quarta-feira, fevereiro 01, 2006

TEMPO PERDIDO (I)

A falta de tempo é um sinal de sucesso. Uma vida completa exige um permanente controlo das horas e das actividades do dia. Talvez porque a vida das mulheres seja mais completa, as revistas femininas têm inúmeros artigos que ensinam a domesticar a agenda e a estabelecer “prioridades”. Tem que haver “prioridades” se não a mulher dispersa-se e não consegue ser mãe, esposa, arquitecta ou empresária. O melhor é seguir a receita habitual. Escreva numa folha as coisas que não pode deixar de fazer. Dispense o que é inútil. Evite a dispersão. Delegue. Delegue sempre que puder. E vai ver que tem tempo para tudo: para a reunião, para o cabeleireiro, para os trabalhos de casa do filho e para o cinema, de vez em quando. Infelizmente, comigo acontece o contrário. Não chego sequer a pegar na folha. Ou pego e fico melancolicamente a olhar para ela, sem saber o que hei-de escrever. Não me ocorre nada a não ser a rotina diária mas não preciso de uma folha para me lembrar que tenho um local de trabalho onde me dá jeito comparecer. Tudo o resto pode esperar. E pode mesmo não acontecer.
ccs
(publicado na revista Atlântico)

LIBERALISMO À PORTUGUESA

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Portugal está cheio de liberais, mas de uma espécie rara que não se preocupa muito com a liberdade. Não vi um único sinal de incómodo com o chamado "cartão do cidadão", que o dr. António Costa se prepara para "experimentar" (?) até ao fim do ano. Esse cartão vai ser ao mesmo tempo cartão de contribuinte, cartão de saúde, cartão da segurança social, cartão de eleitor e bilhete de identidade. Por outras palavras, o Estado tenciona reunir num rectângulo de plástico quase tudo o que há a saber de relevante sobre um indivíduo (só me espanta que o sr. Costa se esquecesse da carta de guiar e do registo criminal). Pior ainda: com essa informação o Estado pode averiguar os mais pequenos pormenores da vida de cada um: quanto ganha, que impostos paga, que doenças tem, que medicamentos toma, onde trabalha, quem é o patrão, onde mora, quando vota ou não vota, quem são os pais, com quem se casou, se foi ao estrangeiro e por aí fora. Claro que o Estado já pode meter o bedelho onde lhe apetecer. Só que dantes lhe custava mais. Com o novo cartão, basta carregar em meia dúzia de botões e uma pessoa fica instantaneamente nua para exame e gozo da autoridade. De qualquer autoridade, reparem bem, na prática irresponsável e sem nome, que a decida investigar. O dr. António Costa, ministro da GNR e das Polícias, que anunciou o seu cartão com a vaidade provinciana do indígena numa conferência com Bill Gates, também disse que não o move o menor "preconceito contra o Estado" e garantiu que não "abdicará" de nenhum serviço e de nenhum funcionário. Inesperado, não é?
Na América e na Inglaterra, ainda não existem documentos de identificação universal (como coisa distinta da carta de guiar, por exemplo) legalmente obrigatórios.
vpv

DEMOCRACIA PARTICIPATIVA


A "claque" do Porto, os Super Dragões, rejeita qualquer responsabilidade no ataque ao treinador Adriaanse. O bando de encapuçados que o ia matando era um simples grupo de sócios, que manifestava muito espontâneamente, palavra, a sua indignação. As "claques" mandam nos clubes com métodos que vão da vaia, do lenço branco e do assobio à violência física pura e descarada. António Dias da Cunha, presidente do Sporting, bem tentou resistir. Mas não conseguiu: correram com ele. Quando há um incidente mais grave, os comentadores põem cara de caso e condenam o "vandalismo". Não se percebe. O futebol é um belo exemplo de democracia participativa.
vpv

RESCALDOS



No PSD, parece que o debate está assegurado. Marco António (nome curioso para se dar a um filho!) já garantiu ao país que as “directas”, anunciadas por Marques Mendes, não vacilarão por “falta de comparência”. Se Luís Filipe Menezes decidir esperar por melhores dias, avança, ele, Marco António para um frutuoso “debate de ideias”. Falta apenas saber quais são as “ideias” de Marco António que, até aqui, têm primado pela sua ausência. Mas isso apenas incentiva o debate que se anuncia.

