sexta-feira, janeiro 27, 2006

O contraditório

Comentário de Rodrigo Adão Fonseca, no Blue Lounge.
A CCS escreve, hoje, no Espectro, um post - «Os mestres do Liberalismo» - onde tece um conjunto de considerações diversas sobre um tema recorrente na blogosfera: o «purismo» ideológico na discussão do liberalismo.
1. Há, de facto, na blogosfera, e na discussão deste assunto em particular, muito ruído; em boa medida, porque a blogosfera é um espaço onde cada um pode escrever sem restrições; em parte, também, porque há bastante juventude, de sangue quente (ou aquecido à pressa por impulso hormonal); ou ainda muita gente que está num processo embrionário de formação, o que leva a que as imprecisões abundem com frequência; há, finalmente, um «cruzamento», interessante, mas potencialmente explosivo, entre interesses divergentes: de reflexão para-académica, de acção política e partidária, de aspiração mediática ou jornalística; ora, o modo como se alinham os conteúdos faz com que o output final seja muitas vezes criticável na perspectiva do outro, e dê lugar a acesas discussões.
2. A tudo isto acresce uma enorme dificuldade de definição do conteúdo do liberalismo. Não sendo, como o marxismo, uma doutrina com paternidade conhecida, mas uma corrente de pensamento que acomoda várias tendências e abordagens, com uma tradição plurisecular e multicultural, a sua conceptualização é aberta e até difusa.
3. As reservas que acima coloco não devem impedir, contudo, que na discussão e no debate haja um espaço para quem opte por situar o liberalismo dentro da malha larga (e estrita) em que ele se insere; sobretudo se tivermos em atenção que muito do que se publica por aí se inspira numa escrita leve e muitas vezes até negligente, embora apresentada de uma forma pomposa, barroca e até supostamente erudita. Há um espaço liberal em Portugal, de gente jovem que imprimiu na sua vida uma cultura de exigência, e que não se submete a um politicamente correcto, onde a preguiça e a escrita leve são rotuladas de «pragmatismo», e a prudência, o estudo e a preocupação pelo rigor de «pureza bacteriológica».
4. Infelizmente, num país onde a maioria da população se diz católica mas ninguém reza, e onde o filme português mais visto de sempre foi «O crime do Padre Amaro», é também relativamente fácil vender a ideia de que existem «por aí» uns «frades negros do liberalismo», agarrados aos seus dogmas, de «dedo em riste», a atormentar não sei bem quem (o post da CCS não esclarece quem são os perseguidos pelos novos «Torquemadas»).
5. Concordo que em Portugal o debate de ideias está excessivamente personalizado, e se desenrola com uma elevada falta de civismo. E, certo, está marcado por uma forte intolerância. Mas a CCS que me perdoe, mas o seu post está, neste contexto, enviesado, porque o mau carácter, a falta de educação, e o desrespeito pelos outros - o tal «dedinho em riste», o pensamento de «cartilha», os «princípios de seita», as «certezas iluminadas», as «exibições mesquinhas» e os «egos mal ajustados» - estão, infelizmente, por todo o lado.
6. O post da CCS «dispara para o ar», fazendo uma data de «vítimas civis». Por várias vezes pensei deixar de escrever na blogosfera, porque me cansa estar sistematicamente a ser bombardeado, mesmo quando a lama não me era directamente dirigida (como penso que é o caso). Que a «miudagem» se entertenha neste tipo de quezílias é-me indiferente, mas que uma jornalista da envergadura de CCS, num blogue lido por milhares de pessoas, se submeta a semelhante exercício, traduz-se numa tremenda desilusão.

