domingo, janeiro 29, 2006

Movimentos

Quando oiço falar do milhão de votos de Manuel Alegre, lembro-me, por associação, dos gloriosos 14 por cento que Basílio Horta conseguiu, em 91, quando se candidatou garbosamente à Presidência da República. Verdade seja dita que o bom do Basílio não se lembrou de se candidatar em nome da cidadania. Candidatou-se modestamente contra a opinião do partido e avançou destemido contra Mário Soares e os interesses estabelecidos. Em nome dos superiores interesses da Pátria e de uma direita (muito especial) que precisava de ser resgatada. A Pátria também, diga-se de passagem. Lembro-me de um jantar, em Coimbra, onde no meio do entusiasmo geral, Basílio se entregou às dores do passado, lamentando uma Pátria “amputada” a necessitar de regeneração. A campanha foi num crescendo, com um debate, pelo meio, que meteu num chinelo todos os debates que se fizeram agora. Aquilo, sim, foi um debate, uma espécie de suicídio em directo, que esmagou Mário Soares, apanhado de surpresa pelo seu velho amigo Basílio. Basílio, o mais centrista de todos os centristas, tinha-se, também ele, libertado dos cânones do partido e do seu moderado passado. Também ele decidira avançar, sozinho, para combater o sistema, o soarismo e o cavaquismo e o mais que houvesse para combater. Por junto, Basílio estava contra todo o país político. Na comissão directiva do CDS (esse tenebroso directório partidário) fizeram-se, um dia, as contas: Basílio não contava com um único voto. O velho CDS, de Freitas do Amaral a Adriano Moreira, tinha pouco (ou nada) a ver com este tipo de vanguardismos. Basílio, entretanto, apelava a todos os “espoliados” e aos descamisados das mais diversas origens. A partir de certa altura, também ele sentiu que estava no centro de um “movimento”. Havia gente com um odiozinho especial a Mário Soares. E havia os que não gostavam do cavaquismo. Os que estavam fora do sistema. Os que não se interessavam pela política. Contas feitas, o movimento saldou-se em 14 (ou 16, já não me recordo e para o caso é indiferente) por cento dos votos. E Basílio entrou em reflexão. O seu resultado, ao lado dos resultados que costumava ter o partido (uns miseráveis quatro por cento), era um exclusivo que convinha manter em circulação. Basílio, também ele, falava dos “seus” 14 por cento, com especial carinho, e da esperança que se depositara nele. Depois de alguma reflexão e esgotadas algumas possibilidades, o candidato decidiu oferecer generosamente ao CDS o “seu” resultado eleitoral. Ele que tinha sido escorraçado pelas estruturas do partido entregava-lhes, sem ressentimentos, os votos que tinha obtido. A coisa tinha água no bico. Mas de qualquer forma a direcção do CDS, num acesso de purismo, resolveu recusar esses votos: segundo a comissão directiva, estavam “contaminados” pela extrema-direita. A “Pátria amputada” não fazia parte do léxico democrata-cristão. Na altura, o imbróglio deu que falar. Depois, os votos de Basílio fugiram de Basílio e Basílio ficou sem os votos e sem o partido e sem o lugar de deputado pelo Porto. Uns tempos depois, voltou ao redil do sistema. E os “seus” votos mudaram de mãos. Segundo consta, estão agora com Manuel Alegre. Que também não percebe que os votos não são seus. Mas, mais tarde ou mais cedo, também ele vai acabar por perceber. Como Basílio Horta. E até Freitas do Amaral. Alguém se lembra da Fundação Século XXI? Era assim que se chamava, não era?
(actualizado)
ccs

7 comentários:

Carlos Alberto disse...

Talvez mais cedo, que tarde...
Aguardemos

migas (miguel araújo) disse...

Prezada CCS, permita-me a duplicação de comentários, mais a propósito neste post do que no outro. É igualmente interessante a forma como abordou o caso de Basílio Horta. Mas poderia igualmente lembrar Mª Lurdes Pintassilgo e Salgado Zenha.

