terça-feira, fevereiro 07, 2006

PRESIDENTES

Nem o Presidente em exercício, nem o Presidente eleito acharam por bem dar a sua opinião sobre a ofensiva da propaganda muçulmana contra o Ocidente. Parece que a coisa não é com eles. Grandes figuras, não há dúvida. Um Estado com este género de chefes nunca estará em perigo. Os portugueses podem dormir descansadíssimos.
vpv

O DIOGO DO COSTUME


Diogo Freitas do Amaral nunca deixará de ser o menino exemplar do salazarismo e o discípulo dilecto de Marcelo. Perante a histeria muçulmana, que é um acto político de intimidação do Ocidente, escolheu a subserviência. Este "súbdito", como ele um dia a si mesmo se descreveu, não hesitou em condenar as caricaturas dinamarquesas (que não passam de um pretexto), porque ofendem a "sensibilidade religiosa" do Islão e porque incitam a "uma inaceitável guerra de religiões". Como se a "rua" que se manifesta, se manifestasse espontâneamente com conhecimento de causa e como se quem incita à "guerra de religiões" não fosse o próprio Islão. Freitas finge que não vê o carácter deliberado e fabricado de um "movimento", que chegou ao mundo inteiro em pouco mais de uma semana, e colabora em paz de espírito com os piores fanáticos. Nem desprezo merece.

Para acabar, e no espírito da escola a que pertence, Freitas, já agora, também se queixa da liberdade. "Liberdade sem limites", sentenciou ele, com certeza com o dedinho espetado, não é liberdade, é licenciosidade". Salazar aprovaria o sentimento, mas não a ignorância. "Licenciosidade" significa "desregramento dos costumes" e "do comportamento"; o contrário ao "decoro" e "à moral estabelecida". Freitas, coitado, estava a pensar em "licença".

É triste pensar que este homem representa Portugal e, apesar de tudo, um governo socialista.
vpv

HITLER E AS CARICATURAS

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Hitler costumava arranjar "incidentes" para "justificar" a política de armamento e agressão. Ou era um adido assassinado em Paris por um judeu (que serviu para "explicar" a "Noite de Cristal do Reich") ou as sevícias que a Checoslováquia ou a Polónia alegadamente infligiam a meia dúzia de "arianos", coitadinhos, longe dele e da Pátria (que "justificaram" a guerra). Mas não se aprendeu nada com este velho truque e poucos até agora perguntaram o óbvio: por que raio este alarido, tipicamente goebbeliano, em nome de umas caricaturas, publicadas num obscuro jornal da Dinamarca (na Dinamarca?), há quase quatro meses? Que mal, na prática, essas caricaturas fizeram ao Islão? Como é que, por todo o Islão, "a rua" se indigna com uma blasfémia que não conhece? "Quem manda e comanda essa "espontaneidade"? Quando a "Europa" e a América deixarem de coçar a sua interessante consciência (mea culpa), talvez se perceba o fim do exercício.
vpv

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

CIVILIZAÇÕES

O Aspirina B conta uma história. Um dia, perguntaram a Gandhi o que achava da civilização ocidental. "Acho que seria uma excelente ideia", teria ele respondido. Não sei se respondeu isso ou não, mas não me espanta a frase, atribuída a quem é. Gandhi foi um produto típico do Império Britânico: um advogado, um pregador e um prematuro spin doctor, que o Império Britânico e o Ocidente resolveram sacralizar por razões de estratégia e oportunismo. O facto é que a "não-violência" exige dois parceiros. Sem a moderação e o legalismo do Raj e, sobretudo, sem o espírito "liberal" da opinião pública inglesa, não haveria Gandhi. Facto que ele próprio não ignorava e com que sempre manifestamente contou - tanto mais que, durante a vida inteira, viveu e agiu à sombra da benignidade do sistema. Não se imagina a "não-violência" do Mahatma face à China ou, por exemplo, à Rússia de Estaline ou dos czares. Quando acabou a tutela do Ocidente, da tal hipotética "civilização" que Gandhi desprezava, ficou a intransigência hindu e muçulmana, o Estado muçulmano de Jinnah e meio milhão, um milhão, dois milhões de mortos…ninguém sabe ao certo.
Como se diz na América, uma certa ignorância da Aspirina "vem com o território". Mas, de qualquer maneira, a Aspirina, no caso Rui Tavares, pergunta se a civilização do Holocausto e do Gulag merece ser considerada "superior". A pergunta é séria e merece uma resposta séria. Começo por confessar que, sem confundir o Holocausto com o Gulag, às vezes, muitas vezes, quase constantemente, duvido. Mas, do meu ponto de vista infinitamente insignificante (que nem a História, nem Deus, nem o seu profeta ou o seu vicário recomendam), não me parece discutível que a civilização ocidental contribuiu mais para a liberdade e felicidade do homem - e da mulher - e para o domínio do homem sobre a natureza do que qualquer outra civilização conhecida. Mais prosaicamente, em 2005, não imagino espécie de futuro para uma civilização fanática, despótica e analfabeta e consigo imaginar algum futuro, e até depor alguma cautelosa esperança, na angústia, na desordem e no perpétuo conflito, que é, como lhe compete, a civilização do Ocidente, Peço desculpa pelo tom altissonante da última frase.
vpv