Rodrigo Adão da Fonseca, Blue Lounge

A propósito dos mestres do liberalismo


Antes de ir directa ao assunto, decidi esclarecer um pequeno equívoco. Confesso que hesitei na oportunidade do esclarecimento. Mas, dadas as circunstâncias, talvez se justifique este inoportuno regresso a um episódio passado. Na altura, não me pronunciei sobre o caso. Limitei-me a seguir o “debate” que se seguiu, com uma estranheza crescente, custando-me a compreender como é que se armazena um ódio tão recalcado. Mas retirei O Blasfémias (é disso que estou a falar) das minhas leituras diárias. Há pouco tempo, deixei lá um esclarecimento sobre um texto que tinha escrito. Mas não tenciono entrar em diálogo (como me foi sugerido na caixa de comentários do post anterior), com gente que, na minha opinião, não respeita as mais elementares regras de educação – sim, considero a educação essencial a uma sociedade civilizada; e não, não considero o insulto, pessoal e rasteiro, um exemplo de liberdade e, muito menos, de verticalidade. Dito isto, convém esclarecer o seguinte: os “Mestres do liberalismo” existem para além dos "blasfemos". Não é um "ajuste de contas". Mas também não vou comentar “respostas” enviesadas. E não tenciono escrever, nem mais uma linha, sobre esta desagradável matéria. Quanto ao liberalismo, isso, é outra conversa!
ccs

Os mestres do liberalismo

Se eu me guiasse por alguns faróis do liberalismo que iluminam a blogosfera, já me tinha provavelmente albergado à sombra do socialismo. Intolerância por intolerância, antes a velha esquerda marxista do que este arrivismo ideológico que passa por liberalismo. Basta ler certas coisas que se escrevem, por aí, para se perceber que, para os seus mais zelosos apóstolos, o liberalismo…não é liberal. É um intricado de regras invioláveis e de certezas iluminadas. Uma luta feroz pela imposição da ortodoxia. E um campeonato pueril de exibições mesquinhas e de egos mal ajustados. Ser mais liberal do que qualquer outro liberal é o grande desígnio que anima certos liberais. O liberalismo é o exclusivo de uns tantos: há sempre alguém, de cartilha em punho e de dedinho em riste, disposto a zelar pelos princípios da seita. O mínimo desvio e a mais leve heterodoxia são imediatamente denunciados pela pena fácil dos mestres. Os mestres, na sua prodigiosa sabedoria, conhecem, apenas, um único caminho: os liberais, se quiserem ser liberais, têm que pensar segundo cânones liberais que foram criteriosamente estabelecidos pelas autoridades liberais, entretanto, designadas. E os cânones são apertadinhos. Não dão azo a deambulações do espírito. Nem a tergiversações doutrinais. A coroa de glória dos mestres é apanhar um liberal em falta. Denunciá-lo na praça pública. Apontar-lhe a ignorância. E mostrar, pelo caminho, a sua superior inteligência de mestre. O mínimo que se pode dizer é que esta gente, coitada, faz pior ao liberalismo que todos os apologistas do Estado.
ccs

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Cavaco Silva e a direita (I)

"Com o bloco central a mandar, não há dúvida de que a direita tem espaço para crescer”, Eduardo Nogueira Pinto, O Acidental

Este é precisamente um dos pontos onde divergimos. A eleição de Cavaco Silva, o entendimento com Sócrates, o desprezo pela ideologia, o bloco central, enfim, não garante, à direita, esse espaço mítico de crescimento. Há anos que a direita se conforma com o presente, na desesperada esperança de poder ganhar o futuro. Com mais ou menos optimismo. Com mais ou menos sensatez. Para a direita, é apenas uma questão de tempo. Segundo ENP, "a direita é minoritária (mas está certa): o seu objectivo, para já, deve ser crescer”. Nem o marxismo, de saudosa memória, tinha tanta fé no progresso da história. O problema, no entanto, vem do passado: há anos que a direita tem como objectivo crescer. Sem o conseguir. Nos tempos do cavaquismo que, agora, em certa medida, regressam, a direita foi reduzida à sua mais elementar expressão. Como ENP reconhece, "a direita gosta de ganhar dinheiro". Perante os favores do cavaquismo, afundou-se literalmente: com o liberalismo de Lucas Pires, o conservadorismo de Adriano Moreira e, finalmente, e já em desespero, com o “centrismo” de Freitas do Amaral. Três anos de governo, entre o PP de Paulo Portas e o PSD de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes, mostraram até que ponto a direita pode “estar certa”. Pensar, agora, que vai renascer das cinzas, à custa da coabitação institucional, é não perceber que essa coabitação é apenas uma forma de garantir o “desenvolvimento”, à revelia das subtilezas da ideologia. Se o “desenvolvimento” falhar, termina a coabitação e Cavaco Silva transforma-se no polo de qualquer alternativa. Como sempre, resta à direita segui-lo. Ou ficar sozinha perante o eventual sucesso deste bloco central que tão prometedor lhe parecia.
ccs

