segunda-feira, fevereiro 27, 2006

UM DIREITO PORTUGUÊS

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A etimologia da palavra Carnaval é o latim "carne, vale" ou "adeus, carne". Por outras palavras, no Carnaval servia originalmente para os cristãos se despedirem da carne, antes da Quaresma. Carne, no sentido lato: da bebida, da comida e do sexo. Não conheço bem a evolução da festa, mas suponho que as pessoas se mascaravam para, pelo menos simbolicamente, não envolver a sua face normal e virtuosa em excessos de que se envergonhavam. A pouco e pouco, primeiro por influência dos Jesuítas (principalmente no sul de Itália) e depois por causa do geral enfraquecimento do "ethos" cristão, o Carnaval desapareceu ou, perdido o seu sentido original, acabou por se transformar em três dias de grosseria autorizada, supostamente humorística, que só servia para incomodar o público.

As descrições do Carnaval de Lisboa até ao Salazarismo metem dó. Nas ruas, bandos com fama de "elegância" e "estroina" atacavam transeuntes com "bombas de cheiro" e ovos podres. Das janelas, meninas sirigaitas despejavam penicos de urina. Miúdos penduravam rabos de papel e a gente crescida, em privado, expelia graciosamente gazes. Felizmente, a polícia da Ditadura suprimiu estas manifestações. Quando cheguei à adolescência, por volta de 1950, o Carnaval mudara. Havia "estalinhos", serpentinas, bisnagas de água com que se borrifava o próximo (sempre em risco de um estalo) e praticamente mais nada. Os mais velhos (entre os 15 e os 18, 19 anos) também "assaltavam" a casa de gente conhecida, para dançar e conversar, sempre, como é óbvio, a convite do "assaltado".

Com o tempo, do Carnaval só ficaram três dias de férias, que a tolerância portuguesa alargou a quatro e até a cinco (contando com 6ªfeira à tarde e a quarta-feira de cinzas). Na Madeira, no Algarve e numa dúzia de sítios na província ainda se tenta ressuscitar a tradição (invariavelmente imitando o Rio), com o propósito prático e honesto de atrair turismo e ganhar uns cêntimos. Duvido que os "foliões", como dantes se dizia, se divirtam. De qualquer maneira, não prescindem do seu sagrado direito a não trabalhar. Já ninguém macera a "carne" na Quaresma ou em qualquer outra ocasião. Já quase ninguém sabe o que a Quaresma é. Desgraçadamente, a derrota de Cavaco, quando tentou reduzir o Carnaval à terça-feira (um gesto patriótico), estabeleceu um direito em que tão cedo o Estado não se atreverá a tocar. Este fim-de-semana o país parou e muitos milhares de portugueses, que a crise alegadamente esmaga, foram passear. A crédito, claro.
vpv
(publicado no jornal Público)

40 comentários:

Anónimo disse...

Crise ?!

Qual crise ?

maloud disse...

Dr. Pulido Valente,
Tanto quanto me lembro o Prf. Cavaco não tentou reduzir o Carnaval à 3ªfeira. Ele tentou suprimir a 3ªfeira de Carnaval.

xatoo disse...

olhá novidade: "a Crédito"?
também aquilo que se escreve tem o "crédito" que os leitores lhes quiserem dar.
Como se adivinha,nem só os veraneantes sob a complacência do Estado (que em crise? não adopta quaisquer medidas) vivem do "crédito!" (precário, e que a curto prazo será limitado pq já não temos paciência para os ouvir arengar sempre as mesmas lérias, sem que se passe nada)

Anónimo disse...

E o que se diz do Carnaval diz-se de muitos outros "feriados": quem sabe o que é o 5 de Outubro, o 8 de Dezembro, o feriado que este ano calha a 15 de Junho e quem de facto os "comemora"? Por mim, mais valia trocá-los por dias realmente de férias, que eu pudesse gozar quando entendesse e não quando a "maralha" entope tudo.

rb disse...

"Tristeza não tem fim, felicidade sim". Desculpem, mas eu adoro o Carnaval! Adoro a cultura brasileira!! Alegria, alegria, alegria!!! De vez em quando, é bom exorcizarmos a loucura que anda cá dentro. Andamos sempre a direito e não acompanhamos a curvatura da terra ... Depois ficamos uns cinzentões, sempre em frente ao computador à TV, a dizer mal de tudo e de todos. Enfim ... Fumamos uns cigarros, bebemos uns whiskys, lemos uns livros e pronto, achamos que já estamos bem. E dançar, cantar e pular, não é preciso?! Eu, de vez em quando, tenho que me libertar desta modorra e o carnaval dá-me essa oportunidade. Por isso, logo à noite vou foliar, discretamente, mas lá vou eu de novo.

Sílvia disse...

É o resultado da cristianização de uma festa pagã, com maneirismos sucessivos, inerentes ao tempo e ao modo da cultura popular de cada país. Com crédito(s), ou não...

Sílvia disse...

Atento,
posso ir contigo?

maloud disse...

