segunda-feira, janeiro 16, 2006

25 DE ABRIL SEMPRE!

2005-04-21-@14-30-34
Faltava Raymond Aron para dar outra diginidade à tese. Os totems da tribo não se discutem. A herança é uma "mitologia retrospectiva". A esquerda, se calhar, não existe. A Revolução é de todos. As massas "preparam-se para votar em massa" no seu Redentor. E Cavaco Siva é naturalmente "o candidato do 25 de Abril". Talvez, por isso, não vá votar nele. Como não votaria no major Tomé, seu camarada de armas, nessa sua corajosa luta contra os esbirros do fascismo e os lucros ilegítimos do grande capital.
ccs

Arrumações

Ando, há algum tempo, para comentar dois momentos eleitorais. Ao contrário do que se pensa, não são meros episódios de campanha...

1.Cavaco e a "Grândola, Vila Morena". Não me espantou o entusiasmo do candidato e a canção com que resolveu brindar a assistência. Cavaco, a ser alguma coisa, é um social-democrata de esquerda que acredita no modelo social do Estado e que defende o actual sistema político que, em dez anos de governo, nunca tentou alterar. Mas, mais do que isso, Cavaco não reconhece valor à dicotomia entre a esquerda e a direita que gostaria de ver substituída por uma, mais técnica, entre o desemprego e a desenvolvimento; por outras palavras, entre a incompetência e a competência. A "Grândola", para ele, é apenas uma canção que pertence a um passado remoto, onde havia ideologias, que o pode ajudar, agora, a reconverter alguns dos sobreviventes da esquerda que não sabem ainda que esta, entretanto, morreu. O que me espantou, sim, foi a defesa teórica que a direita, que apoia Cavaco Silva, fez dessa utilização. Como se Zeca Afonso fosse alheio à história e a história e os seus símbolos tivessem perdido qualquer significado político. Um prenúncio de que essa direita não sobrevive também ao regresse do cavaquismo?

2. Na sua peregrinação pelos mortos e pelos cemitérios, Manuel Alegre não deixou de invocar Álvaro Cunhal e o seu exemplo para o guiarem nesta campanha. Jerónimo de Sousa criticou o oportunismo do gesto. E Manuel Alegre, adoptando rapidamente o papel de herói da resistência, declarou que a história não era património de ninguém. Uma frase épica que nada diz sobre o essencial. É evidente que Manuel Alegre sabe que, se Álvaro Cunhal estivesse vivo, ele teria que embrulhar a invocação no saco, sob pena de Cunhal o guiar até a um poço. Ao contrário do que Alegre possa julgar, a partilha de uma história comum não leva à manipulação dos mortos e à sua utilização em campanha. Sartre tinha raão: "L' enfer c'est les autres" porque o olhar dos outros se apropria de quem morreu. Foi o que Manuel Alegre fez a Álvaro Cunhal. Só que, à excepção do PCP, ninguém registou o abuso rasteiro do gesto. Pelo contrário, houve até quem aplaudisse: Cunhal também é de todos. Como Sá Caneiro que, pelo caminho que as coisas levam, ainda se estreia, num comício do MRPP. A ideologia anda, de facto, pelas ruas da amargura!
ccs

domingo, janeiro 15, 2006

EPC

Ler Eduardo Prado Coelho provoca-me uma euforia enorme, seguida de perda de consciência. Na verdade, a escrita de EPC, já percebi isso há muito tempo, tem heroína. Se aquecerem com um isqueiro os livros de EPC, verificarão que eles começam a libertar vapores que podem ser aspirados através de um tubo feito com uma nota ou com papel de alumínio comprado no supermercado.
João Pedro George, Esplanar

Falta de jeito?(II)

A falta de jeito, diz-se, nota-se também no incómodo do candidato, na forma como foge às perguntas e se atrapalha com os imprevistos que fazem parte de qualquer campanha. O "esgar", que Santana Lopes provocou e que animou algumas hostes, é apenas uma caricatura que revela a rigidez do discurso e as limitações de uma imagem. Com Cavaco Silva não há estados de alma, nem improvisos de última hora. Há um programa que tem que ser rigorosamente cumprido. E que, diga-se o que se disser, com ou sem "agenda escondida", está a ser rigorosamente cumprido. Quem o acompanhou, no passado, sabe que Cavaco Silva não deixa nada ao acaso. E que, ao contrário do que dizem, é um profissional em campanhas eleitorais. A pretensa "desenvoltura" de que agora dá mostras só espanta quem não tem memória e não se lembra da "desenvoltura" exibida nos bons tempos do cavaquismo. Vamos ver o que nos espera esta semana. Sabendo, à partida, que nos espera a apoteose final.
ccs