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A direita

A direita rejubila porque foi finalmente eleito um Presidente que não é de esquerda. Pela forma como o eleito é sempre definido por esta subtil negativa, presume-se que, embora não sendo de esquerda, também não possa ser colocado à direita – nem sequer pela própria direita. Aparentemente, o eleito nem é de esquerda, nem é de direita. Aliás, rezam as crónicas que a sua candidatura acabou com esta estafada dicotomia. Ele, próprio, não se reconhecia nela. Preferia estar, do lado do “desenvolvimento”, contra (ou melhor, tendo em conta o espírito da sua campanha, em desacordo) com aqueles que se conformavam com o “desemprego”. Seja como for, não se percebe bem por que motivo rejubila a direita. Só a ponta esquerda da esquerda considerava que a Presidência ainda era um feudo da esquerda. E o eleito não será de esquerda? Entre ele e Sócrates não se vêm grandes diferenças. Mas Sócrates, se calhar, devia ser definido da mesma maneira: como um primeiro-ministro que não é de direita. Por força do voto, juntaram-se os dois ao centro. Talvez seja por isso que a direita rejubila. Porque se sente predestinada a ocupar um espaço – que seria o da verdadeira direita – à margem da política do governo e da tutela presidencial. Um espaço liberal, recheado de expectativas, que assentaria, como o “movimento” de Manuel Alegre, nas virtudes da cidadania. Só que, em Portugal, a cidadania é do contra e manifesta-se, apenas, em momentos eleitorais. É uma espécie de castigo que o sistema recebe com um susto fingido. Em todas as eleições, há sempre alguém que chama gravemente a atenção para a vitória dos que não se revêem nos partidos. Depois a cidadania desaparece, no meio dos problemas do dia-a-dia, e os partidos ficam. Iguais a si mesmos. Ou talvez não…porque, a haver alguma reorganização à direita, ela será feita, a partir de Belém, pelo eleito que não é de direita. Não tem emenda, a direita.
ccs

O Estado


O liberalismo que por aí circula parte de um pressuposto interessante: a “sociedade civil” quer ser reformada. Dêem-lhe a palavra, esqueçam o Governo, os burocratas da ordem, e ela corre com o Estado, num ápice, ciente das suas capacidades. Os abusos do Estado, sofridos em silêncio, com a submissão dos fracos, estão na origem dos seus principais problemas. Tirem-lhe o Estado, ou melhor, deixem que ela se liberte do Estado, e ela florescerá com o vigor de todos os libertados. A sua notória fraqueza, a sua debilidade cívica e a sua abstinência forçada são fruto do peso do Estado que ela suporta com indisfarçável repulsa. O pressuposto estaria garantido, quanto mais não seja pelo seu carácter épico, não fosse o inconveniente desta “sociedade civil”, ambiciosa e autónoma, de facto, não existir. Em Portugal, a “sociedade civil” é um produto do Estado que a emprega e a subsidia e lhe garante o essencial. O país, na sua generalidade, “sociedade civil” incluída, remedeia-se à custa do Estado. Ao contrário do que os liberais apregoam, o Estado, entre nós, não está na origem dos problemas: é chamado à resolução dos mesmos, com natural espalhafato. Para assegurar o emprego à custa da competitividade. Para evitar falências. Para garantir os direitos consagrados na Constituição. Para distribuir subsídios que promovam a cultura, investimentos que beneficiem os empresários e iniciativas da “sociedade civil” que não existe, nem se manifesta se não à custa do Estado. O Estado, em Portugal, tem as costas demasiado largas.
(Actualizado)
ccs

DE MANHÃ





















"People demand freedom of speech as a compensation for the freedom of thought which they seldom use"

Soren Kierkegaard

(1813-1855)

DE NOITE






















"It has been said that man is a rational animal. All my life I have been searching for evidence which coul support this."

