terça-feira, janeiro 31, 2006

INDEXAÇÃO

sem títulodog
O dr. Jorge Braga de Macedo, cuja perspicácia o país já pôde apreciar, disse na televisão que "a idade de reforma devia ser indexada à esperança de vida". Parece que a Suécia, um sítio historicamente habitado por anormais, resolveu assim o problema da Segurança Social. A lógica é esta. Primeiro, uma criatura tem de durar à força de água, alface e fibras, de exercício físico e de muitos médicos. A seguir, ao fim 40 anos de sofrimento como Santo Onofre, não ganha, como Santo Onofre, o Paraíso, ganha para a bem da sua alma e do aprimoramento das contas públicas, mais trabalho. Quando chega à reforma (aos 70, 75, 80?), já de todo inaproveitável e com o cérebro em papas, pode então descansar. A fazer o quê? Não se consegue imaginar.
Fora isso, que para o dr. Braga de Macedo não tem importância, há o problema da "carreira" dos velhos. Não vão com certeza ocupar indefinidamente os lugares de responsabilidade e direcção, porque perderam a força, a inteligência, a capacidade de aprender e se tornaram pouco a pouco um obstáculo ou até um risco. Suponho que o dr. Braga de Macedo não hesitaria em os despromover. Mas, por mim, não gostaria de o ver a ele, com 78 anos, gaguejante e trémulo, como encarregado de limpeza da Faculdade de Economia da Universidade Nova, onde iluminou tanto espírito com a luz do seu.
vpv

DEVE TER SIDO ISSO, DEVE...

"O resultado de Mário Soare foi ligeiramente abaixo do que eu esperava. Mário Soares deve ter perdido votos na última semana"

Marcelo Rebelo de Sousa

RTP, publicado, hoje, no Diário de Notícias

(As previsões estão sempre certas. Os resultados, às vezes, é que não)
ccs

LIBERALISMO

Com vossa licença, uma observação sobre o liberalismo. Em percentagem do PIB, a sra. Thatcher aumentou, não diminui, a despesa com o Estado-Previdência. E não aumentou pouco, aumentou muito. George W. Bush, o próprio, foi, depois de Lyndon Johnson e da "Grande Sociedade", o presidente que aumentou mais, também em percentagem do PIB, a despesa com o Estado-Previdência. Conclusão? O liberalismo é belo, mas não há liberal praticante que seja eleito.
vpv

COTERIES

Anda por aí uma polémica a propósito das coteries e dos amiguismos no fascinante mundo da crítica literária. A coisa começou com o João Pedro George meteu o Pacheco Pereira, passou pelo Eduardo Pitta, foi parar ao Pedro Mexia e aterrou finalmente no José Mário Silva, o bode expiatório do momento, apanhado a escrever, no DN, um texto sobre um livrinho de um colega e amigo. O texto, diga-se de passagem, é um texto que não se recomenda: em poucas linhas, rasa ao de leve a crítica, sem favorecer o amigo, nem elogiar o livrinho. Não sei o que lhe disse o colega e amigo, mas eu sei o que lhe diria: a velha frase portuguesa: “Eh pá, mais valia estares quieto!”. Claro que a questão é de fundo, como, aliás, são sempre todas as questões insolúveis. Mas, sem querer desfazer nos princípios e nos cíclicos gritos de alerta, com que Pacheco Pereira nos brinda, custa-me perceber como é que um ser sociável, com uma vida profissional preenchida, consegue trabalhar, em Portugal, sem tropeçar num amigo ou mesmo num conhecido que, ao fim de dois almoços, se transforma num velho amigo. O país é curto, o terreno é minado e os almoços, essa instituição centenária, são pródigos em cumplicidades e terminam invariavelmente num ameno e inevitável convívio. Não há nada que um almoço não explique: os belos propósitos que animam as iniciativas falhadas, os interesses mesquinhos que ameaçam qualquer iniciativa, as dificuldades inerentes ao cargo ou as contingências que determinaram a obra. No fundo, somos todos uns gajos porreiros, muito mais simpáticos do que parecíamos. Tudo é desculpável, tudo é compreensível. E em tudo se pode dar um jeitinho. Não é, impunemente, que vivemos em Portugal.
(Nomes devidamente emendados)
ccs

segunda-feira, janeiro 30, 2006

E A GUITARRA?

Lisboahead
Alegre criou o Movimento "Intervenção e Cidadania", "aberto, plural, transversal, sem estruturas rígidas", para discutir os grandes "temas" do "contrato presidencial" (?) dele mesmo, Alegre, com o país que o país, com é óbvio, rejeitou. Os "temas", que ninguém conhecia foram revelados por Ana Sara Brito, pensadora da campanha: a justiça, a desertificação, a corrupção, a igualdade de género" e "outros que surgirem". Além da originalidade genérica da coisa, o capítulo "outros que surgirem" mostra bem a falta que este movimento nos fazia. Se não abrange o universo, abrange com certeza a alma portuguesa tão cara ao poeta. Não quero ofender ninguém, mas desde o princípio que as façanhas de Alegre me cheiram desgraçadamente a Coimbra, à Coimbra da capa e da batina, da serenata, da caça ao caloiro, do folclore de "república". A essa Coimbra de que Junqueiro disse que só daria luz se lhe deitassem fogo. Ao coração das trevas. O Movimento "Intervenção e Cidadania" é uma trova que está a pedir guitarra.
vpv

OUTRO DEPUTADO

A propósito, também estive no parlamento. Seis meses, com as férias de Natal pelo meio. Não fiz nada. O grande problema era arrumar o carro (não havia ainda uma garagem especial para os senhores deputados) e, a seguir, o almoço, sempre uma aventura naquela parte do mundo. De resto, corria tudo bem. Assinava o "livro", porque a Assembleia da República não confia nos representantes da nação e espera (compreensivelmente) que eles não ponham lá os pés. Só encontrei esta solicitude, aos treze anos, no Liceu Camões. Nessa altura, passava as tardes no cinema, angustiado pela "falta". Em S. Bento, não faltava ou, pelo menos, não faltava muito. Lia os jornais, os que tinha trazido e os do Pacheco Pereira. Nunca levei um livro por causa da televisão, que aparentemente embirra com deputados que lêem livros. Fora isso, conversava e passeava pelos corredores. Passos perdidos, de facto. De quando em quando recebia instruções para votar assim ou assado. Sem um comentário. A direcção da bancada é que sabe e manda. Às quatro e meia da tarde, no mictório nacional, imemorialmente entupido, a urina já chegava à porta (consta que neste capítulo as coisas melhoraram). Às cinco e meia, derreado, voltava para casa. Uma vez por semana, na minha comissão, a Defesa, ouvia um general indescrito repetir o comunicado da USIA sobre a Bósnia. Não se permitiam perguntas. No dia em que me demiti, um bando de jornalistas, de microfone espetado, exigiu explicações.
vpv

UM DEPUTADO

As graçolas sobre a "recuperação" de Alegre não me parecem de muito bom gosto. Depois de trinta anos de ociosidade no parlamento, três meses de trabalho matam um homem.
vpv

Previsibilidades...

133circus clown poster
Já se previa. O que talvez não fosse previsível é que acontecesse tão cedo. De repente, não há ninguém no PSD que não tenha uma opinião sobre o PSD. O PSD tem que se "reestruturar". O PSD não pode continuar a olhar para o seu "umbigo". O PSD tem que fazer uma oposição "mais forte". Enfim, o PSD tem que mudar de líder. Mas isso obviamente ninguém o diz. Até porque não é fácil liderar, agora, o PSD. Marques Mendes que se aguente na oposição. Enquanto as eternas reservas do PSD o vão desgastando com críticas. É assim que se faz política. Nos jornais e nas televisões. E depois ainda há quem, usando a Comunicação Social, venha com conversas sobre os efeitos nefastos que a Comunicação Social tem na política.
ccs

domingo, janeiro 29, 2006

VPV

O Espectro era para ter arrancado a três. Entretanto, foi descoberto. E acabou por arrancar comigo. Podia ter arrancado melhor, é verdade. Mas, na altura (já lá vai um mês!) foi o que se pôde arranjar. Os outros colaboradores são esquisitos. Não começam, como eu, a colaborar de qualquer maneira. Precisam de tempo, têm umas ideias precisas sobre os objectivos de um blogue e um deles, pelo menos, tem umas opiniões ainda mais precisas sobre o que eu vou escrevendo por aqui. Não percebe por que é que Mozart exige uma certa idade. E, graças a Deus, ainda não reparou que eu usei uns versinhos de Mário de Sá-Carneiro a propósito de Salieri. Pode ser que esteja enganada mas desconfio que esse post, com Salieri, Mozart e Sá-Carneiro à mistura, lhe vai dar uma volta ao estômago. Mas um blogue, como eu já aprendi, é feito de algumas diferenças. Espero que o terceiro elemento entre rapidamente em cena. Para já, O Espectro passa a contar com a colaboração de Vasco Pulido Valente. Agora vou tentar pôr o nome dele nos colaboradores. Ou pedir ajuda ao Paulo Mascarenhas - que é, aliás, o mais certo!
ccs

