Comentário de
Tiago Mendes ao texto de Eduardo Lourenço referido no
post anterior. Não concordo. Mas vale a pena lê-lo para poder discordar. Responderei logo que puder.
Cada um no seu nível (há que ter isto em conta), também Santana Lopes ou Garcia Pereira têm a "paixão" pela politica que Eduardo Lourenço atribui a Soares. Até tem um nome muito conhecido na blogosfera: umbiguismo. Isso não tem nada de mal, ou melhor, nada que não seja perfeitamente "natural". Mas é o que é, e não devemos confundir as coisas. Soares candidata-se sobretudo por "amor proprio", e toda a campanha é um desfilar de atitudes tipicas do lorde que julga ter o rei na barriga, e que tudo pode, que tudo merece. Se insulta e descategoriza os adversários para lá dos limites, vem os anti-politicamente correctos dizer que quem critica isso não percebe nada de política e tem a "mania do respeitinho". Se comete gaffes, não são mostradas, porque provavelmente é um senhor de idade, ou porque ameaçou tanto os orgãos de comunicação social que qualquer estratégia dessas seria a "prova provada" da conspiração contra o octogenario.
"Filho desses dois tempos, de que foi actor político precoce e, depois, personagem histórico, Mário Soares ousou trazer de novo para uma arena pública, já longe desses tempos turbulentos, essa antiga paixão política, sem querer saber se estaria ou não fora de estação."
Isto é verdade, mas em si mesmo não faz um "grande político". Tanto pode ser devido a "coragem", como a estar "fora do tempo". Pode ser "dedicação", ou pode ser "soberba". É preciso conhecer o sujeito e ler o contexto para entender a acção. Achar o gesto de Soares quixotesco é no minimo um pouco insultuoso para o cavaleiro andante.
"O candidato Mário Soares que se lançou neste último combate político de improvável sucesso - e consciente disso - é o mesmo e diverso do que se empenhou jovem na luta por um futuro democrático para Portugal e incarnaria mais tarde o triunfo da democracia sonhada durante dez anos, representando-a e representando-nos aos olhos do mundo, como ninguém".
Mentira dupla - e quase pornográfica. Primeiro, desde o início que muitos acreditavam piamente que Soares tinha boas hipoteses de ganhar. Segundo, é obvio que o próprio também acreditava nisso. Alguem acreditava que Soares se teria voluntariado apenas para fazer Cavaco ir a uma segunda volta? Ridículo. Só um amiguismo troglodita [de EL por MS] pode coarctar tanto a lucidez. Soares tem muitas qualidades e muitos defeitos, como qualquer um. Aos 82 anos, o que ele queria era sentar-se na cadeira do poder, e gozar mais cinco invejaveis anos da sua vida, mostrando que "é o maior", que consegue "ganhar tudo" a que se candidata. Com direito a uns discursos com mais impacto que as suas míticas crónicas do Expresso [piores só as de Alegre ou Carrilho] e umas viagenzinhas (claro).
"Não alinhou na cruzada da família Bush contra o Iraque, não morre de amores pela nova ordem hiper-liberal americana e comparece nos "fóruns" onde essa nova ordem imperial e imperialista é contestada. É mais do que basta para o incluir, desta vez sem reticências, na esquerda que, desde jovem, foi o seu lugar matricial e que, agora, no tarde da sua vida, lhe serve ainda de escudo."
É verdade. Mas também é curioso que em relação a Cunhal tantos apontem a sua dificuldade em ler os tempos, e que a Soares poucos repitam o mimo. Soares nao percebe bem o que aconteceu nas últimas décadas (e, sim, fazia-lhe bem aprender alguma economia). Pôr-se do lado das vítimas, dos despojados, e do terceiro mundo - da forma que ele se põe - nem sequer é "ideológico": é uma atitude quase caritativa de quem está chateado com o rumo que o mundo leva, sem o conseguir entender. Para sonhadores, bastavam os comunistas. Para pensamento light, bastaria a sua (caritativa) esposa, mais as suas cronicas no DE.
"É uma bela aposta a de Mário Soares, perdida ou ganha. Com a sua carga romanesca e a sua trama paradoxal."
Uma bela "aposta" só o pode ser tendo em conta as "consequências" (ou seja, probabilidades de determinados ganhos). O ensaísta quereria ter dito, provavelmente, a "jogada", ou o "gesto". "Aposta" tem um significado demasiado preciso. A carga romanesca existe para quem quiser se apaixonar. Não existe qualquer paradoxo porque a "vaidade" é o motor número um desta candidatura, e isso explica tudo. [Lembremos PSL].
"A esquerda não o traiu, nem ele se traiu nela. O drama é que essa esquerda de que pela última vez se faz paladino é, ao mesmo tempo, uma realidade - embora ideologicamente recente - e uma quimera."
A esquerda sempre foi uma quimera. O que não é necessariamente mau. Mas é.
"O problema da esquerda nunca foi a direita, hipóstase eterna do que "é"- força, violência, poder sem reverso, em suma, a "coisa em si" como história fáctica, obstáculo e razão de ser da esquerda em intenção mais virtuosa, não é menos opaca, no seu angelismo imaginário, que a mais obtusa direita."
Esquerda como "transparência da história"? Excesso de ensaísta, certamente. "Virtuosa"? Para quê, por aqui, o conceito de "virtude", se naturalmente [e tautologicamente] cada um achara "virtuosas" as suas posicões políticas? Vazio. O remate do artigo não o percebo bem, e parece-me - ele sim - muito opaco, obtuso, e até fraquito.
Tiago Mendes