Bertrand Russel
(1872-1970)

terça-feira, janeiro 24, 2006

Atropelos

2005-199 herbert paus, american magazine
Parece que o grande acontecimento da noite eleitoral foi a intervenção de Sócrates, em cima de Manuel Alegre e em "directo" para as televisões. O caso teve honras de escândalo, deu direito a acusações e até o porta-voz do PS se sentiu obrigado a jurar pelo seu secretário-geral. Compreende-se a reacção do candidato Manuel Alegre, esse apóstolo da cidadania, lançado numa esfuziante cruzada contra os poderes estabelecidos. A preferência dada pelas televisões ao primeiro-ministro e secretário-geral do PS em detrimento da magnitude do seu segundo lugar só podia ser interpretado com um sinal evidente de "subserviência" e de “governamentalização”.
A tese, curiosamente, foi seguida à letra por alguns “faróis” da Comunicação Social que se sentiram democraticamente ofendidos com a actuação de Sócrates e o comportamento das televisões. Pelos vistos, devia-se ter deixado o primeiro-ministro e secretário-geral do PS a falar sozinho para ouvir atentamente o que ia pela alma de um candidato que tinha ficado pelo caminho. Isto sim revelaria a independência das televisões e ensinaria o primeiro-ministro a ter maneiras e a saber respeitar a importância de quem fica em segundo lugar. Infelizmente, com a vitória de Cavaco Silva, à primeira volta, o segundo lugar, por muito que alimente o ego, garante um futuro incerto às legítimas ambições que alimentam o candidato.
Por muito estimáveis que sejam as opiniões em contrário, naquelas circunstâncias, o critério jornalístico mais adequado era ouvir o primeiro-ministro e secretário-geral do PS. É evidente que ele não era candidato, como já se assinalou com alguma falta de senso, mas é secretário-geral de um partido que apoiou um candidato que perdeu as eleições; e é, enquanto primeiro-ministro, um dos pólos de uma coabitação institucional que nem todos adivinham pacífica. É mais do que suficiente!
Escrito depois de ter lido este óptimo texto de Eduardo Pitta.
ccs

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Por direito próprio

Não figura na lista dos derrotados. Mas contribuiu generosamente para a vitória de Cavaco Silva. Com uma habilidade notável, conseguiu reabilitar uma década de cavaquismo. O país deve-lhe o pântano. O horror ao diálogo. O orçamento do "queijo". E uma colorida gama de malabarismos políticos. António Guterres, o candidato "natural" do PS, que "naturalmente" não se candidatou, foi o principal "branqueador" desse tenebroso passado que a esquerda tanto invocou. Por direito próprio, passa a fazer parte da lista dos derrotados.
ccs

Breve balanço eleitoral

Como já é tarde para grandes reflexões, limito-me a deixar aqui algumas notas avulsas que, mais tarde, desenvolverei.