O movimento de Manuel Alegre soma e segue. Exemplo de cidadania e de uma ética irrepreensível, Manuel Alegre não deixa os “seus” votos por mãos alheias. Os votos não são de nenhum partido, muito menos do PS que perdeu estas eleições por achar que era dono dos votos de alguns dos seus eleitores. Estes, que Manuel Alegre arrebanhou, com o suor do seu esforço e o risco da dissidência, são dele. E ele, e os seus votos, não serão uma “flor na botoeira de ninguém”. A flor, ao que parece, desabrochará, sozinha, por entre as brumas da cidadania. Com dono, é claro!

Depois de reunir a sua comissão política, o PS reconheceu humildemente que tinha “errado” na escolha do seu candidato. Mas o PS aprende. E garante que, quando tiver que escolher novamente candidatos presidenciais, olhará para os erros que agora cometeu. Infelizmente ficou por explicar a dimensão dos erros. Como também ficou por explicar que relação existia entre os erros e os resultados eleitorais. Em contrapartida, ficou-se a saber que nas próximas presidenciais, quando Cavaco Silva terminar o seu primeiro mandato, o PS não ficará à espera de quem não se quer candidatar. E se tudo correr como deve ser e o PS tiver, de facto, aprendido com os seus erros, ainda se vai ver o PS apelar ao voto em Cavaco Silva.

Jorge Coelho sai. José Sócrates acumula. O PS pode reconhecer os erros que quiser. O partido do Governo não tem que reconhecer qualquer erro. Basta-lhe perder “sem azedume”. E reconhecer que é apenas uma base eleitoral do Governo.

P.S. E o CDS que anda tão sossegadinho? Alguém sabe do dr. Paulo Portas? Ou do dr. Pires de Lima?
ccs

VELHOS CONHECIDOS

Descobri para o meu espanto que o liberalismo enfurece as pessoas como antigamente o marxismo e, como é óbvio, o "socialismo real". Não admira que os métodos de argumentação se pareçam. Ao fim de 20 anos, acordei num território muito conhecido. Thatcher e Bush não são liberais? Se quiserem. Por volta de 1970, Marx não era bem marxista e o "socialismo" apareceu e desapareceu sucessiva ou simultaneamente na URSS, na China, na Jugoslávia, em Cuba, no Vietnam e na Albânia. Só peço que me digam em que governo estão ou estiveram os liberais de facto, autênticos, com marca de água. E não façam batota: Gladstone, além de ser tarado, já morreu. De resto, mesmo ele…
Quanto às contas sobre a sra. Thatcher que me ofereceram para provar o contrário do que eu disse, não provam nada - ou provam o que eu disse. Peço desculpa.
vpv

terça-feira, janeiro 31, 2006

INDEXAÇÃO

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O dr. Jorge Braga de Macedo, cuja perspicácia o país já pôde apreciar, disse na televisão que "a idade de reforma devia ser indexada à esperança de vida". Parece que a Suécia, um sítio historicamente habitado por anormais, resolveu assim o problema da Segurança Social. A lógica é esta. Primeiro, uma criatura tem de durar à força de água, alface e fibras, de exercício físico e de muitos médicos. A seguir, ao fim 40 anos de sofrimento como Santo Onofre, não ganha, como Santo Onofre, o Paraíso, ganha para a bem da sua alma e do aprimoramento das contas públicas, mais trabalho. Quando chega à reforma (aos 70, 75, 80?), já de todo inaproveitável e com o cérebro em papas, pode então descansar. A fazer o quê? Não se consegue imaginar.
Fora isso, que para o dr. Braga de Macedo não tem importância, há o problema da "carreira" dos velhos. Não vão com certeza ocupar indefinidamente os lugares de responsabilidade e direcção, porque perderam a força, a inteligência, a capacidade de aprender e se tornaram pouco a pouco um obstáculo ou até um risco. Suponho que o dr. Braga de Macedo não hesitaria em os despromover. Mas, por mim, não gostaria de o ver a ele, com 78 anos, gaguejante e trémulo, como encarregado de limpeza da Faculdade de Economia da Universidade Nova, onde iluminou tanto espírito com a luz do seu.
vpv

