quinta-feira, fevereiro 09, 2006

AINDA OS JORNALISTAS

Desculpe João Morgado Fernandes mas o seu texto apenas confirma algumas ideias que tinha.

1.Diz que não brinca com a fé. Que tem valores (“uma mania” sua que, presume-se, já foi comum entre nós). Diz também que não brinca com outras coisas. E transforma isto numa doutrina. A partir daí desenvolve: para si, há territórios proibidos. E garante que até eu os tenho. Dou de barato! Você tem territórios proibidos, eu tenho territórios proibidos, qualquer um de nós tem territórios proibidos. Só que daí não se segue que haja territórios proibidos. E que se definam matérias sagradas em que ninguém pode tocar.

2.Distingue entre fé e sistemas religiosos ou instituições. A Igreja Católica que, na sua opinião, exerce, no nosso mundo, “uma influência que ultrapassa, em muito, o plano religioso” está sujeita à crítica ou à “brincadeira”, se quiser. Aí não tem nada a opor. Estamos no terreno da política, como afirma. Mas o terreno é pequeno, não se estende aos cartoons que, na sua opinião, são uma pura "provocação" e um puro "achincalhamento". Resumindo: não há política no Islão. O Estado é a religião. A religião é o Estado. Mas a política, vá lá saber-se porquê, anichou-se no Vaticano. Devolvo-lhe a simpatia: não cartoonizo. Nem sequer comento.

3.Não defende qualquer tipo de censura. Apenas o bom-senso. Mas o bom senso, como deve saber, é também uma forma de censura. Um pouco mais sofisticada. Admito!

4.Desconfia do jornalismo justiceiro. Eu não desconfio. Pura e simplesmente não o recomendo. Quanto ao atestado de mau comportamento que não considera necessário para fazer jornalismo apenas lhe posso dizer que não viria mal ao mundo (pelo contrário) se os jornalistas, às vezes, fossem menos bem comportados.

5.Garante que o seu jornalismo não exclui qualquer outro. Interessante! Que diria, então, se uma notícia, que considerasse "digna", desse origem a esta onda de retaliações: bandeiras queimadas, embaixadas destruídas, cidadãos perseguidos, ameaças de bombas e por aí fora? Dissertaria também sobre os limites da liberdade de expressão? Apelaria ao bom senso de quem publica coisas que destabilizam?

6.Está convencido de que o jornalismo que faz é mais difícil e comporta mais riscos. Acredito que esteja. Mas o que está em causa não é a qualidade ou a dificuldade do jornalismo. Mesmo que os cartoons sejam, como afirma, uma pura provocação e um puro achincalhamento, colocam-se apenas duas questões: saber se se devia proibir a sua publicação e saber se o Governo (qualquer Governo) deve ser responsável pelo que se publica nos jornais. O resto é bonito, tem muito valor e revela grande responsabilidade – mas foge ao essencial.
ccs

18 comentários:

POLYPHEMUS disse...

Parece ser claro, mas ainda há muitos que não conseguem ver: que a história dos cartoons é apenas a história de uns tipos de um jornal que mandaram umas piadas que os comprometem apenas eles, goste-se ou não. E que é ridículo que o governo da Dinamarca ( e muito mais os outros) se sinta na obrigação de comentar o assunto em tom lamuriento-desculposo.
Claro também que o Islão não são só os malfeitores, há os outros que não têm voz, boa parte emigrada em Paris, ou mesmo em Copenhaga. Lembra qualquer coisa, não é? A malta também já andou emigrada há uns anitos e lembramo-nos porquê. Ou não, senhor jornalista de "bom senso"?

Anónimo disse...

Assim dá "gosto" ler.
Parabéns e obrigado pelo blogue (para mim de leitura diária).

Nota interessante de rodapé:links sugeridos em http://oinsurgente.blogspot.com/

http://egyptiansandmonkey.blogspot.com/2006/02/boycott-egypt.html

e

http://freedomforegyptians.blogspot.com/2006/02/cartoons-were-published-five-months.html

Rui Carmo

Anónimo disse...

Vou dar uma volta por outros blogs que este já tresanda com tanta minhoquice á volta duns desenhos saloios e sem piada nenhuma.

