sábado, janeiro 07, 2006

A frase

"Cavaco Silva é o melhor Presidente da República que um bom primeiro-ministro pode ter e o pior Presidente que um mau primeiro-ministro pode ter."
António Pinto Leite, Expresso

Ninguém duvida! Só falta mesmo saber o que é, para Cavaco Silva, um bom primeiro-ministro!
ccs

Uma vida saudável (I)

Antes das férias, num rasgo gloriosamente absurdo, decidi, pela primeira vez, que ia deixar de fumar. Até aí, nunca tal me passara pela cabeça. Sempre que as pessoas me perguntavam se eu não tencionava largar esse vício desagradável, respondia convictamente que não: já não era só o prazer que o tabaco me dava; era também uma questão de princípio. Ninguém me obrigava a ter uma vida saudável, com hábitos alimentares restritos, ginástica pela manhã e cafés com conta, peso e medida. A vida saudável não me entusiasmava, minimamente, apesar dos adeptos que me rodeavam: pessoas a quem a comida sabia de outra maneira, que acordavam a sentir-se bem e que exibiam outro fôlego pela vida.
A TVI, entretanto, seguia os novos moldes em vigor. Quem quisesse fumar, ia para a rua ou para uma salinha infecta, com umas cadeiras de metal e uns cinzeiros a transbordar de vício, onde uma miserável seita de excluídos se reunia, clandestinamente, a todas as horas do dia. Num pequeno grito de revolta, cheguei a montar uma delegação da secção de política, na rua, para onde levei o telemóvel, meia dúzia de caixotes e três ou quatro cadeiras que descobri num canto de um armazém. Era Verão e o tempo permitia este tipo de rebeliões. Mas não era fácil manter uma delegação, pouco articulada, que desaparecia, misteriosamente, durante a noite, e que tinha que ser remontada, todas as manhãs, com esforço e dedicação. Ao fim de algum tempo, e já com o Inverno na mente, desisti.
Não sei se por falta da delegação, se por ausência do mais elementar bom senso, resolvi anunciar que ia deixar de fumar durante o mês de Agosto. Como não queria engordar, comecei antecipadamente a fazer dieta. Inscrevi-me num ginásio – onde nunca, aliás, pus os pés. Mas andei: andei quilómetros, à beira-mar, com os músculos doridos e uma disciplina implacável, disposta a ter, finalmente, uma vida saudável. A vida saudável, no entanto, ia dando cabo de mim. Cheguei a meio das férias, de rastos, com os nervos à flor da pele, em guerra com o agregado familiar que, por sua vez, suspirava apenas pelo fim da minha época balnear. E ainda não tinha deixado de fumar. Estava apenas nos chamados exercícios de aquecimento. Em Setembro, fiquei a saber que me tinha inscrito, no ginásio, por um ano, e que me tinha comprometido a pagar escrupulosamente as respectivas mensalidades. É o que dá uma pessoa inscreve-se num ginásio!
À minha volta, entretanto, tinham começado a circular uns conselhos amigos: talvez fosse melhor eu adiar este louvável propósito para melhores dias, não era boa ideia começar a trabalhar sob pressão, tendo em conta, ainda por cima, que as eleições presidenciais estavam à vista e que o ritmo da política ia, com certeza, aumentar. Percebi vagamente que ninguém estava com disposição para me aturar. Eu própria não estava com disposição para me aturar – o que, não sendo raro, não deixa de ser preocupante. Ao fim de dois ou três minutos de reflexão, desisti de ter uma vida saudável para poder recomeçar a minha vida normal.
(continua)
ccs

João Pedro George

Hoje, quando cheguei ao Esplanar, tive finalmente a certeza. Lembro-me muito bem da carta que escreveu para "O Independente". Dos textos que depois enviou. E do alívio e satisfação que sentimos depois de os lermos. O Pedro Boucherie Mendes - bons tempos, de facto! - publicou-os logo no "Caderno 3". Falámos-lhe, na volta do correio, não fosse "o novo colaborador" desaparecer. Se calhar o Pedro nunca lhe disse, mas nós sempre achámos que a sua contratação tinha sido um dos nossas coroas de glória no "Caderno 3" do "O Independente". Por isso, quem tem que agradecer sou eu.
ccs

