quarta-feira, fevereiro 08, 2006

REALIDADES

O Hamas governa a Palestina. O Irão decidiu recomeçar o enriquecimento industrial de urânio, digam o que disserem a ONU e a "Europa". No Iraque, a América está numa posição desesperada. No Afeganistão, os senhores da guerra mandam como sempre fora de Cabul, os Taliban voltaram à cena e a presença da NATO não passa de cosmética. E, no entanto, parece que o grande problema do Ocidente no Islão é o caso das caricaturas. A boa propaganda, e a histeria da "rua" muçulmana foi boa propaganda, consegue esconder o essencial.

Enquanto se discute a liberdade de expressão, não se discute o avanço táctico do islamismo político, nem a inquietante impossibilidade de lhe responder. Já se provou que as sanções não servem de nada. O Afeganistão e o Iraque mostraram a futilidade de uma intervenção militar, sem um exército capaz de ocupar efectivamente o território. Mas, como é óbvio, a América e a "Europa" não podem ou querem mandar um milhão e meio de homens para o Iraque (há lá hoje 140.000) ou 300.000 para o Afeganistão (há lá hoje 15.000).

Resultado: o Ocidente continua à mercê da chantagem do petróleo, agora agravada pelo populismo de Chávez na Venezuela e pelo banditismo na Nigéria. Só que a chantagem tem limites. Não vale a pena procurar um compromisso com o Islão, porque o Islão nunca aceitará um compromisso. A "guerra santa" contra o "infiel" fornece um bode expiatório à miséria universal, à injustiça e ao atraso de uma civilização falhada. Sem ela, era o caos. Mas, tarde ou cedo, o Ocidente, perturbado na sua abundância e nos seus prazeres, tenderá a esquecer os grandes princípios para se lembrar das realidades do mundo. A bomba do Irão, até por causa de Israel, talvez seja o ponto decisivo.
vpv

38 comentários:

Mª Lurdes Delgado disse...

Que é que sugere? Que nos suicidemos colectivamente?

brmf disse...

Mais uma na mouche. As caricaturas não passam de "cortinas de fumo" (expressão de ontem no Choque ideológico) para escamotear o essencial. Enquanto se discute o somenos, a táctica islâmica vai avançando. Só não se sabe se as cortinas de fumo são todas do islão ou também de algum ocidente. Os EUA, a Inglaterra estão muito calados...

Anónimo disse...

E o Irao está a conseguir o que quer. A uniao do povo muçulmano por causa dos cartoons.

E alguns europeus em vez de serem espertos e evitar isso, consideram que o que importa é a liberdade de expressao e por isso é continuar a ofender todos os muçulmanos com as caricaturas do Maomé terrorista.

Se calhar com a insistencia até se transformam em inimigos. E o Irao ganha a guerra mesmo antes de começar.

Anónimo disse...

e as caricaturas nao fazem parte da tactica do Irao e afins?

esperam reaçao e que o ocidente continue a publicar as caricaturas, os muçulmanos a se sentirem ofendidos e o Irao a conseguir o apoio de todos os países das redondezas que nem sequer gostam deles.

4800GMR disse...
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Pedro disse...

Subscrevo atenciosamente, embora tenha uma opinião mais musculada acerca do assunto.

ruy disse...
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4800GMR disse...

A causa das coisas é uma:petróleo
A nossa (ocidente) ganância/necessidade de petróleo obriga-nos a negociar com regimes populistas, bárbaros e corruptos.A nossa visão ocidentalizada do mundo não nos permite analisar com a devida clareza os problemas dos povos. A nossa voracidade leva-nos a causar convulsões em países por causa do petróleo (veja-se o que aconteceu em S.Tomé e Principe quando se descobriram jazidas de petróleo).
Mesmo que o petróleo acabe não se vai poder dizer que "daqui a cem anos já ninguém se lembra" pois, (talvez) infelizmente,não é assim (nem acabará assim) a História.

Otelo de Guimarães

ruy disse...
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Anónimo disse...

