sábado, fevereiro 11, 2006

UM HOMEM COM SORTE

5133~Spring-in-Town-Posters grant wood
Sócrates é um homem com sorte. A política financeira, a que o país já se tinha resignado, que a direita apoiou e que os peritos maciçamente aprovaram, não provocou protestos de maior. A derrota nas locais foi escondida pela campanha para as presidenciais. Mesmo a derrota Soares, que em princípio o poderia abalar, acabou por ser vista como uma derrota pessoal de Soares perante Alegre e não como a derrota do candidato do PS perante Cavaco. Na imprensa e na televisão, pouca gente se interessou pelo papel de Sócrates no episódio e quase toda a gente correu atrás de Alegre, para ver (inutilmente) se daquela cabeça saía alguma ideia. Quando esse arraial esmoreceu, veio por milagre o caso das caricaturas, que afastou outra vez Sócrates para a obscuridade. E, no fim, até a OPA do eng. Belmiro ajudou. Há meses que o governo governa clandestinamente. Sempre fora do "ciclo de notícias", parece invisível.
Claro que houve uma ou outra ameaça a este sossego ou, se quiserem, a este privilégio. Desde logo, o próprio Alegre. Mas, como era de esperar, o tal "movimento cívico" do "milhão" morreu no acto de nascer e hoje, menos de um mês depois daquela inexplicável euforia, só resta uma dúzia de nostálgicos, que anda por aí a gemer nos jornais. Também a ministra da Cultura conseguiu pôr em pé de guerra a "inteligência" indígena, mas muito manifestamente passou o tempo em que a Cultura (com maiúscula) comovia alguém e a coisa lá se esvaiu sem sobressaltos. Verdade que Freitas, com o seu zelo e sua inépcia, perturbou a tranquilidade geral, mas de certa maneira até convém que ele se ofereça à guilhotina da próxima remodelação.

No meio desta vida encantada, Sócrates sabe o que faz. Fala pouco e prefere a "política do gesto". O "gesto" não toca na substância, não afecta imediatamente nenhum interesse e subentende um grande futuro. A história deste governo é a história de uma sucessão de "gestos". Primeiro, o "gesto" da OTA e do TGV. E a seguir, o "gesto" do investimento imaginário, de Bill Gates, do MIT, do plano tecnológico, da simplificação burocrática e por aí fora. Nada de palpável. Nada (excepto em parte a Ota) que alimente a oposição e a salve da frivolidade, em que Marques Mendes, por exemplo, dia a dia se afunda. Para compensar o país real (no sentido estrito da palavra), Sócrates cria uma espécie de país fictício, que está ali, jura ele, ao virar da esquina. Não está. Felizmente para ele, de Setembro para cá, a balbúrdia não deixou ver que não estava.
vpv
(publicado no jornal Público)

23 comentários:

Anónimo disse...

Olhem que chatice. Ele nao aparece e assim nao podem dizer mal da cor da gravata. Está mal.

Anónimo disse...

a foto escolhida é que está um bocado gay...

Anónimo disse...

Não se chateie, os media "mainstream" já devem estar á procura de mais qualquer caso digno de indignição que justifique uma cruzada. É pena é ser sábado.
Pois é.
Tem que se esperar por segunda-feira, ou talvez não, depende...que chatice.
Bem.. isto hoje não dá mesmo nada.
Ciao.

o mestre disse...

