segunda-feira, janeiro 30, 2006

UM DEPUTADO

As graçolas sobre a "recuperação" de Alegre não me parecem de muito bom gosto. Depois de trinta anos de ociosidade no parlamento, três meses de trabalho matam um homem.
vpv

Previsibilidades...

133circus clown poster
Já se previa. O que talvez não fosse previsível é que acontecesse tão cedo. De repente, não há ninguém no PSD que não tenha uma opinião sobre o PSD. O PSD tem que se "reestruturar". O PSD não pode continuar a olhar para o seu "umbigo". O PSD tem que fazer uma oposição "mais forte". Enfim, o PSD tem que mudar de líder. Mas isso obviamente ninguém o diz. Até porque não é fácil liderar, agora, o PSD. Marques Mendes que se aguente na oposição. Enquanto as eternas reservas do PSD o vão desgastando com críticas. É assim que se faz política. Nos jornais e nas televisões. E depois ainda há quem, usando a Comunicação Social, venha com conversas sobre os efeitos nefastos que a Comunicação Social tem na política.
ccs

domingo, janeiro 29, 2006

VPV

O Espectro era para ter arrancado a três. Entretanto, foi descoberto. E acabou por arrancar comigo. Podia ter arrancado melhor, é verdade. Mas, na altura (já lá vai um mês!) foi o que se pôde arranjar. Os outros colaboradores são esquisitos. Não começam, como eu, a colaborar de qualquer maneira. Precisam de tempo, têm umas ideias precisas sobre os objectivos de um blogue e um deles, pelo menos, tem umas opiniões ainda mais precisas sobre o que eu vou escrevendo por aqui. Não percebe por que é que Mozart exige uma certa idade. E, graças a Deus, ainda não reparou que eu usei uns versinhos de Mário de Sá-Carneiro a propósito de Salieri. Pode ser que esteja enganada mas desconfio que esse post, com Salieri, Mozart e Sá-Carneiro à mistura, lhe vai dar uma volta ao estômago. Mas um blogue, como eu já aprendi, é feito de algumas diferenças. Espero que o terceiro elemento entre rapidamente em cena. Para já, O Espectro passa a contar com a colaboração de Vasco Pulido Valente. Agora vou tentar pôr o nome dele nos colaboradores. Ou pedir ajuda ao Paulo Mascarenhas - que é, aliás, o mais certo!
ccs