domingo, fevereiro 05, 2006

O MUNDO NÃO É PERFEITO

Lamento, mas esta não é uma questão de gosto. O valor ou a oportunidade dos cartoons publicados no Jyllands-Posten, o já famoso jornal dinamarquês, não são para aqui chamados. Nem me parece razoável passar-se um atestado de ingenuidade a quem supostamente não reconhece o carácter gratuito e provocador dos ditos cartoons. Pessoalmente acho-os deploráveis, como acho deploráveis muitas das manifestações anti-religiosas que por aí pululam. Desagrada-me a forma gratuita como, por vezes, é ridicularizada a fé e ainda me desagrada mais a forma como isso, entre nós, se banalizou. Mas entre o meu legítimo desagrado e a ilegítima censura sobre o que me desagrada, não tenho dúvidas: prefiro o meu legítimo desagrado. Defender o direito de publicação de uma dúzia de cartoons sobre Maomé não me obriga a defender o seu conteúdo e muito menos a concordar com os objectivos explícitos (ou não explícitos) dos seus autores: obriga-me apenas a defender uma coisa tão simples como a liberdade de expressão. Se a liberdade de expressão se mantivesse sempre nos limites do “aceitável”, como alguns pretendem, não precisaria de ser defendida. São precisamente os excessos que a põem à prova. E são quase sempre esses excessos que nos parecem deploráveis. O mundo não é perfeito.
ccs

PENSE BEM

Escreve Daniel Oliveira, com aquela precisão e profundidade que nunca o abandonam: " O que não aceito é que Cristo e Moisés sejam intocáveis e Maomé motivo de recorrente galhofa".
De onde vem ele? De que mundo, de que espécie de galáxia escondida? "Cristo" ou "Jesus" são as palavras preferidas da blasfémia ocidental e, particularmente, anglo-saxónica. Ainda há meia dúzia de anos, de Saramago a Mailer, toda a gente deu a sua pequena versão ateia ou blasfematória do Novo Testamento: um hábito que vem de Strauss (1846), Schweitzer e Renan, e à qual, de resto, pertence gloriosamente o Eça de "A Relíquia", o mais pérfido e genial da escola. Existe por aí uma indústria académica, dedicada a negar a divindade de Jesus (dizer "Cristo" já a reconhece), em que se distingue ( e digo "distingue" sem sombra de ironia) um professor de Oxford, condecorado e glorioso, Geza Vermes. A TV5 passou uma série "A origem do cristianismo", à venda na Amazon, que, da ortodoxia, não deixa pedra sobre pedra. O próprio Ratzinger chegou onde chegou com a sua guerra, no Concílio Vaticano II, contra a exegese histórica. Podia escrever páginas, dicionários, bibliotecas, com exemplo atrás de exemplo, do cartoon ao tratado. Aqui na terrinha a "reacção" esteve representada por Nuno Abecassis, pelo indescritível Sousa Lara e por um anacronismo que barafusta no "Diário de Notícias". De Moisés, não sei - mas Cristo "intocável"?
Daniel Oliveira que pense bem.
vpv

