quarta-feira, fevereiro 01, 2006

TEMPO PERDIDO (II)

Não é por acaso que Portugal não é um país de sucesso. Em Portugal não se perde tempo: desperdiça-se criteriosamente o tempo, com ciência e dedicação. Não é tanto o facto de vivermos, sem horas, guiados apenas pela posição do sol e pelas tonalidades do dia. Todos nós sabemos que a pontualidade é um defeito de quem não tem nada que fazer na vida. Uma pessoa interessante, com compromissos interessantes e ocupações ainda mais interessantes, chega invariavelmente atrasada a qualquer encontro marcado. Quem cumpre horários, passa naturalmente por parvo e por longas e demoradas esperas que são, como se sabe, o passatempo de um parvo. Mas os portugueses, de uma forma geral, não são parvos. Gostam de ocupar o seu tempo. Com campanhas presidenciais que não acabam. Com “planos” fabulosos que nos vão, invariavelmente, tirar da miséria e catapultar para o “pelotão da frente” da Europa,. Com debates intermitentes (e sempre inexplicavelmente adiados) sobre o nosso modelo de desenvolvimento e o nosso pequeno papel no mundo. E com diagnósticos. Os diagnósticos são uma das nossas especialidades. Temos diagnósticos para todos os gostos e para todos os interessados. Podíamos exportar diagnósticos. Criar uma indústria de diagnósticos. Até porque desperdiçamos tanto tempo a fazê-los que não temos tempo para os poder aplicar.
ccs
(publicado na revista Atlântico)

35 comentários:

Sílvia disse...

Publicidade à revista Atlântico (II)

Anónimo disse...

Gosto muito das ilustrações!

Anónimo disse...

Cara Constança,
comigo nada disso sucede.

... uma a menos. :-)

Um beijo para ti.

A irmã de Constança Cunha e Sá

xatoo disse...

bem
"o nosso pequeno papel no mundo" óh faxafôr!,,, que até tamos bem maiores do que alguma vez pensámos. Venha é de lá mas é essa 52ª estrelinha na bandeira. (o Miguel Vale de Almeida abriu um concurso para uma bandeira nova!, já sabiam?)Estamos a seguir ao Hawai não é?
tarda nada tamos a ultrapassá-los,,, haja fé em deus.

pipilota disse...

Essa rebista Atlântico é feia e monocórdia, k'um caneco e pagaram àquele gajo famoso que bibe nos states para fazer essa porra mal feita!! Gosto munto mais como está aqui e do Di Chiriro, arre, sempre temos comentadoras políticas com uma certa cultura, vá! leram a história da arte do Janson, pois, tá-se mesmo a ber!

Anónimo disse...

E o que propõe a senhora para mudar ser discutido?

Giz disse...

É isso mesmo!
Achamos que o melhor é sempre discutirmos tudo bem discutidinho, não se dê o caso de nos esquecermos de algum detalhe, analisarmos tudo bem analisadinho, não vá alguém ver o que não vimos, falarmos de tudo-e-mais-alguma-coisa, não vá ficar alguma outra por dizer, darmos palpites e bitaites, não vá alguém pensar que o caso tem solução, que cá-para-mim-tenho-que-isto requer um diagnóstico e para tal deviamos de encomendar um estudo a auditores competentes. Talvez-não-fosse-mal-pensado agendar-se já uma reunião para debater a pertinência de um estudo desse teor. Julgo que poderiamos voltar a discutir o assunto e se tiver aceitação pensarmos em elaborar um estudo detalhado de requisitos, então depois estaremos em condições de validarmos os cadernos de encargos propostos; é-meu-entender que só aí é que poderemos pensar em discutirmos as várias propostas possíveis. É-que-sem-isso-nada-feito!
E se fizessemos agora um cofee break? hum? o que é que acham? é que parece-me que já estamos todos a ficar cansados. Alguém tem moedas?

Giz
(naoapagar.blogspot.com)

Éme disse...

