sábado, fevereiro 25, 2006

A "MODERNIZAÇÃO" DA MORTE

cemitério
A Câmara Municipal de Lisboa resolveu fazer um leilão de jazigos do cemitério do Alto de S. João e do cemitério dos Prazeres e ainda de terrenos já "loteados" para novos jazigos no do Alto de S. João. A Câmara chama aos cemitérios, muito apropriadamente, "urbanizações funerárias". Perto de 50 pessoas foram ao leilão e o metro quadrado chegou aos 8.375 euros (num caso especialíssimo) e não desceu abaixo de 2.500, mesmo na categoria inferior de "ossários-columbários". Nada mau, se considerarmos que o valor médio do metro quadrado em habitação para vivos, na Área Metropolitana de Lisboa, é de 1500. Para seu gozo neste tempo de austeridade, a Câmara encaixou mais de meio milhão, apesar de não ter vendido tudo. Este amor pelos fiéis defuntos não deixa de ser estranho em 2006.

O jazigo é, por excelência, um monumento da sociedade burguesa. O estilo varia, como é sabido: neo-gótico, neo-clássico, neo-romântico, "Raul Lino" e por aí fora. Mas nunca varia a intenção: a de homenagear e perpetuar um homem venerável (ou mais raramente uma mulher) e uma família. A propriedade de um jazigo nos Prazeres, ou no Prado do Repouso do Porto, era um símbolo indispensável de ascensão social. Muita gente ambicionava a grande honra de um jazigo próprio e trabalhava a vida inteira para o vir a ter: com brasão, se possível, ou, pelo menos, com estatuária alegórica às virtudes que o haviam outrora ornamentado - a Fidelidade, a Caridade, a Justiça, a Fé. A vala comum para os muito pobres, sem nome ou distinção, e a campa rasa para a pequena-burguesia conservavam na morte a hierarquia do mundo.

Ontem, o leilão da Câmara interessou os jornais de Lisboa, porque o jazigo é um anacronismo. Ninguém seriamente acredita na imortalidade da alma ou na ressurreição da carne. A família, como coisa perene, desapareceu. O igualitarismo não percebe ou aceita o valor da superioridade que dura e se transmite. E toda a gente, obcecada pela saúde e a juventude do corpo, esconde e nega a morte. A morte, degradada em incidente hospitalar, para comodidade do próximo, é quase invisível. Os mortos, que atrapalham e deprimem, são expeditivamente despachados para o primeiro incinerador. A Câmara abriu um "núcleo museológico" nos Prazeres. Qualquer dia, nos Prazeres só há o "núcleo", não há o cemitério. A morte também se "modernizou" e o leilão de jazigos pertence ao Portugal que nós perdemos. É uma pena.
vpv
(publicado no jornal Público)

27 comentários:

esgoto disse...

é assim a vida: tudo fenece, até este país...

paulof disse...

"Ninguém acredita na imortalidade da alma ou na ressureição da carne"? Como?

Donde, antes de escrever asneiras, ou à pressa, conviria o sr. pensar duas antes de debitar opiniões (e de "se estender ao comprido" como se usa dizer-se ) ainda para mais erradas, como é o caso.

Eu, por ex., veja lá , acredito nisso e tenho Fé, e acredito também no Juízo Final. E conheço muitas outras pessoas que também acreditam!

Anónimo disse...

Eu queria saber se VPV, ao afirmar isso que foi citado no comentário anterior, pretendia ser irónico para com a hipocrisia de muitos pseudo-cristãos ou se julga mesmo que literalmente ninguém acredita no além. Agradeço o esclarecimento.

piripiri disse...

... pois pois ele ainda há muita gente que acredita na vida para além da morte...
....na vida aquém da morte é que cada vez se acredita menos...como dizia o poeta"VIVER SEMPRE TAMBEM CANSA" e pelos vistos já não se pode morrer em grande em Portugal

pipilota disse...

Eu prefiro as caixas quadradas dos corpos cremados, aos milhares, nos cemitérios de Milão e no de Père- Lachaise... e aqueles que considero pessoas de bom gosto estão dentro daqueles quadradinhos. E só de imaginar os corpos podres a serem comidos pelas larvas nos jazigo ou debaixo da terra, arrepia-me...

Filipe Alves disse...

