1.Diz que não brinca com a fé. Que tem valores (“uma mania” sua que, presume-se, já foi comum entre nós). Diz também que não brinca com outras coisas. E transforma isto numa doutrina. A partir daí desenvolve: para si, há territórios proibidos. E garante que até eu os tenho. Dou de barato! Você tem territórios proibidos, eu tenho territórios proibidos, qualquer um de nós tem territórios proibidos. Só que daí não se segue que haja territórios proibidos. E que se definam matérias sagradas em que ninguém pode tocar.
2.Distingue entre fé e sistemas religiosos ou instituições. A Igreja Católica que, na sua opinião, exerce, no nosso mundo, “uma influência que ultrapassa, em muito, o plano religioso” está sujeita à crítica ou à “brincadeira”, se quiser. Aí não tem nada a opor. Estamos no terreno da política, como afirma. Mas o terreno é pequeno, não se estende aos cartoons que, na sua opinião, são uma pura "provocação" e um puro "achincalhamento". Resumindo: não há política no Islão. O Estado é a religião. A religião é o Estado. Mas a política, vá lá saber-se porquê, anichou-se no Vaticano. Devolvo-lhe a simpatia: não cartoonizo. Nem sequer comento.
3.Não defende qualquer tipo de censura. Apenas o bom-senso. Mas o bom senso, como deve saber, é também uma forma de censura. Um pouco mais sofisticada. Admito!
4.Desconfia do jornalismo justiceiro. Eu não desconfio. Pura e simplesmente não o recomendo. Quanto ao atestado de mau comportamento que não considera necessário para fazer jornalismo apenas lhe posso dizer que não viria mal ao mundo (pelo contrário) se os jornalistas, às vezes, fossem menos bem comportados.
5.Garante que o seu jornalismo não exclui qualquer outro. Interessante! Que diria, então, se uma notícia, que considerasse "digna", desse origem a esta onda de retaliações: bandeiras queimadas, embaixadas destruídas, cidadãos perseguidos, ameaças de bombas e por aí fora? Dissertaria também sobre os limites da liberdade de expressão? Apelaria ao bom senso de quem publica coisas que destabilizam?
6.Está convencido de que o jornalismo que faz é mais difícil e comporta mais riscos. Acredito que esteja. Mas o que está em causa não é a qualidade ou a dificuldade do jornalismo. Mesmo que os cartoons sejam, como afirma, uma pura provocação e um puro achincalhamento, colocam-se apenas duas questões: saber se se devia proibir a sua publicação e saber se o Governo (qualquer Governo) deve ser responsável pelo que se publica nos jornais. O resto é bonito, tem muito valor e revela grande responsabilidade – mas foge ao essencial.
ccs