terça-feira, janeiro 24, 2006

Atropelos

2005-199 herbert paus, american magazine
Parece que o grande acontecimento da noite eleitoral foi a intervenção de Sócrates, em cima de Manuel Alegre e em "directo" para as televisões. O caso teve honras de escândalo, deu direito a acusações e até o porta-voz do PS se sentiu obrigado a jurar pelo seu secretário-geral. Compreende-se a reacção do candidato Manuel Alegre, esse apóstolo da cidadania, lançado numa esfuziante cruzada contra os poderes estabelecidos. A preferência dada pelas televisões ao primeiro-ministro e secretário-geral do PS em detrimento da magnitude do seu segundo lugar só podia ser interpretado com um sinal evidente de "subserviência" e de “governamentalização”.
A tese, curiosamente, foi seguida à letra por alguns “faróis” da Comunicação Social que se sentiram democraticamente ofendidos com a actuação de Sócrates e o comportamento das televisões. Pelos vistos, devia-se ter deixado o primeiro-ministro e secretário-geral do PS a falar sozinho para ouvir atentamente o que ia pela alma de um candidato que tinha ficado pelo caminho. Isto sim revelaria a independência das televisões e ensinaria o primeiro-ministro a ter maneiras e a saber respeitar a importância de quem fica em segundo lugar. Infelizmente, com a vitória de Cavaco Silva, à primeira volta, o segundo lugar, por muito que alimente o ego, garante um futuro incerto às legítimas ambições que alimentam o candidato.
Por muito estimáveis que sejam as opiniões em contrário, naquelas circunstâncias, o critério jornalístico mais adequado era ouvir o primeiro-ministro e secretário-geral do PS. É evidente que ele não era candidato, como já se assinalou com alguma falta de senso, mas é secretário-geral de um partido que apoiou um candidato que perdeu as eleições; e é, enquanto primeiro-ministro, um dos pólos de uma coabitação institucional que nem todos adivinham pacífica. É mais do que suficiente!
Escrito depois de ter lido este óptimo texto de Eduardo Pitta.
ccs

24 comentários:

Anónimo disse...

Fiquei com a sensação que o critério editorial foi "o respeitinho é uma coisa muito bonita, agora calem-se que vai falar o sr.PM". Mas pode ter sido uma falsa sensação.

Miguel Serradas Duarte disse...

Cara CCS,
A reacção mais interessante que ouvi foi "então não há televisões no Rato?". Porque se o que diz é verdade, é verdade também que as reacções dos candidatos aparecem sempre encarreiradas e não sobrepostas, facto a que não será alheia a máquina partidária e de comunicação.
Não acredito que tenha havido intenção de ofuscar Alegre, mas caramba foi galo acertarem logo no candidato que semeou a discórdia no PS. Acredito que tenha sido mais cansasso e umas horas a mais de sorrisos amarelos.
Agora interessante pareceu-me a reacção da outra esquerda, que claro se encarregou de responsabilizar o PS pelo resultado. Assim pparece fácil fazer politica…

Ricardo disse...

De acordo! O que não desculpabiliza, de qualquer forma, a "coincidência"!

Manuel Campos disse...

Sócrates deveria rememorar a célebre frase do seu candidato: direito à indignação. Não se discutem os critérios jornalísticos, mas tão somente a oportunidade do PM de, naquele preciso momento, avançar com um comentário político. Alguém pode afirmar, com segurança, que mais uns míseros minutos de espera causariam engulhos a Sócrates? Duvido. O texto de E.Pitta só me esclarece da primazia do PM. A questão da quantidade de candidatos é, no mínimo, uma nuvem de vapor que tolda o essencial. E o essencial em política não é furtar-se ao debate, rapar dos galões, afirmar 'aqui estou eu' e, como tal, o restante é acessório. Não havia televisões no Rato? Ah! Ironia. Como, foi amargamente irónica a queda de Soares às mãos dessa 'esfuziante cruzada'... (esclareço que o meu voto não foi depositado em nome de Alegre)

Tiagão disse...

