domingo, janeiro 22, 2006

O vício reformista

Estranho texto este de Henrique Raposo. Um arrazoado contra o sindicalismo, a favor de reformas essenciais ao sistema e em particular à Justiça, inspirado numas declarações de Proença de Carvalho. Com uma diferença em relação ao inspirador: as ideias de Proença de Carvalho existem, as reformas que defende na Justiça são conhecidas de todos, desde o tempo de Cunha Rodrigues. As de Henrique Raposo são uma incógnita que o texto (longo) não tenta sequer desvendar. Assim, somos todos grandes reformistas, sem saber bem o que queremos reformar.
P.S. Para que se saiba: a oposição às teses defendidas por Proença de Carvalho ultrapassa os limites do sindicalismo. De qualquer forma, talvez fosse mais apropriado falar de corporações e não tanto de sindicatos.
ccs

O caso do envelope 9



Hoje é um bom dia para escrever sobre o caso do “envelope 9” e a chuva de indignações que se viu cair por aí. Uma semana depois do “escândalo” ter dado à luz, quando meio país já exigiu a demissão do Procurador-Geral, exigindo, ao mesmo tempo, a abertura de um inquérito e resultados imediatos (uma contradição que faz parte de qualquer escândalo que se preze), é cada vez mais difícil perceber a natureza de todo este imbróglio. De qualquer forma, convém clarificar alguns pontos.

1.As escutas. Primeiro eram escutas. Candidatos presidenciais, dirigentes partidários, comentadores avulsos pronunciaram-se, com a indignação à solta, sobre as escutas do “envelope 9”. E as escutas do “envelope 9” serviram de pretexto às mais amplas dissertações sobre o abuso das escutas, os danos das escutas, a arbitrariedade das escutas. Houve mesmo quem, num rasgo de pura irresponsabilidade, defendesse o fim das escutas. Depois, percebeu-se que afinal não tinha havido escutas.

2.Em contrapartida, havia um registo “escondido” de chamadas feitas por altas individualidades do Estado que o Ministério Público tinha obrigação de ter descodificado. A história não é assim tão simples. Ainda está, de facto, por esclarecer o papel do Ministério Público neste sarilho informático. Souto Moura diz que os dados que recebeu da PT foram analisados por peritos da PJ que não detectaram o filtro, nem as chamadas “escondidas”. Se isto for verdade, não há adjectivos que qualifiquem os métodos de investigação da Judiciária. Mas ainda está por esclarecer, também, o papel do advogado Sá Fernandes que teve esses mesmos dados na mão e que contou com a oportuna ajuda de um perito informático. Como está por esclarecer a autoria da difícil e morosa investigação que foi parar à primeira página do 24horas. Aparentemente, o jornal conta com especialistas muito mais bem preparados do que os da PJ e o de Sá Fernandes.

3.A ida de Souto Moura a Belém, por exigência do Presidente da República é, no mínimo, extravagante. Em fim de mandato, Jorge Sampaio não pode demitir o Procurador-Geral – aliás, não se demite um Procurador-Geral a reboque da primeira página de um jornal, ao contrário do que alguns possam pensar. Ao chamar Souto Moura a Belém, o Presidente limitou-se a debilitar, ainda mais, o Ministério Público, sem ter uma alternativa, uma solução ou uma saída que justificasse o carácter dramático do gesto. Não é a melhor forma de contribuir para o regular funcionamento das instituições.

4.Por fim, a Assembleia da República. Algo vai mal na Justiça, quando um Procurador-Geral é obrigado a explicar aos deputados os contornos de um processo que está a ser julgado em Tribunal. Honra lhes seja feita, os deputados do PCP foram os únicos que se deram conta da falta de legitimidade desta inquirição parlamentar. Para cúmulo, sem sequer estar concluído o inquérito.