Falem do tempo para variar!

F. S. R.

Mª Lurdes Delgado disse...

Os dois post anteriores deram-me a esperança de metermos na gaveta e atirarmos a chave ao Douro, as bandeiras, as embaixadas, as multidões em fúria {viram hoje os xiitas em Kerbala? nem no joelhódromo de Fátima a coisa é tão sublime!}, o Diogo, os jornalistas, os cartoonistas. Estava redondamente enganada. Era só intervalo para publicidade, porque o filme ainda não acabou. Deve ter sido realizado pelo Manuel de Oliveira. Se estiverem com dificuldades de guião, sugiro um post sobre a manifestação de 20 pessoas {fonte: Telejornal das 20 h, da RTP} mais a entrega das respectivas 20 assinaturas a um conselheiro da embaixada, pois o sr. embaixador pirou-se, receando o que aí vinha. Estes nórdicos pensam como nós, os do Porto, que atravessando as pontes estamos em Marrocos {é este o petit nom de V.N.de Gaia}. Vejam lá o susto do diplomata.

Jose Sarney disse...

Sabe o que lhe digo CCS:
- COITADO do "velho" DN, entregue aquela corja, a começar pelo neo-soarista AJT! Seguirá o caminho do Diário de Lisboa, da Capital, do Diário Popular.....mas o "mano" Oliveirinha ganha muito na futebolada!

LJ disse...

"pôem-se apenas duas questões: saber se se devia proibir a sua publicação e saber se o Governo (qualquer Governo) deve ser responsável pelo que se publica nos jornais."
Nem mais cara Constança.
E acrescento que, hoje, como parte do grupo que se apresentou na Embaixada da Dinamarca, fui recebida pelo Ministro Conselheiro da mesma embaixada. A quem ouvi dizer claramente que o governo da Dinamarca não é responsável por, nem interfere com, aquilo que um jornal livre e independente publica. Curiosamente, posso ter estado pouco atenta mas, nos excertos de entrevista ao mesmo representante da embaixada, que foram transmitidos pelas televisões, essa questão não surgiu. Provavelmente não interessava.

Anónimo disse...

Qualquer dia o bom senso e a responsabilidade é que são proibidas, para que possamos ser todos uns grandes javardos sem tino.

Eu ainda não vi ninguém dizer que "devia ser proibido publicar os cartoons". O que vejo é arautos da liberdade de expressão, alguns deles bastante duvidosos (espreitem os blogues de extrema-direita), a perseguirem com sanha os que apenas mencionam a questão do bom senso, como se isso fosse um crime.

Ninguém precisa das vossas lições sobre o que é ou não é a liberdade - liberdade também é achar que muitos de vós são apenas um bluf, que se estão perfeitamente nas tintas se houver mais uma guerrita ou outra; e que não compreendem que haja quem se preocupe com isso. "Qual quê! São todos uns cobardes! Estão dispostos a ajoelhar!"

Ainda bem que existem cowboys para nos explicar as coisas.

Jorge

Saloio disse...

A esmagadora maioria dos jornalistas portugueses é esquerdalha, tal como a esmagadora maioria da classe dos professores.
Por isso, em vez de darem notícias imparciais, todos dão comentários, opiniões,análises, etc..

Tanto numa classe como na outra, tudo tem a ver com a ausência de responsabilidade moral e arrogância intelectualoide.

O DN (tal como outros, como o Público)sempre foi um couto do PS.

Anónimo disse...

“Hoje em dia já não há dúvidas: ao nivel do desenvolvimento humano, quer em termos espirituais, quer em termos biológicos, os muçulmanos estão em último lugar da tabela, já contando com os chimpanzés e a anos luz dos mongolóides do Dr. Down” - Quitéria Barbuda in “Arabóides”, Revista “Espírito”, nº 26, 2006.

QUAES CUNQUE FINDIT

www.riapa.pt.to

Comum dos Mortais disse...