DEVE TER SIDO ISSO, DEVE...

"O resultado de Mário Soare foi ligeiramente abaixo do que eu esperava. Mário Soares deve ter perdido votos na última semana"

Marcelo Rebelo de Sousa

RTP, publicado, hoje, no Diário de Notícias

(As previsões estão sempre certas. Os resultados, às vezes, é que não)
ccs

LIBERALISMO

Com vossa licença, uma observação sobre o liberalismo. Em percentagem do PIB, a sra. Thatcher aumentou, não diminui, a despesa com o Estado-Previdência. E não aumentou pouco, aumentou muito. George W. Bush, o próprio, foi, depois de Lyndon Johnson e da "Grande Sociedade", o presidente que aumentou mais, também em percentagem do PIB, a despesa com o Estado-Previdência. Conclusão? O liberalismo é belo, mas não há liberal praticante que seja eleito.
vpv

COTERIES

Anda por aí uma polémica a propósito das coteries e dos amiguismos no fascinante mundo da crítica literária. A coisa começou com o João Pedro George meteu o Pacheco Pereira, passou pelo Eduardo Pitta, foi parar ao Pedro Mexia e aterrou finalmente no José Mário Silva, o bode expiatório do momento, apanhado a escrever, no DN, um texto sobre um livrinho de um colega e amigo. O texto, diga-se de passagem, é um texto que não se recomenda: em poucas linhas, rasa ao de leve a crítica, sem favorecer o amigo, nem elogiar o livrinho. Não sei o que lhe disse o colega e amigo, mas eu sei o que lhe diria: a velha frase portuguesa: “Eh pá, mais valia estares quieto!”. Claro que a questão é de fundo, como, aliás, são sempre todas as questões insolúveis. Mas, sem querer desfazer nos princípios e nos cíclicos gritos de alerta, com que Pacheco Pereira nos brinda, custa-me perceber como é que um ser sociável, com uma vida profissional preenchida, consegue trabalhar, em Portugal, sem tropeçar num amigo ou mesmo num conhecido que, ao fim de dois almoços, se transforma num velho amigo. O país é curto, o terreno é minado e os almoços, essa instituição centenária, são pródigos em cumplicidades e terminam invariavelmente num ameno e inevitável convívio. Não há nada que um almoço não explique: os belos propósitos que animam as iniciativas falhadas, os interesses mesquinhos que ameaçam qualquer iniciativa, as dificuldades inerentes ao cargo ou as contingências que determinaram a obra. No fundo, somos todos uns gajos porreiros, muito mais simpáticos do que parecíamos. Tudo é desculpável, tudo é compreensível. E em tudo se pode dar um jeitinho. Não é, impunemente, que vivemos em Portugal.
(Nomes devidamente emendados)
ccs

segunda-feira, janeiro 30, 2006

E A GUITARRA?

