quarta-feira, janeiro 25, 2006

O Estado


O liberalismo que por aí circula parte de um pressuposto interessante: a “sociedade civil” quer ser reformada. Dêem-lhe a palavra, esqueçam o Governo, os burocratas da ordem, e ela corre com o Estado, num ápice, ciente das suas capacidades. Os abusos do Estado, sofridos em silêncio, com a submissão dos fracos, estão na origem dos seus principais problemas. Tirem-lhe o Estado, ou melhor, deixem que ela se liberte do Estado, e ela florescerá com o vigor de todos os libertados. A sua notória fraqueza, a sua debilidade cívica e a sua abstinência forçada são fruto do peso do Estado que ela suporta com indisfarçável repulsa. O pressuposto estaria garantido, quanto mais não seja pelo seu carácter épico, não fosse o inconveniente desta “sociedade civil”, ambiciosa e autónoma, de facto, não existir. Em Portugal, a “sociedade civil” é um produto do Estado que a emprega e a subsidia e lhe garante o essencial. O país, na sua generalidade, “sociedade civil” incluída, remedeia-se à custa do Estado. Ao contrário do que os liberais apregoam, o Estado, entre nós, não está na origem dos problemas: é chamado à resolução dos mesmos, com natural espalhafato. Para assegurar o emprego à custa da competitividade. Para evitar falências. Para garantir os direitos consagrados na Constituição. Para distribuir subsídios que promovam a cultura, investimentos que beneficiem os empresários e iniciativas da “sociedade civil” que não existe, nem se manifesta se não à custa do Estado. O Estado, em Portugal, tem as costas demasiado largas.
(Actualizado)
ccs

15 comentários:

Cavalo Marinho disse...

Certíssimo.

paulo pisco disse...

Não podia ser mais verdade. Infelizmente. Mass este problema não é novo. Em Portugal foi quase sempre assim. O que não invalida que este Estado protege muito mais as elites, as "familias" e os poderosos - nas mais diversas escalas - do que os abrangidos pelo rendimento minímo. E os que se sentem com mérito e não o vêm reconhecido percebem que esse Estado tem que ser diminuido na sua dimensão e fortalecido na sua essência, para que o "espirito de capelinha" deixe de existir.
Esses desejam verdadeiramente um Estado menor que permita uma sociedade mais permiável ao mérito.

rui a. disse...

Obrigado pela referência.

rui a. disse...

Só uma coisa a acrescentar: o liberalismo não pode nunca pretender que se «reforme» a sociedade. A epistemologia liberal, sobre a qual assenta toda a sua ideia de sociedade, não~concebe a ideia da planificação social. Por isso, o liberalismo pretende que o Estado não condicione a sociedade para que ela se ordene naturalmente, isto é, pela livre acção dos indivíduos no mercado, que é a Grande Sociedade em que vivemos. O resto são formas diversas de intervencionismo, socialismo e estatismo. O ponto exacto em que a direita indígena sempre esteve e continuará a estar: pendurada no Estado.

Anónimo disse...

Sobre a direita e as presidenciais, ler isto.

Manuel Campos disse...