A LEI DO MAIS FORTE

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O primeiro-ministro Sócrates declarou que "o uso gratuito e irrestrito" da liberdade de imprensa pode conduzir "à lei do mais forte". Nas "sociedades democráticas, segundo Sócrates, a imprensa deve ser "responsável" e "respeitar a dignidade" do próximo. D. António Marta, bispo de Viseu, concorda: nada de "extremos"! E até D. Januário, mimo episcopal da esquerda, vai avisando que "há limites". Tudo isto, como se calcula a propósito dos cartoons dinamarqueses, que para D. António, "acenderam um rastilho difícil de controlar". Que dizer disto? Em primeiro lugar, que a linguagem hipócrita da Ditadura volta sempre à superfície com assombrosa facilidade. Salazar teria aprovado fervorosamente Sócrates, D. Januário e D. António. Passou a vida a pregar o mesmo. Só insistia na censura, e com muita pena, jurava ele, precisamente para evitar "o uso gratuito e irrestrito" da imprensa, garantir a "responsabilidade", estabelecer "limites", proibir "extremos" que "acendessem rastilhos". Afinal, o homem tinha razão. Não se devem deixar à solta os jornalistas. Existem "valores" com que não se brinca e que a autoridade, com a sua superior moral e sapiência, está por natureza obrigada a defender.

Claro que sem liberdade de imprensa, por muito relativa que ela fosse, a Europa seria hoje muito diferente. Sem Erasmo, a Reforma, o iluminismo e o socialismo; e sem a arte, a ciência e a crítica bíblica, a Europa ocidental, para sossego e conforto do seu espírito, seria agora quase oriental e, com sorte, até talvez muçulmana. Uma hipótese que aparentemente agrada a toda a gente que por aí rasteja para não ofender ou amansar a conhecida susceptibilidade do Islão. A tirania do "politicamente correcto" já não permite pensar que a civilização greco-latina e judeo-cristã da Europa e da América é uma civilização superior; e superior, muito em especial, à civilização falhada muçulmana e árabe. Mas, quer se pense quer não, o facto permanece e a subserviência do Ocidente perante a intimidação islâmica, a propósito dos cartoons da Dinamarca ou de qualquer outro pretexto, envergonha e humilha.

Principalmente porque, ao contrário do que Sócrates resolveu explicar, com o seu oportunismo e a sua absoluta inconsciência cultural, a liberdade (no caso, da imprensa) não leva à "lei do mais forte". O que leva à "lei do mais forte" é o petróleo e o dinheiro do petróleo. Quando o Islão berra, a Europa treme. O resto, a baixa retórica do relativismo, não passa da eterna sabujice da dependência.
vpv
(publicado no jornal Público)

TOLERÂNCIAS...

Daniel Oliveira, o mesmo Daniel Oliveira do Bloco de Esquerda, especialista nos vícios da Igreja e na denúncia dos seus escandalosos abusos, apareceu ontem na SIC-Notícias como o grande defensor do direito à indignação por parte dos que se sentem justamente ofendidos nos preceitos da religião. O direito à indignação explica tudo o que se passa no Islão: multidões em fúria, exigindo vingança e queimando bandeiras dinamarquesas; retaliações diplomáticas; ameaças de bomba; destruição de embaixadas; sanções económicas. Para Daniel Oliveira, são simples manifestações de quem se sente ultrajado nas suas mais profundas convicções. Qual é o problema de se queimar, aqui e ali, uma bandeira, num legítimo acesso de indignação? Os que se sentiram ofendidos com a caricatura do Papa com um preservativo no nariz, não fizeram também…um abaixo-assinado? Se uns se entregam à violência de um abaixo-assinado por que não hão-de os outros queimar pacificamente umas bandeiras e destruir duas ou três embaixadas? Pois é! Não perceber isto é não perceber o essencial de uma esquerda complexada que faz gala no ataque à Igreja para melhor poder… respeitar o Islão.
ccs

sábado, fevereiro 04, 2006

A REFERÊNCIA

A "iniciativa cívica" e o "poder do cidadão" não duraram muito. Alegre voltou ao parlamento. Ficar de fora, disse ele, "não seria compreendido pelos que o apoiaram". E nós que pensávamos…Pronto, está bem. É tudo ao contrário? Perfeito. Parece que lá no "Movimento" o pressionaram tanto que ele correu para S. Bento só "para ter um pouco de sossego". Em S. Bento, sossego é o que não lhe vai faltar. Quanto ao resto, continua, evidentemente, uma "referência" para o tal "milhão". Não sei se custa muito ser uma "referência". Espero que não.
vpv

OLHA QUEM FALA

Leonor Beleza, pensando em Barroso e Guterres, deplora a "falta de maturidade" dos políticos portugueses. Quem se lembra da maturidade com que ela geriu o Ministério da Saúde fica um pouco perplexo. Mas suponho que já não vale a pena dizer nada sobre esta extravagante invenção de Cavaco. Os malucos passaram a governar o manicómio.
vpv

SÓ COM O JOGO

Os portugueses são quem aposta mais no "Euromilhões", 27 por cento do total. Por aqui se vê a esperança que têm de ganhar uma vida decente com o seu trabalho.
vpv

QUE COISA ESPANTOSA!