Falta de jeito?(I)

Nunca aderi à tese (muito difundida por aí) que dá como adquirida a “falta de jeito” de Cavaco Silva para suportar a exposição a que obriga qualquer campanha. Convém perceber que “a falta de jeito” é um dos trunfos do candidato. É sinónimo de “honestidade” e de “competência”. Revela um profundo desprezo pela “retórica” dos que foram ultrapassados pela história. E aponta para uma “nova forma” de fazer política que dispensa explicitamente a política (duas pessoas sérias com a mesma informação chegam naturalmente à mesma conclusão). Os apoiantes de Cavaco Silva sabem que ele não tem uma boa relação com as câmaras. Não esperam que ele esmague os seus adversários num debate. Nem esperam que ele os brinde com as subtilezas da ideologia. Esperam apenas que ele, em Belém, seja igual a si próprio e que introduza novas regras no sistema político e ponha fim a certos arranjos partidários. E não esperam pouco, diga-se de passagem!
(continua)
ccs

sábado, janeiro 14, 2006

Relatividade

escher-relativity-300

Três questões

Um leitor, estudante de Jornalismo, na Universidade Nova, enviou-me três questões a que tentarei responder.

1. Quais foram as suas impressões iniciais em relação a este meio (a sua organização ou falta dela, o seu interesse, o seu potencial...).

2. O que procura com o Espectro? Que apelo a levou a criar um blogue? Que tipo de realização procura?

3. Uma semana depois, tem outro entendimento sobre esse apelo? Vê-se a actualizar o Espectro daqui a um ano?

1.As minhas impressões iniciais confirmaram o preconceito. Comecei por desconfiar do meio. Quem está habituada a escrever por encomenda, com regras estabelecidas e espaços determinados, tem alguma dificuldade em compreender este mundo gratuito, sem prazos, nem restrições. O comentário à flor da pele, o apontamento íntimo e o invariável momento de poesia levantaram-me inevitáveis reservas. Como se as pessoas registassem aqui, nos seus blogues, os pensamentos que tinham, no intervalo de qualquer coisa, quando iam ao frigorífico buscar um iogurte ou um sumo de laranja. Mais tarde, quando voltei, com um certo tempo e vagar, descobri finalmente as “potencialidades” do meio: a força do debate, a diferença da escrita, a descoberta de pessoas de quem nunca tinha ouvido falar e que tenho pena que não escrevam nos jornais.

2. O “apelo” é mais difícil de explicar. Escrevi sempre por obrigação, em cima dos prazos, sem qualquer tipo de satisfação. Não gosto de escrever. Sacrifico as ideias à forma e espremo as palavras até à exaustão. No fim, em desespero de causa e sem tempo para mais rectificações, envio o texto, à pressa, em cima da hora, depois do telefonema de um editor. O que é que uma pessoa, assim, faz aqui, com o Espectro às costas, sem qualquer remuneração financeira? É um mistério que eu espero estar em vias de solucionar. Mas espero sinceramente não vir a descobrir que senti, de repente, uma insólita vontade de participar. Neste momento, não me convém mexer na minha personalidade.

3. Se não fosse por impossibilidades técnicas, via-me a “actualizar” o O Espectro daqui a uma semana. Daqui a um ano, não sei. Nem sei se ainda haverá O Espectro para actualizar!

Caro leitor, duvido que estas respostas tenham, para si, qualquer tipo de utilidade. Mas, por enquanto, são as únicas que lhe posso dar. Resta saber se alguma vez conseguirei explicar melhor o que me levou a criar um blogue. Ainda hoje, estou para saber como é que fui parar aos jornais!
(actualizado)
ccs

Porque hoje é sábado

Leituras em dia

1."A sementeira" de João Gonçalves

2."Um presidente, um governo, uma maioria?" de Paulo Gorjão

3."Candidatos de esquerda", Sérgio Figueiredo, Jornal de Negócios, via OInsurgente

ccs

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Há dias assim...