5. Concluindo: espera-se que este caso seja, de facto, esclarecido.
ccs

sábado, janeiro 21, 2006

A importâcia do nome

O Rodrigo tem razão: o caso do "envelope 9” é finalmente um caso com um nome capaz. Mérito dos jornalistas, com certeza, já que os casos titulados pela Polícia Judiciária, com o patrocínio do Ministério Público, têm sempre nomes pelintras, que empobrecem a língua e deixam ficar mal o país. Basta comparar a densa originalidade do “envelope 9” com a escolha pindérica do “apito dourado” ou do “saco azul” de Felgueiras. Aliás, os nomes que a Polícia Judiciária inventa para as suas operações deviam merecer um estudo aturado: a operação “reveillon”, a operação “yanke”, a operação “furacão”, a operação “cai neve”, a operação “a voz do deserto”, a operação “final feliz” são apenas alguns exemplos que revelam a esfusiante criatividade que existe na nossa esforçada polícia. O caso do “envelope 9”, com o seu misterioso algarismo e a sua finura linguística, tem requintes de originalidade que as autoridades judiciais deviam saber usar. O desenvolvimento de Portugal passa também por aí.
p.s. O Rodrigo tem razão mas o seu post já deve estar no arquivo. Apesar disso, a ideia percebe-se...
ccs

Reflexão

Hoje é dia de reflexão. Hoje anda tudo, por aí, sorumbaticamente, a reflectir. Em silêncio. Comentários, notícias ou mesmo fotografias impedem a reflexão. A reflexão é frágil. Qualquer pequena frase a abala. Felizmente, a lei zela pelo direito dos cidadãos a uma reflexão tranquila. Sem ruído, nem perturbações. Sem nada que os possa ajudar a reflectir.
ccs

Apagadas

Tive que apagar as fotografias para tentar recuperar a barra de ferramentas. Não consegui.
Já consegui. Depois de muitas tentativas frustradas, o meu filho apareceu, carregou num botão e a barra apareceu. Escusava de ter apagado as fotografias! Para a semana, depois das eleições, vou tentar aperfeiçoar os meus conhecimentos informáticos. As minhas desculpas por estas trapalhadas. (actualizado)
ccs

Fotografias

Estranho...! Ontem quis publicar as últimas fotografias da campanha. Deu erro. O meu htqualquer coisa não estava a funcionar ou coisa que o valha. Desisti. Vejo agora que elas acabaram por ser publicadas hoje a uma hora bastante improvável. Às 12.28? Neste momento, no meu relógio são 12.26. Mistérios das novas tecnologias.
ccs

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Laços de ternura

Caro João

Não é bem ternura...é mais o reconhecimento do que está por trás da aparente derrota de um homem. E é verdade, como já lhe disse, que tenho um certa dificuldade em adaptar-me ao presente.
ccs

Mário Soares



É próprio dos tempos dizer mal de Soares. A candidatura de Soares não tem o benefício da dúvida, nem qualquer grandeza moral: Soares candidata-se por amor-próprio e o motor da sua candidatura é pura e simplesmente a vaidade. Soares está fora do tempo mas foi ele, com a sua megalomania e o seu "umbiguismo" inato, que se pôs fora do tempo, aparecendo onde não era esperado. Soares não tinha que se candidatar. E não tinha, de facto. Podia ter ficado, num lugar de honra, a assistir, ao desastre. Entre as hesitações de Sócrates, a ausência de Guterres e a inevitável recusa de António Vitorino, as responsabilidades já estavam distribuídas. É evidente que havia Manuel Alegre, um “saldo” de última hora a que o PS, em desespero, podia ainda recorrer. Mas Manuel Alegre, com o apoio do PS e sem a aura da cidadania, valia o que valia. E valia pouco.
A “arrogância” de Soares, com que parte da direita se delicia, foi arriscar uma candidatura. Sair do pedestal da história. Ir à luta. Fora de tempo, exibindo a política no seu estado puro. Este último combate de Soares é um combate pela política. Não tanto um exercício de arrogância contra os que não lutaram contra o fascismo. Mas o testemunho de um político que se recusa a aceitar que a política seja apenas um exercício de competência. A “obsessão” contra Cavaco Silva é a obsessão contra um político “intermitente” que escolhe as alturas certas para se candidatar a salvador da Pátria e que, sobretudo, a quer resgatar dos interesses mesquinhos dos “políticos profissionais”.
O mundo de Cavaco Silva, asséptico, limitado e sem a mácula da política, é um mundo estranho a Mário Soares que se formou noutros tempos e noutros combates. A sua candidatura nasce deste equívoco, do facto de não ter percebido que, nos tempos que correm, Cavaco Silva é o homem certo para o lugar certo – exactamente porque não é um político. Educado no esforço e na disciplina, Cavaco Silva representa o mérito, o sucesso e a ascensão a que qualquer português pode aspirar na vida. Cavaco Silva é o português novo que fazia parte da mitologia do cavaquismo. O português que quer vencer e que não se resigna. O português que todos querem ser, trinta anos depois do 25 de Abril. O país, de facto, mudou. Mas isso não retira grandeza ao combate de Mário Soares. Estar fora do tempo é também uma forma de saber estar no tempo.
ccs