Muita gente acredita na vida além da morte. A crer nos estudos existentes, são mesmo a maioria. Mas acreditar na vida além da morte não é a mesma coisa de crer na ressurreição da carne (embora os católicos afirmem isso, na oração do credo niceano).

Sílvia disse...

A Maria da Fonte não poderia ter melhor sucessor entre nós. Viva o VPV!

esgoto disse...

vida após a morte... depois digo qualquer coisinha quando morrer, ok?

Libório disse...

Estou a espera de alguem que foi lá e que voltou.
Este malucos acreditam em cada uma!
Realmente aas crenças e as beatices são extraordinárias.!

Velho disse...

VPV, de vez em quando, nos seus raros assomos de optimismo, parece acreditar na "modernização" nacional:

"Ontem, o leilão da Câmara interessou os jornais de Lisboa, porque o jazigo é um anacronismo. Ninguém seriamente acredita na imortalidade da alma ou na ressurreição da carne. A família, como coisa perene, desapareceu. O igualitarismo não percebe ou aceita o valor da superioridade que dura e se transmite. E toda a gente, obcecada pela saúde e a juventude do corpo, esconde e nega a morte."

O país ainda não é (todo) assim. As "elites" nacionais estão longe de ser assim.

Anónimo disse...

Quem anda com alguma atenção ao que o rodeia, importa não ignorar alguns estudos, desenvolvidos até a nível universitário, onde são aprofundadas as noções de cérebro, mente e espírito, e conhecer alguns, já largamente difundidos na comunidade científica, sobre os estados modificados de consciência, as experiências para-religiosas "próximas da morte" e "fora do corpo", onde a nossa anterior definição de Real começa a estar muito esbatida.
Outro fenómeno muito estudado e divulgado é a regressão a vidas passadas, sob hipnose, algumas cientificamente comprovadas. Assim, cada vez mais solidamente vamos comprovando que há muita coisa para além do que, normalmente, nos é dado ver, pelo que a negação pura e simples não parece a atitude mais racional face aos actuais conhecimentos.

piscoiso disse...

Se a vida continua depois da morte, não vale a pena ir ao médico.

jose sarney disse...

Caro VPV,

Não é bem assim, se não repare:

1. Portugal é dos países, em que a incineração é menos utilizada.
2. Os preços que atingiram o leilão, não são assim tão irrelevantes. O preço do m2 de floresta é muito mais barato. E porque será?
3. Marcelo Rebelo de Sousa contou uma vez na TVI, que comprou um jazigo nos Prazeres, para os pais, para os juntar! E que me conste, não é tido como um "bimbo"....
4. Já foi a cemitérios por esse interior fora? Não são o "abandono" dos das grandes cidades. São cuidados, limpos e ornamentados.

E não se esqueça que estamos no país de Fátima, e por isso muitíssima gente acredita....na vida eterna! Pessoalmente, sou como S. Tomé, "enquanto vir, creio....depois....finito"

Jorge Fernandes disse...

Meu caro Vasco,

Não dê argumentos aos estúpidos que
abundam neste País para incomodarem ainda mais as pessoas
como nós.Já agora não volte a escrever enormidades destas.Eu sei que não há assuntos, mas estes deixe de lado.
Jorge Fernandes

maloud disse...

Brinquem, brinquem, mas que isto dos jazigos é uma enormr chatice, é. Nós temos um em Agremonte {o meu pai detestava o Prado Repouso, porque confinava com a PIDE}. Aquilo dá para 12 pessoas ao que sei. Só lá está o meu pai. A prateleira da minha mãe lá a espera. É que aquilo é como os lugares à mesa, requer uma certa etiqueta. As outras prateleiras não têm clientes. Quer tudo ser incinerado. Eu à cautela já escrevi e meti no cofre, porque se me desse o badagaio com a minha mãe viva, ela insistiria em meter-me na prateleira.
Agora os meus caros amigos digam-me o que fazer com a capela que ninguém quer? Vendê-la era uma solução. Há o pequeno problema do que lá está e da que um dia há-de chegar.

piscoiso disse...

Dar a chave a um sem abrigo para ir lá pernoitar.

maloud disse...

Piscoiso,
Não pode. Aquele condomínio pertence à Ordem da Santíssima Trindade da qual o meu pai se fez "irmão" {ele era ateu} para entrar no dito condomínio. Eles têm segurança e grades a toda a volta. Como vê, é das coisas mais inúteis que possuo em co-propriedade.