1. Cavaco Silva foi o grande vencedor da noite. Pouco importa se ganhou por poucas décimas ou se o seu resultado não correspondeu às sondagens iniciais. Ganhou à primeira volta, contra quatro candidatos de esquerda que tinham como único objectivo obrigá-lo a uma segunda volta. É uma vitória mais do que suficiente.
2. Mário Soares foi o grande derrotado da noite. Em política, não há derrotas "injustas". Mas há derrotados que resistem à sua própria derrota. Pode haver equívocos, aventuras desnecessárias, erros estratégicos, mas um político, como Mário Soares, nunca deixa de fazer política. E um político,como Mário Soares, é, hoje, uma raridade política.
3. Manuel Alegre ganhou a noite com o seu ambicionado segundo lugar. Mas não ganhou mais do que isso. Já houve, em Portugal, muita "cidadania" que morreu ao virar da esquina. E Manuel Alegre foi o "candidato da cidadania" apenas porque não foi escolhido pelo partido. Presume-se que vá continuar no partido. Com mais ou menos sarilhos. Com mais ou menos "cidadania".
4. Francisco Louçã foi outro dos grandes derrotados da noite. Ficou em último lugar, não teve mais votos do que o Bloco de Esquerda (ele, que era a "mais valia" do partido) e é a segunda derrota que sofre nos últimos meses. É o problema das "novidades". Cansam, ao fim de algum tempo. E esgotam rapidamente o seu prazo de validade.
5. Jerónimo de Sousa não estancou só a queda do PCP: de eleição para a eleição, tem feito o partido subir de forma inesperada e constante. A desarmante "autenticidade" da ortodoxia comunista rende eleitoralmente. O "bloco central", que se anuncia, anuncia-lhe, a ele, um futuro prometedor.
6. Marques Mendes ganhou, apenas, na medida em que o seu canditado ganhou. Reapareceu ontem, com as bandeiras do PSD e o secretário-geral do partido a "abrir" as comemorações. Sinal dos tempos e das dificuldades que o esperam. A cooperação institucional entre Sócrates e Cavaco não facilita a tarefa do maior partido da oposição. Como já disse Pacheco Pereira e António Borges repetiu, Marques Mendes vai ter tempo para reorganizar o partido e para reformar as suas debilitadas estruturas. Vai ter tempo de menos, tudo indica. E engulhos mais do que suficientes.
7. Finalmente, Sócrates, essa incógnita que por aí anda, umas vezes, ao lado dos vencedores, outras, no rol dos principais derrotados. Mas, por muito patrióticos que sejam os primeiros encontros entre o primeiro-ministro e o novo Presidente da República, Sócrates, a prazo, está condenado, como estão todos os primeiros-ministros, em Portugal, a braços com um "monstro" que não controlam e uma "crise" que os devora. Cavaco Silva, o homem que se comprometeu a acabar com o desemprego e a tirar o país da cauda da Europa, dificilmente cooperará com um Governo que não se mostre à altura das expectativas que ele próprio criou.
8. A direita que se desengane se acha que ganhou com a vitória de Cavaco. A vitória é de Cavaco e Cavaco não é de direita, nem nunca se notabilizou por deixar espaço à direita. Não é preciso ir muito longe: basta ver o que aconteceu nestas presidenciais.
ccs

domingo, janeiro 22, 2006

Reflexões

Bem me parecia que "o argentino" andava por aqui. Foi bom vê-lo, quanto mais não seja numa fotografia. Charmant, êlégant... como sempre! Assim vale a pena reflectir.
ccs

O vício reformista

Estranho texto este de Henrique Raposo. Um arrazoado contra o sindicalismo, a favor de reformas essenciais ao sistema e em particular à Justiça, inspirado numas declarações de Proença de Carvalho. Com uma diferença em relação ao inspirador: as ideias de Proença de Carvalho existem, as reformas que defende na Justiça são conhecidas de todos, desde o tempo de Cunha Rodrigues. As de Henrique Raposo são uma incógnita que o texto (longo) não tenta sequer desvendar. Assim, somos todos grandes reformistas, sem saber bem o que queremos reformar.
P.S. Para que se saiba: a oposição às teses defendidas por Proença de Carvalho ultrapassa os limites do sindicalismo. De qualquer forma, talvez fosse mais apropriado falar de corporações e não tanto de sindicatos.
ccs

O caso do envelope 9



Hoje é um bom dia para escrever sobre o caso do “envelope 9” e a chuva de indignações que se viu cair por aí. Uma semana depois do “escândalo” ter dado à luz, quando meio país já exigiu a demissão do Procurador-Geral, exigindo, ao mesmo tempo, a abertura de um inquérito e resultados imediatos (uma contradição que faz parte de qualquer escândalo que se preze), é cada vez mais difícil perceber a natureza de todo este imbróglio. De qualquer forma, convém clarificar alguns pontos.