quinta-feira, janeiro 19, 2006

O contraditório

Comentário de Tiago Mendes ao texto de Eduardo Lourenço referido no post anterior. Não concordo. Mas vale a pena lê-lo para poder discordar. Responderei logo que puder.

Cada um no seu nível (há que ter isto em conta), também Santana Lopes ou Garcia Pereira têm a "paixão" pela politica que Eduardo Lourenço atribui a Soares. Até tem um nome muito conhecido na blogosfera: umbiguismo. Isso não tem nada de mal, ou melhor, nada que não seja perfeitamente "natural". Mas é o que é, e não devemos confundir as coisas. Soares candidata-se sobretudo por "amor proprio", e toda a campanha é um desfilar de atitudes tipicas do lorde que julga ter o rei na barriga, e que tudo pode, que tudo merece. Se insulta e descategoriza os adversários para lá dos limites, vem os anti-politicamente correctos dizer que quem critica isso não percebe nada de política e tem a "mania do respeitinho". Se comete gaffes, não são mostradas, porque provavelmente é um senhor de idade, ou porque ameaçou tanto os orgãos de comunicação social que qualquer estratégia dessas seria a "prova provada" da conspiração contra o octogenario.

"Filho desses dois tempos, de que foi actor político precoce e, depois, personagem histórico, Mário Soares ousou trazer de novo para uma arena pública, já longe desses tempos turbulentos, essa antiga paixão política, sem querer saber se estaria ou não fora de estação."

Isto é verdade, mas em si mesmo não faz um "grande político". Tanto pode ser devido a "coragem", como a estar "fora do tempo". Pode ser "dedicação", ou pode ser "soberba". É preciso conhecer o sujeito e ler o contexto para entender a acção. Achar o gesto de Soares quixotesco é no minimo um pouco insultuoso para o cavaleiro andante.

"O candidato Mário Soares que se lançou neste último combate político de improvável sucesso - e consciente disso - é o mesmo e diverso do que se empenhou jovem na luta por um futuro democrático para Portugal e incarnaria mais tarde o triunfo da democracia sonhada durante dez anos, representando-a e representando-nos aos olhos do mundo, como ninguém".

Mentira dupla - e quase pornográfica. Primeiro, desde o início que muitos acreditavam piamente que Soares tinha boas hipoteses de ganhar. Segundo, é obvio que o próprio também acreditava nisso. Alguem acreditava que Soares se teria voluntariado apenas para fazer Cavaco ir a uma segunda volta? Ridículo. Só um amiguismo troglodita [de EL por MS] pode coarctar tanto a lucidez. Soares tem muitas qualidades e muitos defeitos, como qualquer um. Aos 82 anos, o que ele queria era sentar-se na cadeira do poder, e gozar mais cinco invejaveis anos da sua vida, mostrando que "é o maior", que consegue "ganhar tudo" a que se candidata. Com direito a uns discursos com mais impacto que as suas míticas crónicas do Expresso [piores só as de Alegre ou Carrilho] e umas viagenzinhas (claro).
"Não alinhou na cruzada da família Bush contra o Iraque, não morre de amores pela nova ordem hiper-liberal americana e comparece nos "fóruns" onde essa nova ordem imperial e imperialista é contestada. É mais do que basta para o incluir, desta vez sem reticências, na esquerda que, desde jovem, foi o seu lugar matricial e que, agora, no tarde da sua vida, lhe serve ainda de escudo."