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Valeu a pena

Os contactos iniciais não foram fáceis. Há um ano (ou mais, não me lembro), quando espreitei pela primeira vez a blogosfera, fiquei-me por aí: por uma simples espreitadela. Não conhecia este mundo. Não fazia ideia de quem era "O Pedro" a quem "O Carlos" tão entusiasticamente se dirigia. Não sabia o nome dos blogues. E o Abrupto, o único de que ouvira falar, atravessava uma fase mística, recheado de textos de S. Bernardo de Clairvaux e de citações em latim que me pareceram despropositadas. Quando o exercício de erudição chegou ao grego, desisti! Mais tarde, o Daniel Oliveira, que animava o Barnabé, deu-me umas luzes sobre a matéria. Descobri o Barnabé (claro!) e o Acidental, onde descobri também que estava o Paulo Mascarenhas. Esta auspiciosa experiência acabou por ser bruscamente interrompida. O governo do dr. Santana Lopes e a carga de trabalho que, de repente, me caiu em cima, impediram-me de continuar estas amenas deambulações. Durante quatro meses, vivi intensamente "os episódios" da época, entre remodelações improváveis, ministros demissionários, traições sórdidas, ameaças permanentes e facadas nas costas. Na altura, passava o tempo, na TVI, ao telefone, metida num talk-show e numa intriga diária. Em certa medida, foi o eng. Sócrates que me trouxe de volta à blogosfera. Depois das férias e de uma apurada investigação, consegui finalmente entender-me no meio deste surpreendente caos. Valeu a pena!
ccs

A santa igualdade

Pelo que tenho lido, por aí, os candidatos da “sociedade civil” (como chegaram a ser chamados!) estão na origem de um movimento de opinião que, entre outras coisas, exige o acompanhamento jornalístico das suas campanhas. Contra o monopólio dos partidos. E a bem da renovação da política. Como não podia deixar de ser!
Confesso que nada me move contra as ambições presidenciais da senhora Manuela Magno ou do senhor José Maria Martins (muito pouco citado, aliás, por esses defensores da cidadania). Se tanto um como outro (ou como todos os outros) decidiram, num momento de maior entusiasmo, que o seu próximo passo, na vida, seria instalar-se em Belém, estão no pleníssimo direito de comunicar essa sua louvável decisão ao país. À partida, não tenho nada a opor. Mas recuso-me, em nome da sagrada igualdade, a pôr tudo no mesmo saco: a candidatura de Cavaco Silva, a de Manuel Alegre, a de Mário Soares ou até a de Jerónimo de Sousa e a de Francisco Louça e as candidaturas “alternativas” que supostamente surgiram na chamada sociedade civil. Nem sequer perderia muito tempo a justificar esta distinção (que me parece apenas uma evidência) se na base deste discurso igualitário não estivesse exactamente isso: um igualitarismo cego que, em nome do direito à diferença, acaba por negar toda e qualquer diferença.
A ideia de que a igualdade de direitos implica necessariamente uma igualdade total é um preconceito recente, devidamente expandido, que impõe um modelo único à diversidade humana. A mesma sociedade que tanto preza a diferença é, simultaneamente, a que mais promove um “colectivismo”, politicamente correcto, onde a mais pequena diferença é vista como uma discriminação. É por isso que, segundo a cartilha oficial, o homem é igual à mulher, o homossexual é igual ao heterossexual…e a importância da candidatura da senhora Magno é igual à de Cavaco Silva.
ccs

