segunda-feira, janeiro 16, 2006

Necrologias



É curioso como as sondagens subiram, depois de Manuel Alegre ter iniciado um roteiro fúnebre pelo seu passado, repleto de estátuas e de cemitérios, de beijos e de homenagens. Aparentemente, os mortos rendem numa campanha. Quanto mais o candidato se chega a uma estátua ou invoca o exemplo de um ilustre finado, mais o candidato sobe nas intenções de voto, mais o candidato se distingue, nos barómetros diários, mais o candidato se afasta de alguns dos seus adversários. Ainda há pouco tempo, entre um beijo a Miguel Torga e o anúncio de que ia à lota de Matosinhos, onde tenciona homenagear Sousa Franco, apesar dos protestos da mulher, Manuel Alegre proclamava, naquela sua voz de trovador, que aquele era o primeiro dia de uma histórica segunda volta. Os próximos, os herdeiros, os familiares têm criticado asperamente esta apropriação eleitoral dos seus mortos. Mas as críticas adubam uma candidatura que avança destemida contra “o medo” e se imola como vítima do sistema. Pouco importa que Manuel Alegre esteja, há trinta anos, sentado e em sossego, na bancada do PS. Ele é o poeta da Pátria, o homem que não se atemoriza, o inconformista por vocação, o candidato que surgiu para vingar a cidadania e estragar a festa aos directórios dos partidos. Como ele próprio diz, vai onde quer e quando lhe apetecer, porque ninguém é dono do país e, ainda menos, da sua consciência. O homem livre libertou-se. E está aí, disposto a dar cabo de qualquer razoabilidade eleitoral, em nome de um patriotismo velho e republicano, de uma cidadania postiça, de uma fraternidade empoada e de uma arrogância moral que se justifica, apenas, com o sonho do seu passado. O homem sentiu-se traído. Mas essa é sua grande vitória. Sem Mário Soares e sem a simpatia do cavaquismo, este homem não existia.
ccs
Depois de ler este texto de Paulo Gorjão

18 comentários:

Ruvasa disse...

Viva, Constança!

Dizia eu ali atrás:

1. Sempre apreciei em si a frontalidade jornalística, mesmo - ou talvez mais por isso - quando de si discordo;
2. Estou extremamente curioso de verificar que diferenças haverá entre a CCS jornalista e a CCS simples cidadã, a expressar-se sem espartilhos.
Do que achar, darei notícia. Valeu?

ois, cá estou a dar notícia do que achei até agora. E o que achei até agora é simplesmente isto:

- Apre! ;-)

Cumprimentos

Ruben

Carlos Azevedo disse...

«E aí está, disposto a dar cabo de qualquer razoabilidade eleitoral»

Cara CCS,
Acha mesmo que ainda existe razoabilidade eleitoral? Acha que Mário Soares, por exemplo, tem sido um exemplo de "razoabilidade eleitoral"?
Cumprimentos,
Carlos Azevedo

migas (miguel araújo) disse...

Sou, por força de convicção política do "outro partido" que apoia Cavaco Silva.
Sou, por entender que o mesmo representa a melhor opção para o cargo presidencialista face á soutras soluções propostas.
Não tenho dúvidas (e pelos vistos não me vou enganar)!
O que também não tenho dúvidas é que, sem qualquer tipo de cosntrangimento político, entendo que a candidatura de Manuel Alegre, pelo seu simbolismo, pelo seu acto de cidadania, pelo seu peso político e histórico, masrcou claramente estas eleições.
Seja qual for o seu desfecho.
E apesar de pliticamente distante, não posso concordar consigo, quando retrata o seu inconformismo político, como velho (patriotismo e república), falso (cidadania postiça), arrogante e passado.
Pior é esta imagem do PS do poder que disfarça a sua 'alegria escondida e interior' pela vitória de Cavaco Silva, ao apoiar e forçar uma candidatura vazia de ideias, sem objectivos e soluções, divisionária e reconhecidamente fracassada

pedro oliveira disse...

"E está aí, disposto a dar cabo de qualquer razoabilidade eleitoral, em nome de um patriotismo velho e republicano, de uma cidadania postiça, de uma fraternidade empoada e de uma arrogância moral que se justifica, apenas, com o sonho do seu passado".

Na minha opinião o patriotismo de Alegre, pouco tem de republicano. é a sua (dele) costela monárquica que se expressa (ler "Alma").
Cidadania postiça, porquê?
Alegre afrontou o partido candidatando-se a secretário-geral, antes tinha afrontado o "menino bonito" [sem segundas leituras] de Guterres afrontado-o a propósito do "incinerare" no distrito de Coimbra.
Alegre tem desde logo uma superioridade moral pela palavra (dita e escrita) pelas punhaladas nas costas... por ter provado que é possível políticos sem aparelhos... que a cidadania faz sentido.