Dizes tu, Constança:
"Mas os portugueses, de uma forma geral, não são parvos."
Ai que maldade tão grande...

timshel disse...

Excelente diagnóstico!

Anónimo disse...

No meu Portugal, chega-se a horas: é uma questão de sobrevivência, de eficácia e sobretudo de respeito pelos outro e pelo tempo dos outros. E garanto que esse Portugal existe. Pena é que seja tão pouco conhecido dos bem pensantes. Cada vez me afasto mais desse Portugal que descreve porque, talvez sendo parva, sei que há escolhas que ainda posso fazer e uma delas é eu chegar sempre a horas.

Victor Lazlo disse...

Cara CCS,

É favor colocar a "Europa" entre aspas.

rb disse...

Ora bem, a pontualidade e assiduidade deviam ser mais levadas a sério pelos tugas se é que queremos afastar a imagem de baldas mediterrânicos que nos estampam. A competeitividade também passa por aí.

Pedro Gil disse...

Um desabafo. Este texto tem, custa-me notá-lo, o pior tique de pivot de telejornal. Esta discrição dos "portugueses". Os portugueses são isto e aquilo. Acho muito mau. Mas péssimo, o que me leva a escrever, é quando se passa do já mau "portugueses" para o "somos". Quando alguem ao meu lado se vira com uma desse estilo, "Nós tinhamos de chegar atrasados, não fossemos tugas" a vontade é estrangulá-la; Devia sim ter dito "Eu chego atrasado, ainda por cima tenho consciência e finalmente não tenho vergonha." Agora que não me insulte! "Todos nós"???, "Podíamos exportar diagnósticos"??? Faz-me lembrar as reportagens (?) no dia de Natal "- Agora em directo para o Continente. Nós, como bons Portugueses, deixamos tudo para a ultima da hora, não é João? - Sim José de facto somos mesmo assim, vou entrevistar esta senhora. O que me diz? - É verdade, sabe como é, a gente é assim, deixa tudo para a última da hora! eh eh eh". Pergunto-me quantas pessoas aguentarão a noticia inteira...

Algo completamente diferente. O vosso blogue é espectacular, está nos meus favoritos e dificilmente sairá. Além disso espero que continuem com os comentários, Nós, os Portugueses, Agradecemos, continuação,

Pedro

Nuno Ferreira disse...

O que Constança Cunha e Sá escreve sobre Portugal aplica-se a qualquer país do mundo. Haja calma e descontração! Em que país do mundo é que estas queixas, estas lamúrias, não se nos surgem, mais palavra, menos palavra, tal e qual assim? Do que nos fala Gore Vidal, só para dar um exemplo? Vire lá o disco, Constança, embora eu saiba que lhe pode custar alguns maravedis. Mas é que já não é sem tempo. Um bom tema para um post ou artigo, tanto faz: o tritical.

António disse...

Vasco Pulido Valente

Uma confissão de culpa eum pedido de desculpa à blogosfera onde entra sorrateiramente não lhe ficava mal...

Mas parabéns pela decisão sensata. Isto não é o mundo onde todos os que importam estão - como quer o Pacheco Pereira... - mas também não era a irrelevância que você jurava.

Shrew disse...

Li a reportagem da Visão sobre as Secretas; o artigo não tem nada de nada. Continuam-se a criar notícas sobre o vácuo. Haja paciência.

rb disse...

E agora, sem eleições, vão ser três anos assum ...

Anónimo disse...

Veja na RIAPA grande estudo psiquiátrico ao senhor João Pedro da Costa! O primeiro português com "Gripe das Aves" !

Toda a Verdade, sem Censura!

www.riapa.pt.to

piscoiso disse...

A minha tia Augusta, acha muito pertinente a impertinência.

Anónimo disse...

Alguém me sabe dizer quantas vezes por dia um Espanhol diz "Espanha", um Italiano "Itália", um americano "América" (estes dizem "América" muitas vezes por dia, calculo), um irlândes "Irlanda" ou um Tibetano "China"?

