sábado, fevereiro 11, 2006

O HOMEM PERDEU A CABEÇA


O jornalista inglês Julian Manyon conta na Spectator que um dia, em 1997, disse ao chefe do Hamas, Khaled Meshal: "Mas com certeza que a permanência do Estado de Israel tem de ser aceite!". "Não se esqueça de Hattin", respondeu Meshal. Hattin foi a batalha em que Saladino (ou Salah al-Din) destroçou e destruiu os cruzados do Estado cristão de Jerusalém. Em 1187. "O Estado cristão de Jerusalém durou 88 anos", concluiu Meshal. "Inshallah, o Estado judaico não vai durar tanto". Isso foi em 1997! Pois, foi. Manyon perguntou há uma semana a Abu Tir, outro chefe do Hamas: "Vão acabar com as missões suicidas contra civis?". E Abu Tir nem sequer fingiu: "Se o ocupante tem medo dessas operações, que saia da nossa terra".
É com esta gente que, atrás de Chirac e de Putin, Freitas do Amaral se prepara para "dialogar". Um "diálogo" que dispensa a garantia do reconhecimento de Israel e da extinção do braço armado do Hamas. Pior ainda, um "diálogo" que desfaz gratuitamente a posição comum da América e da "Europa"na matéria. O homem perdeu a cabeça.
vpv

CARTAS

De João Serra, Chefe da Casa Civil da Presidência da República, sobre a visita de Jorge Sampaio a Nelas (referida neste post).
Visita de Jorge Sampaio a Nelas

Os jornalistas não relataram que:
1. A pretexto da projectada visita do Presidente a Nelas, estava preparada uma manifestação e uma contra-manifestação (a primeira da iniciativa da Junta de Freguesa de Canas de Senhorim e a segunda da iniciativa do núcleo de apoiantes do anterior presidente da Câmara de Nelas).
2. O anterior presidente da Câmara de Nelas perdeu as eleições para a actual Presidente em boa parte porque os habitantes de Canas de Senhorim decidiram votar nela.
3. A ameaça real de confronto físico e da provável intervenção policial destinava-se pois a provar que a actual maioria Camarária não tinha capacidade de conter os ânimos dos manifestantes de Canas de Senhorim (de facto enquanto José Correia foi Presidente da Câmara de Nelas, nunca canenses se manifestaram em Nelas).
4. O conflito tem uma história longa, de que lhe poderei falar também longamente se tiver algum interesse nela. Mas sempre lhe direi que essa história está recheada de episódios de violência: tiros contra a comitiva do Primeiro-Ministro Sá Carneiro, árvores a impedirem a passagem do Primeiro-Ministro Cavaco Silva, cortes de linhas férreas, etc, etc.
5. A ida do PR a Nela rodeiu-se de algumas cautelas com vista a:
a) evitar violência;
b) não interferir no jogo político local, fortalecendo ou fragilizando qualquer dos protagonistas;
6. Nesse sentido, foi julgado preferível visitar um empresa a visitar uma instituição municipal (acontece isso em muitas visitas a concelhos).
7. Quanto ao resto:
a) é falso que o PR só tenha estado 30 minutos em Nelas
b) também não é verdade que a visita tenha sido preparada em segredo
c) ou melhor, foi preparada em segredo dos membros do Movimento de Canas
d) estou pessoalmente convencido de que alguma comunicação social queria e tudo fez para que houvesse confronto e ficou "decepcionada" com o PR.
Quanto à sua interpretação sobre a forma como o PR resolveu a passagem por Nelas, não devo discuti-la. Gostaria apenas que pudesse ter em conta que o contexto da decisão que tivemos de tomar é mais complexo do que pode parecer.
João Serra

