sexta-feira, janeiro 06, 2006

Coabitações

Como se tem visto, a participação do eng. Sócrates, nesta campanha, tem sido, no mínimo, modesta. José Sócrates, embora não possa deixar de elogiar, aqui e ali, o candidato que o seu partido apoiou, tem-se abstido prudentemente de atacar Cavaco Silva e a sua hipotética deriva presidencialista. Não deixa de ser curioso, aliás, que o PS, através do seu porta-voz, tenha vindo falar de um “golpe constitucional” a propósito da proposta de Cavaco Silva (sobre o secretário de Estado para as empresas estrangeiras) e que o secretário-geral do mesmo PS tenha tentado diligentemente desvalorizar a questão. Aliás, as contradições do PS, nesta matéria, mostram uma confrangedora ausência de estratégia em relação às presidenciais.
Confirmado o desastre (Jorge Coelho dixit), parece que se entrou, agora, no chamado “controlo dos danos”. O PS, como é por demais evidente, já percebeu que não vai ganhar as presidenciais. Resta-lhe, portanto, minimizar os prejuízos acumulados. Em primeiro lugar, deixando o dr. Soares entregue a si próprio na esperança vã que a derrota lhe seja exclusivamente atribuída. O “radicalismo” do candidato serve de pretexto – embora os socialistas saibam que o dito “radicalismo” era o único caminho por onde Soares podia subir. Em segundo lugar, tentando passar a ideia de que o candidato ideal do eng. Sócrates não é Mário Soares (que só lhe arranjaria problemas) mas sim Cavaco Silva com quem partilharia, aliás, alguns traços de personalidade. O objectivo é dar a entender duas coisas em simultâneo: que o primeiro-ministro, como bom cavaquista que é, está a tratar dos problemas do país (ou seja, a governar) e não pode, por isso, perder tempo com as peripécias da campanha e a trapalhada das presidenciais; e que, no fundo, o eng. Sócrates tem tudo a ganhar com a vitória de Cavaco Silva na medida em que este é o único candidato que o poderá apoiar na aplicação das suas anunciadas reformas. Em terceiro e último lugar, evitando a todo o custo que Manuel Alegre fique à frente de Mário Soares o que provocaria, obviamente, os maiores sarilhos no interior do partido.
À primeira vista, pode parecer que este estratagema de última hora fornece algumas vantagens inesperadas. Mas dificilmente disfarça a derrota que o PS pode sofrer nas presidenciais e os efeitos que essa derrota terá na esquerda e, no PS, em particular. Para além de que a feliz coabitação com Cavaco Silva é um sonho socialista que não se conjuga com a situação do país e com o passado do candidato. Se, como tudo indica, a crise se mantiver, o desemprego aumentar e o “factor de desenvolvimento” (ou seja, Cavaco Silva) não funcionar, só há uma forma do novo Presidente se justificar perante os eleitores que depositaram nele as suas esperanças: responsabilizar o actual governo pelo facto de continuarmos, com ele e apesar dele, na cauda da Europa, a milhas da “vizinha” Espanha. É isso que o “choca”. É isso obviamente que o vai continuar a “chocar”.

Publicado, hoje, na Sábado
ccs

12 comentários:

Jorge Silva disse...

Brilhante

Anónimo disse...

En realidad, Sócrates prefiere que salga elegido el profesor Cavaco, y yo, también....pero es bueno no "esquecer" la entrevista "agresiva" de la señora Cunha al prof. Cavaco....

Nancy Brown disse...

ainda bem q poderemos contar consigo na blogosfera.

Ra disse...

Excelente análise.

Discordo, contudo, de um pormenor: não creio que o PS vá responsabilizar o dr. Soares pela sua derrota. O PS já tem, para esse efeito, um "bode expiatório" perfeito, chamado Manuel Alegre.

Pedro Rapoula disse...

Caríssima Constança,

Bem vinda à blogoesfera. É bom poder contar com a lucidez das suas análises. "O Espectro" já está nos meus favoritos!

Espero francamente que o seu entusiasmo não esmoreça!

Melhores cumprimentos

Pedro Rapoula

Carlos Azevedo disse...

Bem pensado. Quanto ao facto de estarmos a milhas de Espanha, também me choca, mas sabemos bem os motivos.

http://ecurioso.blogs.sapo.pt/ disse...

Obrigado, por ter criado este blog. Um espaço que visitarei sempre que possível.

Anónimo disse...

Ó CC&Sá, que corte de idólatras a persegue! Basta um texto de senso comum e, já está: Brilhante.
Solicito-lhe escrita mais ígnea, como a sua voz, que me estremece os sentidos.

Saudações cordiais

Anónimo disse...

Señora Cunha....¿Conoce usted el blog "Crónicas Bárbaras", de su colega gallego Manuel Molares do Val?

Al Mutamid disse...

Post de extrema lucidez como não podia deixar de zer tendo em conta a impressão digital postada no fim.
Bem vinda à blogesfera e bons trabalhos.

daviduskas disse...

É. O tipo "choca-se" com as coisas mais engraçadas. O que vale é que o tipo "contém-se", "tem se de conter", olarilas.

Um admirador seu desde os tempos em que o Indy (a par de Mário Soares) representava a esperança
para um país atolado no the great portuguese disaster.

joyce disse...

Não concordo mesmo nada com esta análise.
Em coerência CCS devia ter ido mais longe, i. e, que se a crise continuar Cavaco Silva vai despedir José Socrates. E não o escreveu porquê?