Cara Constança, quem sou eu para opinar mas atropelos, atropelos viveu-os você em plena TVI a ter que aturar a Manuela Moura Guedes a interromper tudo e todos, a fazer as suas linhas e a do colega ao lado, e rir e estrebuchar. Depois disso, o atropelo de Sócrates foi uma coisa menor.

Tiago Mendes disse...

Cara Constança:

"Por muito estimáveis que sejam as opiniões em contrário, naquelas circunstâncias, o critério jornalístico mais adequado era ouvir o primeiro-ministro e secretário-geral do PS."

Isso parece-me óbvio, ainda para mais quando as decisões tiveram que ser feitas ao segundo, e obviamente o 1º ministro devia ter precedência. Julgo que o seu 2º parágrafo está algo deslocado desta questão: o homem foi a votos, teve 1 milhão de votos, 20% do total, o 2º lugar, sem passar à segunda volta, mas merece algum respeito por isso. Ou seja: as críticas "programáticas" não têm nada que ver com a legitimidade de lhe dar voz, e fazê-la chegar aos espectadores, nomeadamente os que nele votaram.

Diz Eduardo Pitta:

"Um político fala quando considera oportuno. Às televisões cabe decidir se fazem ou não fazem o directo. Parece que Sócrates pediu desculpa. Não sabia. Mas o que é que havia para saber?"

Claro que um político fala quando acha oportuno. Que isso leve a uma (diria eu) quase "histeria" só para ser politicamente incorrecto, indo contra aqueles (coitados, pobres ingénuos, idealistas, paroquiais, etc) que acham que deve e pode (não é preciso muito) haver um mínimo de respeito pelos outros políticos em causa e - isto também é relevante - pelos eleitores/espectadores/ouvintes, é algo que não me surpreende.

Que eu me lembre, nunca tinha visto tal atropelamento. Pode ter sido coincidência. Mas foi coisa feia. E, claro, vieram muitos indivíduos apontar essa falta de respeito política. Não é de admirar que depois tenham surgido as habituais vozes "anti-politicamente correcto", para dar o seu charme de elite e "educação" às massas tão incomodadas. Isso, não compro.

Rasputine disse...

Cara CCS,

Não concordo consigo.
Sócrates acenou com a cenoura e as TV's, destituídas de auto-censura e sentido crítico, seguiram-na. Manobras destas sempre houve na política (internacional e nacional), é certo. Porém, a diferença está em saber colocar-se no campo certo.
Como os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do Washington Post quando revelaram o escândalo do "Watergate", não que a situação descrita se assemelhe em termos de gravidade.
As TV's perderam aqui uma excelente oportunidade de se afirmarem verdadeiramente independentes, para quem como elas faz questão em o propalar.
Teriam dado uma lição a Sócrates. Assim, Sócrates ficou a saber que pode fazer com elas sempre tudo o que quiser.
É que Sócrates discursou na qualidade de Secretário-Geral do PS e não na qualidade de PM, por muito que as pessoas não queiram ver a diferença inerente a ambos os cargos.
Falou na mesma qualidade que Marques Mendes e Ribeiro e Castro.
E não colhe afirmar que o seu dislate sucedeu por erro. Ninguém consegue convencer os portugueses que, àquela hora, o PM e respectivos assessores não soubessem o que estava a acontecer na sede de Alegre.

RAF disse...

Cara CCS,
Não discuto o critério jornalístico; aliás, admito que todos tenham sido apanhados de surpresa; como um árbitro que numa fracção de segundo tem de apitar ou não para o penalty, também nas reggies foi necessário tomar decisões.Embora lendo o JPH, no Glória Fácil, fique com a sensação que há muito jornalista que acha que na política vale, tudo, até arrancar olhos, tendo ido atrás de JS em busca de um pouco de «sangue».

O que não me afasta da essência da questão: José Sócrates, deliberadamente, decidiu «calar» o candidato que diz «a mim ninguém me cala», transpondo para o espaço público, em dias de eleições, aquilo que são as futuras guerras do PS.

Não adianta dizer que não sabia que MA estava a falar: se não sabia, pior; em noite de eleições, às dez da noite, a probabilidade de alguém estar a falar é grande, pelo que se exige um mínimo de atenção. E respeito pelos eleitores, que não são burros.