Pacheco Pereira já tinha avisado: as presidenciais encerravam um ciclo, alteravam as regras do sistema partidário, enfim, levantavam questões interessantíssimas. Só os parvos é que não compreendiam a dimensão da coisa e andavam por aí a desfazer na campanha e na superior qualidade do debate eleitoral. Ficámos à espera! Hoje finalmente apareceu isto. Uma pérola pós-presidencial. Uma reflexão portentosa, enfiada em meia dúzia de linhas: “bater” em Manuel Alegre e no seu movimento cívico é a última manifestação de mau perder do “tardo-soarismo”. Ora aí está! Uma questão interessantíssima, recheada de consequências e reveladora do novo ciclo. O “tardo-soarismo”? Que coisa espantosa!
ccs

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

ANTIGAMENTE

Quando os padres saíam da Igreja para se casar, o António Alçada um dia disse: "Isto está tudo perdido. Só os padres é que acreditam no casamento".
vpv

MORAL DE UMA HISTÓRIA


No Iraque, eleições feitas sob ocupação estrangeira mostraram outra vez, como se fosse preciso, que o Iraque não existe. Existe um território, inventado num acesso de euforia imperial pela Inglaterra e pela França, com habitantes rigorosamente divididos por etnia, religião e tribo. Da classe média secular, nacionalista e moderna de que nos falavam com zelo os defensores da guerra não se viu a sombra. Ao lado, no Irão, em que se esperava a emergência progressiva dos "moderados", ganhou um radical, Ahmadinejad, que nega o Holocausto, pretende destruir Israel e quer a bomba. Na Palestina, o Hamas um partido armado e terrorista, campeão e promotor dos "mártires", tem agora a maioria no "parlamento" e tenciona firmemente continuar igual a si mesmo, quanto mais não seja porque, se não ficasse, aparecia logo à sua esquerda, um segundo Hamas com um nome qualquer, muito pior do que ele.

A democracia que Bush, Blair e um certo Ocidente bem-pensante consideram a panaceia universal, só pode produzir no Médio Oriente, e no mundo islâmico em geral, uma absoluta catástrofe. Se houvesse eleições livres no Afeganistão, no Paquistão, na Síria, na Arábia, no Egipto, na Líbia, na Tunísia, na Argélia e em Marrocos desaparecia num minuto toda a gente com a mais vaga veleidade de negociar ou conviver com o Grande Satã americano e o pequeno Satã da velha Europa. Por muito que nos custe e custe ao perigosíssimo Presidente Bush, sem os tiranos, que, para nosso bem e conveniência deles, conservam as massas muçulmanas numa relativa passividade, não escapávamos com certeza a um triste fim. Em 1914, ninguém, por definição, conseguiu imaginar o inimaginável, nem sequer, e apesar de Hitler, em 39. Hoje também não. Mas devíamos tentar.

Há factos tão simples que até Bush anda perto de reconhecer. As regiões do petróleo, do Médio Oriente à Venezuela de Chávez são incontroláveis, política e militarmente. A dependência do petróleo da América e da Europa é quase total. O consumo de petróleo aumentou, e vai continuar a aumentar, por causa da China e da Índia. E a miséria da "rua" na Arábia ou em Marrocos, conhece, inveja e odeia, como dantes não acontecia, esta ilha do Ocidente, rica, arrogante e vulnerável. Sobretudo, vulnerável. No Iraque, na Palestina, no Irão, a América e a "Europa" exibem dia a dia a sua essencial fraqueza. É pouco provável que se perca a moral dessa parte da história.
vpv
(publicado no jornal "Público")

POR AMOR DE DEUS

Vi agora que o meu post anterior deu azo a um equívoco que me parece grave. Por isso, gostaria de deixar desde já claro que o texto em causa pretedendia ser uma crítica aos que consideram que o casamento é um exclusivo heterossexual. E não obviamente um sátira às pretensões dos homossexuais nesta matéria. Caro Eduardo Pitta, estou de acordo consigo. Considero que o actual enquadramento legal das uniões de facto é insuficiente. Aliás, como já referiu, até pessoas como António Lobo Xavier e Guilherme Silva consideram o mesmo. Mais: essas mesmas pessoas defendem uma maior aproximação (em matéria de direitos) entre as uniões de facto e o casamento. O que não aceitam é que os homossexuais possam "concurspar" o carácter quase "sagrado" do casamento. É essa "lógica que me escapa". Porque não me parece que os motivos apresentados, nomeadamente por Pacheco Pereira, tenham qualquer coerência teórica.