Intriga-me isto de dizermos "Portugal", "Neste País", "Nesta terra", etc, tantas vezes por minuto, e quase sempre com uma aura de que estamos a perder alguma coisa. Estou muito intrigado com este fenómeno (é um "fenómeno")...

cristina disse...

Li com atenção e não entendi

antonio disse...

agora entendo, temos de aguentar pelo menos 10 anos. antonio

jorge disse...

ja nao ha paçiencia para tamta falta de inteligencia mais nao digoe

Aliete disse...

Não tenho mais nada a acrescentar.

mjp disse...

Nao tenho nada mais a acrescentar.

Fábio Miguel disse...

Este homem que escreveu sabe muito sobre vida.

Obrigado

antonio disse...

portugal e um pais maravilhoso com muitas praias não como muitas pessoas pensam

antonio disse...

portugal e um pais maravilhoso com muitas praias não como muitas pessoas pensam

Ana disse...

Mau Tempo no Canil é uma boa sugestão para título de romance

Maria Serra disse...

Excelente! Continue, por favor! Lemos, sorrimos e, mais tarde verificamos que houve aprendizagem.

Davide E. Figueiredo disse...

Na minha repartição marcamos as reuniões mas elas nunca chegam a acontecer por causa do problema de ninguém querer ser o primeiro a chegar.

Chegou a um ponto tal que quando dávamos por ela, tínhamos ficado escondidos pelo piso da sala das reunioes umas duas horas só para não sermos os primeiros a chegar. Eu costumo esconder-me no armário da esfregona, a Gracinda, que é a DTMA do 10º piso, fica na salinha das fotocópias a ler, o meu colega Lúcio diz que vai só à casa de banho mas fecha-se lá dentro a fumar e a jogar no telemóvel etc.

Só resulta se vier alguém de fora, especialmente um estrangeiro, porque esses chegam lá e sentam-se e esperam, então podemos aparecer todos sem ter vergonha. Chegamos a convocar pessoas de fora só para podermos ter reuniões. E isto começou quando o Lúcio falou na "teoria dos jogos" e no equilíbrio de Naish e no dilema do prisioneiro. Enfim... este país é uma tristeza.

CB disse...

Pois... os 'planos' fabulosos que quase por sistema falham sem que se tirem conclusões. Muda-se apenas para outro plano e, de plano em plano, se vai vivendo com a inevitável sensação que não vai resultar. Mas alegremo-nos, pois ainda um não demonstrou a sua falência e já aí está outro, dado que mudou o governo. O médio e longo prazo é muito tempo... Como poderiam as cabeças temporariamente coroadas fazer-se notar? Ora pois, com 'planos'... Porém, a maior parte das vezes, quem está no campo, o executante, funciona mesmo é por tentativas na via do 'desenrasca'.

Gostei de saber deste blog
CB

ahpois disse...

Gostava de saber quantos de vocês estão no local de "trabalho" enquanto escrevem estes posts? E depois falemos de produtividade...

ccs disse...

ok, vou deixar de escrever sobre portugal. para a próxima é sobre o mundo...qd muito sobre o mundo ocidental. o universo pode esperar

terceiro andar disse...

Comentar em blog alheio é uma ocupação interessante. Principalmente, se isso não implicar um atraso a um eventual comprimisso. Porque gostamos todos de ser pessoas interessantes, mas ninguém gosta do passatempo de parvo.

No local de trabalho ou não, os portugueses não são, de facto, parvos. Não são como os britânicos, por exemplo. Esses é que fazem parte de um povo pouco interessante, sem comprimissos interessantes e sem ocupações ainda mais interessantes. Afinal, não têm a pontualidade portuguesa!

Quando conseguirmos estabelecer prioridades, vamos, com certeza, evitar que pessoas pouco interessantes e sem ocupações interessantes tenham passatempos de parvo.

Essa altura chegará quando as pessoas que gostam de ocupar o tempo com coisas interessantes deixarem de se guiar pelo sol e pelas tonalidades do dia e adquirirem aquilo que damos pelo nome de Relógio!