Atento,
Carnaval, não obrigada. Mas o São Silvestre ninguém mo tira. Naquele saltar de ano, folio e, de preferência, em grande. Vou é sempre para fora, porque estou farta da apagada e vil tristeza.
Esse nem o Cavaco mo pode tirar.

e-konoklasta disse...

Só foi pena que o Cavaco não tivesse tomado posse nesta terça-feira gorda, com desfiles e zés-pereiras, sempre teria dado alguma cor à sua parda e rastejante corte... já que há muitos portugueses que nem a crédito podem viajar cá dentro e, uma cerimónia destas, na televisão, serviria para divertir os mais desafortunados, assim, poderia, ao menos, justificar o que se vai pagar às eminências pardas do rei Cavaco.

Carlos Medina Ribeiro disse...

Podemos ver "a coisa" de forma optimista, tendo em conta que «O nosso descanso é o trabalho dos outros»:

Se as divisas gastas pelos luso-foliões ficarem na lusa-terra, já não é mau de todo.

Pior é quando a malta segue o exemplo do "Chefe" e vai gastar o dinheiro nos Alpes Suiços.

rb disse...

Silvia: vamos embora!! Sabe onde é o restaurante brasileiro Las Vegas, em Nogueira do Cravo, perto de Oliveira de Azeméis ou S. JOão da Madeira. Vou lá jantar um grande churrascão brasileiro, com umas imperdoáveis caipirinhas. Depois vamos para a folia, em Ovar ou onde der na veneta.
Maloud: deixa de frescura e vem pro samba também. É na ponta do pé.
VPV e CCS: apareçam!!!

rb disse...

No carnaval assumimos a máscara que muitas vezes somos ao longo do ano.

maloud disse...

Carlos Medina Ribeiro,
Eu o exemplo do "Chefe" não sigo, porque detesto neve. Mas quando posso, infelizmente posso poucas vezes, pisgo-me, sem olhar para trás. Deve ser a centésima vez que escrevo isto aqui: a Pátria mata-me.

Sílvia disse...

Ó diabo, isso fica perto daqui de Arouca. Estou tentada, mas acontece que eu não estou habituada a sair à noite, embora tenha vontade, e depois sou muito tímida...
Muito obrigada.

maloud disse...

Atento,
Eu só não vou, porque há uns anos decretei que detestávamos o Carnaval {cá em casa quem decreta sou eu}, logo o...e a prole ficariam estarrecidos com este inesperado entusiasmo. Tenho um ano para revogar o decreto, na suposição que para o ano me faz o mesmo desafio.

rb disse...

A Silvia é da Arouca. Estou admirado! Como a blogsfera é pequena. Por acaso não conhece um também blogueiro Ivo Brandão http://barcoaofundo.blogspot.com/. É um grande compincha.

Sílvia disse...

Sim, o Ivo Brandão do jornalismo e da música.

piscoiso disse...

Eu vejo o Carnaval como uma espécie do dia 1 de Abril com um guarda roupa mais colorido.

Anónimo disse...

um gesto patriotico de Cavaco acabar com o consumo e o boom economico do dia de Carnaval?!!! ena, isso é que é ser esperto! há gente muito inteligente ao quadrado!

e há pessoas que nem sequer sao capazes de se divertir e ainda por cima querem impedir o divertimento de todos!

Anónimo disse...

abro uma excepção e comento apenas uma vez para não ser alvo da ira do pacheco e do seu decálogo( este homem julga-se o novo moisés!):


eu não conheço o Ivo Brandão mas fiquei triste por ele ter mandado o barco ao fundo.

fr

rb disse...

É esse mesmo Silvia. Fico satisfeito por saber que é de Arouca. De lá só conheço muito boa gente, boa vitela e aquelas delícias, como as morcelas e castanhas de ovos e o magnífico pão de ló. Um grande bem haja para Arouca e se quiser aparecer em SJM, venha daí!

rb disse...

Maloud, e quando vê aquelas moreninhas brasileiras a bambolear por todo lado, que nos deixam ficar de queixo caído, tipo José Rodrigues dos Santos, não se roi de inveja. Eu sim ...

rb disse...

"Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça, ou doente do pé. Eu nasci com o samba, no samba me criei, e do danado do samba, nunca me separei."

rb disse...

Podem até dizer que o nosso carnaval é demasiado importado do Brasil. Mas o que é que nós não importamos? Digam-me? E isto é daquela importação que não me importa, pois o Brasil sempre é um pouco de portugal, pelo menos têm a nossa lingua. O que me choca, e me parece muito mais saloio da nossa parte, é importarmos o dia das bruxas e tudo o mais que é americano, desde a coca-cola ao marlboro, etc, etc, etc...

maloud disse...

Atento,
Claro que fico cheia de inveja. Mas que quer que faça? Não nasci brasileira, nem morena. Não sei bambolear e principalmente já não tenho idade para aprender. Agora você não tem inveja. Tem outra coisa que o decôro me leva a omitir.
Bom Carnaval.

Unreconstructed disse...

O que é que V. queria que os portugueses fizessem - que em vez de irem passear ficassem em casa, a ler as suas crónicas virtuosas no Público?

rb disse...

Claro, e a pensar como tudo vai mal neste nosso pobre país ...