1. Por que é que o carácter "conservador" do casamento (dando isto como adquirido) há-de impedir o casamento dos homossexuais? Para além de não poderem casar, os homossexuais também não podem ser conservadores? Têm que ser, por definição, "modernaços" e viver em união de facto de acordo com suas "convicções"? Assim a "malta" já não se importa e até dá "de borla" mais uns direitos aos que vivem "coerentemente" em união de facto?

2. Por outro lado, o argumento da "poligamia" tanto se põe em relação ao casamento como em relação às uniões de facto. Os que não aceitam o casamento entre homossexuais porque isso abriria as portas do Estado à poligamia deviam explicar por que é que, nas uniões de facto (que defendem) essa coerência teórica também não se impõe. A não ser que considerem que o Estado devia aceitar a poligamia desde que esta se praticasse fora do casamento e em regime de união de facto. Com os mesmos direitos que têm as uniões de facto - e que eles próprios acham que são insuficientes.
O meu texto pretendia dar conta destas contradições. Pelos vistos, expliquei-me mal. Daí a necessidade destas explicações.
ccs
P.S. Nada disto implica evidentemente que o regime que consagra as uniões de facto não deva ser alterado. Pode haver vários tipos de uniões ou de casamentos, se se quiser. E cada um independentemente das suas orientações sexuais deve escolher o que melhor lhe convir.
(actualizado)

O MITO DAS ORIGENS


No PSD, com opinião publicada e profissão respeitável, Marques Mendes foi sempre um líder a prazo. Um incómodo que se antecipou, no último congresso, impedindo a candidatura de nomes sonantes, como Manuela Ferreira Leite ou António Borges, dois eleitos do cavaquismo, com fama de liberais e créditos na alta finança. Nesse PSD, Marques Mendes não existe, a não ser como recurso, para preparar o caminho à gloriosa aventura que se seguirá. Não por estar na oposição, como esteve Marcelo Rebelo de Sousa, na sua frenética agonia. Ou Durão Barroso, a quem o partido caiu nas mãos, ascendendo, mais tarde, ao poder, por obra e graça de António Guterres. Mas porque, ao contrário de Marcelo e de Durão Barroso, Marques Mendes não pertence à elite do PSD. Nunca fez parte de um pequeno grupo de predestinados com apelido conhecido, escritório privado, curriculum académico ou chama intelectual. Para cúmulo, não tem uma grande figura, vive numa vivenda geminada e não frequenta a casa de grandes empresários. O mesmo PSD, que defendeu, com afinco, as origens de Cavaco Silva, face à “arrogância” soarista, aceita, com dificuldade, que um homem de Fafe, pouco cotado nas altas esferas da sociedade, possa, algum dia, chegar a primeiro-ministro. Enquanto ele estiver à frente do PSD, haverá sempre, no PSD, quem suspire pela abertura do partido, pela renovação do partido e por uma nova oposição por parte do partido. Como se o partido tivesse que ter uma imagem que compensasse a imagem que o seu líder tem nalguns sectores do próprio partido.
ccs
(adaptado da revista Sábado)

