quarta-feira, janeiro 25, 2006

A direita

A direita rejubila porque foi finalmente eleito um Presidente que não é de esquerda. Pela forma como o eleito é sempre definido por esta subtil negativa, presume-se que, embora não sendo de esquerda, também não possa ser colocado à direita – nem sequer pela própria direita. Aparentemente, o eleito nem é de esquerda, nem é de direita. Aliás, rezam as crónicas que a sua candidatura acabou com esta estafada dicotomia. Ele, próprio, não se reconhecia nela. Preferia estar, do lado do “desenvolvimento”, contra (ou melhor, tendo em conta o espírito da sua campanha, em desacordo) com aqueles que se conformavam com o “desemprego”. Seja como for, não se percebe bem por que motivo rejubila a direita. Só a ponta esquerda da esquerda considerava que a Presidência ainda era um feudo da esquerda. E o eleito não será de esquerda? Entre ele e Sócrates não se vêm grandes diferenças. Mas Sócrates, se calhar, devia ser definido da mesma maneira: como um primeiro-ministro que não é de direita. Por força do voto, juntaram-se os dois ao centro. Talvez seja por isso que a direita rejubila. Porque se sente predestinada a ocupar um espaço – que seria o da verdadeira direita – à margem da política do governo e da tutela presidencial. Um espaço liberal, recheado de expectativas, que assentaria, como o “movimento” de Manuel Alegre, nas virtudes da cidadania. Só que, em Portugal, a cidadania é do contra e manifesta-se, apenas, em momentos eleitorais. É uma espécie de castigo que o sistema recebe com um susto fingido. Em todas as eleições, há sempre alguém que chama gravemente a atenção para a vitória dos que não se revêem nos partidos. Depois a cidadania desaparece, no meio dos problemas do dia-a-dia, e os partidos ficam. Iguais a si mesmos. Ou talvez não…porque, a haver alguma reorganização à direita, ela será feita, a partir de Belém, pelo eleito que não é de direita. Não tem emenda, a direita.
ccs

11 comentários:

Musicologo disse...

Realmente a dicotomia esquerda-direita por si só parece estar obsoleta e não fazer muito sentido. Nesse aspecto aponto mais para o sistema de eixos Esquerda-direita-norte-sul definido por Comunismo-neoliberalismo-totalitarismo-anarquia que pode ser observado no www.politicalcompass.org que recomendo vivamente a todas as pessoas. (Salvo erro o público fez uma vez em Português a tradução disto para bússola política). Que nos permitia ter uma melhor orientação onde andariam os partidos. Por exemplo, o PSD estaria na direita, mas a sul, enquanto que o PP estaria na direita mas a norte. O PCP na esquerda mas a sul, o BE na esquerda a norte (maoísta), o PS, andaria perto do centro, na zona esquerda nem sul nem norte... a CCS consegue rever-se num posicionamento deste tipo? Ficaria curioso em saber qual o seu resultado no teste apresentado no dito site.

magnuspetrus disse...

Talvez seja ele "apenas" o presidente de todos os portugueses, se bem que a questão mais pertinente é mesmo: será Sócrates de direita ou de esquerda?
A resposta estará algures na questão que surgiu com o New Labour de Blair.

RAF disse...

Cara CCS,
O que é a direita em Portugal; e quem são os representantes da direita?
E faz ainda sentido falar-se em direita?
Não fará mais sentido alinhar-se o país naquilo que é a matriz política da generalidade dos países europeus: conservadorismo-liberalismo-social-democracia/socialismo moderado/comunismos e outros socialismos radicais?
A direita é um espaço difuso, onde por defeito se colocam todos os que não se identificam com as correntes socialistas? Este tipo de classificação hoje não faz sentido.

MC,
Rodrigo Adão da Fonseca

Manuel Campos disse...

Permita-se-me discordar de RAF. É subtileza semântica socialismo= esquerda vs. direita, ou RAF propõe uma nova dicotomia? Historicamente, as ditas correntes socialistas não se confundem com o pensamento comunista (ortodoxo ou mesmo italiano via Berlinguer) e, muito menos, com o movimento anarquista. A direita é um espaço difuso? Concedo. E acrescento: confuso. Porque alguma dessa direita, a velha e anquilosada de matriz (mas não de conteúdo) salazarista ainda não se (auto-)extinguiu. Qui-lo fazer Paulo Portas, à custa de um populismo excessivo, que nunca seria revisto, por exemplo, no PP espanhol. Assim, o CDS reemergiu em várias tendências e, talvez caiba a Ribeiro e Castro desferir o golpe mortal nesse 'salazarismo' e converter o CDS numa direita actual e despojada do populismo. Por seu turno, e eu já tinha sugerido isso num post anterior, o PSD e Marques Mendes confrontam-se com a necessidade de umaa reorganização que lhe será dificultada por Cavaco Silva, na medida em que, sendo este o candidato natural do PSD, deste se demarcou e será Cavaco, por fim, a disputar o centro ao PS, na sua qualidade de 'presidente oposicionista' ao governo (se tal ocorrer). Ou, então, Cavaco assumirá uma pose cordata face a Sócrates, e deixará campo livre a Mendes. Mas é um campo minado. Se, porventura, a dupla Cavaco-Sócrates concertar acções e Portugal sofrer um impulso definitivo na saída da 'crise', então, provavelmente, as próximas legislativas serão um 'passeio' para o PS e Sócrates. Nada mais simples: porquê mudar se direita e esquerda se entenderam tão razoavelmente e com tão bons resultados? Se a direita pensa que a esquerda se encontra em convulsão e a necessitar de uma federação de vontades (hipótese de Joana Amaral Dias no 'Bicho Carpinteiro')sem, por outro lado, cuidar de se resguardar do hipotético 'triunfo' de Cavaco na sua qualidade de presidente, apostando no desgaste do tempo que Sócrates inevitavelmente sofrerá, é bem provável que sofra nova derrota. E de reorganização em reorganização, a sua recomposição tornar-se-à cada vez mais problemática. A direita não pode dormir descansada. Muito menos rejubilar: CCS tem carradas de razão.