O homem, de facto, tem muita sorte e algum mérito porque vai lançando uns balões de ensaio, fogo de vista a prazo, e beneficiando de peripécias oportunas que distraem os "populares".
Para já, e para nossa felicidade, vai avançar outra obra emblemática, urgente e indispensável que é a construção do centro de estágio para a gloriosa selecção de futebol que, (ninguém duvide e assim Deus nos ajude) vai elevar bem alto o nome de Portugal em terras germânicas, no pino do Verão.
Antes porém, (o tal Deus não dorme) lá teremos os Sub-21, a Liga que já foi Super, a outra Liga, a dos Campeões Europeus, os desenvolvimentos do Apito Dourado, o prolongamento (já ninguém acredita em grandes penalidades)do desafio da Casa Pia, além da inauguração da nova linha Belém-S.Bento.
Eventos, folclore, feira popular, nada vai faltar.
Entretanto, o Governo revela elogiável firmeza ao mostrar-se intransigentemente rigoroso quanto aos contornos da esmola que promete dar aos velhotes mais velhos que se mostrem bem comportados e que provem, insofismavelmente, estar na miséria absoluta. Assim é que é, rigor e exigência, pois então!
Paralelamente, dia sim dia sim, os telejornais aquecem-nos os corações lembrando os muitos milhões que os senhores da Banca arrecadam ano sim ano sim. Por um lado, com toda a limpeza, cobrando taxas simpáticas e emprestando generosa e filantropicamente a todos quantos sonham com casa, carro, câmara de video, plasma e férias em Cuba. Por outro lado, e por força da dureza dos tempos, procedendo a "reajustamentos" na área dos recursos humanos, ou seja, atirando para o desemprego milhares de trabalhadores que a colectividade há-de sustentar com os milhões que os malandros dos velhos não açambarcarem.
Mas isto vai, engenheiro Sócrates, com mais ou menos choques, mas vai.
Hip, Hip, OPA!!!

Anónimo disse...

Caro VPV,
Parabéns pela brilhante análise e pela forma deliciosa.
Um único reparo, aquele "desde logo", chavão tão manhoso e mal aplicado que anda em todas as bocas e penas.
Não teria ficado melhor "para começar"?
É que a acção, como bem refere, não continuou. Por esta escapa, se prometer não recomeçar...

Jose Sarney disse...

Pois é, e o "Zé povo", que já não sofre do obscurantismo de salazar, continua ABSOLUTAMENTE bronco!

Lembre-se as eleições autárquicas e os "candidatos-bandidos" quase todos eleitos (excepto o de Amarante).

O "Zé povo" não se pode queixar. Enquanto os Checos fizeram a "revolução de veludo". Os Ucranianos a "revolução laranja". e Os Georgianos correram com o Schevarnadze, os "tugas" deixam-se andar e são levados como "tótós", sistemáticamente!

Deixa andar, isto também foi sempre assim.....

Mº Lurdes Delgado disse...

Como sabe, a sorte não cai do céu aos trambolhões, para nos aterrar suavemente no colo {bela palavra!}! A sorte merece-se, construindo-a. E, ou eu estou redondamente enganada {acontece aos melhores, porque não a mim?} ou o Sócrates merece-a, porque tem uma qualidade, que falta à maioria dos políticos, excepto quando se trata das suas vidinhas. Essa coisa comezinha, chamada pragmatismo. Pois é, o país real, que não conspira nos corredores do Parlamento, nem nas redacções dos jornais, só esperava isso. Será pouco ambicioso?

Anónimo disse...

Lapidar como sempre VPV.
Com os professores do estado e a imprensa a fazer o jogo do PS e do Bloco de esquerda as novas gerações vão ser um misto de bolcheviques de boulevard com fúrias de consumo nas grandes superfícies do Dr Belmiro.

Mº Lurdes Delgado disse...

Não é Dr., mas Eng. Belmiro. Entretanto assustei-me. Será que tenho cá por casa três, logo três, bolcheviques de boulevard {ao menos não são de trottoir}?
Logo, ao jantar, vou inquiri-los usando os métodos do KGB.

esgoto disse...

a tudo isto o meu gesto possível: um grande manguito.

O. de Guimarães disse...

Caro VPV:
Se me permite a ousadia gostaria de lhe fazer uma pergunta (apesar de esta não tocar o ponto fulclral do seu artigo):
Não acha que o aparecimento de movimentos cívicos(esquecendo o caso Alegre) poderá contribuir para o enriquecimento democrático e, consequentemente, para a resolução/exposição de alguns dos problemas do país?