NOVIDADES

KERTESZ1 internacional
Os leitores começam a reclamar. Estão fartos da história dos "bonecos", das ruas do Islão, das bandeiras queimadas, de abaixo-assinados, de manifestações à porta da embaixada da Dinamarca e de discussões esotéricas sobre a liberdade de expressão. Os leitores, como todos nós, exigem novidades constantes. A novidade é um vício que se esgota em dois tempos: um debate dura três dias e uma notícia umas horas. As “aberturas” das televisões ditam as regras: trinta minutos de neve, neve a cair em Lisboa, bonecos de neve no Alentejo, um manto de neve na Figueira da Foz, ruas com neve no Algarve. E chega de neve. Segue-se a “Teresa” acompanhada pela “Lena” e pelo casamento dos homossexuais: conservatória à pinha, políticos em bicos de pés, convidados em estúdio, reportagens de fundo, um debate prometedor. Cai o debate. Entra Maomé: cartoons ofensivos que as imagens não mostram, multidões em fúria, embaixadas destruídas, tiros no Afeganistão, jornalistas dinamarqueses, choque de civilizações, xeques e imãs para todos os gostos. Saem os xeques e os imãs. Surge Belmiro de Azevedo, envolto numa Opa hostil: conferências de imprensa, editores de economia em estúdio, os passos da operação, análise de cenários, agitação na Bolsa, a reacção da PT. E Belmiro de Azevedo acaba por ser substituído. A novidade deixou de ser novidade. Por razões que valeria a pena indagar, em Portugal, só as novelas é que têm o privilégio da durabilidade.
ccs

UM HOMEM COM SORTE

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Sócrates é um homem com sorte. A política financeira, a que o país já se tinha resignado, que a direita apoiou e que os peritos maciçamente aprovaram, não provocou protestos de maior. A derrota nas locais foi escondida pela campanha para as presidenciais. Mesmo a derrota Soares, que em princípio o poderia abalar, acabou por ser vista como uma derrota pessoal de Soares perante Alegre e não como a derrota do candidato do PS perante Cavaco. Na imprensa e na televisão, pouca gente se interessou pelo papel de Sócrates no episódio e quase toda a gente correu atrás de Alegre, para ver (inutilmente) se daquela cabeça saía alguma ideia. Quando esse arraial esmoreceu, veio por milagre o caso das caricaturas, que afastou outra vez Sócrates para a obscuridade. E, no fim, até a OPA do eng. Belmiro ajudou. Há meses que o governo governa clandestinamente. Sempre fora do "ciclo de notícias", parece invisível.
Claro que houve uma ou outra ameaça a este sossego ou, se quiserem, a este privilégio. Desde logo, o próprio Alegre. Mas, como era de esperar, o tal "movimento cívico" do "milhão" morreu no acto de nascer e hoje, menos de um mês depois daquela inexplicável euforia, só resta uma dúzia de nostálgicos, que anda por aí a gemer nos jornais. Também a ministra da Cultura conseguiu pôr em pé de guerra a "inteligência" indígena, mas muito manifestamente passou o tempo em que a Cultura (com maiúscula) comovia alguém e a coisa lá se esvaiu sem sobressaltos. Verdade que Freitas, com o seu zelo e sua inépcia, perturbou a tranquilidade geral, mas de certa maneira até convém que ele se ofereça à guilhotina da próxima remodelação.

No meio desta vida encantada, Sócrates sabe o que faz. Fala pouco e prefere a "política do gesto". O "gesto" não toca na substância, não afecta imediatamente nenhum interesse e subentende um grande futuro. A história deste governo é a história de uma sucessão de "gestos". Primeiro, o "gesto" da OTA e do TGV. E a seguir, o "gesto" do investimento imaginário, de Bill Gates, do MIT, do plano tecnológico, da simplificação burocrática e por aí fora. Nada de palpável. Nada (excepto em parte a Ota) que alimente a oposição e a salve da frivolidade, em que Marques Mendes, por exemplo, dia a dia se afunda. Para compensar o país real (no sentido estrito da palavra), Sócrates cria uma espécie de país fictício, que está ali, jura ele, ao virar da esquina. Não está. Felizmente para ele, de Setembro para cá, a balbúrdia não deixou ver que não estava.
vpv
(publicado no jornal Público)

ENQUANTO ISSO (II)

Por cá, Marques Mendes vai perdendo colaboradores à média de um por semana. Nos outros partidos, os colaboradores costumam ser conhecidos quando começam a colaborar. No PSD curiosamente só se conhecem quando deixam de colaborar. Ninguém sabia que eles por lá andavam. Nem o que andavam por lá a fazer. Só no dia da despedida é que se fica a saber que supostamente eles andavam por lá. Assim vai a vida no PSD!
ccs