Movimentos

Quando oiço falar do milhão de votos de Manuel Alegre, lembro-me, por associação, dos gloriosos 14 por cento que Basílio Horta conseguiu, em 91, quando se candidatou garbosamente à Presidência da República. Verdade seja dita que o bom do Basílio não se lembrou de se candidatar em nome da cidadania. Candidatou-se modestamente contra a opinião do partido e avançou destemido contra Mário Soares e os interesses estabelecidos. Em nome dos superiores interesses da Pátria e de uma direita (muito especial) que precisava de ser resgatada. A Pátria também, diga-se de passagem. Lembro-me de um jantar, em Coimbra, onde no meio do entusiasmo geral, Basílio se entregou às dores do passado, lamentando uma Pátria “amputada” a necessitar de regeneração. A campanha foi num crescendo, com um debate, pelo meio, que meteu num chinelo todos os debates que se fizeram agora. Aquilo, sim, foi um debate, uma espécie de suicídio em directo, que esmagou Mário Soares, apanhado de surpresa pelo seu velho amigo Basílio. Basílio, o mais centrista de todos os centristas, tinha-se, também ele, libertado dos cânones do partido e do seu moderado passado. Também ele decidira avançar, sozinho, para combater o sistema, o soarismo e o cavaquismo e o mais que houvesse para combater. Por junto, Basílio estava contra todo o país político. Na comissão directiva do CDS (esse tenebroso directório partidário) fizeram-se, um dia, as contas: Basílio não contava com um único voto. O velho CDS, de Freitas do Amaral a Adriano Moreira, tinha pouco (ou nada) a ver com este tipo de vanguardismos. Basílio, entretanto, apelava a todos os “espoliados” e aos descamisados das mais diversas origens. A partir de certa altura, também ele sentiu que estava no centro de um “movimento”. Havia gente com um odiozinho especial a Mário Soares. E havia os que não gostavam do cavaquismo. Os que estavam fora do sistema. Os que não se interessavam pela política. Contas feitas, o movimento saldou-se em 14 (ou 16, já não me recordo e para o caso é indiferente) por cento dos votos. E Basílio entrou em reflexão. O seu resultado, ao lado dos resultados que costumava ter o partido (uns miseráveis quatro por cento), era um exclusivo que convinha manter em circulação. Basílio, também ele, falava dos “seus” 14 por cento, com especial carinho, e da esperança que se depositara nele. Depois de alguma reflexão e esgotadas algumas possibilidades, o candidato decidiu oferecer generosamente ao CDS o “seu” resultado eleitoral. Ele que tinha sido escorraçado pelas estruturas do partido entregava-lhes, sem ressentimentos, os votos que tinha obtido. A coisa tinha água no bico. Mas de qualquer forma a direcção do CDS, num acesso de purismo, resolveu recusar esses votos: segundo a comissão directiva, estavam “contaminados” pela extrema-direita. A “Pátria amputada” não fazia parte do léxico democrata-cristão. Na altura, o imbróglio deu que falar. Depois, os votos de Basílio fugiram de Basílio e Basílio ficou sem os votos e sem o partido e sem o lugar de deputado pelo Porto. Uns tempos depois, voltou ao redil do sistema. E os “seus” votos mudaram de mãos. Segundo consta, estão agora com Manuel Alegre. Que também não percebe que os votos não são seus. Mas, mais tarde ou mais cedo, também ele vai acabar por perceber. Como Basílio Horta. E até Freitas do Amaral. Alguém se lembra da Fundação Século XXI? Era assim que se chamava, não era?
(actualizado)
ccs

Deus caritas est

Ia escrever hoje sobre a primeira encíclica de Bento XVI. Mas, depois do que foi escrito aqui, decidi adiar as minhas considerações para mais tarde.
ccs

sábado, janeiro 28, 2006

Baixas

Ontem, Manuel Alegre "meteu" baixa na Assembleia da República e faltou ao debate mensal. Hoje, o mesmo Manuel Alegre reuniu com as estruturas da sua candidatura e anunciou a criação de um movimento de cidadãos para debater os grandes temas nacionais. É o que se chama uma baixa selectiva. Própria de um bom cidadão!
ccs

Amadeus


Embora não tenha visto, ontem, o filme, reviu-o, hoje, quando li este texto do João Gonçalves sobre Salieri, o compositor a quem Deus terá deixado apenas “o talento do fracasso”. É verdade que Salieri foi mais do que o filme o “pinta”. Mas não é por acaso que o filme vale pela forma como Salieri é "pintado". A personagem de Salieri mostra, não a loucura do génio, mas a loucura de um homem que se sente preterido por Deus. Um homem a quem foi dado o talento para reconhecer o génio sem ter recebido, em contrapartida, a “graça” que lhe permitiria alcançá-lo. A “mediocridade” de Salieri vem deste reconhecimento: dos seus limites, da sua impotência, da sua solidão perante a gratuitidade do génio. Só ele, a quem Deus, na sua infinita injustiça, deu o talento de saber “ouvir”, é capaz de compreender a genialidade de Mozart. O homem normal, o “ouvido” da corte, desconhece estes abismos da criação: o esforço inglório de Salieri e a imensa facilidade dos que, como Mozart, foram tocados pela "graça" divina. A revolta de Salieri, a sua loucura final, acompanhada pela música de Mozart (concerto para piano nº 20, se não me engano) mostra o imenso “talento do fracasso”, como diz o João, perante a “normalidade” dos homens e o génio inalcansável daqueles que foram eleitos. O Mozart de Forman, na sua exterior vulgaridade, é uma caricatura que serve apenas de contraponto à personagem de Salieri. Deus é injusto. Até naqueles que escolhe!