1.As escutas. Primeiro eram escutas. Candidatos presidenciais, dirigentes partidários, comentadores avulsos pronunciaram-se, com a indignação à solta, sobre as escutas do “envelope 9”. E as escutas do “envelope 9” serviram de pretexto às mais amplas dissertações sobre o abuso das escutas, os danos das escutas, a arbitrariedade das escutas. Houve mesmo quem, num rasgo de pura irresponsabilidade, defendesse o fim das escutas. Depois, percebeu-se que afinal não tinha havido escutas.

2.Em contrapartida, havia um registo “escondido” de chamadas feitas por altas individualidades do Estado que o Ministério Público tinha obrigação de ter descodificado. A história não é assim tão simples. Ainda está, de facto, por esclarecer o papel do Ministério Público neste sarilho informático. Souto Moura diz que os dados que recebeu da PT foram analisados por peritos da PJ que não detectaram o filtro, nem as chamadas “escondidas”. Se isto for verdade, não há adjectivos que qualifiquem os métodos de investigação da Judiciária. Mas ainda está por esclarecer, também, o papel do advogado Sá Fernandes que teve esses mesmos dados na mão e que contou com a oportuna ajuda de um perito informático. Como está por esclarecer a autoria da difícil e morosa investigação que foi parar à primeira página do 24horas. Aparentemente, o jornal conta com especialistas muito mais bem preparados do que os da PJ e o de Sá Fernandes.

3.A ida de Souto Moura a Belém, por exigência do Presidente da República é, no mínimo, extravagante. Em fim de mandato, Jorge Sampaio não pode demitir o Procurador-Geral – aliás, não se demite um Procurador-Geral a reboque da primeira página de um jornal, ao contrário do que alguns possam pensar. Ao chamar Souto Moura a Belém, o Presidente limitou-se a debilitar, ainda mais, o Ministério Público, sem ter uma alternativa, uma solução ou uma saída que justificasse o carácter dramático do gesto. Não é a melhor forma de contribuir para o regular funcionamento das instituições.

4.Por fim, a Assembleia da República. Algo vai mal na Justiça, quando um Procurador-Geral é obrigado a explicar aos deputados os contornos de um processo que está a ser julgado em Tribunal. Honra lhes seja feita, os deputados do PCP foram os únicos que se deram conta da falta de legitimidade desta inquirição parlamentar. Para cúmulo, sem sequer estar concluído o inquérito.

5. Concluindo: espera-se que este caso seja, de facto, esclarecido.
ccs

sábado, janeiro 21, 2006

A importâcia do nome

O Rodrigo tem razão: o caso do "envelope 9” é finalmente um caso com um nome capaz. Mérito dos jornalistas, com certeza, já que os casos titulados pela Polícia Judiciária, com o patrocínio do Ministério Público, têm sempre nomes pelintras, que empobrecem a língua e deixam ficar mal o país. Basta comparar a densa originalidade do “envelope 9” com a escolha pindérica do “apito dourado” ou do “saco azul” de Felgueiras. Aliás, os nomes que a Polícia Judiciária inventa para as suas operações deviam merecer um estudo aturado: a operação “reveillon”, a operação “yanke”, a operação “furacão”, a operação “cai neve”, a operação “a voz do deserto”, a operação “final feliz” são apenas alguns exemplos que revelam a esfusiante criatividade que existe na nossa esforçada polícia. O caso do “envelope 9”, com o seu misterioso algarismo e a sua finura linguística, tem requintes de originalidade que as autoridades judiciais deviam saber usar. O desenvolvimento de Portugal passa também por aí.
p.s. O Rodrigo tem razão mas o seu post já deve estar no arquivo. Apesar disso, a ideia percebe-se...
ccs