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

POR AMOR DE DEUS

Há aqui uma lógica qualquer que me escapa. Aparentemente, o principal problema está na palavra: se os homossexuais quiserem juntar os trapinhos, alinhar numa união de facto, armar em modernaços à conta do Estado, tudo bem, a malta aceita, compreende, faz-lhes o jeito e oferece-lhes até alguns direitos de borla. Casar é que não. Casar é um exclusivo heterossexual e conservador, de quem quer constituir família e está disposto a unir-se para a vida. Casar, aliás, está fora de moda, é uma prática em declínio que foi ultrapassada pelo tempo, por uma maré de divórcios e por sucessivos imbróglios sentimentais. Era o que faltava que agora que os heterossexuais começam a perceber a “armadilha” reaccionária que está implícita no contrato matrimonial, viessem os homossexuais, armados em conservadores, tentar recuperar um hábito que qualquer liberal (sem conotações polémicas), hoje em dia, despreza. Resumindo: casamento não, casamento é uma palavra que está definida no dicionário, um pequeno anacronismo da vida moderna, um luxo que já ninguém usa e que está vedado ao exterior; já uma união de facto é um facto sobre o qual se pode (e deve) conversar. Pode até ser uma união “à francesa”, com os mesmos direitos legais (se tanto insistem!) e os mesmos efeitos práticos do casamento heterossexual. Mas a questão semântica mantém-se. Quanto mais não seja por causa da poligamia e do incesto e de outras práticas menos usuais que não convém albergar sobre o sagrado manto matrimonial. Os mórmones, se quiserem, que façam uniões de facto. Que se juntem, através de um contrato estabelecido pelo Estado, com direito a repartição equitativa de heranças e acompanhamento na doença adaptado à pluralidade das várias unidas. Mas não se casem, por amor de Deus! Mesmo que, na prática e por via da lei, fiquem casados, com direitos equivalentes aos que estão, de facto, casados.
ccs

DE VERGONHA EM VERGONHA


A verdade religiosa é absoluta e, logicamente, incompatível com a liberdade de imprensa. Durante todo o século XVIII e grande parte do século XIX, a Igreja Católica combateu a liberdade de imprensa. Ainda em 1821, a principal polémica nas Cortes Constituintes (de Lisboa) foi sobre a conveniência ou inconveniência da censura em matéria religiosa. A Igreja não queria a censura com medo da heresia (uma consideração muito secundária), ou da blasfémia (em estado puro pouco perigosa), mas por causa do deísmo e de um deísta em particular, Voltaire. O grande inimigo era Voltaire e o grande praga os "voltaireanos". Mesmo depois da revolução francesa, quase não havia ateus, mas quase só havia "voltaireanos". Basta ler o "Zadig", o "Micromégas" ou o "Candide" para se perceber a força dissolvente do homem: a ironia e a condescendência, de facto, matam.
O maior perigo para qualquer religião é o perigo de se tornar irrisória, ou seja, intelectual e socialmente pouco respeitável. Reduzido ao absurdo e tratado como tal, o islamismo deixará com o tempo de intimidar e convencer. As caricaturas de um diário dinamarquês puseram muito ao de leve o pé nesse caminho e, claro está, caiu o céu. Tanto mais que, para um muçulmano vulgar, a coisa se confunde com um gesto gratuito da superioridade ocidental. Nada disto espanta. O que espanta é a cobardia da Europa. O director do jornal a pedir desculpa, o primeiro-ministro a "deplorar o caso", organizações de auxílio internacional a "retirar", de facto a "expulsar", do Médio Oriente funcionários dinamarqueses, "contaminados" pelas caricaturas. Até em Portugal, um certo Sheik Munir nos veio esclarecer sobre a verdadeira natureza da liberdade de expressão. De vergonha em vergonha, ainda acabamos com o nosso quinhão de virgens.
Xenofobia? Nossa ou deles?
vpv

DÚVIDAS...

Dou de barato: o casamento consagrado na lei é um resquício que nos ficou da religião. A cultura, a tradição, os costumes explicam o anacronismo da coisa. E definem o casamento como um exclusivo heterossexual a que os heterossexuais não dão o devido valor. Resta, portanto, uma solução “moderada”: reforçar os direitos (e as obrigações?) das uniões de facto para que legalmente as uniões de facto se equiparem ao casamento. Assim fica assegurada a especificidade do casamento e os direitos dos homossexuais. Uma simples questão de palavras? Ou um suave equilíbrio que refreia os excessos de tolerância? E já agora uma pequena dúvida: as uniões de facto, devidamente reconhecidas, podem estender-se também à poligamia? Não adianta tentar esconder o sol com a peneira.
ccs

BEM VISTO!

PS e PSD descobriram, em harmoniosa sintonia, que o casamento entre homossexuais não é uma "questão prioritária". Cavaco Silva já o tinha dito. Há questões mais importantes a resolver no país. Por que raio há-de um desempregado perder tempo com problemas destes que só mobilizam minorias ociosas e bem instaladas na vida? Resumindo, devia-se acabar com metade dos ministérios (não só o da Cultura) o que daria uma nova eficácia ao Governo e outro sentido à política. A política preocupar-se-ia com a economia. O resto que se amanhasse. Até se tornar agradavelmente consensual. Aí, sim, a política aparecia. Sem riscos. Nem desperdício de votos. Bem visto!
ccs