Anónimo disse...

MatoZinho? Com Z?... Mas esta senhora tem estudos?

Musicologo disse...

Estou longe de ser o único a achar que Manuel Alegre se está a candidatar a monarca e não a presidente da República... Todos estes laivos à lá PPM são no mínimo estranhos, mas e daí, todas as estratégias leais são legítimas desde que funcionem...

ccs disse...

Tem toda a razão. estudos tenho mas tenho um problema antigo com os z's. vou emendar. obrigada

AM disse...

Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

Ainda vamos ouvir muitos que votaram cavaco a lamentar não ter sido alegre o vencedor...

Se fizerem uma sondagem PÓS eleição, verificam que cavaco nem sequer à segunda volta ia...

M***a de povo....

AMNM

AV disse...

Antes de Cavaco e Constança, e não muito depois de Soares, já este homem existia.
Há é memórias e vistas curtas.

Ruvasa disse...

Sim, na verdade existia.

As memórias não são tão curtas assim. De tal modo que entendem (as memórias, claro!) que, em algumas situações, melhor fora que tivesse existido, sim, mas em outras paragens. De preferência nos antípodas.

Mas sejamos magnânimos. Não falemos nisso. Finjamos mesmo que não sabemos. Ou que as memórias se foram...

Sim, finjamos, porque, na realidade, não se foram...

Anónimo disse...

ccs é uma jornalista desconhecida e anda em busca de notoriedade. Conhece muito pouco da história de Portugal. Esqueceu-se, se alguma vez o soube, dos portugueses que sempre resistiram à ditadura salazarista e que ajudaram, inteligentemente, a libertar Portugal, o que permitiu a ccs de poder agora optar - mal - por criticar os que têm memória e a homenageiam. Há por aí tantas profissões onde a jornalista podia ser melhor profissional. Lamento a sua falta de bom senso. Seja séria!
português

BONIFÁCIO disse...

"Sem Mário Soares e sem a simpatia do cavaquismo, este homem não existia."

Isto que fique entre nós 2: ele não existe

Alguns arrancos ornados de ideias gerais (por pirraça a certo velho gaiteiro) e umas quantas gravatas janotas - não fazem uma personalidade, mas um estilo: O Quixote dos "desperados"

Só que a canalha, que digere e defeca, não vai em versos

Afinal, de que vale conhecer os 10 Cantos dos Lusíadas, se não houver com que mandar um cego cantá-los ?...

LA-C disse...

Cara CCS
Concordo apenas parcialmente com o conteúdo deste ‘post’.
O fenómeno Alegre existe graças às suas circunstâncias. Não tivesse Soares puxado o tapete, não tivesse Sócrates puxado o tapete, e não haveria Alegre para se levantar como candidato à margem do sistema, nem haveria ataques sistemáticos dos partidos de extrema-esquerda.
Foram as circunstâncias que fizeram de Alegre um candidato marginal. E graças a isso recolheu muitos apoios de pessoas que de outra forma não se manifestariam. A onda de blogues apartidários que o apoio, de que o meu blogue é um mero exemplo, comprova-o bem.
Não concordo quando diz que foi graças às homenagens aos mortos que Alegre subiu nas sondagens. Não acredito sequer que haja muitos portugueses que tenha dado disso conta. Penso que o momento de viragem se deu no debate Soares-Cavaco. Foi nesse momento que as pessoas viram um mal-educado, arrogante que se julga rei, a querer ser presidente. Os socialistas, e a malta de esquerda em geral viu nesse momento que Soares era o pior candidato possível. Viu alguém a dizer que quando foi presidente andava a contar segredinhos nas costas do primeiro-ministro. Viu alguém a classificar outro como “razoável economista”, viu alguém a chamar o outro candidato ignorante, a insinuar que não sabe história, etc. Viu, Mário soares que me perdoe, um velho mal-educado, capaz de fazer literalmente tudo para ganhar uns votos. Enfim, viu o pior de Soares.
Depois do choque, ultrapassada aquela reacção inicial com os soaristas, ridiculamente, a salientar o lado combativo de Soares. A poeira assentou. Sondagens que reflectem inquéritos feitos uma semana depois desse debate, começaram a mostrar a inexorável descida de Soares. Quais os beneficiados dessa descida? Numa primeira fase o Louçã e Alegre. Numa segunda fase, caso a esquerda comece a acreditar na derrota de Cavaco, será Alegre o único a beneficiar desta descida de voto de Soares e, potencialmente, de Cavaco.
Claro, todos sabemos que Soares é um animal político. É possível que, com o apoio do PS governamental em peso, se levante nestes últimos dias e consiga melhor votação do que Alegre. Mas terá de ser o melhor de Soares e não o seu pior, como até aqui tem sido.