Lisboahead
Alegre criou o Movimento "Intervenção e Cidadania", "aberto, plural, transversal, sem estruturas rígidas", para discutir os grandes "temas" do "contrato presidencial" (?) dele mesmo, Alegre, com o país que o país, com é óbvio, rejeitou. Os "temas", que ninguém conhecia foram revelados por Ana Sara Brito, pensadora da campanha: a justiça, a desertificação, a corrupção, a igualdade de género" e "outros que surgirem". Além da originalidade genérica da coisa, o capítulo "outros que surgirem" mostra bem a falta que este movimento nos fazia. Se não abrange o universo, abrange com certeza a alma portuguesa tão cara ao poeta. Não quero ofender ninguém, mas desde o princípio que as façanhas de Alegre me cheiram desgraçadamente a Coimbra, à Coimbra da capa e da batina, da serenata, da caça ao caloiro, do folclore de "república". A essa Coimbra de que Junqueiro disse que só daria luz se lhe deitassem fogo. Ao coração das trevas. O Movimento "Intervenção e Cidadania" é uma trova que está a pedir guitarra.
vpv

OUTRO DEPUTADO

A propósito, também estive no parlamento. Seis meses, com as férias de Natal pelo meio. Não fiz nada. O grande problema era arrumar o carro (não havia ainda uma garagem especial para os senhores deputados) e, a seguir, o almoço, sempre uma aventura naquela parte do mundo. De resto, corria tudo bem. Assinava o "livro", porque a Assembleia da República não confia nos representantes da nação e espera (compreensivelmente) que eles não ponham lá os pés. Só encontrei esta solicitude, aos treze anos, no Liceu Camões. Nessa altura, passava as tardes no cinema, angustiado pela "falta". Em S. Bento, não faltava ou, pelo menos, não faltava muito. Lia os jornais, os que tinha trazido e os do Pacheco Pereira. Nunca levei um livro por causa da televisão, que aparentemente embirra com deputados que lêem livros. Fora isso, conversava e passeava pelos corredores. Passos perdidos, de facto. De quando em quando recebia instruções para votar assim ou assado. Sem um comentário. A direcção da bancada é que sabe e manda. Às quatro e meia da tarde, no mictório nacional, imemorialmente entupido, a urina já chegava à porta (consta que neste capítulo as coisas melhoraram). Às cinco e meia, derreado, voltava para casa. Uma vez por semana, na minha comissão, a Defesa, ouvia um general indescrito repetir o comunicado da USIA sobre a Bósnia. Não se permitiam perguntas. No dia em que me demiti, um bando de jornalistas, de microfone espetado, exigiu explicações.
vpv

UM DEPUTADO

As graçolas sobre a "recuperação" de Alegre não me parecem de muito bom gosto. Depois de trinta anos de ociosidade no parlamento, três meses de trabalho matam um homem.
vpv

Previsibilidades...

133circus clown poster
Já se previa. O que talvez não fosse previsível é que acontecesse tão cedo. De repente, não há ninguém no PSD que não tenha uma opinião sobre o PSD. O PSD tem que se "reestruturar". O PSD não pode continuar a olhar para o seu "umbigo". O PSD tem que fazer uma oposição "mais forte". Enfim, o PSD tem que mudar de líder. Mas isso obviamente ninguém o diz. Até porque não é fácil liderar, agora, o PSD. Marques Mendes que se aguente na oposição. Enquanto as eternas reservas do PSD o vão desgastando com críticas. É assim que se faz política. Nos jornais e nas televisões. E depois ainda há quem, usando a Comunicação Social, venha com conversas sobre os efeitos nefastos que a Comunicação Social tem na política.
ccs

domingo, janeiro 29, 2006

VPV

O Espectro era para ter arrancado a três. Entretanto, foi descoberto. E acabou por arrancar comigo. Podia ter arrancado melhor, é verdade. Mas, na altura (já lá vai um mês!) foi o que se pôde arranjar. Os outros colaboradores são esquisitos. Não começam, como eu, a colaborar de qualquer maneira. Precisam de tempo, têm umas ideias precisas sobre os objectivos de um blogue e um deles, pelo menos, tem umas opiniões ainda mais precisas sobre o que eu vou escrevendo por aqui. Não percebe por que é que Mozart exige uma certa idade. E, graças a Deus, ainda não reparou que eu usei uns versinhos de Mário de Sá-Carneiro a propósito de Salieri. Pode ser que esteja enganada mas desconfio que esse post, com Salieri, Mozart e Sá-Carneiro à mistura, lhe vai dar uma volta ao estômago. Mas um blogue, como eu já aprendi, é feito de algumas diferenças. Espero que o terceiro elemento entre rapidamente em cena. Para já, O Espectro passa a contar com a colaboração de Vasco Pulido Valente. Agora vou tentar pôr o nome dele nos colaboradores. Ou pedir ajuda ao Paulo Mascarenhas - que é, aliás, o mais certo!
ccs

