Quando oiço falar do milhão de votos de Manuel Alegre, lembro-me, por associação, dos gloriosos 14 por cento que Basílio Horta conseguiu, em 91, quando se candidatou garbosamente à Presidência da República. Verdade seja dita que o bom do Basílio não se lembrou de se candidatar em nome da cidadania. Candidatou-se modestamente contra a opinião do partido e avançou destemido contra Mário Soares e os interesses estabelecidos. Em nome dos superiores interesses da Pátria e de uma direita (muito especial) que precisava de ser resgatada. A Pátria também, diga-se de passagem. Lembro-me de um jantar, em Coimbra, onde no meio do entusiasmo geral, Basílio se entregou às dores do passado, lamentando uma Pátria “amputada” a necessitar de regeneração. A campanha foi num crescendo, com um debate, pelo meio, que meteu num chinelo todos os debates que se fizeram agora. Aquilo, sim, foi um debate, uma espécie de suicídio em directo, que esmagou Mário Soares, apanhado de surpresa pelo seu velho amigo Basílio. Basílio, o mais centrista de todos os centristas, tinha-se, também ele, libertado dos cânones do partido e do seu moderado passado. Também ele decidira avançar, sozinho, para combater o sistema, o soarismo e o cavaquismo e o mais que houvesse para combater. Por junto, Basílio estava contra todo o país político. Na comissão directiva do CDS (esse tenebroso directório partidário) fizeram-se, um dia, as contas: Basílio não contava com um único voto. O velho CDS, de Freitas do Amaral a Adriano Moreira, tinha pouco (ou nada) a ver com este tipo de vanguardismos. Basílio, entretanto, apelava a todos os “espoliados” e aos descamisados das mais diversas origens. A partir de certa altura, também ele sentiu que estava no centro de um “movimento”. Havia gente com um odiozinho especial a Mário Soares. E havia os que não gostavam do cavaquismo. Os que estavam fora do sistema. Os que não se interessavam pela política. Contas feitas, o movimento saldou-se em 14 (ou 16, já não me recordo e para o caso é indiferente) por cento dos votos. E Basílio entrou em reflexão. O seu resultado, ao lado dos resultados que costumava ter o partido (uns miseráveis quatro por cento), era um exclusivo que convinha manter em circulação. Basílio, também ele, falava dos “seus” 14 por cento, com especial carinho, e da esperança que se depositara nele. Depois de alguma reflexão e esgotadas algumas possibilidades, o candidato decidiu oferecer generosamente ao CDS o “seu” resultado eleitoral. Ele que tinha sido escorraçado pelas estruturas do partido entregava-lhes, sem ressentimentos, os votos que tinha obtido. A coisa tinha água no bico. Mas de qualquer forma a direcção do CDS, num acesso de purismo, resolveu recusar esses votos: segundo a comissão directiva, estavam “contaminados” pela extrema-direita. A “Pátria amputada” não fazia parte do léxico democrata-cristão. Na altura, o imbróglio deu que falar. Depois, os votos de Basílio fugiram de Basílio e Basílio ficou sem os votos e sem o partido e sem o lugar de deputado pelo Porto. Uns tempos depois, voltou ao redil do sistema. E os “seus” votos mudaram de mãos. Segundo consta, estão agora com Manuel Alegre. Que também não percebe que os votos não são seus. Mas, mais tarde ou mais cedo, também ele vai acabar por perceber. Como Basílio Horta. E até Freitas do Amaral. Alguém se lembra da Fundação Século XXI? Era assim que se chamava, não era?(actualizado)
ccs











Hoje é dia de reflexão. Hoje anda tudo, por aí, sorumbaticamente, a reflectir. Em silêncio. Comentários, notícias ou mesmo fotografias impedem a reflexão. A reflexão é frágil. Qualquer pequena frase a abala. Felizmente, a lei zela pelo direito dos cidadãos a uma reflexão tranquila. Sem ruído, nem perturbações. Sem nada que os possa ajudar a reflectir. 