"Um pouco mais de sol – eu era brasa/Um pouco mais de azul – eu era além/Para atingir, faltou-me um golpe de asa…/Se ao menos eu permanecesse aquém…"
Quase, Mário de Sá-Carneiro
ccs

Mozart

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Ontem, deixei escapar os 250 anos de Mozart. As efemérides valem o que valem mas põem a matéria em dia o que tem algumas vantagens. Mozart não fez parte dos meus “eleitos” iniciais, achava-o, como já foi escrito aqui, demasiado perfeito, demasiado banal. Mozart andava, por aí, pelos elevadores e pelos bares dos hotéis de luxo, a servir de pano de fundo ao quotidiano de cada um. Eu, pelo meu lado, tinha-me convertido ao barroco: ouvia Haendel e Bach e achava que não existia mais nada para além destes compositores. Talvez Wagner mas muito de vez em quando e em oposição ao lirismo de Verdi. A adolescência tem destas coisas! Mais tarde, e menos dada a este tipo de excessos, cheguei a Mozart, por via de Haydn. Hoje, estou convencida de que só se gosta verdadeiramente de Mozart a partir de uma certa idade. A percepção do génio que, por vezes, se confunde com leveza e superficialidade exige um equilíbrio e uma atenção que se conseguem com o tempo, depois de ultrapassados os entusiasmos da juventude. Só, nessa altura, se consegue descobrir a absoluta perfeição de uma ópera como Don Giovanni. Pelo menos, foi assim que eu a “descobri”. Ao mesmo tempo que descobri o quinteto para clarinete, os concertos para piano, os quartetos dedicados a Haydn e as “Nozze di Figaro”. E os concertos para dois e três pianos tocados por Radu Lupu e Murray Perahia que deixo como recomendação do dia: Mozart- Concertos for two & three pianos, Murray Perahia, Radu Lupu, ed. Sony.
ccs

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O contraditório

Comentário de Rodrigo Adão Fonseca, no Blue Lounge.
A CCS escreve, hoje, no Espectro, um post - «Os mestres do Liberalismo» - onde tece um conjunto de considerações diversas sobre um tema recorrente na blogosfera: o «purismo» ideológico na discussão do liberalismo.
1. Há, de facto, na blogosfera, e na discussão deste assunto em particular, muito ruído; em boa medida, porque a blogosfera é um espaço onde cada um pode escrever sem restrições; em parte, também, porque há bastante juventude, de sangue quente (ou aquecido à pressa por impulso hormonal); ou ainda muita gente que está num processo embrionário de formação, o que leva a que as imprecisões abundem com frequência; há, finalmente, um «cruzamento», interessante, mas potencialmente explosivo, entre interesses divergentes: de reflexão para-académica, de acção política e partidária, de aspiração mediática ou jornalística; ora, o modo como se alinham os conteúdos faz com que o output final seja muitas vezes criticável na perspectiva do outro, e dê lugar a acesas discussões.
2. A tudo isto acresce uma enorme dificuldade de definição do conteúdo do liberalismo. Não sendo, como o marxismo, uma doutrina com paternidade conhecida, mas uma corrente de pensamento que acomoda várias tendências e abordagens, com uma tradição plurisecular e multicultural, a sua conceptualização é aberta e até difusa.
3. As reservas que acima coloco não devem impedir, contudo, que na discussão e no debate haja um espaço para quem opte por situar o liberalismo dentro da malha larga (e estrita) em que ele se insere; sobretudo se tivermos em atenção que muito do que se publica por aí se inspira numa escrita leve e muitas vezes até negligente, embora apresentada de uma forma pomposa, barroca e até supostamente erudita. Há um espaço liberal em Portugal, de gente jovem que imprimiu na sua vida uma cultura de exigência, e que não se submete a um politicamente correcto, onde a preguiça e a escrita leve são rotuladas de «pragmatismo», e a prudência, o estudo e a preocupação pelo rigor de «pureza bacteriológica».
4. Infelizmente, num país onde a maioria da população se diz católica mas ninguém reza, e onde o filme português mais visto de sempre foi «O crime do Padre Amaro», é também relativamente fácil vender a ideia de que existem «por aí» uns «frades negros do liberalismo», agarrados aos seus dogmas, de «dedo em riste», a atormentar não sei bem quem (o post da CCS não esclarece quem são os perseguidos pelos novos «Torquemadas»).
5. Concordo que em Portugal o debate de ideias está excessivamente personalizado, e se desenrola com uma elevada falta de civismo. E, certo, está marcado por uma forte intolerância. Mas a CCS que me perdoe, mas o seu post está, neste contexto, enviesado, porque o mau carácter, a falta de educação, e o desrespeito pelos outros - o tal «dedinho em riste», o pensamento de «cartilha», os «princípios de seita», as «certezas iluminadas», as «exibições mesquinhas» e os «egos mal ajustados» - estão, infelizmente, por todo o lado.
6. O post da CCS «dispara para o ar», fazendo uma data de «vítimas civis». Por várias vezes pensei deixar de escrever na blogosfera, porque me cansa estar sistematicamente a ser bombardeado, mesmo quando a lama não me era directamente dirigida (como penso que é o caso). Que a «miudagem» se entertenha neste tipo de quezílias é-me indiferente, mas que uma jornalista da envergadura de CCS, num blogue lido por milhares de pessoas, se submeta a semelhante exercício, traduz-se numa tremenda desilusão.