Reflexão

Hoje é dia de reflexão. Hoje anda tudo, por aí, sorumbaticamente, a reflectir. Em silêncio. Comentários, notícias ou mesmo fotografias impedem a reflexão. A reflexão é frágil. Qualquer pequena frase a abala. Felizmente, a lei zela pelo direito dos cidadãos a uma reflexão tranquila. Sem ruído, nem perturbações. Sem nada que os possa ajudar a reflectir.
ccs

Apagadas

Tive que apagar as fotografias para tentar recuperar a barra de ferramentas. Não consegui.
Já consegui. Depois de muitas tentativas frustradas, o meu filho apareceu, carregou num botão e a barra apareceu. Escusava de ter apagado as fotografias! Para a semana, depois das eleições, vou tentar aperfeiçoar os meus conhecimentos informáticos. As minhas desculpas por estas trapalhadas. (actualizado)
ccs

Fotografias

Estranho...! Ontem quis publicar as últimas fotografias da campanha. Deu erro. O meu htqualquer coisa não estava a funcionar ou coisa que o valha. Desisti. Vejo agora que elas acabaram por ser publicadas hoje a uma hora bastante improvável. Às 12.28? Neste momento, no meu relógio são 12.26. Mistérios das novas tecnologias.
ccs

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Laços de ternura

Caro João

Não é bem ternura...é mais o reconhecimento do que está por trás da aparente derrota de um homem. E é verdade, como já lhe disse, que tenho um certa dificuldade em adaptar-me ao presente.
ccs

Mário Soares



É próprio dos tempos dizer mal de Soares. A candidatura de Soares não tem o benefício da dúvida, nem qualquer grandeza moral: Soares candidata-se por amor-próprio e o motor da sua candidatura é pura e simplesmente a vaidade. Soares está fora do tempo mas foi ele, com a sua megalomania e o seu "umbiguismo" inato, que se pôs fora do tempo, aparecendo onde não era esperado. Soares não tinha que se candidatar. E não tinha, de facto. Podia ter ficado, num lugar de honra, a assistir, ao desastre. Entre as hesitações de Sócrates, a ausência de Guterres e a inevitável recusa de António Vitorino, as responsabilidades já estavam distribuídas. É evidente que havia Manuel Alegre, um “saldo” de última hora a que o PS, em desespero, podia ainda recorrer. Mas Manuel Alegre, com o apoio do PS e sem a aura da cidadania, valia o que valia. E valia pouco.
A “arrogância” de Soares, com que parte da direita se delicia, foi arriscar uma candidatura. Sair do pedestal da história. Ir à luta. Fora de tempo, exibindo a política no seu estado puro. Este último combate de Soares é um combate pela política. Não tanto um exercício de arrogância contra os que não lutaram contra o fascismo. Mas o testemunho de um político que se recusa a aceitar que a política seja apenas um exercício de competência. A “obsessão” contra Cavaco Silva é a obsessão contra um político “intermitente” que escolhe as alturas certas para se candidatar a salvador da Pátria e que, sobretudo, a quer resgatar dos interesses mesquinhos dos “políticos profissionais”.
O mundo de Cavaco Silva, asséptico, limitado e sem a mácula da política, é um mundo estranho a Mário Soares que se formou noutros tempos e noutros combates. A sua candidatura nasce deste equívoco, do facto de não ter percebido que, nos tempos que correm, Cavaco Silva é o homem certo para o lugar certo – exactamente porque não é um político. Educado no esforço e na disciplina, Cavaco Silva representa o mérito, o sucesso e a ascensão a que qualquer português pode aspirar na vida. Cavaco Silva é o português novo que fazia parte da mitologia do cavaquismo. O português que quer vencer e que não se resigna. O português que todos querem ser, trinta anos depois do 25 de Abril. O país, de facto, mudou. Mas isso não retira grandeza ao combate de Mário Soares. Estar fora do tempo é também uma forma de saber estar no tempo.
ccs