Cavalo Marinho disse...

Constança:
Quem sou eu para lhe dar conselhos?
Não responda a provocações "blogueiras".
Algumas poderão ser encomendadas...
Gosto do seu blog.

Anónimo disse...

Tenho, de há muito, uma repulsa visceral à 'formalização' do discurso poítico, porque falsamente dialéctico. Em política 'formal' quanto vale Alegre vs Cavaco, Alegre vs Soares? Acrescento, antes de responder, que o meu voto não é dirigido a nenhum destes. Provavelmente a nenhum dos restantes. Não por ser desalinhado ou 'livre-pensador', mas porque, por vocação, céptico até à medula. Dito isto, cara CCS e ilustres bloggers, tudo o que se tem afirmado acerca desta candidatura, remete pouco para a política e mais para refregas passadas e 'ajustes de contas' mais ou menos dissimulados. À vacuidade do discurso de Cavaco, responde-lhe Soares (melhor dito, provoca-o) com não menos vacuidade, mas pleno de acrimónia e acintosidade. Verdade: lança uns farpejos ao seu camarada de partido, mas não o desdenha (o futuro encarregar-se-à de explicar esta contenção num incontido contumaz, como Soares). A soma destes dois: 'less than zero'. Alegre pode ter a sûmula de 'defeitos' apontados por CCS, e na minha muita modesta opinião, encenações entre mortos, vivos e estátuas, são tão legítimas quanto os discursos programados de Cavaco, ou as 'surpresas' pensadas de Soares. Alegre tem, contudo, uma vantagem não dispiciente: é um homem da cultura, da literatura, alguém cuja palavra vale bem mais do que o seu pronunciamento. Alegre sabe o que diz, não polemiza inutilmente. E fá-lo com a consciência das implicações dessas frases. Um beijo numa estátua? Um excesso, bem entendido, mas Alegre leu Torga, ter-se-à emocionado com Torga, concede-lhe 'louros' e publicita esta personagem com a indiscutível sageza de um 'primus inter pares'. O homem tem laivos de 'arrogância moral'? Tem-no. Mas como relembrou um blogger anterior, não existe um 'hoje', sem a compreensão de um passado tão respeitável quanto o de Alegre. Um passado amassado numa oposição a um regime, uma oposição singular porque extrapolando amplamente o seu conteúdo político. Alegre não é uma reserva moral deste Portugal triste, (quase) analfabeto e inóspito quanto a valores. Não é, tão pouco, um símbolo, mas carrega uma simbólica e esta, cara CCS, tem tudo menos de 'cidadania postiça': é um exagero seu. Alegre existiu e permanecerá para além de Soares e Cavaco, qualquer que seja o resultado de domingo. Mas, quando a Assembleia da República retomar os trabalhos pós-eleições, onde estará Alegre? Na linha de partida para a segunda volta? Não estará, seguramente, a 'ruminar' desgostos: é que nada disto é uma tragédia grega, e contudo, quão necessária é uma boa disputa dialéctica (passe a redundância dos termos)...

Anónimo disse...

Não deixa de ser curioso que Matilde Sousa Franco seja uma deputada do PS. Com a benção de Sócrates e, evidentemente, sem qualquer aproveito politico da morte de Sousa Franco.
A.Pereira

AV1 disse...

Alegre, goste-se ou não, representa mais calado, do que toda a presumida sapiência de CCS, reflexo pálido da de VPV.
E mai'nada.

andarilho disse...

Mal das nações que desprezam os poetas ou os ignoram, Constança. Estão seguramente condenadas ao fracasso. Mas os poetas têm sempre aquela dimensão de D. Quixotes que os põem acima dos mortais: falam de um tempo e de uma qualidade que é pouco terrena; talvez pouco humana. Pacheco Pereira tem nisso razão na sua crónica do Sábado. Alegre fala de um passado longínquo; é romântico como os nossos Garrett's mas o seu ciclo conforma-se mal com o nosso. É um certo olhar geracional: os velhos que você fala no Sábado.
Nada lhe tirará o segundo lugar. Pelo menos não será esmagado como o Zenha na lógica egocêntrica de Soares. Pelo menos por agora.