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

O ESPÍRITO DA ONU

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Kofi Annan garantiu que não há provas que a Síria e o Irão sejam responsáveis pela violência contra a Dinamarca. Kofi Annan sabe com certeza que não cai uma folha na Síria e no Irão sem licença do governo e com certeza também notou, como de resto o mundo inteiro, que a polícia assistiu tranquilamente enquanto a "rua" assaltava embaixadas, com o emblema e a bandeira nacional à vista. Na ONU, a mentira sempre foi um modo de vida e este episódio já não surpreende ou indigna ninguém. Mas não nos venham depois dizer que a ONU é uma fonte de legitimidade. De corrupção e facciosismo, sim. De legitimidade, não.
vpv

TÁCTICAS


O PS anunciou que, entre o aborto e o casamento de homossexuais, dá prioridade ao aborto. Teremos, portanto, o aborto em 2006 (se o "sim" ganhar o referendo) e, em 2007, o casamento de homossexuais. Não se percebe esta táctica subtil. Acha o PS que a Igreja e, em geral, a gente que não quer nem uma coisa nem outra se leva com mais facilidade dose a dose? Ou precisa de uma "causa" por ano para satisfazer a esquerda e calar o Bloco? Um ponto é certo: não há ali sombra de convicção. Para o PS, o aborto e o casamento de homossexuais contam ou não contam, de acordo com a conveniência superior do chefe e a agenda do governo. Em si próprios, são facultativos. Quanto muito valem como um sinal ao espírito do tempo. Como um "gesto".
vpv

POLITICAMENTE CORRECTO?

khomeini
Nesta história das caricaturas muito gente se esforçou por provar a sua tolerância, o seu horror à xenofobia e o seu seriíssimo sentido das responsabilidades. Com toda a incorrecção política, talvez seja bom ver onde nos levam as nossas virtudes. Primeiro, a tolerância - devemos tolerar o Islão. Isto à superfície parece óbvio. Mas pede uma pergunta: também devemos tolerar a intolerância do Islão? A "Europa" respondeu que sim, mesmo à custa de se negar a si mesma. No tratado constitucional (felizmente falhado) evitou a palavra "cristandade". Mais precisamente, rejeitou a sua natureza e a sua origem, em última análise a sua liberdade, para reconhecer ao Islão um privilégio que a si própria não se reconhece. Como, de resto, na prática permite que as comunidades muçulmanas vivam segundo a sua lei e não segundo a lei geral, até quando se trata de direitos do indivíduo e, muito principalmente, da mulher. A tolerância não acabou por se tornar na defesa da intolerância?
Xenofobia significa aversão ou hostilidade ao que vem de fora, ao que é "estrangeiro". Para escapar à xenofobia - hoje um crime sem nome - temos de aceitar acriticamente o Islão, como se a nossa cultura não fosse na essência uma cultura crítica? Não ofender o sentimento religioso do próximo implica que se aceite como irrelevante ou inócua a shariah? Que se aprove, como coisa natural e permissível, qualquer fatwa contra qualquer ocidental que incorra na ira de qualquer imã? É, de facto, a nossa obrigação cívica e moral contemplar em silêncio e com respeito a sociedade da Arábia Saudita, do Irão ou do Afeganistão sob o regime Taliban? A nossa virtuosa renúncia à xenofobia não acabou por se tornar na defesa do intolerável?
Falta falar da responsabilidade. Maomé foi um profeta, mas também foi um guerreiro, um conquistador e um soberano. A shariah trata extensamente de política. Uma autoridade como o ayatollah Khomeini disse um dia: "O Islão é político ou não é nada". Tentar distinguir entre a guerra política e a guerra religiosa que o Islão move ao Ocidente não passa de um sofisma. Não se pode dividir o indivisível. A jihad deriva directamente do Corão. E o terrorismo, material e psicológico, assenta numa base doutrinal sólida, que Bin Laden, por exemplo, frequentemente invoca. Que espécie de responsabilidade leva, então, o Ocidente a não "provocar" um inimigo declarado? Não se tornou ela na pior e mais perigosa irresponsabilidade?
vpv
(publicado no jornal Público)