Obrigado.

José Sarney disse...

"Com os professores do estado e a imprensa a fazer o jogo do PS e do Bloco de esquerda as novas gerações vão ser um misto de bolcheviques de boulevard com fúrias de consumo nas grandes superfícies do Dr Belmiro."

É verdade. O problema é que as "Cofidis" e quejandas, estão-se a esgotar e o endividamento não vai dar para aguentar o tal Estado Social, que só conseguiu aguentar-se com as dádivas de Bruxelas!

JMDuarte disse...

Caro VPV
Dos seus livros de História gosto. Do seu "Glória" gostei muito.
Agora, quanto aos seus comentários políticos, são uma lástima. Pela simples razão de que você não sabe nada de política! Toda a gente lhe acha muita gracinha, atribui-lhe muita verve, adora os seus sarcasmos. Por mim acho que você anda há muito a fazer figuras lamentáveis. Você é azedo, intratável, incapaz de compreender que os outros têm exactamente o mesmo espaço que você ocupa. Mas não: como V. é um ser incapaz de "viver com os outros", passa a vida a destruir o que não entende: exactamente os outros! Não é com gente como V. que este país avança, apesar de V. e mais alguns existirem. Enquanto V. vomita vinagre, há gente que trabalha, que se preocupa, que faz política com a grandeza e a generosidade que V., ser profundamente egoísta e só, desconhece.
Tenho pena de si - procuro ter pena porque é mais saudável do que ter nojo!
Dedique-se à investigação, escreva ficção, masturbe-se, mas cale-se com as suas croniquetas da treta!

Anónimo disse...

Como dói à Direita ter um Governo Socialista desta categoria...

esgoto disse...

ao jmduate: olha filho, dou-te 3 hipóteses: ou és um jovem yupi inconsciente, ou és ingénuo ou também mamas da teta da porca.
Como sou bom rapaz ainda admito que vivas por conta.

Mº Lurdes Delgado disse...

Vamos lá a esclarecer isto, de uma vez por todas: a Constança e o Vasco {perdoem-me a familiaridade} não são nossos anfitriões? Eu, por mim, acho que sim, e só lhes frequento a casa, porque sou bem recebida e eles ainda não me convidaram a sair. Acham que não o fizeram, porque não querem incomodar os outros convidados, com uma cena? Ora, desde o início, vendo eu o melindre da situação, não só dou o meu nome e apelido {é certo, que é o de solteira, visto não querer envolver o pobre, que me atura e, que, às vezes, tem a pachorra de me ler, nos meus disparates}, como naquele rectângulozinho dedicado à password, ponho o meu e-mail, na esperança de ser útil para uma expulsão discreta. Como sou uma ignorante destas coisas e não posso estar a incomodar, o especialista da casa, isto é, o pobre que me atura, de minuto a minuto, senão ele deixa de me aturar, e lá ia pelo cano um casamento de 32 anos {estamos prontos a entrar no Guiness}, espero que essa informação chegue aos interessados e que a usem, se acharem conveniente.
Depois deste longo preâmbulo, confesso que me excedi, eu perguntava a alguns outros convidados, se em pequeninos tomaram cházinho? É que, desculpem-me a franqueza, às vezes tenho dúvidas.
Esclareço já que não respondo a mácriações, insultos, brejeirices. Não faz o meu género.

sniper disse...

Cara Maria de Lurdes,

Tenha calma. Percebo-a a 100%. Atire a matar e não faça "prisioneiros". Se ficam mal criados é porque já morreram, e não responda. Os estímulos do blog só são bons enquanto derem prazer, quando chegarem à dor encerre o diálogo.

biscuit disse...

Concordo inteiramente com o comentário de jmduarte.
Excelente

Mº Lurdes Delgado disse...