…que começam cedo, com o som do telefone e uma notícia escaldante sobre o destino próximo do Procurador. Para já, o dr. Souto Moura tinha encontro marcado com o dr. Sampaio, em Belém. Depois logo se veria – mas, como se podia imaginar, não se iria ver nada de muito bom. Nem tentei perceber porquê. As primeiras horas da manhã não são propriamente o meu forte. Limitai-me a marcar uma “equipa”, na esperança de que a ameaça implícita nesse inesperado encontro se diluísse, serenamente, com a abertura de mais um inquérito e os esclarecimentos da praxe. Sexta-feira também não é propriamente o meu forte. E a “crise da justiça”, firme no top das preocupações do regime, parece-me uma triste combinação de interesses obscuros e de entusiasmos volúveis. O país ora chora pela prescrição dos processos, ora clama, indignado, contra o “abuso” das escutas e a violação da privacidade. Não há meio termo: passa-se de um extremo ao outro, com igual empenho e determinação. Ainda há uns anos, o dr. António Costa florescia, no dialogante governo do eng. Guterres, como um herói da luta contra a corrupção. Agora, que as medidas deste herói deram frutos, deplora-se, com o mesmo entusiasmo, a “impunidade” do Ministério Público e os erros da sua actuação. Principalmente, se esta incidir sobre uma irrepreensível figura do Estado, com direito aos luxos da cidadania e aos favores da Comunicação Social. Aí tudo se torna mais fácil. E mais fácil de manipular. O dia de hoje mostrou, de forma exemplar, como é que a “crise da justiça” funciona em Portugal.
ccs

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Os velhos

Numa sociedade que vive no culto da juventude e se mede pelo sucesso, é desagradável falar dos velhos. Os velhos não serão como os trapos. Mas, se tiverem juízo, ficam em casa, embrulhados numa manta, entretidos com os netos, a usufruir da reforma. Os velhos fazem parte do passado. Devem saber retirar-se a tempo. E se tiverem tido um papel na história, têm que o saber preservar. Têm, acima de tudo, que saber preservar os preconceitos dos outros: poupá-los ao confronto com os anos e à senilidade dos entusiasmos. Um velho que não se conforma com a idade é um velho senil que perdeu a noção da realidade. A idade de um velho incomoda. Pessoas bem-educadas, com algumas qualificações, não falam da idade de um velho. Velhice não é argumento. Não deve ser usada como arma de ataque. Até porque o horror à velhice está inscrito na sociedade. O sentimento não precisa de ser exacerbado: basta existir e deixar-se espalhar com a hipocrisia habitual e a cobertura das boas maneiras.

Um velho é sempre um velho. Principalmente um velho que se candidata à Presidência da República. Os velhos são para estar na reserva. Para enfeitar o regime. Para fazer parte da história. Pior do que um político, só um político velho que não precisa de acentuar as rugas ou de embranquecer o cabelo. Um político velho transforma-se, de imediato, numa vedeta em declínio que não consegue abandonar o palco. Passa de pai da Pátria a “perturbador nacional”. Não tem o benefício da dúvida e não tem sequer dignidade. Está na política por via do ego e insiste na política por pura vaidade. Se tem um dia cheio de iniciativas e propaganda, chamam-lhe “novo” e, para disfarçar a velhice, apontam-lhe a “frescura” dos anos e a juventude de espírito. Se adormece ou se se engasga não lhe chamam nada (porque fica mal chamar certas coisas), mas crescem as insinuações e aumenta o peso da idade.