CCS, Será o essencial da questão a racionalidade da publicação de um desenho ou de um texto? Será discutivel o critério editorial? Será que um director de um jornal não "censura" todos os dias textos e imagens com base nesse critério? Fará o bom senso parte do critério de cada director? Será que estas caricaturas tinham minimo interesse editorial? Não sei. Mas mais do que discutir se são ofensivos, se não são podia-se discutir o interesse da sua publicação. Era informação vital? Será isto jornalismo? Não será a primeira regra do jornalismo informar? E isto informa? Educa? Deseduca? Deforma?

Anónimo disse...

Alguém fará a caridade de me explicar o que é "bom senso"?
Ando a ouvir isto, profissionalmente, há 40 anos e confesso que continuo a não atinar com a falta de "bom senso" que , alguns parceiros, me apontam em ocasiões de "brega".
Será:
"bom senso" = opinião do boss?
"bom senso" = opinião "dominante" ou parecendo "dominante"?
"bom senso" = opinião da maioria?
"bom senso" = consonância com o "catecismo pessoal"?
"bom senso" = consonância com o establishment ?
Help!

EUROLIBERAL disse...

Condenar ataques a embaixadas de países que albergam blasfemos e que não usam contra eles o arsenal legislativo que possuem (só blasfémias anti-judaicas são normalmente punidas...), ataques em que não morrreu ninguém, e NADA DIZER sobre a agressão brutal, em larga escala e totalmente à revelia do direito internacional que está a acontecer na Palestina e Iraque contra o mundo árabo-muçulmano é DESONESTIDADE INTELECTUAL, É REACCIONARISMO BUSHISTA, É RACISMO SIONISTA...

Os muçulmanos reagem assim porque estes cartoons são um símbolo da demonização crescente no Ocidente contra o agredido e ocupado Islão. Essa demonização é parte integrante da guerra psicológica, funcionando como uma barragem de desinformação e ódio que prepara novos massacres (no Iraque só desde 2003 são já 150.000 os massacrados e vem este JMS protestar contra incêndios de duas embaixadas em que não morreu ninguém ?) e rapinas coloniais.

É por isso que os muçulmanos reagem assim. Não podemos ver só a árvore e não ver a floresta. Não é só o pasquim blasfemo que está em causa. É a guerra de agressão, de que esses cartoonistas bushistas e nazi-sionistas são meros peões, contra um Islão demonizado.

Essa guerra dos bushistas ladrões de petróleo e dos nazi-sionistas ladrões de terras será ganha pelo Islão e os novos terroristas cruzados serão esmagados ! Allah u Akbar !

Luís Marvão disse...

O jornalista João Morgado Ferreira tem interditos (os interditos do politicamente correcto) e faz uso de dois pesos duas medidas : a crítica ou sátira ao Islão seria ilegítima, ,não apenas porque “xenófoba”, mas acima de tudo por estarmos no domínio da religioso; Já a Igreja Católica poderia ser legitimamente criticada ou satirizada porque pertence à esfera do político; como se o islamismo não fosse por excelência um fenómeno político.
João Morgado ignora toda uma tradição de crítica ao religioso intrínseca à civilização ocidental. Se aplicarmos os preceitos deste jornalista, regredimos duzentos anos.
O pior é que João Morgado Ferreira não é caso único.

piscoiso disse...

Ó anônimo
A sua dúvida sobre o bom-senso é algo que me persegue desde que fui a uma retrete e li na parede
HAJA BOM SENSO

Éme disse...

Joelhódromo de Fátima, ahahahahahahahahahaahahahah

Anónimo disse...

Há um mal entendido com o cartoon do maomé com o turbante bomba. Foi entendido como uma ameaça e o com o significado de Morte ao Islao. (Maome, inscriçao do Corao, bomba que o destroi)

Para mim é de bom senso nao o andar para a ir a repetir como se isso nao tivesse importancia

Anónimo disse...

L’affaire des caricatures de Mahomet pourrait se résumer à cette injonction des musulmans aux Occidentaux : «Soyez tolérants ! Tolérez notre intolérance !».
electra

Anónimo disse...

Pronto, já entendi: a única coisa actualmente SAGRADA neste Mundo é mesmo... a liberdade de expressão!

Não é??!!! Oh, caraças, sou mesmo burro...