sábado, janeiro 14, 2006

Três questões

Um leitor, estudante de Jornalismo, na Universidade Nova, enviou-me três questões a que tentarei responder.

1. Quais foram as suas impressões iniciais em relação a este meio (a sua organização ou falta dela, o seu interesse, o seu potencial...).

2. O que procura com o Espectro? Que apelo a levou a criar um blogue? Que tipo de realização procura?

3. Uma semana depois, tem outro entendimento sobre esse apelo? Vê-se a actualizar o Espectro daqui a um ano?

1.As minhas impressões iniciais confirmaram o preconceito. Comecei por desconfiar do meio. Quem está habituada a escrever por encomenda, com regras estabelecidas e espaços determinados, tem alguma dificuldade em compreender este mundo gratuito, sem prazos, nem restrições. O comentário à flor da pele, o apontamento íntimo e o invariável momento de poesia levantaram-me inevitáveis reservas. Como se as pessoas registassem aqui, nos seus blogues, os pensamentos que tinham, no intervalo de qualquer coisa, quando iam ao frigorífico buscar um iogurte ou um sumo de laranja. Mais tarde, quando voltei, com um certo tempo e vagar, descobri finalmente as “potencialidades” do meio: a força do debate, a diferença da escrita, a descoberta de pessoas de quem nunca tinha ouvido falar e que tenho pena que não escrevam nos jornais.

2. O “apelo” é mais difícil de explicar. Escrevi sempre por obrigação, em cima dos prazos, sem qualquer tipo de satisfação. Não gosto de escrever. Sacrifico as ideias à forma e espremo as palavras até à exaustão. No fim, em desespero de causa e sem tempo para mais rectificações, envio o texto, à pressa, em cima da hora, depois do telefonema de um editor. O que é que uma pessoa, assim, faz aqui, com o Espectro às costas, sem qualquer remuneração financeira? É um mistério que eu espero estar em vias de solucionar. Mas espero sinceramente não vir a descobrir que senti, de repente, uma insólita vontade de participar. Neste momento, não me convém mexer na minha personalidade.

3. Se não fosse por impossibilidades técnicas, via-me a “actualizar” o O Espectro daqui a uma semana. Daqui a um ano, não sei. Nem sei se ainda haverá O Espectro para actualizar!

Caro leitor, duvido que estas respostas tenham, para si, qualquer tipo de utilidade. Mas, por enquanto, são as únicas que lhe posso dar. Resta saber se alguma vez conseguirei explicar melhor o que me levou a criar um blogue. Ainda hoje, estou para saber como é que fui parar aos jornais!
(actualizado)
ccs

8 comentários:

Anónimo disse...

Não sei porquê quando li este texto lembrei-me do Agostinho da Silva...
Por outro lado, a interactividade permite "ver" o que os outros "vêem" em nós, e essa é uma "remuneração" muito boa.Ao contrario do que se quer fazer crer, e como já deve ter constatado, existem neste País pessoas, ideias, perspectivas muito interessantes.
O que faz falta é expressão, soltura porque (acho eu) ainda estamos numa sociedade muito pouco permissiva, fechada, claustrofóbia, com muitos "senhoritos". Até na blogosfera.
Flane por aí.

ccs disse...

V.é um optimista, se acha que o que os outros "vêm" em nós é "uma remuneração muito boa". Nem eu me consigo ver assim. Quanto mais os outros.

Eu não disse que não tinha aqui qualquer tipo de remuneração. Mas não tenho obviamente a que recebo dos jornais. Tenho outras...embora ainda não saiba bem quais. Não sei mto bem pq criei um blogue, como tb nunca soube o que me fez ir parar aos jornais.

ccs disse...

Tinha razão. No texto estava "qualquer tipo". Já emendei

Anónimo disse...

Vim para a ver e para fazer a mnha publicidade.
Pode fazer o fazer de me linkar ?
Obrigado
jornaleirosdecoimbra.blogspot.com

Anónimo disse...

Talvez não me tenha explicado bem.
O que eu quis dizer é que escrever, p.e., o
artigo "Os Velhos" na Sábado, e no Espectro, tem resultados obviamente diferentes.Porque no espectro recebe o feedback sobre o que escreveu.
Já vi comentarios no Espectro a elogiá-la, outros nem tanto, mas é (quanto a mim)essa a recompensa.Agora (e aqui dou-lhe razão)se é boa ou má,isso depende de si.Quanto a mim é boa.MAs talvez eu seja um optimista.

Tiago Mendes disse...

Acho sinceramente difícil que o leitor não tenha ficado satisfeito com a resposta. Não se pode pedir mais que honestidade e desprendimento naquilo que se diz e se partilha. Parece-me que a postura de CCS na blogosfera é absolutamente ímpar... e deliciosa. Sem andar à procura de nada, sem arrogância ou falsa modéstia, aberta ao debate, sem se "achar acima dos outros". E como um toque "intimista" que humaniza isto tudo (não era preciso, mas é agradável, temos que admitir). O post sobre a passagem de ano é o exemplo maior disso. Ou esta tirada: «Neste momento, não me convém mexer na minha personalidade.»

Brilhante.

FM disse...

Não é a única a não saber precisamente porque criou um blog.
Eu, que criei o meu há 10 dias,encontro diariamente novas razões.A última por ex.,foi descobrir que, afinal por aqui, conseguem-se pôr à conversa, pessoas que dizem estar de relações cortadas há muito.Nenhuma tem conhecimento da outra e eu sei de ambas.Quem sabe,um dia me ficarão a dever alguma coisa!!!
Espero que sim, embora não pretenda cobrar.
Gosto de a ler, como tal peço-lhe o favor de continuar por aqui.
Cumprimentos e até breve.
Carpamus Dulcia !!!

Fraga disse...

Quem diz não gostar de escrever tem que ter uma capacidade intectual previligiada.

Partilhe-a sempre.

Vou deixar-lhe uma pergunta em outro Espectro.