Toda a generalização tende a ocultar as particularidades que o precedem. Não me revejo como 'remediado à custa do Estado'. Em parte porque exerço a minha actividade profissional numa empresa privada; por outro lado, o deve o e haver entre mim e o Estado pende claramente para este. Dito isto, não significa que desacorde com o texto. Porém admito como hipótese a existência de um liberalismo presuntivo, conquanto corroído até às entranhas pela constante 'mendicidade' ao Estado que, numa visão liberal contradiz o próprio princípio desse liberalismo. A ideia do Estado como resolutor de conflitos ou como corpo estranho à sociedade civil não é inteiramente verdadeira. Por vezes o próprio Estado gera tensões na sua prática (vidé polémica em torno da Ota/TGV) cuja resolução só a ele cabe. É um circuito fechado em constante curto-circuito. A dita 'sociedade civil' (seja lá o que isso for) joga na percepção dessa contradição para se fortalecer, mas ela própria tende à debilitação no momento da resolução das 'crises'. Por outras palavras, ao Estado acaba por ser relativamente indiferente as movimentaçãoes dessa 'sociedade civil', porquanto o seu efectivo poder de traçar linhas de orientação e efectivação das mesmas é limitado. Menos clara é a relação dos empresários com o Estado. Porque, aqui, a estratégia de aquisiçaõ de poder joga com armas que a 'sociedade civil' não detém, nomeadamente a capacidade de pressão ao investimento. É bem curiosa a relação de forças estabelecida, porque, se por um lado os empresários clamam subsídios que antecedam o investimento, não é menos verdade que o Estado tende a 'mendigá-lo', suspirando de alívio quando o obtém. Ou seja: quando se apregoa como solução o menor peso do Estado, não estaremos a mistificar a realidade e justamente a chegar à conclusão de CCS?
A questão da atribuição de subsídios à cultura ou o garante dos direitos consagrados na Constituição parece-me lateral neste texto. Porque ao liberalismo, como conceito, todo o interesse advém de equilíbrios que por ele sejam ditados. Pouco importa que os portugueses leiam pouco, por exemplo. O pressuposto é editar, com ou sem qualidade, desde que o retorno, em forma de moeda corrente, esteja garantido. De idêntico modo, o liberalismo (con)vive bem com uma Constituição que não estabeleça limites à actividade económica (ou outra), ou que somente os imponha porque as regras internacionais são letra de lei, isto é, encontra-se, formal e institucionalemente, legitimado: basta-lhe, pois.
Em resumo: bom texto, nem que seja para abalar algumas cabeças bem pensantes da 'nossa' direita. Sobretudo, desta.

RAF disse...

Cara CCS,
Agradeço a referência, e ter trazido para este debate a sua contribuição.
Junto o link para um curto texto que escrevi no Blasfémias - quando por lá andava - e que republiquei recentemente no Blue Lounge - onde alguns dos tópicos que refere são avaliados, na linha da antiga discussão «Democracia e Liberalismo», em que o Estado acaba por ter um papel central:

http://blueloungecafe.blogspot.com/2006/01/democracia-e-liberalismo-remake.html

MC,
Rodrigo Adão da Fonseca

AA disse...

Cara CCS,

Compreendo a sua posição, mas não partilho do seu desconsolo na possibilidade de reformar a sociedade, nem relativamente aos princípios que atribui ao liberalismo. Não posso acrescentar mais ao que disse o Rui de Albuquerque— resumiu claramente uma posição liberal coerente: não se pretende atingir um "end-state" para a sociedade, mas permitir que esta se desenvolva livre de influências nefastas como as que todos nós observamos e criticamos (a dependência do Estado). E acreditamos que é possível uma reforma responsável das leis e instituições que proporcione essa mudança.

Cumprimentos,

AA

andarilho disse...

Acho que você tem e não tem razão, Constança, como aqui procuro demonstrar. Não seja tão negativa!

Josué disse...

pelo menos uma referência ao autor da foto :)

http://www.pedroguimaraes.net/

à vontade não é à vontadinha :)

Z disse...

Com tanto cuidado a referir leitura adicional, não fazia mal nenhum mencionar a origem da foto, pois não?

alberto eme disse...

tanto no vestir como no opinar, as modas têm como particularidade serem cíclicas.
por outro lado, estar na moda sabe a elixir da juventude.

pedro disse...

é engraçado esse liberalismo que fala. talvez seja o mesmo que lhe permite fazer download de uma fotografia da minha autoria, colocá-lo num servidor qq e nem sequer dar uma satisfação. Sinta-se à vontade, é para isso que cá estou, para vos servir.

dedadas disse...

Oh, a questão da foto já foi comentada até pelo autor...

De resto, este blog é cada vez mais de leitura obrigatória.

a片卡通版影片 disse...

威博娛樂城
大發必發網
大發網
天下運動
天下現金
夫妻情侶自拍影片
少女輪姦影片
廁所偷拍
正妹聊天室