VPV, concordo consigo.
Mas não acredito que as bombas do Irão seja o problema em si. Quanto a isso, Israel pode repetir a proeza e bombardear novamente as instalações de enriquecimento do urânio. O problema é o poder militar iraniano, independentemente da bomba nuclear. Mas mesmo o Irão pode ser derrotado com uma coligação ocidental.
O principal ponto da questão está no fundamentalismo islamico, que se está a agravar. Pior, esse fundamentalismo "descobriu" o terrorismo. Pior ainda, descobriu o terrorismo associado às técnicas mais aprimoradas dessa táctica. A guerrilha é quase imbatível, mesmo se respondermos na mesma moeda. Desde Spartacus (que apenas saiu derrotado quando mudou a táctica para a guerra convencional) até hoje, poucos ou nenhuma guerrilha bem organizada perdeu. Vietname, Ultramar e hoje a Al-quaida são exemplos disso.
Os Exércitos nacionais, sistemas organizados, não descobriram a forma de resolver o problema. É claro que meia dúzia de bombas nucleares aniquilariam os terroristas do médio-oriente. Mas também milhões de inocentes. É realmente um problema com o qual não sabemos de todo como lidar, pois tudo o que tentámos até agora não resultou: nem o diálogo, nem a guerra.
P.L.

douro disse...

O Vasco começou a dar sorrateiramente uma volta na cama, a ver se ninguèm repara. Ontem, corria as avenidas com os estandartes da liberdade de expressão. Hoje vislumbra um complot e não tarda nada descobre que o cartoonista era um submarino do Hamas em missão nòrdica. Acho-lhe um piadão.

Anónimo disse...

Brilhante além do Irão, Hamas etc VPV ainda queria Saddam a ajudar á festa!
VPV não percebeu que a operação no Iraque era a ultima alternativa para a paz. E ainda bem que falou no nível de soldados. Se a França e Alemanha não tivessem agido como agiram e tivesse enviado 2 Divisões para o Iraque muito mais já se tinha avançado, e o Irão tinha mais cuidado a brincar com a Europa. Mas nessa altura a maioria da UE estava obcecada por ideias patetas que os EUA poderiam dominar o mundo. Quando na verdade vêem a perder terreno desde os anos 50.

A curva para o Islamismo Radical já vem desde o momento em que o Socialismo Pan-Árabe falhou como falharam todos os socialismos, fins de 70's .
E talvez valha a pena lembrar que o Iraque não teve quase manifestações e o Ayatollah Sistani condenou as imagens mas não deixou de dizer que foram também os actos de muçulmanos que as tornaram possíveis.
Claro que pode ser tática e também Sistani não viverá para sempre.

lucklucky

Anónimo disse...

"Mas não acredito que as bombas do Irão seja o problema em si. Quanto a isso, Israel pode repetir a proeza e bombardear novamente as instalações de enriquecimento do urânio."

As instalações estão descentralizadas e muitas enterradas, provavelmente só com armas nuleares se lá chegava.
As poucas hipóteses que existem é a gasolina(Irão importa refinados) e ataques contra as instalações económicas, isto claro ficando de fora "regime change".

lucklucky

luisnaves disse...

caro vasco
discordo do ponto essencial da sua opinião. No caso, acho que a agressão foi do ocidente, que parte do principio da sua total superioridade sobre essa civilização "inferior", que nos assusta por ignorância. O corolário da sua posição só pode ser a de confronto directo, militar se for preciso, o que é contraditório com qualquer crítica à intervenção americana no Iraque
saudações para si

N. de Nuclear disse...

Não acho que os Israelitas sejam moderados(basta ver que Sharon, quando era General, bombardeou dois campos de refugiados). Não acho que os Iranianos sejam moderados (há vários exemplos que podia dar nesse sentido).
O que é que dá a uns (Israel) direito de ter a bomba nuclear e a outros (Irão) não?
Eu se fosse iraniano (ou,agora, uraniano, recorrendo ao humor fácil) pensaria assim.
É obvio que, naquela zona, ninguém pode ter armas nucleares. E se o Mundo fosse perfeito ninguém as teria...

Mª Lurdes Delgado disse...

Parece-me haver um pequeno detalhe que dificulta o bombardeamento das instalações para o enriquecimento do urânio, pelos israelitas. Aqui há uns anos, eles fizeram essa partida ao Saddam e as instalaçõezinhas foram ao ar em dois tempos. Os iranianos, que por serem fundamentalistas fanáticos, não têm que ser obrigatoriamente parvos em tudo, estudaram a questão e parece que dispersaram pelo território, que convenhamos é extenso, as ditas instalações. Donde, um raid do mesmo tipo não dá. Vários raids talvez resolvessem a questão, mas muitos aviões se desfariam em fumo, o que sai caríssimo {eu sei que o tio Sam é generoso} e muitas tripulações volatilizar-se-iam. Ora Israel também tem um problema demográfico. Nisto a Europa não está sozinha.