É verdade. Mas também é curioso que em relação a Cunhal tantos apontem a sua dificuldade em ler os tempos, e que a Soares poucos repitam o mimo. Soares nao percebe bem o que aconteceu nas últimas décadas (e, sim, fazia-lhe bem aprender alguma economia). Pôr-se do lado das vítimas, dos despojados, e do terceiro mundo - da forma que ele se põe - nem sequer é "ideológico": é uma atitude quase caritativa de quem está chateado com o rumo que o mundo leva, sem o conseguir entender. Para sonhadores, bastavam os comunistas. Para pensamento light, bastaria a sua (caritativa) esposa, mais as suas cronicas no DE.

"É uma bela aposta a de Mário Soares, perdida ou ganha. Com a sua carga romanesca e a sua trama paradoxal."
Uma bela "aposta" só o pode ser tendo em conta as "consequências" (ou seja, probabilidades de determinados ganhos). O ensaísta quereria ter dito, provavelmente, a "jogada", ou o "gesto". "Aposta" tem um significado demasiado preciso. A carga romanesca existe para quem quiser se apaixonar. Não existe qualquer paradoxo porque a "vaidade" é o motor número um desta candidatura, e isso explica tudo. [Lembremos PSL].

"A esquerda não o traiu, nem ele se traiu nela. O drama é que essa esquerda de que pela última vez se faz paladino é, ao mesmo tempo, uma realidade - embora ideologicamente recente - e uma quimera."

A esquerda sempre foi uma quimera. O que não é necessariamente mau. Mas é.

"O problema da esquerda nunca foi a direita, hipóstase eterna do que "é"- força, violência, poder sem reverso, em suma, a "coisa em si" como história fáctica, obstáculo e razão de ser da esquerda em intenção mais virtuosa, não é menos opaca, no seu angelismo imaginário, que a mais obtusa direita."

Esquerda como "transparência da história"? Excesso de ensaísta, certamente. "Virtuosa"? Para quê, por aqui, o conceito de "virtude", se naturalmente [e tautologicamente] cada um achara "virtuosas" as suas posicões políticas? Vazio. O remate do artigo não o percebo bem, e parece-me - ele sim - muito opaco, obtuso, e até fraquito.
Tiago Mendes

O tempo de Mário Soares (a pedido de um leitor)

"Trazer para esta sociedade, mais do que nunca sociedade de espectáculo, o eco da antiga paixão portuguesa, quer a recalcada do antigo regime, quer a exaltada e exaltante das duas décadas após Abril, era uma aposta arriscada, para muitos perdida e, em todo o caso, objectivamente quixotesca. Filho desses dois tempos, de que foi actor político precoce e, depois, personagem histórico, Mário Soares ousou trazer de novo para uma arena pública, já longe desses tempos turbulentos, essa antiga paixão política, sem querer saber se estaria ou não fora de estação. Passada a surpresa, esta audácia quase juvenil do antigo Presidente da República foi recebida com cepticismo por muitos, com sarcasmo por outros e, sobretudo, como uma ocasião inesperada para ajustar contas antigas e menos antigas com o homem que, melhor do que ninguém, de entre os activos, se identificou e é identificado com a Revolução de Abril e, em particular, com o tipo de democracia que ela instaurou em Portugal."
Eduardo Loureço, Publico (18/1/06), publicado na íntegra por Tiago Mendes, aqui, em Selecções de Crónicas de Imprensa

