um diploma sobre a definição das prioridades da política criminal. Entretanto e dada a futilidade do exercício, os partidos e o Governo podiam aproveitar esta ronda para explicar ao país a última “novidade” do caso Felgueiras. Não bastava que, perante a incompreensão geral, a senhora tivesse regressado em ombros do seu “exílio” no Brasil, onde se tinha prudentemente refugiado da Justiça, em condições que ainda estão por esclarecer. Soube-se hoje que o Estado português financiou a sua “estadia”, enviando-lhe mensalmente 3499 euros, a título de reforma, para satisfação das suas necessidades básicas. Sem pôr em causa o direito que qualquer cidadão tem à sua legítima reforma, importa saber como é que alguém que anda fugido à Justiça portuguesa recebe do Estado português uma pensão, através da qual, consegue continuar a fugir à Justiça portuguesa. É também por isto, ou principalmente por isto que a credibilidade do “sistema” se afunda, todos os dias, na sua esplendorosa miséria.
ccs

terça-feira, fevereiro 14, 2006

UM PAÍS ROSA


Peço desculpa: entretida com os cartoons de Maomé e com a nossa nova diplomacia, não reparei que, de há uns tempos para cá, o país mudou. As presidenciais, com todos os candidatos a zurzir na crise e no flagelo do desemprego, desapareceram e, com elas, desapareceu a crise. O desemprego, infelizmente, teima em subir mas, sabe-se lá porquê, deixou de ser um flagelo Como ainda agora ouvi, é um problema “estrutural” pelo qual o Governo não pode ser responsabilizado. É verdade que o eng. Sócrates, no delírio da campanha eleitoral, prometeu criar 150 mil postos de trabalho. Mas isso são águas que já lá vão e a legislatura, como se sabe, ainda agora vai a meio. Haja fé. E tudo se comporá! Entretanto, os salários “sobem” com menos retenção de IRS e embora na prática não subam, vão subindo entre aspas o que é uma magnífica notícia para qualquer agregado em dificuldades. A Opa do eng. Belmiro, sobretudo se for contrariada por uma contra-Opa, revela a surpreendente vitalidade da nossa economia, ainda há uns meses de rastos. Afinal, a confiança, esse bem inestimável, que o prof. Cavaco Silva nos oferecia, estava aí, ao virar da esquina, à espera de se manifestar. E a Segurança Social, falida e à beira do colapso, de repente, passou a dar lucro e é fonte das maiores alegrias. O país mudou, de facto. E nós a perdermos tempo com Maomé!
ccs

CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES?

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A propósito do debate, que Paulo Gorjão começou na "Bloguítica", alguns comentários. Primeiro: quem se "choca" com quem? Não me parece que o Ocidente se "choque" ou que, em certa medida, sequer se interesse (fora a curiosidade turística e cultural) pelo mundo muçulmano. Precisa do petróleo do Islão. Nada mais. Sem petróleo, o Islão seria simplesmente ignorado. A política da América e da "Europa" no Médio Oriente é, e sempre foi, pura realpolitik, mesmo quando invoca, ou invocou, princípios superiores de "civilização".

O Islão, ao contrário, não olha o Ocidente com a "medida" e o cálculo do poder. Apesar do petróleo e de uma incomparável vantagem geo-estratégica não se conseguiu "modernizar". Nem assimilar a mudança, nem estabelecer instituições compatíveis com a mudança, nem produzir a mudança a que aspirava. As sociedades muçulmanas são hoje intoleráveis, não para a América ou a "Europa", mas para quem lá vive. A "rua" do Irão ou da Síria odeia o Ocidente, com certeza. Só que vê e quer a riqueza, a técnica, a igualdade e até a liberdade do Ocidente. O Ocidente acabou por se tornar para o Islão o símbolo ambíguo de um ideal falhado e o bode expiatório de tudo o que falhou. Aqui há um "choque" e um "choque" real.

O Islão tem duas "saídas" para a catástrofe que se aproxima: ou persiste em se "ocidentalizar" e, nesse caso, resta saber se de caminho não perderá a alma; ou volta à suposta "pureza" da origem e, nesse caso, resta saber se não acabará no caos. Esta escolha impossível não permite sombra de racionalidade e faz do Ocidente o inimigo natural e satânico. Não vale a pena esperar um entendimento idílico.
vpv

POLÍTICA GOVERNAMENTAL

- Então, há alguma novidade?
- O ministro anunciou que vai alterar o modelo de gestão das empresas que tutela.
- Qual é a alteração?
- Dentro de um mês ele diz que anuncia.
- Então hoje foi um pré-anúncio?
- Sim, foi...
ccs