Movimentos

Quando oiço falar do milhão de votos de Manuel Alegre, lembro-me, por associação, dos gloriosos 14 por cento que Basílio Horta conseguiu, em 91, quando se candidatou garbosamente à Presidência da República. Verdade seja dita que o bom do Basílio não se lembrou de se candidatar em nome da cidadania. Candidatou-se modestamente contra a opinião do partido e avançou destemido contra Mário Soares e os interesses estabelecidos. Em nome dos superiores interesses da Pátria e de uma direita (muito especial) que precisava de ser resgatada. A Pátria também, diga-se de passagem. Lembro-me de um jantar, em Coimbra, onde no meio do entusiasmo geral, Basílio se entregou às dores do passado, lamentando uma Pátria “amputada” a necessitar de regeneração. A campanha foi num crescendo, com um debate, pelo meio, que meteu num chinelo todos os debates que se fizeram agora. Aquilo, sim, foi um debate, uma espécie de suicídio em directo, que esmagou Mário Soares, apanhado de surpresa pelo seu velho amigo Basílio. Basílio, o mais centrista de todos os centristas, tinha-se, também ele, libertado dos cânones do partido e do seu moderado passado. Também ele decidira avançar, sozinho, para combater o sistema, o soarismo e o cavaquismo e o mais que houvesse para combater. Por junto, Basílio estava contra todo o país político. Na comissão directiva do CDS (esse tenebroso directório partidário) fizeram-se, um dia, as contas: Basílio não contava com um único voto. O velho CDS, de Freitas do Amaral a Adriano Moreira, tinha pouco (ou nada) a ver com este tipo de vanguardismos. Basílio, entretanto, apelava a todos os “espoliados” e aos descamisados das mais diversas origens. A partir de certa altura, também ele sentiu que estava no centro de um “movimento”. Havia gente com um odiozinho especial a Mário Soares. E havia os que não gostavam do cavaquismo. Os que estavam fora do sistema. Os que não se interessavam pela política. Contas feitas, o movimento saldou-se em 14 (ou 16, já não me recordo e para o caso é indiferente) por cento dos votos. E Basílio entrou em reflexão. O seu resultado, ao lado dos resultados que costumava ter o partido (uns miseráveis quatro por cento), era um exclusivo que convinha manter em circulação. Basílio, também ele, falava dos “seus” 14 por cento, com especial carinho, e da esperança que se depositara nele. Depois de alguma reflexão e esgotadas algumas possibilidades, o candidato decidiu oferecer generosamente ao CDS o “seu” resultado eleitoral. Ele que tinha sido escorraçado pelas estruturas do partido entregava-lhes, sem ressentimentos, os votos que tinha obtido. A coisa tinha água no bico. Mas de qualquer forma a direcção do CDS, num acesso de purismo, resolveu recusar esses votos: segundo a comissão directiva, estavam “contaminados” pela extrema-direita. A “Pátria amputada” não fazia parte do léxico democrata-cristão. Na altura, o imbróglio deu que falar. Depois, os votos de Basílio fugiram de Basílio e Basílio ficou sem os votos e sem o partido e sem o lugar de deputado pelo Porto. Uns tempos depois, voltou ao redil do sistema. E os “seus” votos mudaram de mãos. Segundo consta, estão agora com Manuel Alegre. Que também não percebe que os votos não são seus. Mas, mais tarde ou mais cedo, também ele vai acabar por perceber. Como Basílio Horta. E até Freitas do Amaral. Alguém se lembra da Fundação Século XXI? Era assim que se chamava, não era?
(actualizado)
ccs

Deus caritas est

Ia escrever hoje sobre a primeira encíclica de Bento XVI. Mas, depois do que foi escrito aqui, decidi adiar as minhas considerações para mais tarde.
ccs

sábado, janeiro 28, 2006

Baixas

Ontem, Manuel Alegre "meteu" baixa na Assembleia da República e faltou ao debate mensal. Hoje, o mesmo Manuel Alegre reuniu com as estruturas da sua candidatura e anunciou a criação de um movimento de cidadãos para debater os grandes temas nacionais. É o que se chama uma baixa selectiva. Própria de um bom cidadão!
ccs

Amadeus


Embora não tenha visto, ontem, o filme, reviu-o, hoje, quando li este texto do João Gonçalves sobre Salieri, o compositor a quem Deus terá deixado apenas “o talento do fracasso”. É verdade que Salieri foi mais do que o filme o “pinta”. Mas não é por acaso que o filme vale pela forma como Salieri é "pintado". A personagem de Salieri mostra, não a loucura do génio, mas a loucura de um homem que se sente preterido por Deus. Um homem a quem foi dado o talento para reconhecer o génio sem ter recebido, em contrapartida, a “graça” que lhe permitiria alcançá-lo. A “mediocridade” de Salieri vem deste reconhecimento: dos seus limites, da sua impotência, da sua solidão perante a gratuitidade do génio. Só ele, a quem Deus, na sua infinita injustiça, deu o talento de saber “ouvir”, é capaz de compreender a genialidade de Mozart. O homem normal, o “ouvido” da corte, desconhece estes abismos da criação: o esforço inglório de Salieri e a imensa facilidade dos que, como Mozart, foram tocados pela "graça" divina. A revolta de Salieri, a sua loucura final, acompanhada pela música de Mozart (concerto para piano nº 20, se não me engano) mostra o imenso “talento do fracasso”, como diz o João, perante a “normalidade” dos homens e o génio inalcansável daqueles que foram eleitos. O Mozart de Forman, na sua exterior vulgaridade, é uma caricatura que serve apenas de contraponto à personagem de Salieri. Deus é injusto. Até naqueles que escolhe!

"Um pouco mais de sol – eu era brasa/Um pouco mais de azul – eu era além/Para atingir, faltou-me um golpe de asa…/Se ao menos eu permanecesse aquém…"
Quase, Mário de Sá-Carneiro
ccs

Mozart

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Ontem, deixei escapar os 250 anos de Mozart. As efemérides valem o que valem mas põem a matéria em dia o que tem algumas vantagens. Mozart não fez parte dos meus “eleitos” iniciais, achava-o, como já foi escrito aqui, demasiado perfeito, demasiado banal. Mozart andava, por aí, pelos elevadores e pelos bares dos hotéis de luxo, a servir de pano de fundo ao quotidiano de cada um. Eu, pelo meu lado, tinha-me convertido ao barroco: ouvia Haendel e Bach e achava que não existia mais nada para além destes compositores. Talvez Wagner mas muito de vez em quando e em oposição ao lirismo de Verdi. A adolescência tem destas coisas! Mais tarde, e menos dada a este tipo de excessos, cheguei a Mozart, por via de Haydn. Hoje, estou convencida de que só se gosta verdadeiramente de Mozart a partir de uma certa idade. A percepção do génio que, por vezes, se confunde com leveza e superficialidade exige um equilíbrio e uma atenção que se conseguem com o tempo, depois de ultrapassados os entusiasmos da juventude. Só, nessa altura, se consegue descobrir a absoluta perfeição de uma ópera como Don Giovanni. Pelo menos, foi assim que eu a “descobri”. Ao mesmo tempo que descobri o quinteto para clarinete, os concertos para piano, os quartetos dedicados a Haydn e as “Nozze di Figaro”. E os concertos para dois e três pianos tocados por Radu Lupu e Murray Perahia que deixo como recomendação do dia: Mozart- Concertos for two & three pianos, Murray Perahia, Radu Lupu, ed. Sony.
ccs

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O contraditório

Comentário de Rodrigo Adão Fonseca, no Blue Lounge.
A CCS escreve, hoje, no Espectro, um post - «Os mestres do Liberalismo» - onde tece um conjunto de considerações diversas sobre um tema recorrente na blogosfera: o «purismo» ideológico na discussão do liberalismo.
1. Há, de facto, na blogosfera, e na discussão deste assunto em particular, muito ruído; em boa medida, porque a blogosfera é um espaço onde cada um pode escrever sem restrições; em parte, também, porque há bastante juventude, de sangue quente (ou aquecido à pressa por impulso hormonal); ou ainda muita gente que está num processo embrionário de formação, o que leva a que as imprecisões abundem com frequência; há, finalmente, um «cruzamento», interessante, mas potencialmente explosivo, entre interesses divergentes: de reflexão para-académica, de acção política e partidária, de aspiração mediática ou jornalística; ora, o modo como se alinham os conteúdos faz com que o output final seja muitas vezes criticável na perspectiva do outro, e dê lugar a acesas discussões.
2. A tudo isto acresce uma enorme dificuldade de definição do conteúdo do liberalismo. Não sendo, como o marxismo, uma doutrina com paternidade conhecida, mas uma corrente de pensamento que acomoda várias tendências e abordagens, com uma tradição plurisecular e multicultural, a sua conceptualização é aberta e até difusa.
3. As reservas que acima coloco não devem impedir, contudo, que na discussão e no debate haja um espaço para quem opte por situar o liberalismo dentro da malha larga (e estrita) em que ele se insere; sobretudo se tivermos em atenção que muito do que se publica por aí se inspira numa escrita leve e muitas vezes até negligente, embora apresentada de uma forma pomposa, barroca e até supostamente erudita. Há um espaço liberal em Portugal, de gente jovem que imprimiu na sua vida uma cultura de exigência, e que não se submete a um politicamente correcto, onde a preguiça e a escrita leve são rotuladas de «pragmatismo», e a prudência, o estudo e a preocupação pelo rigor de «pureza bacteriológica».
4. Infelizmente, num país onde a maioria da população se diz católica mas ninguém reza, e onde o filme português mais visto de sempre foi «O crime do Padre Amaro», é também relativamente fácil vender a ideia de que existem «por aí» uns «frades negros do liberalismo», agarrados aos seus dogmas, de «dedo em riste», a atormentar não sei bem quem (o post da CCS não esclarece quem são os perseguidos pelos novos «Torquemadas»).
5. Concordo que em Portugal o debate de ideias está excessivamente personalizado, e se desenrola com uma elevada falta de civismo. E, certo, está marcado por uma forte intolerância. Mas a CCS que me perdoe, mas o seu post está, neste contexto, enviesado, porque o mau carácter, a falta de educação, e o desrespeito pelos outros - o tal «dedinho em riste», o pensamento de «cartilha», os «princípios de seita», as «certezas iluminadas», as «exibições mesquinhas» e os «egos mal ajustados» - estão, infelizmente, por todo o lado.
6. O post da CCS «dispara para o ar», fazendo uma data de «vítimas civis». Por várias vezes pensei deixar de escrever na blogosfera, porque me cansa estar sistematicamente a ser bombardeado, mesmo quando a lama não me era directamente dirigida (como penso que é o caso). Que a «miudagem» se entertenha neste tipo de quezílias é-me indiferente, mas que uma jornalista da envergadura de CCS, num blogue lido por milhares de pessoas, se submeta a semelhante exercício, traduz-se numa tremenda desilusão.