Anónimo disse...

Que pena! Assim não podemos rentabilizar nada.
O Marcelo é que teve juizinho - há que salvaguardar os bons investimentos - uma coisa que eu não posso fazer.Não há crise, quero ser cremada e que as cinzas fiquem onde quiserem que fique. Na morte não sou exigente - já cá não estou para protestar.
Agora que a Câmara tem um olho negocial para o morto, lá isso tem.
Pois, com todos os outros negócios de feiras e parques a serem desmascarados, que coisa melhor que rentabilizar um cemitério?

paciente inglês disse...

É, de facto, lamentável e degradante. E tudo serve para fazer dinheiro.
Mas, no fundo, trata-se apenas de uma outra forma de condomínio fechado. Vivamos, pois, e morramos com o nosso tempo. Os pelintras nos dormitórios dos cemitérios anónimos, os ricos bem fechados nos seus domínios de marca.

maloud disse...

Parece que os do nosso tempo não estão muito interessados em passar a eternidade em condomínios fechados, preferem a cremação. Às vezes, nem a transitoriedade da vida os atrai para os referidos condomínios. Eu tenho alergia e poderia explicar porquê.
Era uma geração de um outro tempo que, mesmo na morte, se queria distinguir dos da campa rasa. Também se conhecem as razões.

Anónimo disse...

Tanto aos crentes como aos dercrentes, apenas um conselho: não tenham tantas certezas para que isto não pareça um diálogo de ignorantes. É que só esses é que não têm dúvidas!...
Já repararam quantas "certezas" desapareceram ao longo da história? afinal não era verdade que a terra era o centro do universo...

Filipe Alves disse...

A morte - e o que há ou não para além dela - é algo demasiado transcendente, até mesmo para VPV... E afinal qual é o mal de acreditar numa vida além da morte? Os crentes têm sempre vantagem, visto que mesmo que estejam enganados em relação a uma existência além da morte, não se chegam a aperceber do facto... visto que morreram.

paciente inglês disse...

Acreditar numa vida para além da morte é olhado por muita gente (de suposta superioridade intelectual) como coisa de tolinhos, espíritos fracos ou mesmo pobres de espírito.
Pôr tudo em causa, reduzir tudo ao positivismo, dar a ciência como explicação para tudo, isso, sim, é prova de inteligência.
Ora a verdade é que há mil indícios, vestígios ou pistas para a existência de algo para lá da morte.
Podem dizer que não há PROVAS INDISCUTÍVEIS desa tal vida. Mas há os mil indícios.
Em contrapartida, não há qualquer prova de que essa vida NÃO existe.
E da existência de Deus, há alguma PROVA insofismável?
Para não ir mais longe, como explicar os incontáveis relatos feitos por pessoas que estiveram em coma?
E como explicar as revelações (confirmadas) obtidas por regressão através de hipnose?
Essa coisa de que só uma parte (10%?) do nosso cérebro é utilizada, é curto, muito curto como justificação...

e-konoklasta disse...

Independentemente de se acreditar ou não numa possível vida para além do fim, a morte tornou-se num imenso negócio. Há sempre uns espertalhões para explorar as crenças e os preconceitos dos seus concidadãos. Expeculação imobiliária nos campos-santos e negociatas corruptas entre funerárias e morgues. Nem no sono eterno escapamos às leis do mercado e do capital.

Anónimo disse...

Você tem uma arrogância que lhe fica bem...
E vocação para mártir.
Desta vez escapa...desconheço a imortalidade da alma.
Mas, note, se fôr imortal vai ficar a eternidade a pensar nisto: Tantos anos, Oxford, coluna no Público, Universidade e afinal no mais importante (ou pelo menos no mais duradouro) a Maria Cavaco Silva, a Irmã Lúcia e a Maria Barroso acertaram (Ok...nesse caso a Irmã Lúcia é concorrência desleal porque terá tido informação privilegiada)...Mas só a ideia das "Marias"...é cá um Inferno..eheheheh

Míope disse...

O referido leilão não surpreende: se as pessoas continuassem a querer (ou melhor, almejar) jazigos, há muito que os bancos teriam criado o plano poupança-repouso.

Anónimo disse...

São os ciganos quem os compra...