Movimentos

Quando oiço falar do milhão de votos de Manuel Alegre, lembro-me, por associação, dos gloriosos 14 por cento que Basílio Horta conseguiu, em 91, quando se candidatou garbosamente à Presidência da República. Verdade seja dita que o bom do Basílio não se lembrou de se candidatar em nome da cidadania. Candidatou-se modestamente contra a opinião do partido e avançou destemido contra Mário Soares e os interesses estabelecidos. Em nome dos superiores interesses da Pátria e de uma direita (muito especial) que precisava de ser resgatada. A Pátria também, diga-se de passagem. Lembro-me de um jantar, em Coimbra, onde no meio do entusiasmo geral, Basílio se entregou às dores do passado, lamentando uma Pátria “amputada” a necessitar de regeneração. A campanha foi num crescendo, com um debate, pelo meio, que meteu num chinelo todos os debates que se fizeram agora. Aquilo, sim, foi um debate, uma espécie de suicídio em directo, que esmagou Mário Soares, apanhado de surpresa pelo seu velho amigo Basílio. Basílio, o mais centrista de todos os centristas, tinha-se, também ele, libertado dos cânones do partido e do seu moderado passado. Também ele decidira avançar, sozinho, para combater o sistema, o soarismo e o cavaquismo e o mais que houvesse para combater. Por junto, Basílio estava contra todo o país político. Na comissão directiva do CDS (esse tenebroso directório partidário) fizeram-se, um dia, as contas: Basílio não contava com um único voto. O velho CDS, de Freitas do Amaral a Adriano Moreira, tinha pouco (ou nada) a ver com este tipo de vanguardismos. Basílio, entretanto, apelava a todos os “espoliados” e aos descamisados das mais diversas origens. A partir de certa altura, também ele sentiu que estava no centro de um “movimento”. Havia gente com um odiozinho especial a Mário Soares. E havia os que não gostavam do cavaquismo. Os que estavam fora do sistema. Os que não se interessavam pela política. Contas feitas, o movimento saldou-se em 14 (ou 16, já não me recordo e para o caso é indiferente) por cento dos votos. E Basílio entrou em reflexão. O seu resultado, ao lado dos resultados que costumava ter o partido (uns miseráveis quatro por cento), era um exclusivo que convinha manter em circulação. Basílio, também ele, falava dos “seus” 14 por cento, com especial carinho, e da esperança que se depositara nele. Depois de alguma reflexão e esgotadas algumas possibilidades, o candidato decidiu oferecer generosamente ao CDS o “seu” resultado eleitoral. Ele que tinha sido escorraçado pelas estruturas do partido entregava-lhes, sem ressentimentos, os votos que tinha obtido. A coisa tinha água no bico. Mas de qualquer forma a direcção do CDS, num acesso de purismo, resolveu recusar esses votos: segundo a comissão directiva, estavam “contaminados” pela extrema-direita. A “Pátria amputada” não fazia parte do léxico democrata-cristão. Na altura, o imbróglio deu que falar. Depois, os votos de Basílio fugiram de Basílio e Basílio ficou sem os votos e sem o partido e sem o lugar de deputado pelo Porto. Uns tempos depois, voltou ao redil do sistema. E os “seus” votos mudaram de mãos. Segundo consta, estão agora com Manuel Alegre. Que também não percebe que os votos não são seus. Mas, mais tarde ou mais cedo, também ele vai acabar por perceber. Como Basílio Horta. E até Freitas do Amaral. Alguém se lembra da Fundação Século XXI? Era assim que se chamava, não era?
(actualizado)
ccs