FMP disse...

Concordo com CCS que não existe razão para a direita se sentir dona do espaço liberal emergente na sociedade actual. Mas também é verdade que isso pode derivar do facto da direita Portuguesa atacar muito menos esse espaço liberal do que a esquerda. Tal não é o caso por exemplo dos EUA, onde os liberais são atacados mais por conservadores "de direita", e onde a esquerda como a conhecemos praticamente não existe.

O espaço liberal não é na sua doutrina, nem de direita nem de esquerda. A concepção liberal de estado (a nível macro) não encontra eco em nenhum partido português, enquanto as suas posições isoladas podem encontrar eco em qualquer um deles.

A escala direita-esquerda que está enraizada em Portugal e na Europa, vai do marxismo comunista ao fascismo totalitário. Na medida em que nenhum deles coabita com uma democracia livre, a europa moderna oferece aos seus cidadãos a escolha entre as suas versões "light": o socialismo moderno versus a social-democracia conservadora.

Ambos partilham a mesma noção de estado que descreve no seu muito interessante post abaixo. E nesse sentido ambos se opõe a uma concepção liberal da sociedade.

O liberalismo vai avançando timidamente, mas pela simples razão que os governos (de direita ou de esquerda), têm dificuldade em conceber outra forma de evitar o colapso financeiro que não seja aceitar alguma das suas premissas.

Francisco Miguel Pires

scriptore disse...

Ontem, num dos meus zappings televisivos parei na RTP memória. Estava a dar o "Raios e Coriscos" de 93. Manuela Moura Guedes a dirigir o programa e como convidados Paulo Portas, Herman José, Zita Seabra, Vasco Polido Valente, etc. Paulo Portas, muito gestual como sempre, fartou-se de dizer mal dos politicos em geral e, em particular, de Cavaco Silva, primeiro-ministro da altura. Afirmou-se de Direita, porque não queria nada com o Estado e disse também, entre outras coisas, que tinha repulsa ao poder e que se algum dia um amigo lá chegasse (ao poder) passaria para a oposição. Como diria o outro, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

Ruvasa disse...

Viva!

(...) juntaram-se os dois ao centro."

Esperemos que não a tocar a concertina e a dançar o solidó...

Ruben

ccs disse...

"Faz ainda sentido falar-se de direita?"

A "direita" é hoje uma facilidade de expressão, reconheço. Arruma-se lá tudo o que não é de esquerda, concordo. Mas não sei se existe alternativa entre a social-democracia e o socialismo moderado, com mais ou menos liberalismo.

raf, muito obrigada pelo link que me enviou

Angie disse...

Ih, ih, ih!
De facto, a RTP Memória
(onde às vezes tropeçamos entediados quando chegamos ao cúmulo de ver tlv...)
devia ser um espaço de visita obrigatória para todos os portugueses de consciência!
A programação (cujo plano desconheço)
deveria até vir impressa nos pacotes de leite, para não podermos alegar desconhecimento sobre as retransmissões.

Ontem, era PP (antes da visita ao estomatologista) Vera Lagoa (sem ela, as broncas nacionais já não são o que eram...)e até VPV ( mas porque é que ele não aparece mais e nos pôs a fazer dieta, com a "ração" de calorias contadas no jornal do costume?)

No outro dia era um flash qualquer com o antigo PGR (CR. Aquele cargo é uma autêntica guilhotina disfarçada, não sei como é que ainda há quem o aceite. (Há?...)

Aqui há tempos, o galhofeiro e cínico Carlos Cruz, avant la débâcle...

Memória.
Um bom exercício para medir a facilidade com que nos distraímos do essencial.
Porque é nos pormenores e na sucessão dos "ares do tempo" que ele sobressai.

Vasco Gabriel disse...

CCS, que quadro é este?

Aluizio Amorim disse...

A dicotomia esquerda/direita parece que entrou definitivamente em crise, como o próprio marxismo e suas variantes. O conceito não dá mais conta quando aplicado a uma análise da realidade política.
O componente idealista que permeia a filosofia política dita de esquerda e/ou marxista é a questão crucial, entendida por poucos.

Cordial abraço do

aluízio amorim
http://oquepensaaluizio.zip.net