segunda-feira, janeiro 16, 2006

Arrumações

Ando, há algum tempo, para comentar dois momentos eleitorais. Ao contrário do que se pensa, não são meros episódios de campanha...

1.Cavaco e a "Grândola, Vila Morena". Não me espantou o entusiasmo do candidato e a canção com que resolveu brindar a assistência. Cavaco, a ser alguma coisa, é um social-democrata de esquerda que acredita no modelo social do Estado e que defende o actual sistema político que, em dez anos de governo, nunca tentou alterar. Mas, mais do que isso, Cavaco não reconhece valor à dicotomia entre a esquerda e a direita que gostaria de ver substituída por uma, mais técnica, entre o desemprego e a desenvolvimento; por outras palavras, entre a incompetência e a competência. A "Grândola", para ele, é apenas uma canção que pertence a um passado remoto, onde havia ideologias, que o pode ajudar, agora, a reconverter alguns dos sobreviventes da esquerda que não sabem ainda que esta, entretanto, morreu. O que me espantou, sim, foi a defesa teórica que a direita, que apoia Cavaco Silva, fez dessa utilização. Como se Zeca Afonso fosse alheio à história e a história e os seus símbolos tivessem perdido qualquer significado político. Um prenúncio de que essa direita não sobrevive também ao regresse do cavaquismo?

2. Na sua peregrinação pelos mortos e pelos cemitérios, Manuel Alegre não deixou de invocar Álvaro Cunhal e o seu exemplo para o guiarem nesta campanha. Jerónimo de Sousa criticou o oportunismo do gesto. E Manuel Alegre, adoptando rapidamente o papel de herói da resistência, declarou que a história não era património de ninguém. Uma frase épica que nada diz sobre o essencial. É evidente que Manuel Alegre sabe que, se Álvaro Cunhal estivesse vivo, ele teria que embrulhar a invocação no saco, sob pena de Cunhal o guiar até a um poço. Ao contrário do que Alegre possa julgar, a partilha de uma história comum não leva à manipulação dos mortos e à sua utilização em campanha. Sartre tinha raão: "L' enfer c'est les autres" porque o olhar dos outros se apropria de quem morreu. Foi o que Manuel Alegre fez a Álvaro Cunhal. Só que, à excepção do PCP, ninguém registou o abuso rasteiro do gesto. Pelo contrário, houve até quem aplaudisse: Cunhal também é de todos. Como Sá Caneiro que, pelo caminho que as coisas levam, ainda se estreia, num comício do MRPP. A ideologia anda, de facto, pelas ruas da amargura!
ccs

12 comentários:

Nic disse...

mesmo estando a le-la do outro lado, ha' algo na forma de escrita que me leva a admira-la, parabens!

Nuno Ramos de Almeida disse...

Muito bem observado. Excelente texto.

Ademar Santos disse...

Por que será que Manuel Alegre, ao contrário do que quase todos previam, não foi cilindrado na campanha e, aparentemente, é o candidato que está a subir mais consistentemente nas intenções de voto dos eleitores ? Nas arruadas e nos repastos comicieiros, ele não tem à sua volta mais gente do que os seus principais concorrentes. Porém, vai “crescendo” (a acreditar nos resultados das sondagens mais recentes). Por que será? Porque se apropriou dos "mortos", isto é, da História? Porque, apesar de todo o frenesim da campanha, consegue manter uma pose altiva, confiante e serena? Porque a sua voz (como a sua poesia) toca a musicalidade de um certo imaginário colectivo?...
Constança Cunha e Sá (o-espectro.blogspot.com), na linha de tantos outros, parece não ter ainda percebido o essencial: em tempos de depressão e de descrença colectivas, o “simbólico” ganha sempre sobre as “evidências” (do discurso e da imagem propagandísticas). Soares, aparentemente, tinha tudo para esmagar Alegre e, porém, corre o risco de ser esmagado por ele. Os eleitores enlouqueceram? Não: os eleitores estão fartos das “evidências” que Soares arrasta consigo e parecem preferir, para imensa irritação de Constança, o candidato que peregrina “pelos mortos e pelos cemitérios”, falando da “pátria”, da “liberdade”, do “orgulho da cidadania” e de outras irrelevâncias…As tais irrelevâncias que alimentam o “simbólico” e decidem eleições…

in abnoxio2.blogs.sapo.pt

paulof disse...