Rodrigo Adão da Fonseca, Blue Lounge

A propósito dos mestres do liberalismo


Antes de ir directa ao assunto, decidi esclarecer um pequeno equívoco. Confesso que hesitei na oportunidade do esclarecimento. Mas, dadas as circunstâncias, talvez se justifique este inoportuno regresso a um episódio passado. Na altura, não me pronunciei sobre o caso. Limitei-me a seguir o “debate” que se seguiu, com uma estranheza crescente, custando-me a compreender como é que se armazena um ódio tão recalcado. Mas retirei O Blasfémias (é disso que estou a falar) das minhas leituras diárias. Há pouco tempo, deixei lá um esclarecimento sobre um texto que tinha escrito. Mas não tenciono entrar em diálogo (como me foi sugerido na caixa de comentários do post anterior), com gente que, na minha opinião, não respeita as mais elementares regras de educação – sim, considero a educação essencial a uma sociedade civilizada; e não, não considero o insulto, pessoal e rasteiro, um exemplo de liberdade e, muito menos, de verticalidade. Dito isto, convém esclarecer o seguinte: os “Mestres do liberalismo” existem para além dos "blasfemos". Não é um "ajuste de contas". Mas também não vou comentar “respostas” enviesadas. E não tenciono escrever, nem mais uma linha, sobre esta desagradável matéria. Quanto ao liberalismo, isso, é outra conversa!
ccs

Os mestres do liberalismo

Se eu me guiasse por alguns faróis do liberalismo que iluminam a blogosfera, já me tinha provavelmente albergado à sombra do socialismo. Intolerância por intolerância, antes a velha esquerda marxista do que este arrivismo ideológico que passa por liberalismo. Basta ler certas coisas que se escrevem, por aí, para se perceber que, para os seus mais zelosos apóstolos, o liberalismo…não é liberal. É um intricado de regras invioláveis e de certezas iluminadas. Uma luta feroz pela imposição da ortodoxia. E um campeonato pueril de exibições mesquinhas e de egos mal ajustados. Ser mais liberal do que qualquer outro liberal é o grande desígnio que anima certos liberais. O liberalismo é o exclusivo de uns tantos: há sempre alguém, de cartilha em punho e de dedinho em riste, disposto a zelar pelos princípios da seita. O mínimo desvio e a mais leve heterodoxia são imediatamente denunciados pela pena fácil dos mestres. Os mestres, na sua prodigiosa sabedoria, conhecem, apenas, um único caminho: os liberais, se quiserem ser liberais, têm que pensar segundo cânones liberais que foram criteriosamente estabelecidos pelas autoridades liberais, entretanto, designadas. E os cânones são apertadinhos. Não dão azo a deambulações do espírito. Nem a tergiversações doutrinais. A coroa de glória dos mestres é apanhar um liberal em falta. Denunciá-lo na praça pública. Apontar-lhe a ignorância. E mostrar, pelo caminho, a sua superior inteligência de mestre. O mínimo que se pode dizer é que esta gente, coitada, faz pior ao liberalismo que todos os apologistas do Estado.
ccs

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Cavaco Silva e a direita (I)

"Com o bloco central a mandar, não há dúvida de que a direita tem espaço para crescer”, Eduardo Nogueira Pinto, O Acidental

Este é precisamente um dos pontos onde divergimos. A eleição de Cavaco Silva, o entendimento com Sócrates, o desprezo pela ideologia, o bloco central, enfim, não garante, à direita, esse espaço mítico de crescimento. Há anos que a direita se conforma com o presente, na desesperada esperança de poder ganhar o futuro. Com mais ou menos optimismo. Com mais ou menos sensatez. Para a direita, é apenas uma questão de tempo. Segundo ENP, "a direita é minoritária (mas está certa): o seu objectivo, para já, deve ser crescer”. Nem o marxismo, de saudosa memória, tinha tanta fé no progresso da história. O problema, no entanto, vem do passado: há anos que a direita tem como objectivo crescer. Sem o conseguir. Nos tempos do cavaquismo que, agora, em certa medida, regressam, a direita foi reduzida à sua mais elementar expressão. Como ENP reconhece, "a direita gosta de ganhar dinheiro". Perante os favores do cavaquismo, afundou-se literalmente: com o liberalismo de Lucas Pires, o conservadorismo de Adriano Moreira e, finalmente, e já em desespero, com o “centrismo” de Freitas do Amaral. Três anos de governo, entre o PP de Paulo Portas e o PSD de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes, mostraram até que ponto a direita pode “estar certa”. Pensar, agora, que vai renascer das cinzas, à custa da coabitação institucional, é não perceber que essa coabitação é apenas uma forma de garantir o “desenvolvimento”, à revelia das subtilezas da ideologia. Se o “desenvolvimento” falhar, termina a coabitação e Cavaco Silva transforma-se no polo de qualquer alternativa. Como sempre, resta à direita segui-lo. Ou ficar sozinha perante o eventual sucesso deste bloco central que tão prometedor lhe parecia.
ccs

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A direita

A direita rejubila porque foi finalmente eleito um Presidente que não é de esquerda. Pela forma como o eleito é sempre definido por esta subtil negativa, presume-se que, embora não sendo de esquerda, também não possa ser colocado à direita – nem sequer pela própria direita. Aparentemente, o eleito nem é de esquerda, nem é de direita. Aliás, rezam as crónicas que a sua candidatura acabou com esta estafada dicotomia. Ele, próprio, não se reconhecia nela. Preferia estar, do lado do “desenvolvimento”, contra (ou melhor, tendo em conta o espírito da sua campanha, em desacordo) com aqueles que se conformavam com o “desemprego”. Seja como for, não se percebe bem por que motivo rejubila a direita. Só a ponta esquerda da esquerda considerava que a Presidência ainda era um feudo da esquerda. E o eleito não será de esquerda? Entre ele e Sócrates não se vêm grandes diferenças. Mas Sócrates, se calhar, devia ser definido da mesma maneira: como um primeiro-ministro que não é de direita. Por força do voto, juntaram-se os dois ao centro. Talvez seja por isso que a direita rejubila. Porque se sente predestinada a ocupar um espaço – que seria o da verdadeira direita – à margem da política do governo e da tutela presidencial. Um espaço liberal, recheado de expectativas, que assentaria, como o “movimento” de Manuel Alegre, nas virtudes da cidadania. Só que, em Portugal, a cidadania é do contra e manifesta-se, apenas, em momentos eleitorais. É uma espécie de castigo que o sistema recebe com um susto fingido. Em todas as eleições, há sempre alguém que chama gravemente a atenção para a vitória dos que não se revêem nos partidos. Depois a cidadania desaparece, no meio dos problemas do dia-a-dia, e os partidos ficam. Iguais a si mesmos. Ou talvez não…porque, a haver alguma reorganização à direita, ela será feita, a partir de Belém, pelo eleito que não é de direita. Não tem emenda, a direita.
ccs

O Estado


O liberalismo que por aí circula parte de um pressuposto interessante: a “sociedade civil” quer ser reformada. Dêem-lhe a palavra, esqueçam o Governo, os burocratas da ordem, e ela corre com o Estado, num ápice, ciente das suas capacidades. Os abusos do Estado, sofridos em silêncio, com a submissão dos fracos, estão na origem dos seus principais problemas. Tirem-lhe o Estado, ou melhor, deixem que ela se liberte do Estado, e ela florescerá com o vigor de todos os libertados. A sua notória fraqueza, a sua debilidade cívica e a sua abstinência forçada são fruto do peso do Estado que ela suporta com indisfarçável repulsa. O pressuposto estaria garantido, quanto mais não seja pelo seu carácter épico, não fosse o inconveniente desta “sociedade civil”, ambiciosa e autónoma, de facto, não existir. Em Portugal, a “sociedade civil” é um produto do Estado que a emprega e a subsidia e lhe garante o essencial. O país, na sua generalidade, “sociedade civil” incluída, remedeia-se à custa do Estado. Ao contrário do que os liberais apregoam, o Estado, entre nós, não está na origem dos problemas: é chamado à resolução dos mesmos, com natural espalhafato. Para assegurar o emprego à custa da competitividade. Para evitar falências. Para garantir os direitos consagrados na Constituição. Para distribuir subsídios que promovam a cultura, investimentos que beneficiem os empresários e iniciativas da “sociedade civil” que não existe, nem se manifesta se não à custa do Estado. O Estado, em Portugal, tem as costas demasiado largas.
(Actualizado)
ccs

DE MANHÃ





















"People demand freedom of speech as a compensation for the freedom of thought which they seldom use"

Soren Kierkegaard

(1813-1855)

DE NOITE






















"It has been said that man is a rational animal. All my life I have been searching for evidence which coul support this."

Bertrand Russel
(1872-1970)

terça-feira, janeiro 24, 2006

Atropelos

2005-199 herbert paus, american magazine
Parece que o grande acontecimento da noite eleitoral foi a intervenção de Sócrates, em cima de Manuel Alegre e em "directo" para as televisões. O caso teve honras de escândalo, deu direito a acusações e até o porta-voz do PS se sentiu obrigado a jurar pelo seu secretário-geral. Compreende-se a reacção do candidato Manuel Alegre, esse apóstolo da cidadania, lançado numa esfuziante cruzada contra os poderes estabelecidos. A preferência dada pelas televisões ao primeiro-ministro e secretário-geral do PS em detrimento da magnitude do seu segundo lugar só podia ser interpretado com um sinal evidente de "subserviência" e de “governamentalização”.
A tese, curiosamente, foi seguida à letra por alguns “faróis” da Comunicação Social que se sentiram democraticamente ofendidos com a actuação de Sócrates e o comportamento das televisões. Pelos vistos, devia-se ter deixado o primeiro-ministro e secretário-geral do PS a falar sozinho para ouvir atentamente o que ia pela alma de um candidato que tinha ficado pelo caminho. Isto sim revelaria a independência das televisões e ensinaria o primeiro-ministro a ter maneiras e a saber respeitar a importância de quem fica em segundo lugar. Infelizmente, com a vitória de Cavaco Silva, à primeira volta, o segundo lugar, por muito que alimente o ego, garante um futuro incerto às legítimas ambições que alimentam o candidato.
Por muito estimáveis que sejam as opiniões em contrário, naquelas circunstâncias, o critério jornalístico mais adequado era ouvir o primeiro-ministro e secretário-geral do PS. É evidente que ele não era candidato, como já se assinalou com alguma falta de senso, mas é secretário-geral de um partido que apoiou um candidato que perdeu as eleições; e é, enquanto primeiro-ministro, um dos pólos de uma coabitação institucional que nem todos adivinham pacífica. É mais do que suficiente!
Escrito depois de ter lido este óptimo texto de Eduardo Pitta.
ccs

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Por direito próprio

Não figura na lista dos derrotados. Mas contribuiu generosamente para a vitória de Cavaco Silva. Com uma habilidade notável, conseguiu reabilitar uma década de cavaquismo. O país deve-lhe o pântano. O horror ao diálogo. O orçamento do "queijo". E uma colorida gama de malabarismos políticos. António Guterres, o candidato "natural" do PS, que "naturalmente" não se candidatou, foi o principal "branqueador" desse tenebroso passado que a esquerda tanto invocou. Por direito próprio, passa a fazer parte da lista dos derrotados.
ccs

Breve balanço eleitoral

Como já é tarde para grandes reflexões, limito-me a deixar aqui algumas notas avulsas que, mais tarde, desenvolverei.