Rodrigo Adão da Fonseca, Blue Lounge

A propósito dos mestres do liberalismo


Antes de ir directa ao assunto, decidi esclarecer um pequeno equívoco. Confesso que hesitei na oportunidade do esclarecimento. Mas, dadas as circunstâncias, talvez se justifique este inoportuno regresso a um episódio passado. Na altura, não me pronunciei sobre o caso. Limitei-me a seguir o “debate” que se seguiu, com uma estranheza crescente, custando-me a compreender como é que se armazena um ódio tão recalcado. Mas retirei O Blasfémias (é disso que estou a falar) das minhas leituras diárias. Há pouco tempo, deixei lá um esclarecimento sobre um texto que tinha escrito. Mas não tenciono entrar em diálogo (como me foi sugerido na caixa de comentários do post anterior), com gente que, na minha opinião, não respeita as mais elementares regras de educação – sim, considero a educação essencial a uma sociedade civilizada; e não, não considero o insulto, pessoal e rasteiro, um exemplo de liberdade e, muito menos, de verticalidade. Dito isto, convém esclarecer o seguinte: os “Mestres do liberalismo” existem para além dos "blasfemos". Não é um "ajuste de contas". Mas também não vou comentar “respostas” enviesadas. E não tenciono escrever, nem mais uma linha, sobre esta desagradável matéria. Quanto ao liberalismo, isso, é outra conversa!
ccs

Os mestres do liberalismo

Se eu me guiasse por alguns faróis do liberalismo que iluminam a blogosfera, já me tinha provavelmente albergado à sombra do socialismo. Intolerância por intolerância, antes a velha esquerda marxista do que este arrivismo ideológico que passa por liberalismo. Basta ler certas coisas que se escrevem, por aí, para se perceber que, para os seus mais zelosos apóstolos, o liberalismo…não é liberal. É um intricado de regras invioláveis e de certezas iluminadas. Uma luta feroz pela imposição da ortodoxia. E um campeonato pueril de exibições mesquinhas e de egos mal ajustados. Ser mais liberal do que qualquer outro liberal é o grande desígnio que anima certos liberais. O liberalismo é o exclusivo de uns tantos: há sempre alguém, de cartilha em punho e de dedinho em riste, disposto a zelar pelos princípios da seita. O mínimo desvio e a mais leve heterodoxia são imediatamente denunciados pela pena fácil dos mestres. Os mestres, na sua prodigiosa sabedoria, conhecem, apenas, um único caminho: os liberais, se quiserem ser liberais, têm que pensar segundo cânones liberais que foram criteriosamente estabelecidos pelas autoridades liberais, entretanto, designadas. E os cânones são apertadinhos. Não dão azo a deambulações do espírito. Nem a tergiversações doutrinais. A coroa de glória dos mestres é apanhar um liberal em falta. Denunciá-lo na praça pública. Apontar-lhe a ignorância. E mostrar, pelo caminho, a sua superior inteligência de mestre. O mínimo que se pode dizer é que esta gente, coitada, faz pior ao liberalismo que todos os apologistas do Estado.
ccs

