Antes das férias, num rasgo gloriosamente absurdo, decidi, pela primeira vez, que ia deixar de fumar. Até aí, nunca tal me passara pela cabeça. Sempre que as pessoas me perguntavam se eu não tencionava largar esse vício desagradável, respondia convictamente que não: já não era só o prazer que o tabaco me dava; era também uma questão de princípio. Ninguém me obrigava a ter uma vida saudável, com hábitos alimentares restritos, ginástica pela manhã e cafés com conta, peso e medida. A vida saudável não me entusiasmava, minimamente, apesar dos adeptos que me rodeavam: pessoas a quem a comida sabia de outra maneira, que acordavam a sentir-se bem e que exibiam outro fôlego pela vida.
A TVI, entretanto, seguia os novos moldes em vigor. Quem quisesse fumar, ia para a rua ou para uma salinha infecta, com umas cadeiras de metal e uns cinzeiros a transbordar de vício, onde uma miserável seita de excluídos se reunia, clandestinamente, a todas as horas do dia. Num pequeno grito de revolta, cheguei a montar uma delegação da secção de política, na rua, para onde levei o telemóvel, meia dúzia de caixotes e três ou quatro cadeiras que descobri num canto de um armazém. Era Verão e o tempo permitia este tipo de rebeliões. Mas não era fácil manter uma delegação, pouco articulada, que desaparecia, misteriosamente, durante a noite, e que tinha que ser remontada, todas as manhãs, com esforço e dedicação. Ao fim de algum tempo, e já com o Inverno na mente, desisti.
Não sei se por falta da delegação, se por ausência do mais elementar bom senso, resolvi anunciar que ia deixar de fumar durante o mês de Agosto. Como não queria engordar, comecei antecipadamente a fazer dieta. Inscrevi-me num ginásio – onde nunca, aliás, pus os pés. Mas andei: andei quilómetros, à beira-mar, com os músculos doridos e uma disciplina implacável, disposta a ter, finalmente, uma vida saudável. A vida saudável, no entanto, ia dando cabo de mim. Cheguei a meio das férias, de rastos, com os nervos à flor da pele, em guerra com o agregado familiar que, por sua vez, suspirava apenas pelo fim da minha época balnear. E ainda não tinha deixado de fumar. Estava apenas nos chamados exercícios de aquecimento. Em Setembro, fiquei a saber que me tinha inscrito, no ginásio, por um ano, e que me tinha comprometido a pagar escrupulosamente as respectivas mensalidades. É o que dá uma pessoa inscreve-se num ginásio!
À minha volta, entretanto, tinham começado a circular uns conselhos amigos: talvez fosse melhor eu adiar este louvável propósito para melhores dias, não era boa ideia começar a trabalhar sob pressão, tendo em conta, ainda por cima, que as eleições presidenciais estavam à vista e que o ritmo da política ia, com certeza, aumentar. Percebi vagamente que ninguém estava com disposição para me aturar. Eu própria não estava com disposição para me aturar – o que, não sendo raro, não deixa de ser preocupante. Ao fim de dois ou três minutos de reflexão, desisti de ter uma vida saudável para poder recomeçar a minha vida normal.
(continua)
ccs