Marieta disse...

Talvez agora importe relembrar porque razão falharam os "socialismos" árabes dos anos 70, porque se desencadeou uma crise petrolífera, porque falharam as "nacionalizações" do petróleo e porque falhou a continuidade de um regime laico e se abriram as portas às derivas fundamentalistas. Talvez a "civilização superior" devesse reflectir um pouco no seu grau de responsabilidade em tudo isto.

N.de Nuclear disse...

Para ser sincero ( e a concordando que existem armas nucleares em Israel) isto para mim é tipo India e Paquistão...Aconteceu alguma coisa? Não
Pode vir a acontecer? Pode
É tudo uma merda? É

Zulu disse...

REALIDADE/S:
A reacção da rua 'árabe', logo irá passar. Dores de uma «civilização falhada». Tal como passou a reacção da mesma anterior à paródia USA/Iraque 2 - de Rabat a Carachi.
Irão actual: muito útil, precioso, para o «complexo militar industrial» USA. Já se nota no orçamento militar de Bush & Cia.
E assim será... até que a China acorde.

Mª Lurdes Delgado disse...

Caro douro,
Porque é que julga, que eu ando há um ror de anos a comprar os jornais, onde o VPV opina? Acho que se ele mudasse para o Crime, não resistia e lá ia eu.

Manolo Heredia disse...

De repente deixou de se falar no diálogo Norte-Sul e passou a falar-se na falta de diálogo Cristão-Muçulmano!
O petróleo barato é o grande responsável pela situação actual do mundo (excesso de população, assimetria na divisão dos recursos).

N.de Nuclear disse...

Ainda bem que se toca no ponto fulcral desta questão!
Parabéns Manolo!

alcides disse...

Se a histeria de rua esconde o essencial ou se o traz à superfície, depende da abrangência de visão de cada um. Parece-me que são muitos aqueles que, agora, tomam consciência da verdadeira natureza do ressabiamento fundamentalista. A polémica das caricaturas não forma uma cortina de fumo; até agora, só nos tem revelado áreas atrás do fumo, como a fragilidade amendrontada da "nossa" posição num contexto que é, essencialmente, de "bullying" de recreio de escola.

Anónimo disse...

Luckylucky, concordo com o que diz e realmente acho que a Europa devia ter intervido no Iraque, mas sabe com toda a certeza que a não entrada no conflito deveu-se mais à política interna de uns países e a comprometimentos passados de uns líderes.
No entanto, há-de convir que atacar centrais nucleares é menos difícil do que declarar guerra, em termos de baixas e económicos, e que o problema do Irão é "piece of cake" face ao terrorismo fundamentalista, que se assemelha a um cancro.
Penso que os aliados atlânticos vencerão uma vez mais neste caso, através de uma invasão armada, que penso ser já irreversível. O momento de tensão actual, tanto de um lado como do outro, parece-me como uma preparação das opiniões públicas para o conflito.
P.L.

Pedro M disse...

"E assim será... até que a China acorde."

E aposto que está mortinho para que isso aconteça.
Os fracos, os fracos...

Paulo Pisco disse...

Essa é, infelizmente, a pura da verdade.

Paulo Pisco disse...

Referia-me ao post do VPV.

douro disse...

Ò Lurdes, o Vasco não precisa de ir para o "Crime". È que jà me constou que o Vasco é um reporter do "Crime" infiltrado nos outros jornais. Pense nisso.

Luís Goldschmidt disse...

E vai, Vasco. Em 2006, o povo eleito tem apenas 16 milhões de pessoas vivas. No entanto, para os que não sabem, foi eleito para ter a responsabilidade de transmitir, às gerações vindouras, o Livro, a Torah, o Velho Testamento, ao qual, colando-se o Novo Testamanto, chamou-se Biblia. 4 Mil anos depois, talvez volte a ser eleito como o desígnio que salvou o Ocidente da sua lenta e paulatina extinção. Tenho fé! Não nos equeçamos que foi a fé a razão dos nossos povos. E seria a sua falta, sobretudo, que nos destruiria.

Anónimo disse...

