quinta-feira, janeiro 19, 2006

Coabitações

Aqui há uns tempos, António Pinto Leite escreveu, no Expresso, qualquer coisa como isto: “Cavaco Silva será um óptimo presidente da República para um bom primeiro-ministro e um péssimo presidente da República para um mau primeiro-ministro”. A frase fez algum furor e foi euforicamente citada nos círculos habituais Sócrates não terá, pois, que se preocupar. Basta-lhe ser bom. Contido. Reformista. E Cavaco, do alto da presidência, será simplesmente óptimo com ele. A solidariedade institucional funcionará a vapor. Nada de intriga partidária. Nada de manifestações à porta do palácio de Belém. Nada de congressos a pensar no futuro. Se Sócrates se esforçar e souber gerir o país, Cavaco será excepcional para o governo, com a sua experiência de primeiro-ministro, a sua ciência de economista e a sua fama de honestidade.
É verdade que Cavaco governará por interposto Sócrates: mas governará bem, apoiado num primeiro-ministro bom que conhece os seus limites e “cooperará estrategicamente” com o novo inquilino de Belém. Se assim for, se este radioso sonho se concretizar, o PSD, com Marques Mendes ou com um acólito de Cavaco a substituí-lo, só tem dois caminhos pela frente: ou coopera também, numa reedição do que foi o Bloco Central, ou pura e simplesmente emigra para um país onde haja um primeiro-ministro mau.

Em todo o caso, o caso não é líquido. Sócrates pode deitar tudo a perder. Deixar de ser um bom primeiro-ministro ou (consoante a versão), continuar a ser um mau primeiro-ministro. As avaliações nunca são unânimes. Cavaco Silva e os seus apoiantes acreditam que o homem e a política se definem pelos padrões da moral e pelas regras da economia. Infelizmente (e António Pinto Leite salvaguarda essa triste possibilidade), um homem, principalmente um político, nem sempre é sério, nem sempre conhece bem alguns assuntos de interesse geral. Levado por interesses obscuros ou por deficiência de informação, um primeiro-ministro pode não chegar exactamente às mesmas conclusões a que o presidente chegou. Aí, claro, passa a ser um mau primeiro-ministro, com direito a um péssimo presidente, capaz de lhe fazer a vida negra, com reprimendas públicas e outros enxovalhos do género. Para além de que um presidente, que se candidatou para salvar a Pátria, espera naturalmente que, por respeito pela sua candidatura, o primeiro-ministro arranje forma de a salvar de qualquer maneira.
Adaptado do artigo publicado hoje na revista Sábado
ccs

5 comentários:

Ricardo disse...

Viva CCS,

"Levado por interesses obscuros ou por deficiência de informação, um primeiro-ministro pode não chegar exactamente às mesmas conclusões a que o presidente chegou."

Esta frase parece uma reedição de outra que Cavaco Silva disse numa entrevista a Judite de Sousa para a RTP: "“Duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar”

Não concordo com nenhuma das afirmações por uma razão simples: duas pessoas com a mesma informação, com ou sem interesses obscuros, pode chegar a diferentes conclusões. Essa é a base da democracia e da sua lógica. Não há, na maioria das vezes, quem esteja certo ou errado, há é vários caminhos para chegar aos mesmos sítios e como a vida não é uma ciência experimental é difícil avaliar, a preto e branco, as conclusões.

Quanto à substância do texto não sei se é útil uma "cooperação estratégica". O que seria útil era um Presidente árbitro que moderasse os excessos da maioria absoluta do Governo em relação à oposição e às leis. Deixar o Governo executar e a Assembleia legislar e garantir que todos cumprem a Constituição. Mais do que isto levará, ainda por cima com as personalidades envolvidas, a tensões inusitadas não este ano mas nos anos seguintes.

Mais uma nota. Em Portugal o "Governo" nunca foi conquistado. Raramente é a oposição que conquista o "poder" mas sim o partido que esteve no executivo que cai em desgraça. Quantos e quantos maus líderes da oposição - independentemente de depois terem sido bons ou maus Primeiros Ministros - tiveram o poder a cair-lhes no colo?

Lionheart disse...

Acho positivo para Portugal que o próximo Presidente seja Cavaco Silva, porque é o melhor candidato, e porque é preciso um contrapeso ao actual governo. Não é só porque o PS tem maioria absoluta, mas também porque o maior partido da oposição está um "farrapo", com um grupo parlamentar muito reduzido e fraco de qualidade (legado de Santana Lopes). O PSD demorará muito tempo a recuperar.

Num país em que quase tudo depende do Estado, uma maioria absoluta pode levar a abusos de poder. Só quem não conhece como os partidos políticos funcionam é que pode ser ingénuo quanto a isto. Não sei se Cavaco vai ajudar Sócrates, ou não. Como pessoa do centro-direita não me choca que o faça, e não me passa pela cabeça que haja eleições tão cedo. O PSD não está preparado para isso. Não tem quadros, nem políticas estruturadas. Já bastam as experiências falhadas de Durão Barroso e Santana Lopes, impensáveis anos antes.

Sócrates deverá ser julgado no final do seu mandato, pelo que fez e não fez em relação ao que prometeu. Com Cavaco o governo só vai ter que governar. Não há desculpas. Acabaram-se as fugas e as "chuchas" internacionais.

Cavalo Marinho disse...

Com estes dois últimos posts a Constança revela-se em grande forma.
Parabéns!

Anónimo disse...

Ó Constança, por favor, saia-me desse main stream de pensamento, saia-me da onda da comunicação social tradicional que já farta toda a gente.

Nancy Brown disse...

por acaso também considero o texto do Eduardo Lourenço muito "atrapalhado" na prossecução das ideias e bastante e demasiado ensaísta para se poder ter em conta como uma boa análise política. e sim o seu terminus é uma pérola de "ambiguidade"... tão ao gosto de certos intelectuais "mitológicos" da nossa praça. afinal fica bem dizer-se q se leu embora não se perceba lá mto bem...