Caro Sniper,
Eu estou calmíssima e aquilo, não me dizia respeito, mas à CCS e ao VPV, e só a eles. Até porque eu já esclareci, e julgo não ser necessário estar sempre a fazê-lo, que não respondo a mácriações, brejeirices e insultos e, se sensibilizar que o texto vai nesse sentido, pura e simplesmente não o leio, afinal ainda acredito no livre arbítrio, pelo menos no meu.
Cordialmente

Anónimo disse...

Caro VPV
Anda por aí muita subtil simpatia pelo Goveno...

sniper disse...

Cara Maria de Lurdes,

Obrigado pelo esclarecimento. Tinha feito uma leitura "transversal" dos comentários, e não me apercebi disso. Quanto à CCS e ao VPV, a preocupação e o bom senso ficam sempre bem, mas deixe-me dizer-lhe que ambos pertencem, e com todo o mérito, ao topo da escala alimentar, neste mar de águas profundas e perigosas chamado blogosfera. Nós os carapaus e as sardinhas, é que temos que nos pôr a pau.

sniper disse...

O PM Sócrates está a realizar uma verdadeira revolução na arte de governar. Está a jogar de forma brilhante em algo que os portugueses são infelizmente portadores numa escala doentia; a inveja. Todas as acções visíveis e não virtuais desde governo assentam básicamente neste pressuposto, o qual serve que nem uma luva para todas as acções de moralização e de "clarificação" em alguns sectores da nossa sociedade. No pagamento dos impostos, na educação, na saúde, na prioridade de algumas obras públicas, etc, o governo hábilmente faz sair,( antes de tomar essas medidas ), dos armários dos portugueses todos os esqueletos e respectivos traumas, frustrações, etc, para criar à volta dessas acções um clima de pretensa e iminente justiça "popular" dessas medidas. O povo, adora isto, considerando justo e irreversível, até melhores dias, o péssimo padrão de vida que tem, desde que os outros "sacanas", ( as vítimas dessas medidas ), tenham o mesmo tratamento. Só vi isto em paises do terceiro mundo, antes de mandarem ás urtigas a democracia. Bill Gates, Mário Soares, investimentos, etc, entramos naquilo a que chamo a política da casa dos espelhos. Parece que está lá, mas não está, e quando o descobrem e não era esse o timing correcto e imaginado pelo nosso PM, berra e gesticula, enfadado com tudo e com todos. Quem é que já não reparou que ele berra em vez de falar, e que gesticula mais do que qualquer italiano retinto? Ou está a fazer um frete, ou então pensa que isto tudo é um jogo, e quando perde zanga-se, ou então é um menino mimado e mal criado até à última casa. Quanto aos investimentos viruais, até o deputado-socialista-indústrial-porta-voz-rosa-etc Henrique Neto, veio a público dizer que não ficava nada bem ao governo anunciar eventuais realizações e investimentos que vão ter no minímo horizontes de visibilidade para o povão dentro quatro a cinco anos. Alguém que no manicómio ainda esteja numa dose reduzida de hipnóticos, porque os outros estão literalmente a voar...

o mestre disse...

O filme da actualidade é projectado a cada instante diante de todos nós e a grande dificuldade é extrair da tela a palavra, a imagem, o gesto que vai inspirar o comentário. É o que fazem (e muito bem) VPV e CCS.
A justeza ou a excelência dos seus comentários podem não criar unanimidade à sua volta, mas merecem, no mínimo, respeito.
Nós, os espectadores sem nome, estamos na penumbra, escondidos, à espera que eles nos forneçam matéria para discussão. O mérito é deles, nós somos os figurantes, ainda que tenhamos opinião. Eles são os artistas, olham, pensam, opinam e, sobretudo, expõem-se a críticas alarves e cobardes, anónimas ou quase. Podemos discordar sem grosseria nem fel. E quem não gostar tem sempre a possibilidade de bater a outras portas ou criar o seu próprio espaço de opinião. Um pouco de dignidade, senhores, se não é pedir muito...