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Cavaco Silva e a direita (I)

"Com o bloco central a mandar, não há dúvida de que a direita tem espaço para crescer”, Eduardo Nogueira Pinto, O Acidental

Este é precisamente um dos pontos onde divergimos. A eleição de Cavaco Silva, o entendimento com Sócrates, o desprezo pela ideologia, o bloco central, enfim, não garante, à direita, esse espaço mítico de crescimento. Há anos que a direita se conforma com o presente, na desesperada esperança de poder ganhar o futuro. Com mais ou menos optimismo. Com mais ou menos sensatez. Para a direita, é apenas uma questão de tempo. Segundo ENP, "a direita é minoritária (mas está certa): o seu objectivo, para já, deve ser crescer”. Nem o marxismo, de saudosa memória, tinha tanta fé no progresso da história. O problema, no entanto, vem do passado: há anos que a direita tem como objectivo crescer. Sem o conseguir. Nos tempos do cavaquismo que, agora, em certa medida, regressam, a direita foi reduzida à sua mais elementar expressão. Como ENP reconhece, "a direita gosta de ganhar dinheiro". Perante os favores do cavaquismo, afundou-se literalmente: com o liberalismo de Lucas Pires, o conservadorismo de Adriano Moreira e, finalmente, e já em desespero, com o “centrismo” de Freitas do Amaral. Três anos de governo, entre o PP de Paulo Portas e o PSD de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes, mostraram até que ponto a direita pode “estar certa”. Pensar, agora, que vai renascer das cinzas, à custa da coabitação institucional, é não perceber que essa coabitação é apenas uma forma de garantir o “desenvolvimento”, à revelia das subtilezas da ideologia. Se o “desenvolvimento” falhar, termina a coabitação e Cavaco Silva transforma-se no polo de qualquer alternativa. Como sempre, resta à direita segui-lo. Ou ficar sozinha perante o eventual sucesso deste bloco central que tão prometedor lhe parecia.
ccs

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A direita

A direita rejubila porque foi finalmente eleito um Presidente que não é de esquerda. Pela forma como o eleito é sempre definido por esta subtil negativa, presume-se que, embora não sendo de esquerda, também não possa ser colocado à direita – nem sequer pela própria direita. Aparentemente, o eleito nem é de esquerda, nem é de direita. Aliás, rezam as crónicas que a sua candidatura acabou com esta estafada dicotomia. Ele, próprio, não se reconhecia nela. Preferia estar, do lado do “desenvolvimento”, contra (ou melhor, tendo em conta o espírito da sua campanha, em desacordo) com aqueles que se conformavam com o “desemprego”. Seja como for, não se percebe bem por que motivo rejubila a direita. Só a ponta esquerda da esquerda considerava que a Presidência ainda era um feudo da esquerda. E o eleito não será de esquerda? Entre ele e Sócrates não se vêm grandes diferenças. Mas Sócrates, se calhar, devia ser definido da mesma maneira: como um primeiro-ministro que não é de direita. Por força do voto, juntaram-se os dois ao centro. Talvez seja por isso que a direita rejubila. Porque se sente predestinada a ocupar um espaço – que seria o da verdadeira direita – à margem da política do governo e da tutela presidencial. Um espaço liberal, recheado de expectativas, que assentaria, como o “movimento” de Manuel Alegre, nas virtudes da cidadania. Só que, em Portugal, a cidadania é do contra e manifesta-se, apenas, em momentos eleitorais. É uma espécie de castigo que o sistema recebe com um susto fingido. Em todas as eleições, há sempre alguém que chama gravemente a atenção para a vitória dos que não se revêem nos partidos. Depois a cidadania desaparece, no meio dos problemas do dia-a-dia, e os partidos ficam. Iguais a si mesmos. Ou talvez não…porque, a haver alguma reorganização à direita, ela será feita, a partir de Belém, pelo eleito que não é de direita. Não tem emenda, a direita.
ccs