A «partidarite» é uma doença que se entranha até aos ossos, e que faz estalar até o verniz mais grosso.

Manuel Campos disse...

Bem observado Tiago. Por cá, a única voz dissonante foi a de Ricardo Costa da SIC Notícias, que questionou a prática de 'zapping' das próprias TV's e reconheceu a 'malfeitoria' a Alegre, em nome mesmo dos critérios jornalísticos. Nem sempre o 'peso mediático' vale tudo. Sócrates terá pedido desculpa? Se o fez, fica-lhe bem, democrática e urbanamente falando.

Carlos Azevedo disse...

Não concordo com o post, mas não foi para isso que vim aqui. Foi mesmo só para a cumprimentar pela sua prestação na TVI na noite das eleições. A verdade é que a CCS destacar-se-ia sempre por comparação, uma vez que aquilo era um pântano (com a excepção da Maria José Nogueira Pinto), mas destacou-se por direito próprio.

LA-C disse...

Cara CCS
Como sabe tenho em grande apreço o seu blogue e as suas opiniões. Mas a CCS a falar de Manuel Alegre já parece o Pacheco Pereira a falar de Paulo Portas. Perde toda a objectividade.

Platão disse...

O Sócrates pediu mesmo desculpa?
Se pediu, já não parece o mesmo. Porque será?

ccs disse...

Estou em falta. Só agora consegui ler os comentários ao texto. é pena pq gostaria de responder de forma mais detalhada.

de qualquer forma, parece-me que a questão "essencial" como diz o Rodrigo Adão Fonseca, é a forma como Sócrates "atropelou" Manuel Alegre. é verdade que não costuma acontecer. João Pedro Henriques(Glória Fácil) diz que os políticos não se alinham numa fila à espera de falar e de tirar um tiquet. mas a verdade é que há regras implícitas em todas as noites eleitorais. A última intervenção pertence ao vencedor. a ordem, no geral, alinha pelo número de votos. e os políticos tentam sempre não se atropelar. mtas vezes combinam entre eles (e não com as televisões) a hora das intervenções.

Aliás, quem estivesse, no domingo, na reggie de uma televisão veria Ribeiro e Castro, alinhado na sede do CDS, à espera que Marques Mendes terminasse a sua intervenção. acabou por ser ultrapassado por Jerónimo de Sousa que "atropelou" Marques Mendes que por sua vez foi "atropelado" por Cavaco Silva a sair de casa e por Manuel Alegre que o "atropelou" quando começou a falar.

foi portanto uma noite de atropelos, em que o atropelamento final (de Sócrates a Manuel Alegre) ganhou especial relevo. é-me difícil dizer se Sócrates "atropelou" ou não Manuel Alegre intencionalmente. Sócrates diz que não - e não sou eu que lhe vou chamar mentiroso. eu sei que é estranho que o estado maior socialista não estivesse com atenção ao discurso de Manuel Alegre. Mas também é plausível que Sócrates contase falar a seguir a Marques Mendes, sem contar com o "atropelo" de Alegre ao líder do PSD.

Aliás, quem viu Cavaco, em directo, através da janela de sua casa, pôde ver que ele não perdeu tempo com os discursos dos adversários. Qd Soares estava a falar, Cavaco estava a falar ao telefone...embora seja de admitir que alguém da sua candidatura estivesse incubido de o ouvir.

O Tiago, referindo-se às críticas que faço a Manuel Alegre, diz que "as críticas programáticas não têm nada que ver com a legitimidade de lhe dar voz". Concordo, como é óbvio. As críticas que faço a Manuel Alegre, neste caso, prendem-se com a permanente suspeição que lança sobre tudo e sobre todos.vir falar da subserviência das televisões porque foi preterido num "directo" revela a arrogância que se esconde nesta permanente "vítima" do sistema e da comunicação social (redundância??)

Um abraço

Tiago Mendes disse...