O ESTADO A QUE CHEGOU O PS

Primeiro foi o eng. Sócrates que abriu a caça aos blasfemos com umas declarações incisivas sobre os limites da liberdade e a lei do mais forte. Seguiu-se, num crescendo de religiosidade, o ministro dos Negócios Estrangeiros para quem a liberdade – sob perigo de se tornar “licenciosa” – tem que saber preservar os símbolos sagrados das várias religiões. Ontem, em clima já de apoteose, o porta-voz do PS, Vitalino Canas, falando em nome da bancada parlamentar, lançou esta pérola no hemiciclo: "Estão bem uns para os outros, os caricaturistas irresponsáveis e os fundamentalista violentos, ambos só podem ser alvo da nossa condenação”. Até agora não há reacções. Os deputados socialistas têm andado muito ocupados a atacar a intervenção de Manuel Alegre que criticou o comunicado de Freitas do Amaral à revelia do grupo parlamentar. Elucidativo! Do estado a que chegou o PS.
ccs

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

AINDA OS JORNALISTAS

Desculpe João Morgado Fernandes mas o seu texto apenas confirma algumas ideias que tinha.

1.Diz que não brinca com a fé. Que tem valores (“uma mania” sua que, presume-se, já foi comum entre nós). Diz também que não brinca com outras coisas. E transforma isto numa doutrina. A partir daí desenvolve: para si, há territórios proibidos. E garante que até eu os tenho. Dou de barato! Você tem territórios proibidos, eu tenho territórios proibidos, qualquer um de nós tem territórios proibidos. Só que daí não se segue que haja territórios proibidos. E que se definam matérias sagradas em que ninguém pode tocar.

2.Distingue entre fé e sistemas religiosos ou instituições. A Igreja Católica que, na sua opinião, exerce, no nosso mundo, “uma influência que ultrapassa, em muito, o plano religioso” está sujeita à crítica ou à “brincadeira”, se quiser. Aí não tem nada a opor. Estamos no terreno da política, como afirma. Mas o terreno é pequeno, não se estende aos cartoons que, na sua opinião, são uma pura "provocação" e um puro "achincalhamento". Resumindo: não há política no Islão. O Estado é a religião. A religião é o Estado. Mas a política, vá lá saber-se porquê, anichou-se no Vaticano. Devolvo-lhe a simpatia: não cartoonizo. Nem sequer comento.

3.Não defende qualquer tipo de censura. Apenas o bom-senso. Mas o bom senso, como deve saber, é também uma forma de censura. Um pouco mais sofisticada. Admito!

4.Desconfia do jornalismo justiceiro. Eu não desconfio. Pura e simplesmente não o recomendo. Quanto ao atestado de mau comportamento que não considera necessário para fazer jornalismo apenas lhe posso dizer que não viria mal ao mundo (pelo contrário) se os jornalistas, às vezes, fossem menos bem comportados.

5.Garante que o seu jornalismo não exclui qualquer outro. Interessante! Que diria, então, se uma notícia, que considerasse "digna", desse origem a esta onda de retaliações: bandeiras queimadas, embaixadas destruídas, cidadãos perseguidos, ameaças de bombas e por aí fora? Dissertaria também sobre os limites da liberdade de expressão? Apelaria ao bom senso de quem publica coisas que destabilizam?

6.Está convencido de que o jornalismo que faz é mais difícil e comporta mais riscos. Acredito que esteja. Mas o que está em causa não é a qualidade ou a dificuldade do jornalismo. Mesmo que os cartoons sejam, como afirma, uma pura provocação e um puro achincalhamento, colocam-se apenas duas questões: saber se se devia proibir a sua publicação e saber se o Governo (qualquer Governo) deve ser responsável pelo que se publica nos jornais. O resto é bonito, tem muito valor e revela grande responsabilidade – mas foge ao essencial.
ccs

ENQUANTO ISSO (I)

O Presidente da República empreendeu uma visita clandestina a Nelas, onde se escondeu durante trinta breves minutos, antes de zarpar em sossego para Penalva do Castelo. Para evitar Canas de Senhorim e a sua já antiga histeria, o dr. Sampaio decidiu portar-se à altura de um foragido: reduziu a “visita” ao mínimo, elaborou um programa “secreto”, com direito a alterações “secretas” e só não usou um disfarce porque conseguiu passar mais ou menos desapercebido. Belo exemplo! Bela forma de representar o Estado!
ccs

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Como um deputado da Assembleia Legislativa Regional tivesse atacado, com razão ou sem ela, "a minoria criminosa e oligárquica", que alegadamente governa a Madeira, o PSD requereu à dita Assembleia "a avaliação das faculdades mentais" do malfeitor. A ideia não é má. No estado a que chegámos, qualquer português gostava com certeza de saber como regula a cabeça dos príncipes que nos governam. Pessoalmente, confesso que sempre tive as piores suspeitas. E algumas certezas.
vpv