Anónimo disse...

Olhe que nem tudo vai mal... então não foram todos 'prá' neve e 'prós' carnavais? A crédito? pois claro! como é que os bancos têm aqueles lucros tão chorudos? Então o português não é um ser educado e civilizadíssimo? Se a vida são dois dias e o carnaval 3, por que razão não havemos de nos libertar de tabus? Já chega o sr que aí vem daqui por uns dias e os tabus que deve trazer atrás de si e do cinzentismo pardo que se anuncia,para nos dar um arrepio na espinha. Com dívidas sim, mas ao menos foliões e coloridos, porque pra tristeza já basta a realidade dos números.

Velho disse...

«A etimologia da palavra Carnaval é o latim "carne, vale" ou "adeus, carne".»

Isto é um mito simplório, surpreendentemente ainda reproduzido na Academia, mas que não passa de etimologia popular. O étimo latino relaciona-se com carne- e levare, tendo sofrido várias transformações nas línguas ("dialectos") italinas antes de se difundir pela restante Europa.
Veja-se o Houaiss, vários etimológicos em inglês ou até o prosaico Ciberdúvidas. Aliás, há muita coisa online.

Além disso, quando VPV fala do "significado original" das máscaras como se este fosse o sentido cristão, está certamente a gozar! As festas cristãs são festas cristianizadas.

Anónimo disse...

Não acho graça nenhuma ao Carlos Medina Ribeiro.
É completamente cinzento e moralista.

Anónimo disse...

A sério...qual é o seu problema?
São as dívidas dos outros?
A batalha da produção?
O Cavaco?
O Futuro da Nação?
Eu gosto de o ler. Tem uma lucidez e um humor raros.
Mas, por vezes, fico com a impressão que tem de escrever de acordo com a "lenda" e quando isso acontece perde-se e surgem coisas como este post na melhor tradição "...e depois dizem que não há dinheiro...".
Leia Aristófanes, descontraia-se...organize o seu próprio Bacanal.

Anónimo disse...

Boa, velho! Afinfa-lhe que o beócio merece. É ele a passar por 'lúcido' e o pacheco por 'historiador'...
Já agora, mais uma etimologia, só para complicar mais um pouco a cabecinha oitocentista do sábio: carnevale (de facto a palavra é italiana) tb pode provir de car[rus] naval[is], o antepassado dos carros alegóricos. O ano e a navegação abriam a 1 de Março... mas isso, claro, foi nos tempos muito antigos, ainda não havia lisboa, só 'província'...

aurora disse...

Estou mais curiosa pela etimilogia de "entrudo" que era como se chamava o carnaval na minha aldeia, até ha uns poucos anos atras. Alguém conhece a palavra?

DNG disse...

Cara Aurora,

'entrudo' deriva do latim 'introitu', que significava entrada.

espero ter sido util...ate breve

-Breno disse...

o entrudo, o carnaval, era a entrada (introitum) no novo ano, após dois meses de "hibernação" e latência da natureza: o mês de Jano e o de Februs. A vida só regressava (simbolicamente) em Março, no ano de Marte, quando o clima e a meteorologia já permitiam a Marte (aos exércitos) efectuarem campanhas militares ou surtidas. Por isso é que Dezembro é o 10ª mês (decem)do calendário, apesar de numericamente ser o 12º.

o uso das máscaras: os romanos e os pagãos em geral, acreditavam que os espíritos dos mortos surgiam e deambulavam nesta altura, no entrudo. Os romanos, contudo, tendo uma religião muito pragmática (estamos longe dos tempos do misticismo isíaco ou cristão) e ritualista, nada queriam com os espíritosa dos mortos, mesmo que estes fossem entes queridos (superstitio). Por isso é que usavam máscaras, porque estas ocultavam aos espíritos, que cirandavam entre as multidões em festa, as identidades das pessoas vivas.
Esta era uma expressão cultural de certas crenças que, mesmo que muitos romanos já nao partilhassem no seu íntimo, subsistira nas celebrações romanas. Constituem simbolismos e representações de uma religião pragmática, ritualista e que assenta sobretudo na superstição: é preciso venerar os deuses, pedir-lhes protecção, mas nao queremos mais nada com eles!!

pirata vermelho disse...

e se fosse o resquício do particípio passado arcaico?

corrector disse...

«expelia graciosamente gazes»

Gazes?
Gazes = plural de gaze.
É isto, ou quer dizer "gases"?

DNG disse...

OK Breno! Obrigado por me teres completado!

Mário Azevedo disse...

se me permite completar o seu raciocínio, eu acho é que se devia acabar com todos os créditos: o direito ao descanso semanal, o direito à reforma, o direito às férias, o direito a descansar ao fim do dia. enfim, tanto crédito não admira que o país esteja tão mal. já agora, de onde tirou os seis dias? eu só tive um, que foi ontem. estou a pensar seriamente em ir ter com o meu patrão para saber o que se passa. ah, pois! o sábado e o domingo também pertencem ao crédito. mesmo assim só dá três dias... hum, estão a ver que me andam a fazer de otário.

Anónimo disse...

Onde é que fica a província?