Deus caritas est

Ia escrever hoje sobre a primeira encíclica de Bento XVI. Mas, depois do que foi escrito aqui, decidi adiar as minhas considerações para mais tarde.
ccs

sábado, janeiro 28, 2006

Baixas

Ontem, Manuel Alegre "meteu" baixa na Assembleia da República e faltou ao debate mensal. Hoje, o mesmo Manuel Alegre reuniu com as estruturas da sua candidatura e anunciou a criação de um movimento de cidadãos para debater os grandes temas nacionais. É o que se chama uma baixa selectiva. Própria de um bom cidadão!
ccs

Amadeus


Embora não tenha visto, ontem, o filme, reviu-o, hoje, quando li este texto do João Gonçalves sobre Salieri, o compositor a quem Deus terá deixado apenas “o talento do fracasso”. É verdade que Salieri foi mais do que o filme o “pinta”. Mas não é por acaso que o filme vale pela forma como Salieri é "pintado". A personagem de Salieri mostra, não a loucura do génio, mas a loucura de um homem que se sente preterido por Deus. Um homem a quem foi dado o talento para reconhecer o génio sem ter recebido, em contrapartida, a “graça” que lhe permitiria alcançá-lo. A “mediocridade” de Salieri vem deste reconhecimento: dos seus limites, da sua impotência, da sua solidão perante a gratuitidade do génio. Só ele, a quem Deus, na sua infinita injustiça, deu o talento de saber “ouvir”, é capaz de compreender a genialidade de Mozart. O homem normal, o “ouvido” da corte, desconhece estes abismos da criação: o esforço inglório de Salieri e a imensa facilidade dos que, como Mozart, foram tocados pela "graça" divina. A revolta de Salieri, a sua loucura final, acompanhada pela música de Mozart (concerto para piano nº 20, se não me engano) mostra o imenso “talento do fracasso”, como diz o João, perante a “normalidade” dos homens e o génio inalcansável daqueles que foram eleitos. O Mozart de Forman, na sua exterior vulgaridade, é uma caricatura que serve apenas de contraponto à personagem de Salieri. Deus é injusto. Até naqueles que escolhe!

"Um pouco mais de sol – eu era brasa/Um pouco mais de azul – eu era além/Para atingir, faltou-me um golpe de asa…/Se ao menos eu permanecesse aquém…"
Quase, Mário de Sá-Carneiro
ccs

Mozart

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Ontem, deixei escapar os 250 anos de Mozart. As efemérides valem o que valem mas põem a matéria em dia o que tem algumas vantagens. Mozart não fez parte dos meus “eleitos” iniciais, achava-o, como já foi escrito aqui, demasiado perfeito, demasiado banal. Mozart andava, por aí, pelos elevadores e pelos bares dos hotéis de luxo, a servir de pano de fundo ao quotidiano de cada um. Eu, pelo meu lado, tinha-me convertido ao barroco: ouvia Haendel e Bach e achava que não existia mais nada para além destes compositores. Talvez Wagner mas muito de vez em quando e em oposição ao lirismo de Verdi. A adolescência tem destas coisas! Mais tarde, e menos dada a este tipo de excessos, cheguei a Mozart, por via de Haydn. Hoje, estou convencida de que só se gosta verdadeiramente de Mozart a partir de uma certa idade. A percepção do génio que, por vezes, se confunde com leveza e superficialidade exige um equilíbrio e uma atenção que se conseguem com o tempo, depois de ultrapassados os entusiasmos da juventude. Só, nessa altura, se consegue descobrir a absoluta perfeição de uma ópera como Don Giovanni. Pelo menos, foi assim que eu a “descobri”. Ao mesmo tempo que descobri o quinteto para clarinete, os concertos para piano, os quartetos dedicados a Haydn e as “Nozze di Figaro”. E os concertos para dois e três pianos tocados por Radu Lupu e Murray Perahia que deixo como recomendação do dia: Mozart- Concertos for two & three pianos, Murray Perahia, Radu Lupu, ed. Sony.
ccs

