quarta-feira, fevereiro 08, 2006

JORNALISTAS

Entre blasfémias, cartoons e polémicas, descobri, com algum espanto, que alguns dos maiores arautos da moderação e do bom senso são jornalistas. Defendem um jornalismo "sério" e "responsável". Zeloso dos seus próprios limites e do fanatismo dos outros. Um jornalismo bem comportado que dita as regras do que deve ser publicado e do que não deve ser publicado. Um jornalismo consensual, aberto a grandes tiragens, que faz a bissectriz e sossega os espíritos dos seus leitores. Um jornalismo que tem territórios sagrados, zonas onde ninguém se aventura sob pena de ser castigado por força das circunstâncias. Um jornalismo que, curiosamente, exclui outros tipos de jornalismo e parte das publicações que fazem a fortuna do ocidente. Por esses lados, não há tablóides, revistas pornográficas ou jornais alinhados pela provocação barata ou pelo insulto gratuito. Há um modelo único, definido por critérios únicos que excluem o risco e o excesso, em nome do respeito pelo outro e da superior harmonia dos povos. A liberdade absoluta é um mito. Ou uma licenciosidade, como diria Freitas do Amaral. Com a fé dos outros não se brinca. Ou melhor, com a fé dos muçulmanos não se brinca. O mundo está demasiado perigoso para que o ocidente, rico e ilustrado, se dê ao luxo de brincar com o fundamentalismo alheio. A fé, diz João Morgado Fernandes, é "um conjunto mais ou menos irracional de coisas íntimas" (não é!) e coisas íntimas ele obviamente não discute. A não ser que as coisas íntimas lhe digam respeito, como acontece com a religião católica, que ele não pratica, mas cuja influência sofre. Aí sim ele brinca com a “carcaça” da coisa. Mas com a fé não. Nem ele, nem ninguém que ele preze ou que estime. Que bom seria se o mundo fosse todo, assim, tão simples e tão previsível. Infelizmente não é.
ccs

11 comentários:

FNV disse...

Julgo que é "bissectriz".

ccs disse...

e é. obrigada

zazie disse...

brinca quem quer brincar e ofende quem pode. Agora o que é demagogo é pretender normalizar a sensibilidade das pessoas por um qualquer denominador neutro.

e já agora uma questão:

a fé do muçulmanos é fundamentalismo?

é que eu pensava que fundamentalistas podem ser as práticas não as crenças.

zazie disse...

a fé do judaísmo é fundamentalista ou as práticas e obrigatoriedades sociais perante ela é que também podem ser fundamentalistas?


não há fundamentalismo do modo como cada um sente os valores espirituais. Há fundamentalismo no que pode fazer com isso.

Do mesmo modo não existem sátiras uniformizadas por uma cobertura de neutralidade. Existem variantes e intenções do que se pretende atingir com elas.

O humor nunca é ofensivo porque neutraliza tudo pelo disparate. Só que nem tudo é humor e por isso mesmo existem condenações legais para ofensas.

O disparate é dar-se o salto de isto que é uma questão de lei e modo de lidar com ela num país para uma questão civilizacional.

Ou mediática.

luisa disse...

Até mesmo dizer que, tudo o que atente contra a liberdade de alguém é fundamentalismo, pode ser visto como fundamentalismo.
O que não vale é tirar olhos...

zazie disse...

posso dar um exemplo. Andar-se a chamar pedófilo ao Maomé e fazerem-se caricaturas com isso é simplesmente imbecil. Mas parece ser uma tónica que está em voga e não apareceu só agora. Não foi também isso que fez o tal Van Gogh? e esse não tinha intuitos humorísticos. tinha intuitos justiceiros.

Muito do que se anda a chamar humor é uma forma de revanche pelo achincalhamento.

Anónimo disse...

Fiquei alarmado com o "racional". Ele de facto escreve "irracional": "Vejo na religião um conjunto mais ou menos irracional de coisas íntimas."

Concordo com a crítica em geral, e quase totalmente a parte final, no que se refere a JMF, cuja argumentação (confusão?) é de bradar aos céus. Se podemos teoricamente distinguir os fenómenos pessoal e social da fé/religião, na prática isso é muito difícil de separar. E a forma "umbiguista" como JMF abre uma excepção à religião católica não pode ser (intelectualmente) levada a sério. E acaba por baralhar as coisas por completo. Um desastre, muito bem apontado.

Tiago Mendes

Anónimo disse...

A Arab-European League decidiu publicar cartoons para provocar os "tabus da sociedade ocidental".

Constança um deles vai direitinho aos posts sobre a tolerancia moral sobre o casamento no ocidente:
http://www.arabeuropean.org/newsdetail.php?ID=99&PHPSESSID=18a046118725466e51606b918b87d009

Quem quer ver o resto, não são grande coisa, mas servem de observação antropologica, ou psicologica dado que são producto da cabeça de meia duzia de individuos:

http://www.arabeuropean.org/archief.php?PHPSESSID=18a046118725466e51606b918b87d009

zazie disse...

ahahahah mas essa caricatura é uam maravilha

Há muito que os tontos politicamente correctos estavam a precisar de levar com uma destas

ehehe boa terapia. Do modo como isto vai ainda acabam a dar-nos lições de civilidade e costumes ":O)))

Anónimo disse...

aquela do hitler com a anne frank fez-me rir(que é coisa que habitualmente só faço aos fins de semana)

José Barros disse...

Excelente texto. Mais uma vez.