Mas até onde irá o movimento de Manuel Alegre?!
Levará o mesmo rumo que Maria Pintassilgo e Salgado Zenha?!
Tornar-se-á numa nova ASDI?!
Num PND da esquerda?!
É que Manuel Alegre ainda não percebeu que muitos dos seus 20% dos votos são na realidade e na prática partidários. A contestação interna a Socrates - a animosidade para com Soares - a transferência de votos do BE para a sua candidatura. Só é apenas isto.
Teve o mérito de demonstrar a sua capacidade aglutinadora de uma elite cultural portuguesa, a capacidade de, em determinados momentos, a sociedade portuguesa gerar curiosidades políticas.
Mas tão só isto. Esgotou-se com o resultado das eleições.
Não me parece que haja espaço na nossa sociedade e nos nossos conceitos político/partidários espaços para novos SEDES e outros afins. A não ser que queira, claramente, continuar o confronto com o 'amigo' Mário Soares e competir com a sua fundação.
ou então, clramente, 'guerrilhas' maçónicas.
Cumprimentos renovados

Anónimo disse...

Tenho andado a martirizar-me com a razão dos votos em Manuel Alegre. Não consigo encontrar para mim, que é o que me interessa, porque razão um milhão e tal de portugueses votou Manuel Alegre. São todos aqueles que o leram? São todas aqueles que o virão em determinado momento entrar ou sair da Assembleia da República? São aqueles que o viram na televisão dar um abraço a Paulo Pedroso e logo a seguir referir que foi de facto um gesto irreflectido (mais ou menos isto)? Não sei, não consigo perceber até ter lido, aqui, o Migas. De facto a sociedade portuguesa tem a capacidade de em certos momentos gerar curiosidades politicas.É isso, tão somente isso, curiosidade. Senhores analistas, jornalistas, bloguistas, parem, foi curiosidade, estú.....

António Viriato disse...

Cara Constança,
Bom artigo, com uma história bem contada, mas excessivamente desprendida, com laivos de cinismo até, em relação à matéria em apreço. Basílio, na altura, resgatou o eleitorado da vergonha da demissão do PSD e do CDS, ante a prosápia e a astúcia de Soares. Fez bem e, sozinho, sem as ajudas partidárias, teve um resultado honroso. Depois tomou outros rumos,engordou demasiado e hoje é Presidente de uma Sinecura outorgada pelo Governo socialista. Mas cada atitude de Basílio terá o julgamento que merece dos seus concidadãos. Agora sucedeu algo de semelhante com o Alegre. As figuras podem não ser as adequadas, mas o sentimento de insatisfação da população e o descrédito da classe política criaram já o fertilizado terreno para o aparecimento de uma qualquer novidade política, sob a forma de movimento, partido ou de qualquer outra coisa que pode mesmo encarnar num inesperado vulto populista, sobretudo se a Economia, depois da Soberania, continuar a desvanecer-se... Veremos, depois de todos os choques: tecnológicos, fiscais, culturais,educacionais, etc., onde vai parar este Portugal de quase 900 anos de História.

Adriano Volframista disse...

Deixe-me apenas e neste caso, acrescentar, (à laia de Shaw), um pequeno pós fácio:

Diogo Freitas do Amaral, é hoje Ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo PS.
Basílio Horta é hoje presidente da API, Instituto Público, com a função (??!!!) de atrair o investimento estrangeiro (!!!??!!!),por nomeação de um governo socialista.
Será que Manuel Alegre de Melo Duarte o nosso próximo Ministro da Cultura, ou Presidente de um próximo instituto que venha promover a lusofonia, a pátria (e a mátria já agora) e a cooperação entre os povos irmãos de África a Timor, junto com os primos do Brasil?

Cumprimentos
Adriano Volframista

O Raio disse...

O regime portuguêrs caíu num beco com muito poucas saídas.
Os partidos, tal como o país, há muito perderam a sua independência e autonomia.
Actualmente é tudo (ou quase tudo) decidido nas instâncias comunitárias.
O Governo de Portugal já não manda e, os partidos, digam o que disserem na campanha eleitoral chegam lá acima e vão fazer o que Bruxelas manda, nada mais.
E qualquer individualidade que apareça num partido a colocar questões não aprovadas pela União Europeia tem a sua carreira política imediatamente terminada (exemplo: Manuel Monteiro).
Ora o povo português ainda não percebeu de que já somos uma colónia de Bruxelas e ainda pensa que temos autonomia. Como os partidos não a dão, o povo vira-se contra os partidos e candidatos como Manuel Alegre tornam-se extremamente apelativos.
O que eles não sabem é que Manuel Alegre, se tivesse sido eleito não ía fazer nada. E não era por falta de poderes do Presidente era por falta de poderes de Portugal.

Isabel Magalhães disse...

É sempre um prazer passar por cá e ler o que escreve para nos oferecer.