1. Cavaco Silva foi o grande vencedor da noite. Pouco importa se ganhou por poucas décimas ou se o seu resultado não correspondeu às sondagens iniciais. Ganhou à primeira volta, contra quatro candidatos de esquerda que tinham como único objectivo obrigá-lo a uma segunda volta. É uma vitória mais do que suficiente.
2. Mário Soares foi o grande derrotado da noite. Em política, não há derrotas "injustas". Mas há derrotados que resistem à sua própria derrota. Pode haver equívocos, aventuras desnecessárias, erros estratégicos, mas um político, como Mário Soares, nunca deixa de fazer política. E um político,como Mário Soares, é, hoje, uma raridade política.
3. Manuel Alegre ganhou a noite com o seu ambicionado segundo lugar. Mas não ganhou mais do que isso. Já houve, em Portugal, muita "cidadania" que morreu ao virar da esquina. E Manuel Alegre foi o "candidato da cidadania" apenas porque não foi escolhido pelo partido. Presume-se que vá continuar no partido. Com mais ou menos sarilhos. Com mais ou menos "cidadania".
4. Francisco Louçã foi outro dos grandes derrotados da noite. Ficou em último lugar, não teve mais votos do que o Bloco de Esquerda (ele, que era a "mais valia" do partido) e é a segunda derrota que sofre nos últimos meses. É o problema das "novidades". Cansam, ao fim de algum tempo. E esgotam rapidamente o seu prazo de validade.
5. Jerónimo de Sousa não estancou só a queda do PCP: de eleição para a eleição, tem feito o partido subir de forma inesperada e constante. A desarmante "autenticidade" da ortodoxia comunista rende eleitoralmente. O "bloco central", que se anuncia, anuncia-lhe, a ele, um futuro prometedor.
6. Marques Mendes ganhou, apenas, na medida em que o seu canditado ganhou. Reapareceu ontem, com as bandeiras do PSD e o secretário-geral do partido a "abrir" as comemorações. Sinal dos tempos e das dificuldades que o esperam. A cooperação institucional entre Sócrates e Cavaco não facilita a tarefa do maior partido da oposição. Como já disse Pacheco Pereira e António Borges repetiu, Marques Mendes vai ter tempo para reorganizar o partido e para reformar as suas debilitadas estruturas. Vai ter tempo de menos, tudo indica. E engulhos mais do que suficientes.
7. Finalmente, Sócrates, essa incógnita que por aí anda, umas vezes, ao lado dos vencedores, outras, no rol dos principais derrotados. Mas, por muito patrióticos que sejam os primeiros encontros entre o primeiro-ministro e o novo Presidente da República, Sócrates, a prazo, está condenado, como estão todos os primeiros-ministros, em Portugal, a braços com um "monstro" que não controlam e uma "crise" que os devora. Cavaco Silva, o homem que se comprometeu a acabar com o desemprego e a tirar o país da cauda da Europa, dificilmente cooperará com um Governo que não se mostre à altura das expectativas que ele próprio criou.
8. A direita que se desengane se acha que ganhou com a vitória de Cavaco. A vitória é de Cavaco e Cavaco não é de direita, nem nunca se notabilizou por deixar espaço à direita. Não é preciso ir muito longe: basta ver o que aconteceu nestas presidenciais.
ccs

domingo, janeiro 22, 2006

Reflexões

Bem me parecia que "o argentino" andava por aqui. Foi bom vê-lo, quanto mais não seja numa fotografia. Charmant, êlégant... como sempre! Assim vale a pena reflectir.
ccs

O vício reformista

Estranho texto este de Henrique Raposo. Um arrazoado contra o sindicalismo, a favor de reformas essenciais ao sistema e em particular à Justiça, inspirado numas declarações de Proença de Carvalho. Com uma diferença em relação ao inspirador: as ideias de Proença de Carvalho existem, as reformas que defende na Justiça são conhecidas de todos, desde o tempo de Cunha Rodrigues. As de Henrique Raposo são uma incógnita que o texto (longo) não tenta sequer desvendar. Assim, somos todos grandes reformistas, sem saber bem o que queremos reformar.
P.S. Para que se saiba: a oposição às teses defendidas por Proença de Carvalho ultrapassa os limites do sindicalismo. De qualquer forma, talvez fosse mais apropriado falar de corporações e não tanto de sindicatos.
ccs

O caso do envelope 9



Hoje é um bom dia para escrever sobre o caso do “envelope 9” e a chuva de indignações que se viu cair por aí. Uma semana depois do “escândalo” ter dado à luz, quando meio país já exigiu a demissão do Procurador-Geral, exigindo, ao mesmo tempo, a abertura de um inquérito e resultados imediatos (uma contradição que faz parte de qualquer escândalo que se preze), é cada vez mais difícil perceber a natureza de todo este imbróglio. De qualquer forma, convém clarificar alguns pontos.

1.As escutas. Primeiro eram escutas. Candidatos presidenciais, dirigentes partidários, comentadores avulsos pronunciaram-se, com a indignação à solta, sobre as escutas do “envelope 9”. E as escutas do “envelope 9” serviram de pretexto às mais amplas dissertações sobre o abuso das escutas, os danos das escutas, a arbitrariedade das escutas. Houve mesmo quem, num rasgo de pura irresponsabilidade, defendesse o fim das escutas. Depois, percebeu-se que afinal não tinha havido escutas.

2.Em contrapartida, havia um registo “escondido” de chamadas feitas por altas individualidades do Estado que o Ministério Público tinha obrigação de ter descodificado. A história não é assim tão simples. Ainda está, de facto, por esclarecer o papel do Ministério Público neste sarilho informático. Souto Moura diz que os dados que recebeu da PT foram analisados por peritos da PJ que não detectaram o filtro, nem as chamadas “escondidas”. Se isto for verdade, não há adjectivos que qualifiquem os métodos de investigação da Judiciária. Mas ainda está por esclarecer, também, o papel do advogado Sá Fernandes que teve esses mesmos dados na mão e que contou com a oportuna ajuda de um perito informático. Como está por esclarecer a autoria da difícil e morosa investigação que foi parar à primeira página do 24horas. Aparentemente, o jornal conta com especialistas muito mais bem preparados do que os da PJ e o de Sá Fernandes.

3.A ida de Souto Moura a Belém, por exigência do Presidente da República é, no mínimo, extravagante. Em fim de mandato, Jorge Sampaio não pode demitir o Procurador-Geral – aliás, não se demite um Procurador-Geral a reboque da primeira página de um jornal, ao contrário do que alguns possam pensar. Ao chamar Souto Moura a Belém, o Presidente limitou-se a debilitar, ainda mais, o Ministério Público, sem ter uma alternativa, uma solução ou uma saída que justificasse o carácter dramático do gesto. Não é a melhor forma de contribuir para o regular funcionamento das instituições.

4.Por fim, a Assembleia da República. Algo vai mal na Justiça, quando um Procurador-Geral é obrigado a explicar aos deputados os contornos de um processo que está a ser julgado em Tribunal. Honra lhes seja feita, os deputados do PCP foram os únicos que se deram conta da falta de legitimidade desta inquirição parlamentar. Para cúmulo, sem sequer estar concluído o inquérito.

5. Concluindo: espera-se que este caso seja, de facto, esclarecido.
ccs

sábado, janeiro 21, 2006

A importâcia do nome

O Rodrigo tem razão: o caso do "envelope 9” é finalmente um caso com um nome capaz. Mérito dos jornalistas, com certeza, já que os casos titulados pela Polícia Judiciária, com o patrocínio do Ministério Público, têm sempre nomes pelintras, que empobrecem a língua e deixam ficar mal o país. Basta comparar a densa originalidade do “envelope 9” com a escolha pindérica do “apito dourado” ou do “saco azul” de Felgueiras. Aliás, os nomes que a Polícia Judiciária inventa para as suas operações deviam merecer um estudo aturado: a operação “reveillon”, a operação “yanke”, a operação “furacão”, a operação “cai neve”, a operação “a voz do deserto”, a operação “final feliz” são apenas alguns exemplos que revelam a esfusiante criatividade que existe na nossa esforçada polícia. O caso do “envelope 9”, com o seu misterioso algarismo e a sua finura linguística, tem requintes de originalidade que as autoridades judiciais deviam saber usar. O desenvolvimento de Portugal passa também por aí.
p.s. O Rodrigo tem razão mas o seu post já deve estar no arquivo. Apesar disso, a ideia percebe-se...
ccs

Reflexão

Hoje é dia de reflexão. Hoje anda tudo, por aí, sorumbaticamente, a reflectir. Em silêncio. Comentários, notícias ou mesmo fotografias impedem a reflexão. A reflexão é frágil. Qualquer pequena frase a abala. Felizmente, a lei zela pelo direito dos cidadãos a uma reflexão tranquila. Sem ruído, nem perturbações. Sem nada que os possa ajudar a reflectir.
ccs

Apagadas

Tive que apagar as fotografias para tentar recuperar a barra de ferramentas. Não consegui.
Já consegui. Depois de muitas tentativas frustradas, o meu filho apareceu, carregou num botão e a barra apareceu. Escusava de ter apagado as fotografias! Para a semana, depois das eleições, vou tentar aperfeiçoar os meus conhecimentos informáticos. As minhas desculpas por estas trapalhadas. (actualizado)
ccs

Fotografias

Estranho...! Ontem quis publicar as últimas fotografias da campanha. Deu erro. O meu htqualquer coisa não estava a funcionar ou coisa que o valha. Desisti. Vejo agora que elas acabaram por ser publicadas hoje a uma hora bastante improvável. Às 12.28? Neste momento, no meu relógio são 12.26. Mistérios das novas tecnologias.
ccs

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Laços de ternura

Caro João

Não é bem ternura...é mais o reconhecimento do que está por trás da aparente derrota de um homem. E é verdade, como já lhe disse, que tenho um certa dificuldade em adaptar-me ao presente.
ccs