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O contraditório

Comentário de Rodrigo Adão Fonseca, no Blue Lounge.
A CCS escreve, hoje, no Espectro, um post - «Os mestres do Liberalismo» - onde tece um conjunto de considerações diversas sobre um tema recorrente na blogosfera: o «purismo» ideológico na discussão do liberalismo.
1. Há, de facto, na blogosfera, e na discussão deste assunto em particular, muito ruído; em boa medida, porque a blogosfera é um espaço onde cada um pode escrever sem restrições; em parte, também, porque há bastante juventude, de sangue quente (ou aquecido à pressa por impulso hormonal); ou ainda muita gente que está num processo embrionário de formação, o que leva a que as imprecisões abundem com frequência; há, finalmente, um «cruzamento», interessante, mas potencialmente explosivo, entre interesses divergentes: de reflexão para-académica, de acção política e partidária, de aspiração mediática ou jornalística; ora, o modo como se alinham os conteúdos faz com que o output final seja muitas vezes criticável na perspectiva do outro, e dê lugar a acesas discussões.
2. A tudo isto acresce uma enorme dificuldade de definição do conteúdo do liberalismo. Não sendo, como o marxismo, uma doutrina com paternidade conhecida, mas uma corrente de pensamento que acomoda várias tendências e abordagens, com uma tradição plurisecular e multicultural, a sua conceptualização é aberta e até difusa.
3. As reservas que acima coloco não devem impedir, contudo, que na discussão e no debate haja um espaço para quem opte por situar o liberalismo dentro da malha larga (e estrita) em que ele se insere; sobretudo se tivermos em atenção que muito do que se publica por aí se inspira numa escrita leve e muitas vezes até negligente, embora apresentada de uma forma pomposa, barroca e até supostamente erudita. Há um espaço liberal em Portugal, de gente jovem que imprimiu na sua vida uma cultura de exigência, e que não se submete a um politicamente correcto, onde a preguiça e a escrita leve são rotuladas de «pragmatismo», e a prudência, o estudo e a preocupação pelo rigor de «pureza bacteriológica».
4. Infelizmente, num país onde a maioria da população se diz católica mas ninguém reza, e onde o filme português mais visto de sempre foi «O crime do Padre Amaro», é também relativamente fácil vender a ideia de que existem «por aí» uns «frades negros do liberalismo», agarrados aos seus dogmas, de «dedo em riste», a atormentar não sei bem quem (o post da CCS não esclarece quem são os perseguidos pelos novos «Torquemadas»).
5. Concordo que em Portugal o debate de ideias está excessivamente personalizado, e se desenrola com uma elevada falta de civismo. E, certo, está marcado por uma forte intolerância. Mas a CCS que me perdoe, mas o seu post está, neste contexto, enviesado, porque o mau carácter, a falta de educação, e o desrespeito pelos outros - o tal «dedinho em riste», o pensamento de «cartilha», os «princípios de seita», as «certezas iluminadas», as «exibições mesquinhas» e os «egos mal ajustados» - estão, infelizmente, por todo o lado.
6. O post da CCS «dispara para o ar», fazendo uma data de «vítimas civis». Por várias vezes pensei deixar de escrever na blogosfera, porque me cansa estar sistematicamente a ser bombardeado, mesmo quando a lama não me era directamente dirigida (como penso que é o caso). Que a «miudagem» se entertenha neste tipo de quezílias é-me indiferente, mas que uma jornalista da envergadura de CCS, num blogue lido por milhares de pessoas, se submeta a semelhante exercício, traduz-se numa tremenda desilusão.

Rodrigo Adão da Fonseca, Blue Lounge