Coabitações

Aqui há uns tempos, António Pinto Leite escreveu, no Expresso, qualquer coisa como isto: “Cavaco Silva será um óptimo presidente da República para um bom primeiro-ministro e um péssimo presidente da República para um mau primeiro-ministro”. A frase fez algum furor e foi euforicamente citada nos círculos habituais Sócrates não terá, pois, que se preocupar. Basta-lhe ser bom. Contido. Reformista. E Cavaco, do alto da presidência, será simplesmente óptimo com ele. A solidariedade institucional funcionará a vapor. Nada de intriga partidária. Nada de manifestações à porta do palácio de Belém. Nada de congressos a pensar no futuro. Se Sócrates se esforçar e souber gerir o país, Cavaco será excepcional para o governo, com a sua experiência de primeiro-ministro, a sua ciência de economista e a sua fama de honestidade.
É verdade que Cavaco governará por interposto Sócrates: mas governará bem, apoiado num primeiro-ministro bom que conhece os seus limites e “cooperará estrategicamente” com o novo inquilino de Belém. Se assim for, se este radioso sonho se concretizar, o PSD, com Marques Mendes ou com um acólito de Cavaco a substituí-lo, só tem dois caminhos pela frente: ou coopera também, numa reedição do que foi o Bloco Central, ou pura e simplesmente emigra para um país onde haja um primeiro-ministro mau.

Em todo o caso, o caso não é líquido. Sócrates pode deitar tudo a perder. Deixar de ser um bom primeiro-ministro ou (consoante a versão), continuar a ser um mau primeiro-ministro. As avaliações nunca são unânimes. Cavaco Silva e os seus apoiantes acreditam que o homem e a política se definem pelos padrões da moral e pelas regras da economia. Infelizmente (e António Pinto Leite salvaguarda essa triste possibilidade), um homem, principalmente um político, nem sempre é sério, nem sempre conhece bem alguns assuntos de interesse geral. Levado por interesses obscuros ou por deficiência de informação, um primeiro-ministro pode não chegar exactamente às mesmas conclusões a que o presidente chegou. Aí, claro, passa a ser um mau primeiro-ministro, com direito a um péssimo presidente, capaz de lhe fazer a vida negra, com reprimendas públicas e outros enxovalhos do género. Para além de que um presidente, que se candidatou para salvar a Pátria, espera naturalmente que, por respeito pela sua candidatura, o primeiro-ministro arranje forma de a salvar de qualquer maneira.
Adaptado do artigo publicado hoje na revista Sábado
ccs

PROCURA-SE


Luis Marques Mendes, presidente do PSD, líder do principal partido da oposição. Foi visto, pela última vez, em Pombal, ao lado do candidato apoiado pelo seu partido. Militantes anónimos do PSD não excluem a possibilidade do seu líder ter sido raptado por um grupo de apoiantes de Cavaco Silva. Parte do PSD oferece uma pequena recompensa a quem der novas do seu paradeiro.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Continuando


Profético, Manuel Alegre avisa que até às eleições se vão passar coisas “mirabolantes”. Por exemplo, tirarem-lhe o segundo lugar nas sondagens. As sondagens, que o PS “manipula”, sem escrupulos e sem vergonha, são a única razão de ser da sua candidatura. Ele conquistou o segundo lugar nas sondagens. Ele está mais bem colocado para derrotar Cavaco Silva. Ele tem mais hipóteses de ganhar a segunda volta. Ele vale o seu peso em sondagens! Tirem-lhe as sondagens e ele deixa de ser o que é: um rebelde institucionalizado que veio “estragar a festa” ao PS e a todos os que traíram a excelência da sua amizade. Sem sondagens, sem o seu indispensável segundo lugar, Manuel Alegre transforma-se num inconformista sem causas. Num rebelde que não incomoda. Num derrotado do PS que viu nas presidenciais uma oportunidade para se vingar do PS de José Sócrates. Resta saber se foi ele que se popularizou nas sondagens ou se foram as sondagens que o popularizaram a ele. Em qualquer dos casos, a vingança rende. A humilhação de Soares e a derrota de Sócrates, por si só, garantem doses maciças de popularidade. Talvez isso ajude a responder a esta pertinente questão. E talvez isso ajude também a compreender por que é que, com Manuel Alegre, não há bipolarização.
(revisto)
ccs