Caro douro,
Já me tinha constado. A minha empregada, que conhece muito bem, a cabeleireira de uma tia dele, há tempos disse-me qualquer coisa sobre isso. E olhe que ela é de inteira confiança! Mais, por ela ponho as mãos no fogo.
Moral da história como nas fábulas: Assim se começa um boato.
Este vai anónimo para estar de acordo com o conteúdo.

sniper disse...

Penso que os americanos nunca quiseram ocupar militarmente nada. Os americanos querem é criar uma habituação nesses povos, ainda que numa fase inicial os custos em vidas e dinheiro sejam muito elevados. A democracia, o capitalismo e a liberdade são os catalizadores dessa habituação. Senão vejamos:
- Os atentados bombistas no Iraque não valem uma micro coluna num jornal, sem os americanos presentes, quanto mais uma noticía num telejornal.
- Os sunistas são os maiores inimigos dos americanos no Iraque, e responsáveis pelo fim do stock de virgens no Paraíso..., mas sem os americanos, os curdos e chiitas fazem-lhes a folha em dois tempos.
- Os "sunis" e os curdos, e muitos sunitas precisam dos americanos para lhes sacar e pagar o petróleo, mas em contra partida fazem as infraestruturas e criam muitos negócios internamente..
Os americanos irem-se embora? Difícilmente. No fundo do fundo, todos querem os americanos no Iraque.
O Afeganistão, é uma micro-minoria que faz um alarido, que parecem milhões. Situação clássica dos manuais do bom terrorista. O narcotráfico é um mundo de dinheiro que tudo compra, e principalmente quando os aliados fecham os olhos a isto. A economia paralela floresce, beneficiando muita gente. O circuito externo de lavagem de dinheiro já apresenta saturação e muitos riscos. A solução é injectar parte dele no próprio país, e é o que está acontecer. O Hugo Chavez arrica-se a vender petróleo a paises que não pagam a pronto como os americanos...Isto do internacional porreirimo é muito arriscado. Costuma dar bota. VPV, quanto ao resto dou-lhe 100% de razáo.

unreconstructed disse...

VPV eleva a teoria da conspiração à escala universal (meanwhile, on planet earth, life goes on).

Mário Azevedo disse...

eu tenho uma opinião totalmente contrária. a vitória do Hamas, sobretudo, foi muito positiva. nunca como agora os israelitas e os palestinianos aceitaram a existência dos vizinhos. nunca. e isso está na mente deles, de todos, mesmo que exteriormente não o digam.

Anónimo disse...

Doutor Vasco: o seu problema é que não sabe que "realidade" é compatível com direitos humanos, economia, direito internacional, organizações internacionais, instituições internacionais não formais. O "poooder" está em todo o lado. O que se torna importante é tentar perceber que ele não é sinónimo de luta militar nem que o mundo se resume a luta militar. Há guerra económica. Há guerra por valores. Há guerra no diálogo multicultural. Entenda uma coisa: a diabolização do mundo muçulmano é feita porque favorece a estratégia ampla de democratização. Se está contra ela, então defenda outras "realidades". Não percebo como é que essa sua cabeça funciona. Acho que ninguém percebe. A sua sorte é estar num país como o nosso.

Jose Sarney disse...

Concordo plenamente, VPV.

Apenas, acho que o GOP tem estrategas que não vão neste tipo de converseta! Nem sequer os Israelitas, com ou sem Sharon, serão a nossa "guarda avançada", perante um pretenso avanço do Islão.

Medo: NUNCA.

Anónimo disse...

... (se calhar não percebo porque o doutor não percebe nada da ciência de relações internacionais e dos seus diferentes "programas de investigação". Mas se não percebe diga que não percebe. Confesse a sua ignorância porque, pela responsabilidades que tem, não devia estar a escrever coisas que qualquer aluno aplicado de 4º ano (e de um curso nacional) já pode escrever. É que a sua menor sabedoria pode contribuir para que a situação se agrave. Devia escrever daquilo que percebe porque no resto o doutor faz parte da "gente"- onde eu me incluo, de resto).

dmns disse...

O ocidente não tem recursos naturais para produzir energia? Tem. Até há quem diga que Portugal não tem recursos naturais.

BM disse...

1-Em relação à questão energética parece-me óbvio que a solução passará pela criação de fontes de energia próprias (quiçá "alternativas");
2-Falando da manipulação das massas no Islão, por parte dos ricos e líderes religiosos... Parece-me encontrar situações muito similares no desenvolvido Ocidente, especialmente no outro lado do Atlântico Norte. Mas não só!