CONFIRMAÇÕES


O silêncio do primeiro-ministro foi, hoje, devidamente interpretado pelos seus assessores: “O primeiro-ministro está solidário com as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros no sentido do apelo à responsabilidade no uso da liberdade de expressão e na defesa de todas as iniciativas para promover a paz e o diálogo entre os povos e as civilizações”.
Confirma-se assim que perante a crise internacional aberta pela publicação dos cartoons sobre Maomé, o Governo português considera: a) lamentável a publicação dos cartoons que ofendem símbolos sagrados do Islão; b) compreensível a violência islâmica que se abateu sobre alguns países ocidentais; c) um dado adquirido que “o maior agressor temos sido nós”. E isto, como explicou o ministro dos Negócios Estrangeiros, “para já não falar das Cruzadas, que vão longe mas que estão presentes como alguma coisa que se passou anteontem, para já não falar da colonização de África e de vários povos islâmicos e asiáticos, para já não falar da política de canhoneira seguida pela Inglaterra”. Por último e perante a gravidade da situação, o Governo português sugere a realização de um campeonato de futebol entre árabes e europeus.
Confesso que, depois disto, tenho uma única dúvida: não há ninguém no Governo que tenha um mínimo de vergonha?
ccs

LEITURAS

"O insustentável silêncio de Sócrates", Teresa de Sousa, Público

PHILIP LARKIN (1922-1985)

philip lark
Ontem, fez 20 anos que morreu Philip Larkin. Só dei por isso à noite, com o noticiário da Sky. Em Portugal pouco gente conhece Larkin: e é pena num país que não deixou ainda de confundir a dicção alta, ornamental e nobre com a dicção poética. Larkin limpou esse lirismo morto. Coloquial, cínico, vulgar e sempre em tom menor, foi um herói da minha geração. Um exemplo:

This be verse

They fuck you up, your mum and dad
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
and add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
and don't have any kids yourself
.
vpv

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O MILAGRE DE FÁTIMA


Fátima Felgueiras decidiu peregrinar até Fátima, acompanhada de cinquenta camionetas apinhadas de apoiantes, para “orar em paz", no sossego do santuário. A oração, como era de prever, acabou num verdadeiro arraial. Tudo muito "espontâneo", segundo a autarca, indignada com as perguntas dos jornalistas. A comprovar a "espontaneidade" dos festejos, os lenços, os postais e os pins largamente distribuídos continham frases como esta: Felgueiras Sempre Presente! Fátima, 11 de Fevereiro de 2006. Não fosse a sensibilidade religiosa dos portugueses estar também ligeiramente exacerbada, podia-se falar de um milagre, do quarto milagre de Fátima: o milagre da “Fatinha” e da multiplicação dos lenços, dos postais e dos pins. Como os tempos não estão para brincadeiras, resta-nos esperar que o Vaticano, que franziu o sobrolho à presença de budistas no interior do santuário, chame o bispo de Leiria a Roma e proíba este tipo de fantochadas. E já agora, se não desse muito trabalho, a Câmara também podia explicar quem é que pagou a viagem de todos estes peregrinos.
ccs
Aviso prévio: Não vale a pena vir com a liberdade de expressão e com o direito da “Fatinha” às suas peregrinações: até ver, as Igrejas são responsáveis pelos seus lugares de culto.

CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES

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Vale a pena ler os textos que Paulo Gorjão tem escrito no Bloguítica sobre a tese defendida por Samuel P. Huntington. É verdade que a tese, usada a torto e a direito, se banalizou, nos últimos anos. Qualquer conflito que meta um árabe, pelo meio, é automaticamente visto como mais um exemplo do “choque de civilizações” que estará em curso no “novo mundo” que se seguiu à Guerra Fria. O entusiasmo com que a expressão se aplica indiscriminadamente faz esquecer, demasiadas vezes, os interesses mais prosaicos dos Estados. Paulo Gorjão dá como exemplos a intervenção no Iraque e o actual diferendo com o Irão para tentar mostrar que o que está em causa, tanto num caso como noutro, não são razões de ordem cultural mas relações de poder entre Estados. Resta saber (e é esta a minha dúvida) se as relações de poder tornam secundárias as razões de ordem cultural ou se ambas se reforçam num contexto “civilizacional”. Ou seja, se o fundamentalismo religioso que hoje anima o Islão não é um instrumento essencial para se compreender não tanto as exigências do Irão (por exemplo), mas a força com que essas exigências se apresentam na cena internacional. A “humilhação” de uma civilização por parte de um Ocidente rico e “desprezível” é uma arma poderosa que pesa nas relações de poder e na forma como os Estados defendem os seus interesses. A crise dos cartoons mostra duas civilizações. E a sua instrumentalização (ao serviço dos interesses de alguns Estados) mostra, talvez ainda com mais clareza, a importância que o confronto entre duas civilizações tem actualmente nas relações de poder.
ccs