terça-feira, janeiro 03, 2006

O Espectro

Na altura, os anos ainda não pesavam e nós ainda achávamos que o mundo nos devia uma pequena oportunidade. De vez em quando, jantávamos, e sempre que jantávamos, acabávamos, inevitavelmente, enfiados num novo jornal ou numa nova revista, com título, linha editorial e colaboradores já escolhidos. Lembro-me do Paulo Portas me telefonar, um dia, muito sério, a perguntar se eu também ia para “A Borboleta”, uma revista que tinha surgido, em minha casa, uns dias antes, com um grafismo de alto risco e textos de superior qualidade. “A Borboleta” era propriedade intelectual do Vasco Pulido Valente e inspirava-se no primeiro jornal constitucional que se chamava precisamente “A Borboleta Constitucional”. O título, no entanto, levantava algumas reservas. Talvez influenciada pelas “cruzadas” do “O Independente”, eu preferia o “O Espectro”, um jornal clandestino, que Rodrigues Sampaio fazia, num barco, ao largo do Tejo, e que chegava a Lisboa, pela calada da noite, pronto a disparar contra a rainha e contra o partido cartista. O país, na minha opinião, precisava de um novo “Espectro”: não do constitucionalismo da “A Borboleta”.
Infelizmente, nenhum deles teve o acolhimento que merecia no nosso mundo empresarial. Ainda houve uns almoços, com fins lucrativos, que esbarraram sempre na falta de fotografias e no carácter inóspito da maior parte dos artigos. Aos poucos, fomos desistindo. Quase sem darmos por isso, o "O Espectro" e a "A Borboleta" sairam das nossas vidas. Ficaram os nomes. Mas apenas os nomes. Hoje em dia, não me sinto particularmente tentada a competir com Rodrigues Sampaio. A idade e uma dose mínima de bom senso acabaram com estes delírios que enfeitam o meu passado. Se julgam que me estou a ver, num barco, pronta a reeditar o setembrismo e a verve dos radicais, estão naturalmente enganados. Este Espectro é modesto nas ambições. Demasiado modesto...até!
ccs

2 comentários:

Isabel Magalhães disse...

Gosto de histórias dentro da História. Pressinto que estou no local certo. :)

pedro oliveira disse...

Sinto que estive a desperdiçar tempo na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa... o professor de "História da Imprensa Periódica Portuguesa" falou-nos, bastante de Rodrigues Sampaio, o "Sampaio da Revolução" [a propósito do jornal "Revolução de Setembro"] e do Espectro.
Não nos contou que Sampaio se fazia ao Tejo (estamos a falar dum período entre o primeiro e o segundo quartel do séc. XIX, com toda a utensilagem necessária para compor um jornal, tipos móveis, pinças, tintas, rotativas etc.) e era assim que fazia um jornal clandestino.
Continuarei a passar por aqui para ver se aprendo mais alguma coisa.
Bem-vinda à "blogosfera".