sexta-feira, janeiro 13, 2006

Há dias assim...

…que começam cedo, com o som do telefone e uma notícia escaldante sobre o destino próximo do Procurador. Para já, o dr. Souto Moura tinha encontro marcado com o dr. Sampaio, em Belém. Depois logo se veria – mas, como se podia imaginar, não se iria ver nada de muito bom. Nem tentei perceber porquê. As primeiras horas da manhã não são propriamente o meu forte. Limitai-me a marcar uma “equipa”, na esperança de que a ameaça implícita nesse inesperado encontro se diluísse, serenamente, com a abertura de mais um inquérito e os esclarecimentos da praxe. Sexta-feira também não é propriamente o meu forte. E a “crise da justiça”, firme no top das preocupações do regime, parece-me uma triste combinação de interesses obscuros e de entusiasmos volúveis. O país ora chora pela prescrição dos processos, ora clama, indignado, contra o “abuso” das escutas e a violação da privacidade. Não há meio termo: passa-se de um extremo ao outro, com igual empenho e determinação. Ainda há uns anos, o dr. António Costa florescia, no dialogante governo do eng. Guterres, como um herói da luta contra a corrupção. Agora, que as medidas deste herói deram frutos, deplora-se, com o mesmo entusiasmo, a “impunidade” do Ministério Público e os erros da sua actuação. Principalmente, se esta incidir sobre uma irrepreensível figura do Estado, com direito aos luxos da cidadania e aos favores da Comunicação Social. Aí tudo se torna mais fácil. E mais fácil de manipular. O dia de hoje mostrou, de forma exemplar, como é que a “crise da justiça” funciona em Portugal.
ccs

7 comentários:

zazie disse...

e se ela estiver controlada por um bloco central nem há crise...

Musicologo disse...

Quando é que começaremos a agir como uma verdadeira democracia sem cidadãos de primeira ou segunda em que a justiça trate a tod@s por igual, sem imunidades artificiais? Ou será mais uma utopia descabida minha?

Shrew disse...

a crise na Justiça tal como em todo lado tem a ver com as pessoas, a falta de brio profissional, com o deixa andar. O Min. da Justiça não e melhor nem pior que os restantes.

on disse...

Porque é que a notícia apareceu esta semana?
Não será para permitir ao PS discutir o nome do novo PGR com Sampaio e não com Cavaco?

migas (miguel araújo) disse...

Partidarizando, mesmo que não goste.
O Dr. António Costa foi herói enquanto não foram postos em causa figuras públicas e predominantes do aparelho e partido socialista. Enquanto a lei e a estrtura de investigação serviu para os outros e para o comum dos mortais, era uma mar de 'rosas'.
E se os visados tivessem ligações directas ao PSd ou ao CS?! Teríamos as mesmas reacções?! Saberá melhor que ue que não.
A justiça não é igual para todos.
Para os pequenos é justa e cabal... para os grandes é injusta e manipulável.
É triste, mas é o nosso fado.

Fraga disse...

Quais "restantes"?

Só uma pessoa que não conhece o meio judicial pode comparar o Ministro da Justiça co "os restantes".

A quem falta brio profissional?

A polémica instalada na Justiça foi e continuará a ser propositada.

Parabéns ao sapiente comentário.

Fraga disse...

De novo.

Será que se trata mesmo de "crise da Justiça"?

Ou será crise do Português?

Porque é que as descobertas científicas na medicina aproveitam apenas a menos de 10% da população portuguesa?

Porque é que o Governo abreviou o prazo de abertura de empresas?

Porque é que as televisões abrem os seus jornais (excepto a RTP) com a notícia do homem barricado?
Terá 55 anos como noticiou a RTP ou 59 como assegurou a TVI?

55, 59, o que importa é o que está no envelope n.º 9.

Haverá sempre o mesmo rigor?