Mário Soares



É próprio dos tempos dizer mal de Soares. A candidatura de Soares não tem o benefício da dúvida, nem qualquer grandeza moral: Soares candidata-se por amor-próprio e o motor da sua candidatura é pura e simplesmente a vaidade. Soares está fora do tempo mas foi ele, com a sua megalomania e o seu "umbiguismo" inato, que se pôs fora do tempo, aparecendo onde não era esperado. Soares não tinha que se candidatar. E não tinha, de facto. Podia ter ficado, num lugar de honra, a assistir, ao desastre. Entre as hesitações de Sócrates, a ausência de Guterres e a inevitável recusa de António Vitorino, as responsabilidades já estavam distribuídas. É evidente que havia Manuel Alegre, um “saldo” de última hora a que o PS, em desespero, podia ainda recorrer. Mas Manuel Alegre, com o apoio do PS e sem a aura da cidadania, valia o que valia. E valia pouco.
A “arrogância” de Soares, com que parte da direita se delicia, foi arriscar uma candidatura. Sair do pedestal da história. Ir à luta. Fora de tempo, exibindo a política no seu estado puro. Este último combate de Soares é um combate pela política. Não tanto um exercício de arrogância contra os que não lutaram contra o fascismo. Mas o testemunho de um político que se recusa a aceitar que a política seja apenas um exercício de competência. A “obsessão” contra Cavaco Silva é a obsessão contra um político “intermitente” que escolhe as alturas certas para se candidatar a salvador da Pátria e que, sobretudo, a quer resgatar dos interesses mesquinhos dos “políticos profissionais”.
O mundo de Cavaco Silva, asséptico, limitado e sem a mácula da política, é um mundo estranho a Mário Soares que se formou noutros tempos e noutros combates. A sua candidatura nasce deste equívoco, do facto de não ter percebido que, nos tempos que correm, Cavaco Silva é o homem certo para o lugar certo – exactamente porque não é um político. Educado no esforço e na disciplina, Cavaco Silva representa o mérito, o sucesso e a ascensão a que qualquer português pode aspirar na vida. Cavaco Silva é o português novo que fazia parte da mitologia do cavaquismo. O português que quer vencer e que não se resigna. O português que todos querem ser, trinta anos depois do 25 de Abril. O país, de facto, mudou. Mas isso não retira grandeza ao combate de Mário Soares. Estar fora do tempo é também uma forma de saber estar no tempo.
ccs

quinta-feira, janeiro 19, 2006

O contraditório

Comentário de Tiago Mendes ao texto de Eduardo Lourenço referido no post anterior. Não concordo. Mas vale a pena lê-lo para poder discordar. Responderei logo que puder.

Cada um no seu nível (há que ter isto em conta), também Santana Lopes ou Garcia Pereira têm a "paixão" pela politica que Eduardo Lourenço atribui a Soares. Até tem um nome muito conhecido na blogosfera: umbiguismo. Isso não tem nada de mal, ou melhor, nada que não seja perfeitamente "natural". Mas é o que é, e não devemos confundir as coisas. Soares candidata-se sobretudo por "amor proprio", e toda a campanha é um desfilar de atitudes tipicas do lorde que julga ter o rei na barriga, e que tudo pode, que tudo merece. Se insulta e descategoriza os adversários para lá dos limites, vem os anti-politicamente correctos dizer que quem critica isso não percebe nada de política e tem a "mania do respeitinho". Se comete gaffes, não são mostradas, porque provavelmente é um senhor de idade, ou porque ameaçou tanto os orgãos de comunicação social que qualquer estratégia dessas seria a "prova provada" da conspiração contra o octogenario.

"Filho desses dois tempos, de que foi actor político precoce e, depois, personagem histórico, Mário Soares ousou trazer de novo para uma arena pública, já longe desses tempos turbulentos, essa antiga paixão política, sem querer saber se estaria ou não fora de estação."

Isto é verdade, mas em si mesmo não faz um "grande político". Tanto pode ser devido a "coragem", como a estar "fora do tempo". Pode ser "dedicação", ou pode ser "soberba". É preciso conhecer o sujeito e ler o contexto para entender a acção. Achar o gesto de Soares quixotesco é no minimo um pouco insultuoso para o cavaleiro andante.

"O candidato Mário Soares que se lançou neste último combate político de improvável sucesso - e consciente disso - é o mesmo e diverso do que se empenhou jovem na luta por um futuro democrático para Portugal e incarnaria mais tarde o triunfo da democracia sonhada durante dez anos, representando-a e representando-nos aos olhos do mundo, como ninguém".

Mentira dupla - e quase pornográfica. Primeiro, desde o início que muitos acreditavam piamente que Soares tinha boas hipoteses de ganhar. Segundo, é obvio que o próprio também acreditava nisso. Alguem acreditava que Soares se teria voluntariado apenas para fazer Cavaco ir a uma segunda volta? Ridículo. Só um amiguismo troglodita [de EL por MS] pode coarctar tanto a lucidez. Soares tem muitas qualidades e muitos defeitos, como qualquer um. Aos 82 anos, o que ele queria era sentar-se na cadeira do poder, e gozar mais cinco invejaveis anos da sua vida, mostrando que "é o maior", que consegue "ganhar tudo" a que se candidata. Com direito a uns discursos com mais impacto que as suas míticas crónicas do Expresso [piores só as de Alegre ou Carrilho] e umas viagenzinhas (claro).
"Não alinhou na cruzada da família Bush contra o Iraque, não morre de amores pela nova ordem hiper-liberal americana e comparece nos "fóruns" onde essa nova ordem imperial e imperialista é contestada. É mais do que basta para o incluir, desta vez sem reticências, na esquerda que, desde jovem, foi o seu lugar matricial e que, agora, no tarde da sua vida, lhe serve ainda de escudo."

É verdade. Mas também é curioso que em relação a Cunhal tantos apontem a sua dificuldade em ler os tempos, e que a Soares poucos repitam o mimo. Soares nao percebe bem o que aconteceu nas últimas décadas (e, sim, fazia-lhe bem aprender alguma economia). Pôr-se do lado das vítimas, dos despojados, e do terceiro mundo - da forma que ele se põe - nem sequer é "ideológico": é uma atitude quase caritativa de quem está chateado com o rumo que o mundo leva, sem o conseguir entender. Para sonhadores, bastavam os comunistas. Para pensamento light, bastaria a sua (caritativa) esposa, mais as suas cronicas no DE.

"É uma bela aposta a de Mário Soares, perdida ou ganha. Com a sua carga romanesca e a sua trama paradoxal."
Uma bela "aposta" só o pode ser tendo em conta as "consequências" (ou seja, probabilidades de determinados ganhos). O ensaísta quereria ter dito, provavelmente, a "jogada", ou o "gesto". "Aposta" tem um significado demasiado preciso. A carga romanesca existe para quem quiser se apaixonar. Não existe qualquer paradoxo porque a "vaidade" é o motor número um desta candidatura, e isso explica tudo. [Lembremos PSL].

"A esquerda não o traiu, nem ele se traiu nela. O drama é que essa esquerda de que pela última vez se faz paladino é, ao mesmo tempo, uma realidade - embora ideologicamente recente - e uma quimera."

A esquerda sempre foi uma quimera. O que não é necessariamente mau. Mas é.

"O problema da esquerda nunca foi a direita, hipóstase eterna do que "é"- força, violência, poder sem reverso, em suma, a "coisa em si" como história fáctica, obstáculo e razão de ser da esquerda em intenção mais virtuosa, não é menos opaca, no seu angelismo imaginário, que a mais obtusa direita."

Esquerda como "transparência da história"? Excesso de ensaísta, certamente. "Virtuosa"? Para quê, por aqui, o conceito de "virtude", se naturalmente [e tautologicamente] cada um achara "virtuosas" as suas posicões políticas? Vazio. O remate do artigo não o percebo bem, e parece-me - ele sim - muito opaco, obtuso, e até fraquito.
Tiago Mendes

O tempo de Mário Soares (a pedido de um leitor)

"Trazer para esta sociedade, mais do que nunca sociedade de espectáculo, o eco da antiga paixão portuguesa, quer a recalcada do antigo regime, quer a exaltada e exaltante das duas décadas após Abril, era uma aposta arriscada, para muitos perdida e, em todo o caso, objectivamente quixotesca. Filho desses dois tempos, de que foi actor político precoce e, depois, personagem histórico, Mário Soares ousou trazer de novo para uma arena pública, já longe desses tempos turbulentos, essa antiga paixão política, sem querer saber se estaria ou não fora de estação. Passada a surpresa, esta audácia quase juvenil do antigo Presidente da República foi recebida com cepticismo por muitos, com sarcasmo por outros e, sobretudo, como uma ocasião inesperada para ajustar contas antigas e menos antigas com o homem que, melhor do que ninguém, de entre os activos, se identificou e é identificado com a Revolução de Abril e, em particular, com o tipo de democracia que ela instaurou em Portugal."
Eduardo Loureço, Publico (18/1/06), publicado na íntegra por Tiago Mendes, aqui, em Selecções de Crónicas de Imprensa

Coabitações

Aqui há uns tempos, António Pinto Leite escreveu, no Expresso, qualquer coisa como isto: “Cavaco Silva será um óptimo presidente da República para um bom primeiro-ministro e um péssimo presidente da República para um mau primeiro-ministro”. A frase fez algum furor e foi euforicamente citada nos círculos habituais Sócrates não terá, pois, que se preocupar. Basta-lhe ser bom. Contido. Reformista. E Cavaco, do alto da presidência, será simplesmente óptimo com ele. A solidariedade institucional funcionará a vapor. Nada de intriga partidária. Nada de manifestações à porta do palácio de Belém. Nada de congressos a pensar no futuro. Se Sócrates se esforçar e souber gerir o país, Cavaco será excepcional para o governo, com a sua experiência de primeiro-ministro, a sua ciência de economista e a sua fama de honestidade.
É verdade que Cavaco governará por interposto Sócrates: mas governará bem, apoiado num primeiro-ministro bom que conhece os seus limites e “cooperará estrategicamente” com o novo inquilino de Belém. Se assim for, se este radioso sonho se concretizar, o PSD, com Marques Mendes ou com um acólito de Cavaco a substituí-lo, só tem dois caminhos pela frente: ou coopera também, numa reedição do que foi o Bloco Central, ou pura e simplesmente emigra para um país onde haja um primeiro-ministro mau.

