sábado, janeiro 07, 2006

Uma vida saudável (I)

Antes das férias, num rasgo gloriosamente absurdo, decidi, pela primeira vez, que ia deixar de fumar. Até aí, nunca tal me passara pela cabeça. Sempre que as pessoas me perguntavam se eu não tencionava largar esse vício desagradável, respondia convictamente que não: já não era só o prazer que o tabaco me dava; era também uma questão de princípio. Ninguém me obrigava a ter uma vida saudável, com hábitos alimentares restritos, ginástica pela manhã e cafés com conta, peso e medida. A vida saudável não me entusiasmava, minimamente, apesar dos adeptos que me rodeavam: pessoas a quem a comida sabia de outra maneira, que acordavam a sentir-se bem e que exibiam outro fôlego pela vida.
A TVI, entretanto, seguia os novos moldes em vigor. Quem quisesse fumar, ia para a rua ou para uma salinha infecta, com umas cadeiras de metal e uns cinzeiros a transbordar de vício, onde uma miserável seita de excluídos se reunia, clandestinamente, a todas as horas do dia. Num pequeno grito de revolta, cheguei a montar uma delegação da secção de política, na rua, para onde levei o telemóvel, meia dúzia de caixotes e três ou quatro cadeiras que descobri num canto de um armazém. Era Verão e o tempo permitia este tipo de rebeliões. Mas não era fácil manter uma delegação, pouco articulada, que desaparecia, misteriosamente, durante a noite, e que tinha que ser remontada, todas as manhãs, com esforço e dedicação. Ao fim de algum tempo, e já com o Inverno na mente, desisti.
Não sei se por falta da delegação, se por ausência do mais elementar bom senso, resolvi anunciar que ia deixar de fumar durante o mês de Agosto. Como não queria engordar, comecei antecipadamente a fazer dieta. Inscrevi-me num ginásio – onde nunca, aliás, pus os pés. Mas andei: andei quilómetros, à beira-mar, com os músculos doridos e uma disciplina implacável, disposta a ter, finalmente, uma vida saudável. A vida saudável, no entanto, ia dando cabo de mim. Cheguei a meio das férias, de rastos, com os nervos à flor da pele, em guerra com o agregado familiar que, por sua vez, suspirava apenas pelo fim da minha época balnear. E ainda não tinha deixado de fumar. Estava apenas nos chamados exercícios de aquecimento. Em Setembro, fiquei a saber que me tinha inscrito, no ginásio, por um ano, e que me tinha comprometido a pagar escrupulosamente as respectivas mensalidades. É o que dá uma pessoa inscreve-se num ginásio!
À minha volta, entretanto, tinham começado a circular uns conselhos amigos: talvez fosse melhor eu adiar este louvável propósito para melhores dias, não era boa ideia começar a trabalhar sob pressão, tendo em conta, ainda por cima, que as eleições presidenciais estavam à vista e que o ritmo da política ia, com certeza, aumentar. Percebi vagamente que ninguém estava com disposição para me aturar. Eu própria não estava com disposição para me aturar – o que, não sendo raro, não deixa de ser preocupante. Ao fim de dois ou três minutos de reflexão, desisti de ter uma vida saudável para poder recomeçar a minha vida normal.
(continua)
ccs

13 comentários:

Anónimo disse...

Esperemos que en la TVI de Prisa no "obsequien" al los portugueses con un episodio como el de Canal Plus España (de Prisa), donde "cocinaron un Jesus Cristo" en un horno, con intervención destacada del cantor Javier Krahe.....

António P. Castro disse...

Aguardo ansiosamente o resto da história.
Entretanto, acho que o melhor mesmo é deixares de fumar. De um dia para o outro.
Eu deixei, ao fim de 30 anos (depois do hospital, é claro)...
Valeu a pena.
De outro modo, já não estaria aqui, acredita.

RS disse...

Cara CCS,

Leve a sua vida da melhor forma possível, isto é, do modo como se sentir melhor, fumando ou não fumando. O resto é pura treta. Deixa-se de fumar num dia, no outro morre-se de um AVC. Recomeça-se a fumar de manhã, um maníaco atropela-nos numa passadeira... Bull.
E revolte-se.
A submissão é o pior dos destinos.

Um abraço,
RS

zazie disse...

pois eu deixei de fumar há muito e o método foi mais básico. Nunca levei isso a sério. Passei para aquela coisa horrível de extra-leights e fui perdendo o gosto, lentamente, sem pressas, sem ansiedades. Afinal se para arranjarmos um vício precisamos de gosto para o deixar não pode haver sacrifício. Quanto muito desdem. Sem grandes esperanças nem grandes triunfalismos.
Vai-se abandonando que é assim que tudo se esquece.
Chamemos-lhe desintoxicação pelo cinismo ";O)

ccs disse...

Caro antóniop.castro

dá-me ideia que o seu comentário "estragou" o resto da história

ccs disse...

Pois é, zazie, mas eu agora não quero deixar de fumar. mas se quisesse, fazia um sacrifício na mesma. Obrigada pelos seus comentários

zazie disse...

a Constança é que é uma simpatia. Verdade, nunca imaginei. Mas cuide-se que a blogosfera é muito traiçoeira, há que manter uma certa distância para evitar chatices. Digo-lhe eu que já cá ando desde o tempo do Pastilhas...

Anónimo disse...

e deixou de fumar coca?

cocaleiro disse...

Gosta do Evo Morales....?

Anónimo disse...

Deixar de fumar é facil.Eu já deixei centenas de vezes!!!

António P. Castro disse...

Cara CCS, não vejo onde possa ter "estragado" seja o que for.
Continuo a aguardar o fim da história (lol).
Bjs.

João Villalobos disse...

Esses contratos com os ginásios são escandalosos! Uma pessoa desiste (que é o que acontece a maior parte das vezes) e continua a ter de pagar a nmensalidade, dizem eles...Bah!
Não falo por experiência própria (porque jamais me inscreveria num lugar onde pagasse para suar) mas uma amigaminha está agora numa batalha legal com o Holmes Place recusa-se a pagar o serviço que não utiliza. Eles, indiferentes, continuam a enviar facturas...

AM disse...

Cara Constança

Tenho 50 anos, fumei desde os 14 ou 15, dois ou mais maços por dia.
Há dois anos tive (a minha mulher teve:-)) a minha primeira(e única(?)) filha.
Devo mais à minha filha do que a mim e, até por egoísmo, não me sentia capaz de um dia ouvir a minha filha a pedir-me para deixar de fumar.
Sei apenas que queria deixar de fumar (todos o fumadores querem, não adianta negar) mas não sabia o que fazer.
Um dia, num jantar, conheci o Arq. Pulido Valente, bruto e mal criado, mas adorável...
Graças a ele deixei de fumar.
Se quizer digo-lhe como, se não pergunte-lhe a ele :-)

Mas duas coisa tenho que lhe dizer:

Afinal não custa nada deixar de fumar, e

É tão bom já não fumar :-)

Boa sorte para si Constança
Acredite que vale a pena

António Moreira