Recomendações

"O tempo de Mário Soares", Eduardo Lourenço, Público (18/1/06)
ccs

Na redacção

Para quem fica em terra, sentada numa secretária, presa a um telemóvel e à agenda dos candidatos, a campanha é uma época pesada, de estridente monotonia. Desta vez, e ao contrário do que aconteceu no passado, fiquei na redacção, praticamente sozinha, a ver a secção de política passear-se pela paisagem, exibindo os seus talentos profissionais. É verdade que os relatos não são exaltantes. Faz frio, o cansaço acumula-se, os discursos repetem-se e as acções de rua, (que agora se chamam arruadas) confirmam, apenas, o marasmo dos dias e as formalidades de qualquer campanha. Os candidatos e o povo. Uma cara conhecida. Um apoio de peso. Uma frase que fica. E, por junto, é tudo o que fica. As questões interessantíssimas, que Pacheco Pereira tem debaixo da língua, prontas a ser declinadas na noite das eleições, não chegam sequer a ser referidas – quanto mais a ficar registadas. Os candidatos esquivam-se. Cenários não se analisam. Cenários são para os comentadores de domingo, para jornalistas distraídos dos problemas nacionais que todos querem ver discutidos. Cenários verificam-se, somente, no próprio dia, com o voto do povo e a vontade do povo e as contas que o povo tem a ajustar com a vida.
Tudo isto passa pela redacção, através do telefone e dos telejornais, abafado pela distância e pelas exigências técnicas do meio. Ao fim de uma semana, os hábitos criam-se. “Que é que o Cavaco disse? Nada, não quis comentar mas podemos pô-lo a não comentar”; “E o Alegre ainda está na arruada? Não, eu é que estou, ele perdeu-se da arruada”; “E o Soares disse alguma coisa? Uns 'vivos' fortíssimos contra o Cavaco”. Tudo previsto, apesar de não ser muito frequente um candidato perder-se da sua própria arruada. E assim vai continuar, até domingo, quando os resultados se tornarem oficiais e a campanha pertencer finalmente ao passado. A partir daí, entra-se freneticamente no dia seguinte. Aquilo a que os jornalistas gostam de chamar o day after. E os comentadores gostam de analisar ao milímetro. A estabilidade é um mito.
ccs

terça-feira, janeiro 17, 2006

Portugal no seu melhor


Havia, n'O Independente, uma secção de que eu gostava particularmente. Chamava-se Portugal No Seu Melhor e era feita pelos leitores do jornal. Não me lembro bem como é que aquilo apareceu mas tenho ideia de que foi o Domingos Amaral que lançou essa novidade, na revista, quando ficou à frente do Caderno3. De qualquer forma, a coisa pegou. Todas as semanas, choviam fotografias, enviadas pelos leitores, que mostravam o país de todos os dias, que nós não víamos todos os dias: um país “reconhecido”, familiar e estranho, com os seus atrasos, o seu desleixo, as suas contradições, os seus pequenos rasgos e os seus desenrascados serviços. Havia placas de trânsito sem sentido, letreiros hilariantes, lixeiras onde menos se esperava, remendos inaceitáveis…Havia de tudo. Era Portugal no seu melhor. Às sextas-feiras. No dia em que era publicada a melhor fotografia, devidamente assinada. Pensei abrir uma secção, como essa, aqui, n’O Espectro, para onde os leitores poderiam enviar não só fotografias mas também pequenas notícias que mostrassem o país que somos e no qual alegremente vivemos. Uma vez, por semana, à segunda-feira, por exemplo (para abstrair da semana que começa), seriam publicados os melhores contributos, entretanto, recebidos. O material, se alguém estiver interessado, deve ser enviado para o mail deste blog. Espero que o eviem. E que se possa instituir um novo hábito. Vamos ver!
ccs