O Estado


O liberalismo que por aí circula parte de um pressuposto interessante: a “sociedade civil” quer ser reformada. Dêem-lhe a palavra, esqueçam o Governo, os burocratas da ordem, e ela corre com o Estado, num ápice, ciente das suas capacidades. Os abusos do Estado, sofridos em silêncio, com a submissão dos fracos, estão na origem dos seus principais problemas. Tirem-lhe o Estado, ou melhor, deixem que ela se liberte do Estado, e ela florescerá com o vigor de todos os libertados. A sua notória fraqueza, a sua debilidade cívica e a sua abstinência forçada são fruto do peso do Estado que ela suporta com indisfarçável repulsa. O pressuposto estaria garantido, quanto mais não seja pelo seu carácter épico, não fosse o inconveniente desta “sociedade civil”, ambiciosa e autónoma, de facto, não existir. Em Portugal, a “sociedade civil” é um produto do Estado que a emprega e a subsidia e lhe garante o essencial. O país, na sua generalidade, “sociedade civil” incluída, remedeia-se à custa do Estado. Ao contrário do que os liberais apregoam, o Estado, entre nós, não está na origem dos problemas: é chamado à resolução dos mesmos, com natural espalhafato. Para assegurar o emprego à custa da competitividade. Para evitar falências. Para garantir os direitos consagrados na Constituição. Para distribuir subsídios que promovam a cultura, investimentos que beneficiem os empresários e iniciativas da “sociedade civil” que não existe, nem se manifesta se não à custa do Estado. O Estado, em Portugal, tem as costas demasiado largas.
(Actualizado)
ccs

DE MANHÃ





















"People demand freedom of speech as a compensation for the freedom of thought which they seldom use"

Soren Kierkegaard

(1813-1855)

DE NOITE






















"It has been said that man is a rational animal. All my life I have been searching for evidence which coul support this."

Bertrand Russel
(1872-1970)

terça-feira, janeiro 24, 2006

Atropelos

2005-199 herbert paus, american magazine
Parece que o grande acontecimento da noite eleitoral foi a intervenção de Sócrates, em cima de Manuel Alegre e em "directo" para as televisões. O caso teve honras de escândalo, deu direito a acusações e até o porta-voz do PS se sentiu obrigado a jurar pelo seu secretário-geral. Compreende-se a reacção do candidato Manuel Alegre, esse apóstolo da cidadania, lançado numa esfuziante cruzada contra os poderes estabelecidos. A preferência dada pelas televisões ao primeiro-ministro e secretário-geral do PS em detrimento da magnitude do seu segundo lugar só podia ser interpretado com um sinal evidente de "subserviência" e de “governamentalização”.
A tese, curiosamente, foi seguida à letra por alguns “faróis” da Comunicação Social que se sentiram democraticamente ofendidos com a actuação de Sócrates e o comportamento das televisões. Pelos vistos, devia-se ter deixado o primeiro-ministro e secretário-geral do PS a falar sozinho para ouvir atentamente o que ia pela alma de um candidato que tinha ficado pelo caminho. Isto sim revelaria a independência das televisões e ensinaria o primeiro-ministro a ter maneiras e a saber respeitar a importância de quem fica em segundo lugar. Infelizmente, com a vitória de Cavaco Silva, à primeira volta, o segundo lugar, por muito que alimente o ego, garante um futuro incerto às legítimas ambições que alimentam o candidato.
Por muito estimáveis que sejam as opiniões em contrário, naquelas circunstâncias, o critério jornalístico mais adequado era ouvir o primeiro-ministro e secretário-geral do PS. É evidente que ele não era candidato, como já se assinalou com alguma falta de senso, mas é secretário-geral de um partido que apoiou um candidato que perdeu as eleições; e é, enquanto primeiro-ministro, um dos pólos de uma coabitação institucional que nem todos adivinham pacífica. É mais do que suficiente!
Escrito depois de ter lido este óptimo texto de Eduardo Pitta.
ccs

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Por direito próprio

Não figura na lista dos derrotados. Mas contribuiu generosamente para a vitória de Cavaco Silva. Com uma habilidade notável, conseguiu reabilitar uma década de cavaquismo. O país deve-lhe o pântano. O horror ao diálogo. O orçamento do "queijo". E uma colorida gama de malabarismos políticos. António Guterres, o candidato "natural" do PS, que "naturalmente" não se candidatou, foi o principal "branqueador" desse tenebroso passado que a esquerda tanto invocou. Por direito próprio, passa a fazer parte da lista dos derrotados.
ccs

Breve balanço eleitoral

Como já é tarde para grandes reflexões, limito-me a deixar aqui algumas notas avulsas que, mais tarde, desenvolverei.