Em todo o caso, o caso não é líquido. Sócrates pode deitar tudo a perder. Deixar de ser um bom primeiro-ministro ou (consoante a versão), continuar a ser um mau primeiro-ministro. As avaliações nunca são unânimes. Cavaco Silva e os seus apoiantes acreditam que o homem e a política se definem pelos padrões da moral e pelas regras da economia. Infelizmente (e António Pinto Leite salvaguarda essa triste possibilidade), um homem, principalmente um político, nem sempre é sério, nem sempre conhece bem alguns assuntos de interesse geral. Levado por interesses obscuros ou por deficiência de informação, um primeiro-ministro pode não chegar exactamente às mesmas conclusões a que o presidente chegou. Aí, claro, passa a ser um mau primeiro-ministro, com direito a um péssimo presidente, capaz de lhe fazer a vida negra, com reprimendas públicas e outros enxovalhos do género. Para além de que um presidente, que se candidatou para salvar a Pátria, espera naturalmente que, por respeito pela sua candidatura, o primeiro-ministro arranje forma de a salvar de qualquer maneira.
Adaptado do artigo publicado hoje na revista Sábado
ccs

PROCURA-SE


Luis Marques Mendes, presidente do PSD, líder do principal partido da oposição. Foi visto, pela última vez, em Pombal, ao lado do candidato apoiado pelo seu partido. Militantes anónimos do PSD não excluem a possibilidade do seu líder ter sido raptado por um grupo de apoiantes de Cavaco Silva. Parte do PSD oferece uma pequena recompensa a quem der novas do seu paradeiro.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Continuando


Profético, Manuel Alegre avisa que até às eleições se vão passar coisas “mirabolantes”. Por exemplo, tirarem-lhe o segundo lugar nas sondagens. As sondagens, que o PS “manipula”, sem escrupulos e sem vergonha, são a única razão de ser da sua candidatura. Ele conquistou o segundo lugar nas sondagens. Ele está mais bem colocado para derrotar Cavaco Silva. Ele tem mais hipóteses de ganhar a segunda volta. Ele vale o seu peso em sondagens! Tirem-lhe as sondagens e ele deixa de ser o que é: um rebelde institucionalizado que veio “estragar a festa” ao PS e a todos os que traíram a excelência da sua amizade. Sem sondagens, sem o seu indispensável segundo lugar, Manuel Alegre transforma-se num inconformista sem causas. Num rebelde que não incomoda. Num derrotado do PS que viu nas presidenciais uma oportunidade para se vingar do PS de José Sócrates. Resta saber se foi ele que se popularizou nas sondagens ou se foram as sondagens que o popularizaram a ele. Em qualquer dos casos, a vingança rende. A humilhação de Soares e a derrota de Sócrates, por si só, garantem doses maciças de popularidade. Talvez isso ajude a responder a esta pertinente questão. E talvez isso ajude também a compreender por que é que, com Manuel Alegre, não há bipolarização.
(revisto)
ccs

Recomendações

"O tempo de Mário Soares", Eduardo Lourenço, Público (18/1/06)
ccs

Na redacção

Para quem fica em terra, sentada numa secretária, presa a um telemóvel e à agenda dos candidatos, a campanha é uma época pesada, de estridente monotonia. Desta vez, e ao contrário do que aconteceu no passado, fiquei na redacção, praticamente sozinha, a ver a secção de política passear-se pela paisagem, exibindo os seus talentos profissionais. É verdade que os relatos não são exaltantes. Faz frio, o cansaço acumula-se, os discursos repetem-se e as acções de rua, (que agora se chamam arruadas) confirmam, apenas, o marasmo dos dias e as formalidades de qualquer campanha. Os candidatos e o povo. Uma cara conhecida. Um apoio de peso. Uma frase que fica. E, por junto, é tudo o que fica. As questões interessantíssimas, que Pacheco Pereira tem debaixo da língua, prontas a ser declinadas na noite das eleições, não chegam sequer a ser referidas – quanto mais a ficar registadas. Os candidatos esquivam-se. Cenários não se analisam. Cenários são para os comentadores de domingo, para jornalistas distraídos dos problemas nacionais que todos querem ver discutidos. Cenários verificam-se, somente, no próprio dia, com o voto do povo e a vontade do povo e as contas que o povo tem a ajustar com a vida.
Tudo isto passa pela redacção, através do telefone e dos telejornais, abafado pela distância e pelas exigências técnicas do meio. Ao fim de uma semana, os hábitos criam-se. “Que é que o Cavaco disse? Nada, não quis comentar mas podemos pô-lo a não comentar”; “E o Alegre ainda está na arruada? Não, eu é que estou, ele perdeu-se da arruada”; “E o Soares disse alguma coisa? Uns 'vivos' fortíssimos contra o Cavaco”. Tudo previsto, apesar de não ser muito frequente um candidato perder-se da sua própria arruada. E assim vai continuar, até domingo, quando os resultados se tornarem oficiais e a campanha pertencer finalmente ao passado. A partir daí, entra-se freneticamente no dia seguinte. Aquilo a que os jornalistas gostam de chamar o day after. E os comentadores gostam de analisar ao milímetro. A estabilidade é um mito.
ccs

terça-feira, janeiro 17, 2006

Portugal no seu melhor


Havia, n'O Independente, uma secção de que eu gostava particularmente. Chamava-se Portugal No Seu Melhor e era feita pelos leitores do jornal. Não me lembro bem como é que aquilo apareceu mas tenho ideia de que foi o Domingos Amaral que lançou essa novidade, na revista, quando ficou à frente do Caderno3. De qualquer forma, a coisa pegou. Todas as semanas, choviam fotografias, enviadas pelos leitores, que mostravam o país de todos os dias, que nós não víamos todos os dias: um país “reconhecido”, familiar e estranho, com os seus atrasos, o seu desleixo, as suas contradições, os seus pequenos rasgos e os seus desenrascados serviços. Havia placas de trânsito sem sentido, letreiros hilariantes, lixeiras onde menos se esperava, remendos inaceitáveis…Havia de tudo. Era Portugal no seu melhor. Às sextas-feiras. No dia em que era publicada a melhor fotografia, devidamente assinada. Pensei abrir uma secção, como essa, aqui, n’O Espectro, para onde os leitores poderiam enviar não só fotografias mas também pequenas notícias que mostrassem o país que somos e no qual alegremente vivemos. Uma vez, por semana, à segunda-feira, por exemplo (para abstrair da semana que começa), seriam publicados os melhores contributos, entretanto, recebidos. O material, se alguém estiver interessado, deve ser enviado para o mail deste blog. Espero que o eviem. E que se possa instituir um novo hábito. Vamos ver!
ccs

S/ Título

Ana, não sei o que dizer, palavra! Quando te li, engasgou-se-me o coração.
ccs



O contraditório

Factores de sucesso
Tudo é muito mais simples do que aquilo que querem fazer.Diz Constança que: se não houvesse Soares nem a simpatia de Cavaco, este homem (Manuel Alegre) não existia. Dizem outros que lhes escapa qualquer coisa para o entendimento do sucesso de Alegre.Mas Constança tem obrigação de perceber, devido a ser quem é e por ter a experiência que tem, que nada existe sem algo e que Alegre, ao contrário do que diz, não é só passado. É acima de tudo a garantia do futuro, de um futuro onde se não voltem a cometer os erros de omissão que, conforme já disse noutro texto, fizeram de Portugal o País mais pobre da Comunidade Europeia e, acima de tudo e mais grave, o de maior desnível social.Este tem sido o grande trunfo de Alegre.Ele é a última oportunidade, os cidadãos estão a perceber, para que esta Pátria de séculos, se não transforme numa Pátria de párias, de patos-bravos e de novos-ricos.O sucesso reside na transversalidade que Alegre inteligentemente soube manter, mesmo quando o quiseram encostar à esquerda da esquerda do PS. Reside na nova noção de "Presidente de Todos os Portugueses", como garante de que os direitos, liberdades e garantias são mais do que formalidades constitucionais.Alegre é, neste momento, o último reduto de uma Nação que se quer civilizada, fraterna e solidária.

Resposta ao texto anterior, publicada por LNT, no Tugir

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Necrologias



É curioso como as sondagens subiram, depois de Manuel Alegre ter iniciado um roteiro fúnebre pelo seu passado, repleto de estátuas e de cemitérios, de beijos e de homenagens. Aparentemente, os mortos rendem numa campanha. Quanto mais o candidato se chega a uma estátua ou invoca o exemplo de um ilustre finado, mais o candidato sobe nas intenções de voto, mais o candidato se distingue, nos barómetros diários, mais o candidato se afasta de alguns dos seus adversários. Ainda há pouco tempo, entre um beijo a Miguel Torga e o anúncio de que ia à lota de Matosinhos, onde tenciona homenagear Sousa Franco, apesar dos protestos da mulher, Manuel Alegre proclamava, naquela sua voz de trovador, que aquele era o primeiro dia de uma histórica segunda volta. Os próximos, os herdeiros, os familiares têm criticado asperamente esta apropriação eleitoral dos seus mortos. Mas as críticas adubam uma candidatura que avança destemida contra “o medo” e se imola como vítima do sistema. Pouco importa que Manuel Alegre esteja, há trinta anos, sentado e em sossego, na bancada do PS. Ele é o poeta da Pátria, o homem que não se atemoriza, o inconformista por vocação, o candidato que surgiu para vingar a cidadania e estragar a festa aos directórios dos partidos. Como ele próprio diz, vai onde quer e quando lhe apetecer, porque ninguém é dono do país e, ainda menos, da sua consciência. O homem livre libertou-se. E está aí, disposto a dar cabo de qualquer razoabilidade eleitoral, em nome de um patriotismo velho e republicano, de uma cidadania postiça, de uma fraternidade empoada e de uma arrogância moral que se justifica, apenas, com o sonho do seu passado. O homem sentiu-se traído. Mas essa é sua grande vitória. Sem Mário Soares e sem a simpatia do cavaquismo, este homem não existia.
ccs
Depois de ler este texto de Paulo Gorjão

Boas notícias

O Pedro Boucherie Mendes também já tem um blogue: aos 35, um blogue a não perder. O Pedro diz que eu fui a "chefe mais luminosa" que teve. E "a mais difícil". O que é uma simpatia sua e um manifesto exagero (por esta ordem). Infelizmente, continuo sem perceber quase nada de computadores. Gostava de mudar, aqui, umas coisas mas vou ter que pedir ajuda a alguém até porque tenho em vista um parceiro que, nesta matéria, ainda é mais analfabeto do que eu. E a propósito o que é essa história de um g-mail?
ccs

25 DE ABRIL SEMPRE!

2005-04-21-@14-30-34
Faltava Raymond Aron para dar outra diginidade à tese. Os totems da tribo não se discutem. A herança é uma "mitologia retrospectiva". A esquerda, se calhar, não existe. A Revolução é de todos. As massas "preparam-se para votar em massa" no seu Redentor. E Cavaco Siva é naturalmente "o candidato do 25 de Abril". Talvez, por isso, não vá votar nele. Como não votaria no major Tomé, seu camarada de armas, nessa sua corajosa luta contra os esbirros do fascismo e os lucros ilegítimos do grande capital.
ccs

Arrumações

Ando, há algum tempo, para comentar dois momentos eleitorais. Ao contrário do que se pensa, não são meros episódios de campanha...

