domingo, janeiro 08, 2006

Realizações

De vez em quando, lembro-me de uma coisa que me disseram, num desses jantares em que se conhecem amigos de amigos. Eu estava sossegadinha, num canto do sofá, sem estômago para grandes conversas, quando percebi que alguém, sentado ao meu lado, estava a falar comigo sobre as suas desgraças profissionais. A dada altura disse-me, como se fosse a coisa mais natural: “Sabe, o problema é que eu não tenho carisma para trabalhar”. Na altura, balbuciei qualquer coisa, num tom ameno e compreensivo, sem perceber bem onde é que entrava o “carisma”. Mas, de facto, o trabalho não tem nada de natural. É preciso um certo “carisma” para aturar as vicissitudes de uma carreira e as exigências da profissão. Ela não o tinha. Eu acho que também não.
Sempre achei a “realização profissional” uma perversão das sociedades modernas. As pessoas não se “realizam” (uma expressão que devia, aliás, ser proibida) e muito menos se “realizam” profissionalmente. As pessoas trabalham. Ponto. Desesperam, esforçam-se, aguentam e, muitas vezes, enlouquecem para poder ter uma vida. Não para se “realizar” ou para responder a “um desafio” qualquer irresistível – para usar algumas palavras em voga. Ainda, ontem, quando me perguntaram se eu era feliz e se tinha novos "projectos" em vista, apeteceu-me responder com a Bíblia. Mas não vinha muito a propósito. De qualquer forma, aqui fica:"Com o suor de teu rosto/comerás teu pão/até que retornes ao solo/pois dele foste tirado./Pois tu és pó/e ao pó tornarás.” Gn3,18.
ccs

12 comentários:

Anónimo disse...

Também não nasci para trabalhar, e desconfio sempre daqueles que se proclamam grandes trabalhadores. Agostinho da Silva dizia que o Homem não tinha nascido para trabalhar mas sim para criar.


o-preguiçoso-anónimo

Sérgio Aires disse...

São uns gajos e umas gajas lixados, esses da "realização profissional"... são todos membros do clube da "auto-estima" e outras baboseiras do género.

pedro oliveira disse...

Em vez d'"a terra a quem a trabalha"... "o trabalho aterra [atemoriza]".

António P. Castro disse...

Calcule a Constança que há quem ache que o trabalho dá saúde.
Ora, ora, se é assim, que trabalhem os doentes!

migas (miguel araújo) disse...

Mas eu acho que há quem se realize no trabalho.
Um artista (seja ele de que área for) normalmente realiza-se na sua profissão, ao criar algo.
E haverá, eventualmente, outras profissões...
Carisma pode ser entendido como aptidão para.
A questão é que a maioria de nós, por mais gosto que se tenha no que se faz, trabalha por obrigação.

André Rodrigues disse...

Constança

A realização profissional é um meio para atingirmos uma parte da nossa realização pessoal...

Tiago Mendes disse...

Perfeitamente de acordo. Lembra-me isto (então num país com tão poucos invejosos):

«O dinheiro que temos é o instrumento da liberdade; aquele de que andamos atrás é o da servidão.» [Rousseau]

«É óptimo não ter qualquer profissão, pois um homem livre não deve viver para servir outro.» [Aristóteles]

Já agora, a propósito dum post seu anterior:

«Deixar de fumar é a coisa mais fácil do mundo. Sei muito bem do que se trata, já o fiz cinquenta vezes.» [Mark Twain]

zazie disse...

creio que pior que o chavão da realização e do desafio é o do sucesso. E é um chavão mais moderno. Dantes ainda se ficavam por essa realizaçãozinha que tem tanta piada. Tomada à letra significava que acabava tudo aí-depois só faltava a reforma...

Mas a luta e o desafio também têm a sua piada.
É por isso que sempre que olho para os pedintes sem-abrigo, ali sentados na berma do passeio me lembro que não fazem nada de muito diferente. Ficaram já ali e os outros que se dêem ao trabalho dos grandes desafios e das grandes realizações para chegarem ao mesmo. Mudará o conforto mas não mudam assim tanto as pseudo-ambições que se escondem por trás das palavras

Dunyazade disse...

Deixe-me adivinhar, é Capricórnio?

BONIFÁCIO disse...

Na mesa de café ao lado, alguém dizia: "Ora, só trabalha quem não sabe fazer mais nada"

E num daqueles filmes portugueses, passados "ad nauseam": Ora adeus, trabalhar é bom para o preto"

A clássica expressão de que: "quem inventou o trabalho não tinha nada para fazer" - tinha de vir a talho de foice. Obrigatória.

E o que é isso de felicidade ?

Nalguns momentos esquecidos, não dei, talvez, pela infelicidade.

Aturdido.
Certamente...

Porém, basta despertar - e ela lá está.

"Life sucks. Life is hard, and then you die"

Ao "pulveris eris et pulveris reverteris", prefiro o "vanitas vanitatem": VAiDADE DAS VAIDADES, TUDO E VAIDADE E VENTO QUE PASSA

Uma das primeiras coisas que "obriguei" o meu filho a copiar no no pc, foi o Eclesiastes.


Li-o, aos 35. Ele aos 11

Já não vai mal aviado !

António P. Castro disse...

Ó Bonifácio, se não sabes Latim, por que motivo o usas?
As frases correctas são: "Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris" e "Vanitas vanitatum omnia vanitas".
Nada a ver com as parvoíces que escreveste e muito menos com o teu Eclesiastes.
Quem se enfeita com penas de pavão...

Alexandre disse...

Arbeit macht frei, já diziam os outros...