As gaffes de um velho não são gaffes. São confusões do espírito, falhas da memória, sinais óbvios de debilidade. São piedosamente escondidas ou são gloriosamente exibidas como um trunfo dos adversários. Deixaram de ser um dos encantos da sua personalidade. E têm uma carga que não existe nas gaffes de outros candidatos. O PIB do eng. Guterres foi repetido até à exaustão porque, no fundo, ninguém deu importância ao PIB e o eng. Guterres tinha a idade certa e o sorriso no lugar. O dr. Soares não tem o sorriso no lugar. E não tem a idade certa. Aos 81 anos ninguém sai, impunemente, do seu pedestal. Os velhos, que têm passado e que fazem parte da história, transformam-se em estátuas. Não se envolvem em batalhas que abalam a sua dignidade. Os velhos são património de todos. Não podem candidatar-se contra ninguém. Se o fazem, passam a “perturbadores” e são julgados pela sua idade. Por não saírem de cena, por não darem os lugares aos novos, por se engasgarem e por saírem do mausoléu onde a Pátria os puzera sorumbaticamente em sossego. Quanto mais não seja por isto, ainda bem que o dr. Soares se candidatou…

Publicado, hoje, na revista Sábado
ccs

Muito obrigada

Comecei a escrever no O Espectro (esta história dos artigos é uma chatice; devia-me ter lembrado que já no O Independente tinha tido esta chatice, mas enfim!) há coisa de uma semana. Foi uma agradável surpresa ter sido tão bem recebida. E tão "visitada". O O Espectro encontra-se, neste momento, entre os vinte e cinco blogues mais visitados. Simpatia a vossa. Agradeço a todos os que me leram e todos os que assinalaram a minha entrada nestas andanças. Muito obrigada.
ccs

Actual

Há dias que não conseguia encontrar o Rui. Hoje encontrei-o finalmente. Mais actual. Um dia que começa bem...
ccs

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A (minha) melancolia

"Tem a melancolia cor política? José Pacheco Pereira acha que sim. O que, em última instância, coloca Constança Cunha e Sá em cheque"
João Morgado Fernandes, DN

De acordo. Em última instância, coloca. A melancolia tem destas coisas. E destas, já agora:

1. Sou jornalista, sem filiação partidária. E sem grandes simpatias políticas.
2. Comento regularmente a actualidade política. Com exagero. Com precipitação. Com cuidado. Com isenção. Com injustiça, por vezes. A minha opinião vale o que vale. Mas vale também porque é livre. Livre de compromissos partidários, de cumplicidades políticas e de interesses contraditórios.
3. Respeito a opinião pelo que vale essa mesma opinião. Não pela sua proveniência ou pelo rol de intenções que supostamente lhe está subjacente. Numa polémica com Pinheiro Chagas, Eça de Queiróz tentou explicar-lhe que a inveja (que, supostamente, estaria na origem dos seus textos) não afectava minimamente a força dos seus argumentos. Pelos vistos, ainda há muita gente que não percebe esta pequena subtileza.

P.S. Aproveito a oportunidade para dar os parabéns à direcção do "Diário de Notícias" pela reformulação gráfica do jornal.
ccs

terça-feira, janeiro 10, 2006

Enfados

Atento, Pacheco Pereira detectou, nos blogues e nos jornais, um enfado crescente em relação às eleições presidenciais. Pack journalism, no seu pior, diz ele, do alto da sua sabedoria, acrescentando, como quem descobriu a pólvora, que "estas eleições são muito mais interessantes do que parecem e muito mais importantes do que se julga". Eu não sei que comentários anda PP a ler, nem ele se dá ao trabalho de os referir. Mas o enfado que eu detecto - e do qual, aliás, partilho - aplica-se não às eleições (ou aos resultados delas) mas à campanha propriamente dita. São coisas diferentes, como o próprio PP reconhece, quando afirma que "há tanta coisa por definir depois de dia 22, que só os desatentos podem estar enfadados". Desatento deve estar PP que, pelos vistos, não percebeu que, se essas tais coisas se definem depois de dia 22, é porque até dia 22 vamos ter um compasso de espera. Certo? É exactamente por isso e também pela qualidade do debate eleitoral que há quem se sinta enfadado com o andamento desta campanha. PP insinua que são pessoas que não simpatizam com a vitória de Cavaco Silva e que andam, sim, enfadadas com os resultados das sondagens. Curioso! Quando o próprio candidato, em causa, é o primeiro a reconher que "isto", por ele, podia já ter acabado.
Quanto à quantidade de coisas interessantes que se vão seguir a dia 22, estamos basicamente de acordo. Embora registe que PP, à selhança de muito bom "anti-cavaquista", considera também que estas eleições "vão mexer fundo no sistema político-partidário". Se PP estiver mais atento, registará, com certeza, que é disso mesmo que muita gente tem medo. Eu confesso que tenhos as minhas dúvidas sobre a profundidade destas "mexidas". Mas isso fica para outra altura! Para já, ficam os enfados.
ccs