Coabitações

Como se tem visto, a participação do eng. Sócrates, nesta campanha, tem sido, no mínimo, modesta. José Sócrates, embora não possa deixar de elogiar, aqui e ali, o candidato que o seu partido apoiou, tem-se abstido prudentemente de atacar Cavaco Silva e a sua hipotética deriva presidencialista. Não deixa de ser curioso, aliás, que o PS, através do seu porta-voz, tenha vindo falar de um “golpe constitucional” a propósito da proposta de Cavaco Silva (sobre o secretário de Estado para as empresas estrangeiras) e que o secretário-geral do mesmo PS tenha tentado diligentemente desvalorizar a questão. Aliás, as contradições do PS, nesta matéria, mostram uma confrangedora ausência de estratégia em relação às presidenciais.
Confirmado o desastre (Jorge Coelho dixit), parece que se entrou, agora, no chamado “controlo dos danos”. O PS, como é por demais evidente, já percebeu que não vai ganhar as presidenciais. Resta-lhe, portanto, minimizar os prejuízos acumulados. Em primeiro lugar, deixando o dr. Soares entregue a si próprio na esperança vã que a derrota lhe seja exclusivamente atribuída. O “radicalismo” do candidato serve de pretexto – embora os socialistas saibam que o dito “radicalismo” era o único caminho por onde Soares podia subir. Em segundo lugar, tentando passar a ideia de que o candidato ideal do eng. Sócrates não é Mário Soares (que só lhe arranjaria problemas) mas sim Cavaco Silva com quem partilharia, aliás, alguns traços de personalidade. O objectivo é dar a entender duas coisas em simultâneo: que o primeiro-ministro, como bom cavaquista que é, está a tratar dos problemas do país (ou seja, a governar) e não pode, por isso, perder tempo com as peripécias da campanha e a trapalhada das presidenciais; e que, no fundo, o eng. Sócrates tem tudo a ganhar com a vitória de Cavaco Silva na medida em que este é o único candidato que o poderá apoiar na aplicação das suas anunciadas reformas. Em terceiro e último lugar, evitando a todo o custo que Manuel Alegre fique à frente de Mário Soares o que provocaria, obviamente, os maiores sarilhos no interior do partido.
À primeira vista, pode parecer que este estratagema de última hora fornece algumas vantagens inesperadas. Mas dificilmente disfarça a derrota que o PS pode sofrer nas presidenciais e os efeitos que essa derrota terá na esquerda e, no PS, em particular. Para além de que a feliz coabitação com Cavaco Silva é um sonho socialista que não se conjuga com a situação do país e com o passado do candidato. Se, como tudo indica, a crise se mantiver, o desemprego aumentar e o “factor de desenvolvimento” (ou seja, Cavaco Silva) não funcionar, só há uma forma do novo Presidente se justificar perante os eleitores que depositaram nele as suas esperanças: responsabilizar o actual governo pelo facto de continuarmos, com ele e apesar dele, na cauda da Europa, a milhas da “vizinha” Espanha. É isso que o “choca”. É isso obviamente que o vai continuar a “chocar”.

Publicado, hoje, na Sábado
ccs

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Coincidências...

Parece que a campanha presidencial vai começar precisamente no momento em que o interesse por ela acabou.
ccs

terça-feira, janeiro 03, 2006

O Espectro

Na altura, os anos ainda não pesavam e nós ainda achávamos que o mundo nos devia uma pequena oportunidade. De vez em quando, jantávamos, e sempre que jantávamos, acabávamos, inevitavelmente, enfiados num novo jornal ou numa nova revista, com título, linha editorial e colaboradores já escolhidos. Lembro-me do Paulo Portas me telefonar, um dia, muito sério, a perguntar se eu também ia para “A Borboleta”, uma revista que tinha surgido, em minha casa, uns dias antes, com um grafismo de alto risco e textos de superior qualidade. “A Borboleta” era propriedade intelectual do Vasco Pulido Valente e inspirava-se no primeiro jornal constitucional que se chamava precisamente “A Borboleta Constitucional”. O título, no entanto, levantava algumas reservas. Talvez influenciada pelas “cruzadas” do “O Independente”, eu preferia o “O Espectro”, um jornal clandestino, que Rodrigues Sampaio fazia, num barco, ao largo do Tejo, e que chegava a Lisboa, pela calada da noite, pronto a disparar contra a rainha e contra o partido cartista. O país, na minha opinião, precisava de um novo “Espectro”: não do constitucionalismo da “A Borboleta”.
Infelizmente, nenhum deles teve o acolhimento que merecia no nosso mundo empresarial. Ainda houve uns almoços, com fins lucrativos, que esbarraram sempre na falta de fotografias e no carácter inóspito da maior parte dos artigos. Aos poucos, fomos desistindo. Quase sem darmos por isso, o "O Espectro" e a "A Borboleta" sairam das nossas vidas. Ficaram os nomes. Mas apenas os nomes. Hoje em dia, não me sinto particularmente tentada a competir com Rodrigues Sampaio. A idade e uma dose mínima de bom senso acabaram com estes delírios que enfeitam o meu passado. Se julgam que me estou a ver, num barco, pronta a reeditar o setembrismo e a verve dos radicais, estão naturalmente enganados. Este Espectro é modesto nas ambições. Demasiado modesto...até!
ccs

Obrigada

Antes de mais, muito obrigada ao Paulo Pinto Mascarenhas. Horas de telefone. Operações incompreensíveis. Uma ignorância aflitiva. E uma paciência inesgotável. Finalmente saiu isto. Não me perguntem como!
ccs