DEUS É DOS OUTROS

protestos
Bastou uma semana de ódio e de intimidação, de bandeiras queimadas e de embaixadas destruídas, de retaliações económicas e de sanções diplomáticas para que parte da opinião ocidental se vergasse perante os valores do Islão. No fundo, somos ocidentais, aceitamos os outros, compreendemos tudo e abdicamos de qualquer princípio que ponha em causa o sossego em que vivemos e os hábitos que adquirimos. Em questões de princípios somos prudentemente contidos. Se for preciso, descobrimos Deus: não em nós, como é óbvio, mas nos outros e no seu fundamentalismo. Este Deus, fanaticamente defendido, é o único que compreendemos na Sua infinita diferença. O nosso desapareceu, há muito, destruído pelo humor, pela análise, pela crítica, pelo desprezo e por uma indiferença mortal.
O cardeal Ratzinger, que o Conclave contra o espírito dos tempos nos impôs como Papa, representa para nós o pior da Igreja: o seu conservadorismo cego, a sua desumanidade perante o “drama” das mulheres, a “exclusão” dos homossexuais, o risco da Sida e tudo o resto que faz parte da nossa vida. No Ocidente, rico e ilustrado, a Igreja e o Papa e as suas encíclicas são analisadas à lupa, na sua intransigência absurda e no dogmatismo que lhes dá corpo. A opinião de um padre, de um bispo e de tudo o que cheire a sacristia está sob permanente escrutínio. Ao menor deslize, aparece imediatamente um Louçã ou um Rosas ou um outro qualquer da mesma família, disposto a dar a vida pelo laicismo e a denunciar os mais mesquinhos abusos.
Ainda há pouco tempo, em Portugal, neste Portugal que tão bem compreende o Islão, se armou um pé-de-vento por uma dúzia de crucifixos. Agora, recolhidos os crucifixos das primeiras páginas dos jornais, olhamos deslumbrados a violência e o fanatismo que nos chegam de todo o mundo, através das imagens da televisão. E compreendemos. Qualquer Francisco Louçã compreende incondicionalmente o fundamentalismo religioso que alastra pelo Islão onde a homossexualidade é negada, a mulher oprimida e as minorias um caso em vias de extinção.
Até o Governo, numa nota assinada em nosso nome, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, decidiu esclarecer o mundo que “Portugal lamenta e discorda da publicação de desenhos ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos”. Maomé não pode ser ofendido. “Cristo e a sua Mãe, a Virgem Maria” comungam também deste especial destino. Para o quadro ficar completo, só falta mesmo saber como é que o Governo vai manifestar a sua “discordância” no que toca à publicação de “desenhos ou caricaturas” que ofendam “as crenças e as sensibilidades dos povos”. O eng. Sócrates que se explique.
ccs
(publicado na revista Sábado)

EXPLICAÇÕES


As críticas dão-lhe vontade de "rir". Como se ele não fosse um ocidental de gema e como qualquer ocidental de gema não dispensasse juras diárias à democracia e aos direitos humanos, tudo coisas "tão óbvias" que ele não precisa de andar constantemente a "repeti-las" sempre que "há um acto de violência em qualquer parte do mundo”. Tem havido uns tantos, é verdade. Mas ele preferiu filosofar sobre a civilização muçulmana, a história das religiões, a sacralidade dos símbolos e os limites à liberdade de expressão. Ele preferiu “sublinhar” a necessidade de “compreender a civilização muçulmana”, deixando a solidariedade com a Dinamarca entregue ao silêncio e às obscuras "vias" da diplomacia. Afinal, o que nos faz falta é compreender: tivesse a Dinamarca compreendido que “na civilização islâmica não há distinção entre a Igreja e o Estado, nem entre política e religião” e não se tinha posto a brincar com os seus "símbolos sagrados” (porque "eles" - os muçulmanos, não os símbolos - se "ressentem" de uma maneira “muito mais forte e muito mais grave do que nós”). Infelizmente, os dinamarqueses não compreendem estas subtilezas do islamismo. E depois, lá temos nós (e ele) que pôr "água na fervura" para evitar que isto descambe num "choque de civilizações". Perante estes esclarecimentos, falta agora compreender o que sucedeu a "Cristo e a Sua Mãe, a Virgem Maria". Afinal, já se pode brincar com eles? Por cá, como se sabe, a separação entre a Igreja e o Estado é um facto. E os católicos, ainda por cima, parece que se "ressentem" menos com esta história dos símbolos. Infelizmente, neste ponto (crucial), Freitas do Amaral foi omisso. No resto, foi cristalino. E mostrou que, como já se tinha compreendido, quem não compreendeu nada...foi ele.
ccs