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Olhos nos olhos


Salvo qualquer facto imprevisível, a campanha eleitoral está reduzida a uma mera formalidade. A partir de agora, trata-se apenas de fazer cumprir o calendário. Quinze dias de almoços, reportagens, comícios, tempos de antena, frases estudadas, palmadas nas costas, feiras, e povo, bastante povo à volta dos candidatos, sem ligar peva aos candidatos, de olho posto nas televisões e na figuração das reportagens. Quinze dias de discursos estafados, com muito “desenvolvimento”, muita “cidadania” e muita, muita “proximidade”. Quinze dias de debates onde já tudo se debateu, de pequenas peripécias com honras de primeira página, de banalidades avulsas e de ataques inconsequentes. Olhos nos olhos. Com um enorme cansaço. E alguma melancolia.
ccs

domingo, janeiro 08, 2006

Notas eleitorais (II)

Concordo com Henrique Raposo: a política não é telenovela, em política não há amigos e a ética pessoal não coincide com as éticas políticas possíveis. Discursos lamechas sobre a falta de lealdade e as traições dos amigos servem “vítimas” como Manuel Alegre. Não servem, de facto, políticos. A política é o mal menor. Mas é também uma escolha. Cavaco Silva esteve com Alberto João Jardim. Mais, mostrou que precisava de Alberto João Jardim. Mário Soares encontrou-se com Valentim Loureiro. Mais, fingiu que o tinha encontrado, “por acaso”. Tanto um como outro fizeram uma escolha política. Escolheram o mal menor? Duvido. Em política, o que parece ser, às vezes, um mal menor acaba por se pagar caro. Nas últimas autárquicas, Marques Mendes dispensou este tipo de apoios. E teve uma dupla vitória nas eleições: não só as ganhou, como as ganhou apesar dos apoios que dispensou. A política é também isto.
ccs

Notas eleitorais (I)

A candidatura de Cavaco Silva passou por Grândola, ao som da Vila Morena. A direita ficou entusiasmadíssima. Diz que José Afonso não é um exclusivo da esquerda. Que o 25 de Abril é de todos. E que a revolução está viva e se recomenda. Depois disto, só lhe falta aparecer a cantar a “Internacional”. Com um cravo ao peito. Sob pretexto de que a História não é património de ninguém.
ccs

Por dever de ofício

Amanhã, escrevo qualquer coisa sobre as presidenciais. Mas confesso...
ccs

Realizações

De vez em quando, lembro-me de uma coisa que me disseram, num desses jantares em que se conhecem amigos de amigos. Eu estava sossegadinha, num canto do sofá, sem estômago para grandes conversas, quando percebi que alguém, sentado ao meu lado, estava a falar comigo sobre as suas desgraças profissionais. A dada altura disse-me, como se fosse a coisa mais natural: “Sabe, o problema é que eu não tenho carisma para trabalhar”. Na altura, balbuciei qualquer coisa, num tom ameno e compreensivo, sem perceber bem onde é que entrava o “carisma”. Mas, de facto, o trabalho não tem nada de natural. É preciso um certo “carisma” para aturar as vicissitudes de uma carreira e as exigências da profissão. Ela não o tinha. Eu acho que também não.
Sempre achei a “realização profissional” uma perversão das sociedades modernas. As pessoas não se “realizam” (uma expressão que devia, aliás, ser proibida) e muito menos se “realizam” profissionalmente. As pessoas trabalham. Ponto. Desesperam, esforçam-se, aguentam e, muitas vezes, enlouquecem para poder ter uma vida. Não para se “realizar” ou para responder a “um desafio” qualquer irresistível – para usar algumas palavras em voga. Ainda, ontem, quando me perguntaram se eu era feliz e se tinha novos "projectos" em vista, apeteceu-me responder com a Bíblia. Mas não vinha muito a propósito. De qualquer forma, aqui fica:"Com o suor de teu rosto/comerás teu pão/até que retornes ao solo/pois dele foste tirado./Pois tu és pó/e ao pó tornarás.” Gn3,18.
ccs