1. Cavaco Silva foi o grande vencedor da noite. Pouco importa se ganhou por poucas décimas ou se o seu resultado não correspondeu às sondagens iniciais. Ganhou à primeira volta, contra quatro candidatos de esquerda que tinham como único objectivo obrigá-lo a uma segunda volta. É uma vitória mais do que suficiente.
2. Mário Soares foi o grande derrotado da noite. Em política, não há derrotas "injustas". Mas há derrotados que resistem à sua própria derrota. Pode haver equívocos, aventuras desnecessárias, erros estratégicos, mas um político, como Mário Soares, nunca deixa de fazer política. E um político,como Mário Soares, é, hoje, uma raridade política.
3. Manuel Alegre ganhou a noite com o seu ambicionado segundo lugar. Mas não ganhou mais do que isso. Já houve, em Portugal, muita "cidadania" que morreu ao virar da esquina. E Manuel Alegre foi o "candidato da cidadania" apenas porque não foi escolhido pelo partido. Presume-se que vá continuar no partido. Com mais ou menos sarilhos. Com mais ou menos "cidadania".
4. Francisco Louçã foi outro dos grandes derrotados da noite. Ficou em último lugar, não teve mais votos do que o Bloco de Esquerda (ele, que era a "mais valia" do partido) e é a segunda derrota que sofre nos últimos meses. É o problema das "novidades". Cansam, ao fim de algum tempo. E esgotam rapidamente o seu prazo de validade.
5. Jerónimo de Sousa não estancou só a queda do PCP: de eleição para a eleição, tem feito o partido subir de forma inesperada e constante. A desarmante "autenticidade" da ortodoxia comunista rende eleitoralmente. O "bloco central", que se anuncia, anuncia-lhe, a ele, um futuro prometedor.
6. Marques Mendes ganhou, apenas, na medida em que o seu canditado ganhou. Reapareceu ontem, com as bandeiras do PSD e o secretário-geral do partido a "abrir" as comemorações. Sinal dos tempos e das dificuldades que o esperam. A cooperação institucional entre Sócrates e Cavaco não facilita a tarefa do maior partido da oposição. Como já disse Pacheco Pereira e António Borges repetiu, Marques Mendes vai ter tempo para reorganizar o partido e para reformar as suas debilitadas estruturas. Vai ter tempo de menos, tudo indica. E engulhos mais do que suficientes.
7. Finalmente, Sócrates, essa incógnita que por aí anda, umas vezes, ao lado dos vencedores, outras, no rol dos principais derrotados. Mas, por muito patrióticos que sejam os primeiros encontros entre o primeiro-ministro e o novo Presidente da República, Sócrates, a prazo, está condenado, como estão todos os primeiros-ministros, em Portugal, a braços com um "monstro" que não controlam e uma "crise" que os devora. Cavaco Silva, o homem que se comprometeu a acabar com o desemprego e a tirar o país da cauda da Europa, dificilmente cooperará com um Governo que não se mostre à altura das expectativas que ele próprio criou.
8. A direita que se desengane se acha que ganhou com a vitória de Cavaco. A vitória é de Cavaco e Cavaco não é de direita, nem nunca se notabilizou por deixar espaço à direita. Não é preciso ir muito longe: basta ver o que aconteceu nestas presidenciais.
ccs

domingo, janeiro 22, 2006

Reflexões

Bem me parecia que "o argentino" andava por aqui. Foi bom vê-lo, quanto mais não seja numa fotografia. Charmant, êlégant... como sempre! Assim vale a pena reflectir.
ccs