
No Iraque, eleições feitas sob ocupação estrangeira mostraram outra vez, como se fosse preciso, que o Iraque não existe. Existe um território, inventado num acesso de euforia imperial pela Inglaterra e pela França, com habitantes rigorosamente divididos por etnia, religião e tribo. Da classe média secular, nacionalista e moderna de que nos falavam com zelo os defensores da guerra não se viu a sombra. Ao lado, no Irão, em que se esperava a emergência progressiva dos "moderados", ganhou um radical, Ahmadinejad, que nega o Holocausto, pretende destruir Israel e quer a bomba. Na Palestina, o Hamas um partido armado e terrorista, campeão e promotor dos "mártires", tem agora a maioria no "parlamento" e tenciona firmemente continuar igual a si mesmo, quanto mais não seja porque, se não ficasse, aparecia logo à sua esquerda, um segundo Hamas com um nome qualquer, muito pior do que ele.
A democracia que Bush, Blair e um certo Ocidente bem-pensante consideram a panaceia universal, só pode produzir no Médio Oriente, e no mundo islâmico em geral, uma absoluta catástrofe. Se houvesse eleições livres no Afeganistão, no Paquistão, na Síria, na Arábia, no Egipto, na Líbia, na Tunísia, na Argélia e em Marrocos desaparecia num minuto toda a gente com a mais vaga veleidade de negociar ou conviver com o Grande Satã americano e o pequeno Satã da velha Europa. Por muito que nos custe e custe ao perigosíssimo Presidente Bush, sem os tiranos, que, para nosso bem e conveniência deles, conservam as massas muçulmanas numa relativa passividade, não escapávamos com certeza a um triste fim. Em 1914, ninguém, por definição, conseguiu imaginar o inimaginável, nem sequer, e apesar de Hitler, em 39. Hoje também não. Mas devíamos tentar.
Há factos tão simples que até Bush anda perto de reconhecer. As regiões do petróleo, do Médio Oriente à Venezuela de Chávez são incontroláveis, política e militarmente. A dependência do petróleo da América e da Europa é quase total. O consumo de petróleo aumentou, e vai continuar a aumentar, por causa da China e da Índia. E a miséria da "rua" na Arábia ou em Marrocos, conhece, inveja e odeia, como dantes não acontecia, esta ilha do Ocidente, rica, arrogante e vulnerável. Sobretudo, vulnerável. No Iraque, na Palestina, no Irão, a América e a "Europa" exibem dia a dia a sua essencial fraqueza. É pouco provável que se perca a moral dessa parte da história.
vpv
(publicado no jornal "Público")