1.Cavaco e a "Grândola, Vila Morena". Não me espantou o entusiasmo do candidato e a canção com que resolveu brindar a assistência. Cavaco, a ser alguma coisa, é um social-democrata de esquerda que acredita no modelo social do Estado e que defende o actual sistema político que, em dez anos de governo, nunca tentou alterar. Mas, mais do que isso, Cavaco não reconhece valor à dicotomia entre a esquerda e a direita que gostaria de ver substituída por uma, mais técnica, entre o desemprego e a desenvolvimento; por outras palavras, entre a incompetência e a competência. A "Grândola", para ele, é apenas uma canção que pertence a um passado remoto, onde havia ideologias, que o pode ajudar, agora, a reconverter alguns dos sobreviventes da esquerda que não sabem ainda que esta, entretanto, morreu. O que me espantou, sim, foi a defesa teórica que a direita, que apoia Cavaco Silva, fez dessa utilização. Como se Zeca Afonso fosse alheio à história e a história e os seus símbolos tivessem perdido qualquer significado político. Um prenúncio de que essa direita não sobrevive também ao regresse do cavaquismo?

2. Na sua peregrinação pelos mortos e pelos cemitérios, Manuel Alegre não deixou de invocar Álvaro Cunhal e o seu exemplo para o guiarem nesta campanha. Jerónimo de Sousa criticou o oportunismo do gesto. E Manuel Alegre, adoptando rapidamente o papel de herói da resistência, declarou que a história não era património de ninguém. Uma frase épica que nada diz sobre o essencial. É evidente que Manuel Alegre sabe que, se Álvaro Cunhal estivesse vivo, ele teria que embrulhar a invocação no saco, sob pena de Cunhal o guiar até a um poço. Ao contrário do que Alegre possa julgar, a partilha de uma história comum não leva à manipulação dos mortos e à sua utilização em campanha. Sartre tinha raão: "L' enfer c'est les autres" porque o olhar dos outros se apropria de quem morreu. Foi o que Manuel Alegre fez a Álvaro Cunhal. Só que, à excepção do PCP, ninguém registou o abuso rasteiro do gesto. Pelo contrário, houve até quem aplaudisse: Cunhal também é de todos. Como Sá Caneiro que, pelo caminho que as coisas levam, ainda se estreia, num comício do MRPP. A ideologia anda, de facto, pelas ruas da amargura!
ccs

domingo, janeiro 15, 2006

EPC

Ler Eduardo Prado Coelho provoca-me uma euforia enorme, seguida de perda de consciência. Na verdade, a escrita de EPC, já percebi isso há muito tempo, tem heroína. Se aquecerem com um isqueiro os livros de EPC, verificarão que eles começam a libertar vapores que podem ser aspirados através de um tubo feito com uma nota ou com papel de alumínio comprado no supermercado.
João Pedro George, Esplanar

Falta de jeito?(II)

A falta de jeito, diz-se, nota-se também no incómodo do candidato, na forma como foge às perguntas e se atrapalha com os imprevistos que fazem parte de qualquer campanha. O "esgar", que Santana Lopes provocou e que animou algumas hostes, é apenas uma caricatura que revela a rigidez do discurso e as limitações de uma imagem. Com Cavaco Silva não há estados de alma, nem improvisos de última hora. Há um programa que tem que ser rigorosamente cumprido. E que, diga-se o que se disser, com ou sem "agenda escondida", está a ser rigorosamente cumprido. Quem o acompanhou, no passado, sabe que Cavaco Silva não deixa nada ao acaso. E que, ao contrário do que dizem, é um profissional em campanhas eleitorais. A pretensa "desenvoltura" de que agora dá mostras só espanta quem não tem memória e não se lembra da "desenvoltura" exibida nos bons tempos do cavaquismo. Vamos ver o que nos espera esta semana. Sabendo, à partida, que nos espera a apoteose final.
ccs

Falta de jeito?(I)

Nunca aderi à tese (muito difundida por aí) que dá como adquirida a “falta de jeito” de Cavaco Silva para suportar a exposição a que obriga qualquer campanha. Convém perceber que “a falta de jeito” é um dos trunfos do candidato. É sinónimo de “honestidade” e de “competência”. Revela um profundo desprezo pela “retórica” dos que foram ultrapassados pela história. E aponta para uma “nova forma” de fazer política que dispensa explicitamente a política (duas pessoas sérias com a mesma informação chegam naturalmente à mesma conclusão). Os apoiantes de Cavaco Silva sabem que ele não tem uma boa relação com as câmaras. Não esperam que ele esmague os seus adversários num debate. Nem esperam que ele os brinde com as subtilezas da ideologia. Esperam apenas que ele, em Belém, seja igual a si próprio e que introduza novas regras no sistema político e ponha fim a certos arranjos partidários. E não esperam pouco, diga-se de passagem!
(continua)
ccs

sábado, janeiro 14, 2006

Relatividade

escher-relativity-300

Três questões

Um leitor, estudante de Jornalismo, na Universidade Nova, enviou-me três questões a que tentarei responder.

1. Quais foram as suas impressões iniciais em relação a este meio (a sua organização ou falta dela, o seu interesse, o seu potencial...).

2. O que procura com o Espectro? Que apelo a levou a criar um blogue? Que tipo de realização procura?

3. Uma semana depois, tem outro entendimento sobre esse apelo? Vê-se a actualizar o Espectro daqui a um ano?

1.As minhas impressões iniciais confirmaram o preconceito. Comecei por desconfiar do meio. Quem está habituada a escrever por encomenda, com regras estabelecidas e espaços determinados, tem alguma dificuldade em compreender este mundo gratuito, sem prazos, nem restrições. O comentário à flor da pele, o apontamento íntimo e o invariável momento de poesia levantaram-me inevitáveis reservas. Como se as pessoas registassem aqui, nos seus blogues, os pensamentos que tinham, no intervalo de qualquer coisa, quando iam ao frigorífico buscar um iogurte ou um sumo de laranja. Mais tarde, quando voltei, com um certo tempo e vagar, descobri finalmente as “potencialidades” do meio: a força do debate, a diferença da escrita, a descoberta de pessoas de quem nunca tinha ouvido falar e que tenho pena que não escrevam nos jornais.

2. O “apelo” é mais difícil de explicar. Escrevi sempre por obrigação, em cima dos prazos, sem qualquer tipo de satisfação. Não gosto de escrever. Sacrifico as ideias à forma e espremo as palavras até à exaustão. No fim, em desespero de causa e sem tempo para mais rectificações, envio o texto, à pressa, em cima da hora, depois do telefonema de um editor. O que é que uma pessoa, assim, faz aqui, com o Espectro às costas, sem qualquer remuneração financeira? É um mistério que eu espero estar em vias de solucionar. Mas espero sinceramente não vir a descobrir que senti, de repente, uma insólita vontade de participar. Neste momento, não me convém mexer na minha personalidade.

3. Se não fosse por impossibilidades técnicas, via-me a “actualizar” o O Espectro daqui a uma semana. Daqui a um ano, não sei. Nem sei se ainda haverá O Espectro para actualizar!

Caro leitor, duvido que estas respostas tenham, para si, qualquer tipo de utilidade. Mas, por enquanto, são as únicas que lhe posso dar. Resta saber se alguma vez conseguirei explicar melhor o que me levou a criar um blogue. Ainda hoje, estou para saber como é que fui parar aos jornais!
(actualizado)
ccs

Porque hoje é sábado

Leituras em dia

1."A sementeira" de João Gonçalves

2."Um presidente, um governo, uma maioria?" de Paulo Gorjão

3."Candidatos de esquerda", Sérgio Figueiredo, Jornal de Negócios, via OInsurgente

ccs

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Há dias assim...

…que começam cedo, com o som do telefone e uma notícia escaldante sobre o destino próximo do Procurador. Para já, o dr. Souto Moura tinha encontro marcado com o dr. Sampaio, em Belém. Depois logo se veria – mas, como se podia imaginar, não se iria ver nada de muito bom. Nem tentei perceber porquê. As primeiras horas da manhã não são propriamente o meu forte. Limitai-me a marcar uma “equipa”, na esperança de que a ameaça implícita nesse inesperado encontro se diluísse, serenamente, com a abertura de mais um inquérito e os esclarecimentos da praxe. Sexta-feira também não é propriamente o meu forte. E a “crise da justiça”, firme no top das preocupações do regime, parece-me uma triste combinação de interesses obscuros e de entusiasmos volúveis. O país ora chora pela prescrição dos processos, ora clama, indignado, contra o “abuso” das escutas e a violação da privacidade. Não há meio termo: passa-se de um extremo ao outro, com igual empenho e determinação. Ainda há uns anos, o dr. António Costa florescia, no dialogante governo do eng. Guterres, como um herói da luta contra a corrupção. Agora, que as medidas deste herói deram frutos, deplora-se, com o mesmo entusiasmo, a “impunidade” do Ministério Público e os erros da sua actuação. Principalmente, se esta incidir sobre uma irrepreensível figura do Estado, com direito aos luxos da cidadania e aos favores da Comunicação Social. Aí tudo se torna mais fácil. E mais fácil de manipular. O dia de hoje mostrou, de forma exemplar, como é que a “crise da justiça” funciona em Portugal.
ccs

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Os velhos

Numa sociedade que vive no culto da juventude e se mede pelo sucesso, é desagradável falar dos velhos. Os velhos não serão como os trapos. Mas, se tiverem juízo, ficam em casa, embrulhados numa manta, entretidos com os netos, a usufruir da reforma. Os velhos fazem parte do passado. Devem saber retirar-se a tempo. E se tiverem tido um papel na história, têm que o saber preservar. Têm, acima de tudo, que saber preservar os preconceitos dos outros: poupá-los ao confronto com os anos e à senilidade dos entusiasmos. Um velho que não se conforma com a idade é um velho senil que perdeu a noção da realidade. A idade de um velho incomoda. Pessoas bem-educadas, com algumas qualificações, não falam da idade de um velho. Velhice não é argumento. Não deve ser usada como arma de ataque. Até porque o horror à velhice está inscrito na sociedade. O sentimento não precisa de ser exacerbado: basta existir e deixar-se espalhar com a hipocrisia habitual e a cobertura das boas maneiras.