Subscrevo o LA-C. Todos temos direito aos nossos (maiores ou menores) "odios figadais". Eu nutro um pequeninissimo por Soares, a Constanca nutrira' a sua parte por Alegre. Mas, como referi, julgo que nao isso nao implica que nao consigamos ser objectivos. EU acho que Soares fez uma declaracao honrada, e sempre disse que o seu "lugar na historia" nao estava em causa. Mas que foi uma grande (belissima!) derrota, foi. Alegre nao teve uma vitoria assim tao grande, mas teve 20%. E o povo nao pode ser "sereno" so' quando vota em quem gostamos e "estupido" quando vota em tipos que nao sabem comer bolo-rei ou que se candidatam por orgulho ferido. O que estava em causa era uma mera falta de respeito democratico - eventualmente acidental, mas custa a crer - de Socrates para com o 2o candidato. A escrita de Eduardo Pitta e' dum elitismo meio fascizoide, se me e' permitido o abuso metaforico.

Subscrevo inteiramente o RAF: nunca foram os criterios jornalisticos que estiveram em causa. E nao e' por defender a "vitima" Alegre. E' o Alegre como podia ser outro. Simplesmente, ha' coisas que nao se fazem.

Caro Manuel Campos: concordo consigo (e com a sua concordancia). FIquei a dever-lhe uma resposta noutro post, mas basicamente concordava com o que dizia, isto e', com um "middle term" entre o que foi sendo escrito.

Anónimo disse...

Totalmente de acordo com a Constança.

Murmurio

xatoo disse...

O que eu digo é o seguinte: com a qualidade desta gente, politicos, jornalistas e administradores de televisões, alguem ainda se admira do estado em que o país está?

Anónimo disse...

Constança, tenha juízo. E faça o favor de dizer ao que vem, que este lambe botas ao Sócrates já cheira mal. Ainda não se refez de ter sido papada pela Moura Guedes, não é? A sua cara dizia tudo.

Nuno Magalhães disse...

O seu gostinho anti-Alegre começa a cheirar a patológico.
Aí por Lisboa não sei, mas aqui, no Porto, temos pelo menos duas casas que tratam disso. Gratuitamente.

Anónimo disse...

Foi uma grande falta de respeito Socrates ter deliberadamente interrompido Manuel Alegre. Podem ter a certeza que o fez de propósito! Foi uma das muitas acções birrentas do nosso Primeiro Ministro. O PS vai ter que engolir a humilhação de uma estratégia errada. Mas há uma questão que vai ficar no ar... será que se Alegre tivesse ficado em terceiro lugar, o PS não iria tratar de o retirar da cena política? Há que compreender que Manuel Alegre obteve um excelente terceiro lugar muito por culpa do fraco candidato do PS. Enfim... é o país que temos...

Afonso Henriques disse...

É normal

Mais extraordinário que a onda de apoio manifestada pela direita chineleira em torno de Sócrates após o faux pas cometido quando interrompeu as declarações de Manuel Alegre (*), é a naturalidade com que é encarado o destaque dado a Mário Soares e aos seus 14 e pouco por cento.
Ou não fosse isto Portugal.
Como teria dito Artur Jorge naquela manhã no Estádio Nacional depois de ter levado uns sopapos de Ricardo Sá Pinto: É normal, em Portugal, é normal...

(*) Afinal, ó tribunos do regime, sempre se tratavam das declarações do segundo candidato mais votado nas eleições para a Presidência da República.

Anónimo disse...

Sócrates «em cima de Manuel Alegre» e em directo para a televisão???! Livra! E depois ainda duvidam... e falam das más linguas...

RS disse...

Cara CCS,

Estou a ver que já percebeu como funciona a fera.
Falo da Blogos, claro.

Um abraço,
RS

miguel serradas duarte disse...

Por acaso, e embora não considere CCS ingénua ou distraida, parece-me que abordou a escrita neste meio de peito aberto e sem pensar no funcionamento da fera, como RS bem referiu. Não me cabe a mim defender ninguém, mas como prezo o que aqui leio acho que pelo menos as regras mais elementares de fair play e educação podiam ser respeitadas. Porque o prejudicado sou pelo menos eu, quando CCS se fartar de aturar disparates e desligar a ficha que alimenta o blog.

Ruvasa disse...

De acordo.

Ruben