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

JORNALISTAS

Entre blasfémias, cartoons e polémicas, descobri, com algum espanto, que alguns dos maiores arautos da moderação e do bom senso são jornalistas. Defendem um jornalismo "sério" e "responsável". Zeloso dos seus próprios limites e do fanatismo dos outros. Um jornalismo bem comportado que dita as regras do que deve ser publicado e do que não deve ser publicado. Um jornalismo consensual, aberto a grandes tiragens, que faz a bissectriz e sossega os espíritos dos seus leitores. Um jornalismo que tem territórios sagrados, zonas onde ninguém se aventura sob pena de ser castigado por força das circunstâncias. Um jornalismo que, curiosamente, exclui outros tipos de jornalismo e parte das publicações que fazem a fortuna do ocidente. Por esses lados, não há tablóides, revistas pornográficas ou jornais alinhados pela provocação barata ou pelo insulto gratuito. Há um modelo único, definido por critérios únicos que excluem o risco e o excesso, em nome do respeito pelo outro e da superior harmonia dos povos. A liberdade absoluta é um mito. Ou uma licenciosidade, como diria Freitas do Amaral. Com a fé dos outros não se brinca. Ou melhor, com a fé dos muçulmanos não se brinca. O mundo está demasiado perigoso para que o ocidente, rico e ilustrado, se dê ao luxo de brincar com o fundamentalismo alheio. A fé, diz João Morgado Fernandes, é "um conjunto mais ou menos irracional de coisas íntimas" (não é!) e coisas íntimas ele obviamente não discute. A não ser que as coisas íntimas lhe digam respeito, como acontece com a religião católica, que ele não pratica, mas cuja influência sofre. Aí sim ele brinca com a “carcaça” da coisa. Mas com a fé não. Nem ele, nem ninguém que ele preze ou que estime. Que bom seria se o mundo fosse todo, assim, tão simples e tão previsível. Infelizmente não é.
ccs

CONTRIBUIÇÕES

freitas cartoon
(Enviado por Francisco Espada)

MANIFESTAÇÃO

COMUNICADO - CONVITE

Na próxima 5ª feira, 9 de Fevereiro, pelas 15 horas, um grupo de cidadãos portugueses irá manifestar a sua solidariedade para com os cidadãos dinamarqueses (cartoonistas e não-cartoonistas), na Embaixada da Dinamarca, na Rua Castilho nº 14, em Lisboa. Convidamos desde já todos os concidadãos a participarem neste acto cívico em nome de uma pedra basilar da nossa existência: a liberdade de expressão. Não nos move ódio ou ressentimento contra nenhuma religião ou causa. Mas não podemos aceitar que o medo domine a agenda do século XXI. Cidadãos livres, de um país livre que integra uma comunidade de Estados livres chamada União Europeia, publicaram num jornal privado desenhos cómicos. Não discutimos o direito de alguém a considerar esses desenhos de mau gosto. Não discutimos o direito de alguém a sentir-se ofendido. Mas consideramos inaceitável que um suposto ofendido se permita ameaçar, agredir e atentar contra a integridade física e o bom nome de quem apenas o ofendeu com palavras e desenhos num meio de comunicação livre. Não esqueçamos que a sátira – os romanos diziam mesmo "Satura quidem tota nostra est" – é um género particularmente querido a mais de dois milénios de cultura europeia, e que todas as ditaduras começam sempre por censurar os livros "de gosto duvidoso", "má moral", "blasfemos", "ofensivos à moral e aos bons costumes". Apelamos ainda ao governo da república portuguesa para que se solidarize com um país europeu que partilha connosco um projecto de união que, a par do progresso económico, pretende assegurar aos seus membros, Estados e Cidadãos, a liberdade de expressão e os valores democráticos a que sentimos ter direito.
Pela liberdade de expressão, nos subscrevemos
Rui Zink (916919331)
Manuel João Ramos (919258585)
Luísa Jacobetty

REALIDADES

O Hamas governa a Palestina. O Irão decidiu recomeçar o enriquecimento industrial de urânio, digam o que disserem a ONU e a "Europa". No Iraque, a América está numa posição desesperada. No Afeganistão, os senhores da guerra mandam como sempre fora de Cabul, os Taliban voltaram à cena e a presença da NATO não passa de cosmética. E, no entanto, parece que o grande problema do Ocidente no Islão é o caso das caricaturas. A boa propaganda, e a histeria da "rua" muçulmana foi boa propaganda, consegue esconder o essencial.