Um velho é sempre um velho. Principalmente um velho que se candidata à Presidência da República. Os velhos são para estar na reserva. Para enfeitar o regime. Para fazer parte da história. Pior do que um político, só um político velho que não precisa de acentuar as rugas ou de embranquecer o cabelo. Um político velho transforma-se, de imediato, numa vedeta em declínio que não consegue abandonar o palco. Passa de pai da Pátria a “perturbador nacional”. Não tem o benefício da dúvida e não tem sequer dignidade. Está na política por via do ego e insiste na política por pura vaidade. Se tem um dia cheio de iniciativas e propaganda, chamam-lhe “novo” e, para disfarçar a velhice, apontam-lhe a “frescura” dos anos e a juventude de espírito. Se adormece ou se se engasga não lhe chamam nada (porque fica mal chamar certas coisas), mas crescem as insinuações e aumenta o peso da idade.

As gaffes de um velho não são gaffes. São confusões do espírito, falhas da memória, sinais óbvios de debilidade. São piedosamente escondidas ou são gloriosamente exibidas como um trunfo dos adversários. Deixaram de ser um dos encantos da sua personalidade. E têm uma carga que não existe nas gaffes de outros candidatos. O PIB do eng. Guterres foi repetido até à exaustão porque, no fundo, ninguém deu importância ao PIB e o eng. Guterres tinha a idade certa e o sorriso no lugar. O dr. Soares não tem o sorriso no lugar. E não tem a idade certa. Aos 81 anos ninguém sai, impunemente, do seu pedestal. Os velhos, que têm passado e que fazem parte da história, transformam-se em estátuas. Não se envolvem em batalhas que abalam a sua dignidade. Os velhos são património de todos. Não podem candidatar-se contra ninguém. Se o fazem, passam a “perturbadores” e são julgados pela sua idade. Por não saírem de cena, por não darem os lugares aos novos, por se engasgarem e por saírem do mausoléu onde a Pátria os puzera sorumbaticamente em sossego. Quanto mais não seja por isto, ainda bem que o dr. Soares se candidatou…

Publicado, hoje, na revista Sábado
ccs

Muito obrigada

Comecei a escrever no O Espectro (esta história dos artigos é uma chatice; devia-me ter lembrado que já no O Independente tinha tido esta chatice, mas enfim!) há coisa de uma semana. Foi uma agradável surpresa ter sido tão bem recebida. E tão "visitada". O O Espectro encontra-se, neste momento, entre os vinte e cinco blogues mais visitados. Simpatia a vossa. Agradeço a todos os que me leram e todos os que assinalaram a minha entrada nestas andanças. Muito obrigada.
ccs

Actual

Há dias que não conseguia encontrar o Rui. Hoje encontrei-o finalmente. Mais actual. Um dia que começa bem...
ccs

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A (minha) melancolia

"Tem a melancolia cor política? José Pacheco Pereira acha que sim. O que, em última instância, coloca Constança Cunha e Sá em cheque"
João Morgado Fernandes, DN

De acordo. Em última instância, coloca. A melancolia tem destas coisas. E destas, já agora:

1. Sou jornalista, sem filiação partidária. E sem grandes simpatias políticas.
2. Comento regularmente a actualidade política. Com exagero. Com precipitação. Com cuidado. Com isenção. Com injustiça, por vezes. A minha opinião vale o que vale. Mas vale também porque é livre. Livre de compromissos partidários, de cumplicidades políticas e de interesses contraditórios.
3. Respeito a opinião pelo que vale essa mesma opinião. Não pela sua proveniência ou pelo rol de intenções que supostamente lhe está subjacente. Numa polémica com Pinheiro Chagas, Eça de Queiróz tentou explicar-lhe que a inveja (que, supostamente, estaria na origem dos seus textos) não afectava minimamente a força dos seus argumentos. Pelos vistos, ainda há muita gente que não percebe esta pequena subtileza.

P.S. Aproveito a oportunidade para dar os parabéns à direcção do "Diário de Notícias" pela reformulação gráfica do jornal.
ccs

terça-feira, janeiro 10, 2006

Enfados

Atento, Pacheco Pereira detectou, nos blogues e nos jornais, um enfado crescente em relação às eleições presidenciais. Pack journalism, no seu pior, diz ele, do alto da sua sabedoria, acrescentando, como quem descobriu a pólvora, que "estas eleições são muito mais interessantes do que parecem e muito mais importantes do que se julga". Eu não sei que comentários anda PP a ler, nem ele se dá ao trabalho de os referir. Mas o enfado que eu detecto - e do qual, aliás, partilho - aplica-se não às eleições (ou aos resultados delas) mas à campanha propriamente dita. São coisas diferentes, como o próprio PP reconhece, quando afirma que "há tanta coisa por definir depois de dia 22, que só os desatentos podem estar enfadados". Desatento deve estar PP que, pelos vistos, não percebeu que, se essas tais coisas se definem depois de dia 22, é porque até dia 22 vamos ter um compasso de espera. Certo? É exactamente por isso e também pela qualidade do debate eleitoral que há quem se sinta enfadado com o andamento desta campanha. PP insinua que são pessoas que não simpatizam com a vitória de Cavaco Silva e que andam, sim, enfadadas com os resultados das sondagens. Curioso! Quando o próprio candidato, em causa, é o primeiro a reconher que "isto", por ele, podia já ter acabado.
Quanto à quantidade de coisas interessantes que se vão seguir a dia 22, estamos basicamente de acordo. Embora registe que PP, à selhança de muito bom "anti-cavaquista", considera também que estas eleições "vão mexer fundo no sistema político-partidário". Se PP estiver mais atento, registará, com certeza, que é disso mesmo que muita gente tem medo. Eu confesso que tenhos as minhas dúvidas sobre a profundidade destas "mexidas". Mas isso fica para outra altura! Para já, ficam os enfados.
ccs

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Olhos nos olhos


Salvo qualquer facto imprevisível, a campanha eleitoral está reduzida a uma mera formalidade. A partir de agora, trata-se apenas de fazer cumprir o calendário. Quinze dias de almoços, reportagens, comícios, tempos de antena, frases estudadas, palmadas nas costas, feiras, e povo, bastante povo à volta dos candidatos, sem ligar peva aos candidatos, de olho posto nas televisões e na figuração das reportagens. Quinze dias de discursos estafados, com muito “desenvolvimento”, muita “cidadania” e muita, muita “proximidade”. Quinze dias de debates onde já tudo se debateu, de pequenas peripécias com honras de primeira página, de banalidades avulsas e de ataques inconsequentes. Olhos nos olhos. Com um enorme cansaço. E alguma melancolia.
ccs

domingo, janeiro 08, 2006

Notas eleitorais (II)

Concordo com Henrique Raposo: a política não é telenovela, em política não há amigos e a ética pessoal não coincide com as éticas políticas possíveis. Discursos lamechas sobre a falta de lealdade e as traições dos amigos servem “vítimas” como Manuel Alegre. Não servem, de facto, políticos. A política é o mal menor. Mas é também uma escolha. Cavaco Silva esteve com Alberto João Jardim. Mais, mostrou que precisava de Alberto João Jardim. Mário Soares encontrou-se com Valentim Loureiro. Mais, fingiu que o tinha encontrado, “por acaso”. Tanto um como outro fizeram uma escolha política. Escolheram o mal menor? Duvido. Em política, o que parece ser, às vezes, um mal menor acaba por se pagar caro. Nas últimas autárquicas, Marques Mendes dispensou este tipo de apoios. E teve uma dupla vitória nas eleições: não só as ganhou, como as ganhou apesar dos apoios que dispensou. A política é também isto.
ccs

Notas eleitorais (I)

A candidatura de Cavaco Silva passou por Grândola, ao som da Vila Morena. A direita ficou entusiasmadíssima. Diz que José Afonso não é um exclusivo da esquerda. Que o 25 de Abril é de todos. E que a revolução está viva e se recomenda. Depois disto, só lhe falta aparecer a cantar a “Internacional”. Com um cravo ao peito. Sob pretexto de que a História não é património de ninguém.
ccs

Por dever de ofício

Amanhã, escrevo qualquer coisa sobre as presidenciais. Mas confesso...
ccs

Realizações

De vez em quando, lembro-me de uma coisa que me disseram, num desses jantares em que se conhecem amigos de amigos. Eu estava sossegadinha, num canto do sofá, sem estômago para grandes conversas, quando percebi que alguém, sentado ao meu lado, estava a falar comigo sobre as suas desgraças profissionais. A dada altura disse-me, como se fosse a coisa mais natural: “Sabe, o problema é que eu não tenho carisma para trabalhar”. Na altura, balbuciei qualquer coisa, num tom ameno e compreensivo, sem perceber bem onde é que entrava o “carisma”. Mas, de facto, o trabalho não tem nada de natural. É preciso um certo “carisma” para aturar as vicissitudes de uma carreira e as exigências da profissão. Ela não o tinha. Eu acho que também não.
Sempre achei a “realização profissional” uma perversão das sociedades modernas. As pessoas não se “realizam” (uma expressão que devia, aliás, ser proibida) e muito menos se “realizam” profissionalmente. As pessoas trabalham. Ponto. Desesperam, esforçam-se, aguentam e, muitas vezes, enlouquecem para poder ter uma vida. Não para se “realizar” ou para responder a “um desafio” qualquer irresistível – para usar algumas palavras em voga. Ainda, ontem, quando me perguntaram se eu era feliz e se tinha novos "projectos" em vista, apeteceu-me responder com a Bíblia. Mas não vinha muito a propósito. De qualquer forma, aqui fica:"Com o suor de teu rosto/comerás teu pão/até que retornes ao solo/pois dele foste tirado./Pois tu és pó/e ao pó tornarás.” Gn3,18.
ccs