quarta-feira, fevereiro 01, 2006

TEMPO PERDIDO (I)

A falta de tempo é um sinal de sucesso. Uma vida completa exige um permanente controlo das horas e das actividades do dia. Talvez porque a vida das mulheres seja mais completa, as revistas femininas têm inúmeros artigos que ensinam a domesticar a agenda e a estabelecer “prioridades”. Tem que haver “prioridades” se não a mulher dispersa-se e não consegue ser mãe, esposa, arquitecta ou empresária. O melhor é seguir a receita habitual. Escreva numa folha as coisas que não pode deixar de fazer. Dispense o que é inútil. Evite a dispersão. Delegue. Delegue sempre que puder. E vai ver que tem tempo para tudo: para a reunião, para o cabeleireiro, para os trabalhos de casa do filho e para o cinema, de vez em quando. Infelizmente, comigo acontece o contrário. Não chego sequer a pegar na folha. Ou pego e fico melancolicamente a olhar para ela, sem saber o que hei-de escrever. Não me ocorre nada a não ser a rotina diária mas não preciso de uma folha para me lembrar que tenho um local de trabalho onde me dá jeito comparecer. Tudo o resto pode esperar. E pode mesmo não acontecer.
ccs
(publicado na revista Atlântico)

13 comentários:

Sílvia disse...

Publicidade à revista Atlântico (I)

Anónimo disse...

Constança, neste momento o Vasco ganha por 18 a zero. Com excepção do meu modesto contributo ninguém se preocupa com a falta de tempo.

Anónimo disse...

Deste post eu gosto. :-)

É humano e sensível.

A irmã de Constança Cunha e Sá

pipilota disse...

A Terceira Mulher, do Gilles Lipovetsky, ajuda a perceber a bida das Constanças Cunhas e Sás e das Mariazinhas, sopeiras sem farda e mães solteiras, gaita! que lebam o filho ao colo até à creche, pois a porra do autocarro não tem rampa para o carrinho e f.., está sempre a abarrotar!

José Luís Amaro disse...

Está fantástico. Vou comprar a revista por causa de si.

rb disse...

Eu também me vejo à rasquinha para fazer o meu trabalho, ser homem, marido e pai ... E, ó tempo que não vou ao cinema.

Marco disse...

E pode mesmo não acontecer...

Anónimo disse...

Pois é, a falta de tempo parace ser mesmo um problema só de mulheres (!!!???). Andam sempre super super ocupadas. Os homens, esses, não devem ter esse problema. E escrever 2 (!!!) par
agrafos enormes sobre a falta de tempo da CCS, não é isso uma falta de tempo ? Não há outros temas mais interssantes dentro dessa sua cabeçinha linda ? Não me diga que criou um blogue para nos massacrar com a sua falta de tempo e os dilemas daí decorrem para a sua vida ??? E ainda por cima a fazer a apologia da mulher para quem o trabalho e o local de trabalho tem prioridade sobre tudo o resto. Falsos ídolos. E os filhos ? Ó Constança, vá lá, um pequeno esforço de imaginação e até consegue algo mais estimulante...os filhos agradecem.

lino disse...

Alto e pára o baile! Eu sou homem e preocupo-me muito com a falta de tempo.

rb disse...

Estou curioso para ver quanto tempo vai durar aqui a caixa de comentários ...

Maria Serra disse...

Por favor, volte a continuar os seus comentários sobre o Tempo Perdido. Lemos, sorrimos e ... por vezes,evocamo-los porque foram uma aprendizagem.

Fábio disse...

Acho que ele tem razam este senhor tem muita esperiencia

Angie disse...

CCS:
Não lhes ligue...os cães ladram e o blogue segue.
Faz parte.

Gostei do seu post.
É de uma empatia fulminante para... quem queira perceber.
Ia a dizer "para as mulheres"...mas não faço lobbying pela "causa". Irrita-me essa coisa.
Só faço às vezes (quando tem mesmo de ser).

Muito bem: mas porque não havemos nós de falar do peso da agenda, e da inépcia das fórmulas salvadoras na gestão do tempo, se temos de gramar a pseudo intelectualidade dos sempre impunes debates, posts, foruns, discussões acesas e decorrentes cumplicidades e afinidades dos que gostam de futebol?

Sim, esse tema com que começam invariavelmente as reuniões de trabalho
(enquanto os tais hiper ocupados não chegam, sempre atrasados, pois claro, noblesse oblige)
dando azo àquele infalível "período anterior à ordem do dia"?
Para logo a seguir se passar à deliberação de magnos assuntos (empresariais ou de Estado)?!
Há lá tema mais edificante?!
E alguém se lembra de lhe chamar fútil?!

Muito bem! Aplausos para si!
Sorte a sua, que não faz as ditas listas...
Eu, contudo, faço.
Listas que se juntam às que tenho no (e sobre o) trabalho, no gabinete do costume
Manuscritas. No portátil -para passar para a pen. Ou na agenda do tlm...
Algumas lá se vão resolvendo pela net (ajuda preciosa a explorar).
Listas.
Listas que nunca vêem o fim (há sempre uns items a "transportar" para a seguinte, que presumivelmente devia começar do zero...)
Delegar? Qual quê! E em quem?!
Não há delegados disponíveis para certas coisas.
E, se as ditas tarefas são mesmo delegáveis (porque importantes...) não se delega coisa nenhuma : quem quer vai, quem não quer, manda...

Mas depois há o prazer (?!?!) de riscar ou fazer o "delete" daquelas maçadas. Mais uma baixa! Ou porque se fez; ou porque se não fez e perdeu oportunidade; ou porque simplesmente decidimos que era absolutamente acessória.

Sou contra elas, mas não passo sem.

Só vislumbro reconciliação possível no dia em que tiver coragem para escrever nas minhas listas coisas do género:
- ler o livro de cabeceira durante 1h, sem interrupções
- ouvir o último cd de... de fio a pavio, bem sentada no sofá e sem ninguém a chatear
- ir almoçar com aquela pessoa que nos agrada e não vemos há eras, sem falta esta semana
- desligar o telemóvel durante a tarde toda
- prever o que aconteceria se deitasse as listas fora e ficasse amnésica
- ir jantar sem ser com os chatos do costume
-enfiar-me numa livraria durante 3 horas sem tarefa específica
- tomar um copo só pelo prazer de
- pensar bem e de uma vez por todas se esta vida de agendas faz algum sentido
etc, etc, etc

Enfim: futilidades.