S/ Título

Ana, não sei o que dizer, palavra! Quando te li, engasgou-se-me o coração.
ccs



O contraditório

Factores de sucesso
Tudo é muito mais simples do que aquilo que querem fazer.Diz Constança que: se não houvesse Soares nem a simpatia de Cavaco, este homem (Manuel Alegre) não existia. Dizem outros que lhes escapa qualquer coisa para o entendimento do sucesso de Alegre.Mas Constança tem obrigação de perceber, devido a ser quem é e por ter a experiência que tem, que nada existe sem algo e que Alegre, ao contrário do que diz, não é só passado. É acima de tudo a garantia do futuro, de um futuro onde se não voltem a cometer os erros de omissão que, conforme já disse noutro texto, fizeram de Portugal o País mais pobre da Comunidade Europeia e, acima de tudo e mais grave, o de maior desnível social.Este tem sido o grande trunfo de Alegre.Ele é a última oportunidade, os cidadãos estão a perceber, para que esta Pátria de séculos, se não transforme numa Pátria de párias, de patos-bravos e de novos-ricos.O sucesso reside na transversalidade que Alegre inteligentemente soube manter, mesmo quando o quiseram encostar à esquerda da esquerda do PS. Reside na nova noção de "Presidente de Todos os Portugueses", como garante de que os direitos, liberdades e garantias são mais do que formalidades constitucionais.Alegre é, neste momento, o último reduto de uma Nação que se quer civilizada, fraterna e solidária.

Resposta ao texto anterior, publicada por LNT, no Tugir

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Necrologias



É curioso como as sondagens subiram, depois de Manuel Alegre ter iniciado um roteiro fúnebre pelo seu passado, repleto de estátuas e de cemitérios, de beijos e de homenagens. Aparentemente, os mortos rendem numa campanha. Quanto mais o candidato se chega a uma estátua ou invoca o exemplo de um ilustre finado, mais o candidato sobe nas intenções de voto, mais o candidato se distingue, nos barómetros diários, mais o candidato se afasta de alguns dos seus adversários. Ainda há pouco tempo, entre um beijo a Miguel Torga e o anúncio de que ia à lota de Matosinhos, onde tenciona homenagear Sousa Franco, apesar dos protestos da mulher, Manuel Alegre proclamava, naquela sua voz de trovador, que aquele era o primeiro dia de uma histórica segunda volta. Os próximos, os herdeiros, os familiares têm criticado asperamente esta apropriação eleitoral dos seus mortos. Mas as críticas adubam uma candidatura que avança destemida contra “o medo” e se imola como vítima do sistema. Pouco importa que Manuel Alegre esteja, há trinta anos, sentado e em sossego, na bancada do PS. Ele é o poeta da Pátria, o homem que não se atemoriza, o inconformista por vocação, o candidato que surgiu para vingar a cidadania e estragar a festa aos directórios dos partidos. Como ele próprio diz, vai onde quer e quando lhe apetecer, porque ninguém é dono do país e, ainda menos, da sua consciência. O homem livre libertou-se. E está aí, disposto a dar cabo de qualquer razoabilidade eleitoral, em nome de um patriotismo velho e republicano, de uma cidadania postiça, de uma fraternidade empoada e de uma arrogância moral que se justifica, apenas, com o sonho do seu passado. O homem sentiu-se traído. Mas essa é sua grande vitória. Sem Mário Soares e sem a simpatia do cavaquismo, este homem não existia.
ccs
Depois de ler este texto de Paulo Gorjão

Boas notícias

O Pedro Boucherie Mendes também já tem um blogue: aos 35, um blogue a não perder. O Pedro diz que eu fui a "chefe mais luminosa" que teve. E "a mais difícil". O que é uma simpatia sua e um manifesto exagero (por esta ordem). Infelizmente, continuo sem perceber quase nada de computadores. Gostava de mudar, aqui, umas coisas mas vou ter que pedir ajuda a alguém até porque tenho em vista um parceiro que, nesta matéria, ainda é mais analfabeto do que eu. E a propósito o que é essa história de um g-mail?
ccs