Enquanto se discute a liberdade de expressão, não se discute o avanço táctico do islamismo político, nem a inquietante impossibilidade de lhe responder. Já se provou que as sanções não servem de nada. O Afeganistão e o Iraque mostraram a futilidade de uma intervenção militar, sem um exército capaz de ocupar efectivamente o território. Mas, como é óbvio, a América e a "Europa" não podem ou querem mandar um milhão e meio de homens para o Iraque (há lá hoje 140.000) ou 300.000 para o Afeganistão (há lá hoje 15.000).

Resultado: o Ocidente continua à mercê da chantagem do petróleo, agora agravada pelo populismo de Chávez na Venezuela e pelo banditismo na Nigéria. Só que a chantagem tem limites. Não vale a pena procurar um compromisso com o Islão, porque o Islão nunca aceitará um compromisso. A "guerra santa" contra o "infiel" fornece um bode expiatório à miséria universal, à injustiça e ao atraso de uma civilização falhada. Sem ela, era o caos. Mas, tarde ou cedo, o Ocidente, perturbado na sua abundância e nos seus prazeres, tenderá a esquecer os grandes princípios para se lembrar das realidades do mundo. A bomba do Irão, até por causa de Israel, talvez seja o ponto decisivo.
vpv

terça-feira, fevereiro 07, 2006

NOTA AO GOVERNO

O Governo, numa nota assinada em nosso nome, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, decidiu anunciar ao mundo que “Portugal lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos”. Na mesma nota, ficamos também a saber que “Cristo e a sua Mãe, a Virgem Maria” comungam deste especial destino. De um ponto vista nacional, não deixa de ser uma boa notícia para César das Neves que, a partir de agora, poderá contar com a cooperação do Governo nalgumas das suas solitárias cruzadas. De um ponto de vista mais pessoal, gostaria de perguntar ao Governo que medidas tenciona tomar para evitar a publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendam as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos e católicos (já que o Governo, na sua ânsia de discordar, se esqueceu lamentavelmente dos protestantes, dos ortodoxos, dos judeus, dos anglicanos e até das testemunhas de Jeová). Para além disso e antes do “choque religioso” aparecer, em forma de pacote e com a bênção de uma entidade ecuménica, pretendia também saber:

1.O que é a sensibilidade religiosa de um povo?

2.O povo português tem uma sensibilidade católica? Se sim, deve o Governo voltar a pôr nas escolas os doze crucifixos que mandou retirar? E não pode prender Francisco Louçã sempre que ele disser mal da Igreja ou do Papa? Ou multá-lo se for uma ofensa pequenina?

3.Está na forja algum instituto (ou alguma polícia especial) que ajude os portugueses a apurar a sua sensibilidade?

4.Aceitam-se denúncias?

5.Para além de Cristo, da Virgem Maria e de Maomé, já identificados na nota governamental, existem outros símbolos que não possam ser alvo de desenhos e/ou caricaturas?

6.Os portugueses, enquanto cidadãos de sensibilidade católica, podem sugerir símbolos pelos quais tenham uma especial devoção?

7.Moisés entra nessa lista?

8.E Santo António?

9.A publicação num blogue de um kit da crucifixação pode levar à ilegalização do blogue?

10.As denúncias são remuneradas? Se sim, para onde posso mandar a minha lista ainda que a título provisório?

Atentamente
ccs

PRESIDENTES

Nem o Presidente em exercício, nem o Presidente eleito acharam por bem dar a sua opinião sobre a ofensiva da propaganda muçulmana contra o Ocidente. Parece que a coisa não é com eles. Grandes figuras, não há dúvida. Um Estado com este género de chefes nunca estará em perigo. Os portugueses podem dormir descansadíssimos.
vpv