As ideologias nascem e morrem consoante as epócas e contextos em que foram criadas e "paridas". Umas substituem outras, pelo que agora a da moda é o neoliberalismo que supostamente rejeita adjectivar-se como de "esuqerda" ou "direita" , termos que considera pertencentes a ideologias passadistas.

Já as ideias, essas, enquanto houver pessoas, jamais passarão...

Penso eu de que... mas claro que só aqui a D. Ideológa Blogg ( acrescenta-se um g para dar pedigree ao apelido) é que nos poderá aferir se sim ou não... E se o não fizer aqui, certamente não deixará de nos "educar" convenientemente acerca deste tema com duas ou três peçitas na Tvi-prisa, n´ést pa?

Claro que citar Sartre, um dos mais manhosos marxistas que existiu, e a própósito de ideologias mortas, como o marxismo ( é preciso azar e falta de inspiração:num tema destes) diz bem acerca do autor que certamente, como se vê, percebe a rodos da temática...

chapa disse...

Cunhal, tal como outros ícones da luta anti-fascista, faz parte do património da esquerda e como tal ultrapassa o próprio PCP. Também Zeca Afonso que nunca pertenceu ao PCP, "vê" as suas canções utilizadas em coisas do PCP e que se saiba ninguém se escandaliza com isso.

magnuspetrus disse...

Acredite que as vezes que já ouvi cantar a canção desde que vim trabalhar para Grândola (há cerca de três meses), ela já perdeu grande parte do significado que teve.
Por isso, posso afirmar que já quase nada me espanta no admirável mundo da nossa política...

Anónimo disse...

A família comunica que, confortado com todos os sacramentos do Grande Oriente Lusitano, vai a banhos no próximo dia 22 o ínclito democrata J. Medeiros Ferreira, levando consigo a não menos ínclita e democrata J. Amaral Dias. É oficiante o filho do defunto padre Soares, de sua graça Mário. Assiste como sacristão hidden persuader, exemplo de transparência, em nome do qual o Bicho Carpinteiro, vulgo Santo Ofício Chucha, eliminou os anónimos comentários da heresia.
Descanse em paz!

ccs disse...

paulof

Eu não pretendo "educar" ninguém. Nem aqui nem na TVI que V. acha por bem dizer que pertence à Prisa. As coisas são que são e valem o que valem. O marxismo pode estar morto mas isso não quer dizer que nãoesclareça algumas "temáticas" - lamento mas a expressão é sua. Quanto ao pedigree do apelido...não sei o que lhe diga!

Ricardo disse...

Viva,

1. "Cavaco não reconhece valor à dicotomia entre a esquerda e a direita que gostaria de ver substituída por uma, mais técnica, entre o desemprego e a desenvolvimento; por outras palavras, entre a incompetência e a competência."

A dicotomia que enuncia não existe, como todos sabemos, porque não há desenvolvimento sem desemprego nem competência sem incompetência. Por isso mesmo acho que o que melhor define Cavaco Silva é outra das suas frases. A de que duas pessoas informadas sobre um determinado tema têm que chegar à mesma conclusão. É a negação das ideologias, é a negação da criatividade, é a negação do próprio pensamento! Parece um dos muitos modelos que aprendi na faculdade em que o consumidor é racional e comporta-se sempre da mesma maneira.

2. "E Manuel Alegre, adoptando rapidamente o papel de herói da resistência, declarou que a história não era património de ninguém."

A história é património da Pátria! A Pátria de Manuel Alegre!

BONIFÁCIO disse...

Cavaco Silva cantando Zeca Afonso.

É bonito.

Mas, "Paris vale bem uma missa"...e um bocadinho de...cara-de-pau...

"Fortuna audaces juvat" eh ! eh ! eh !

paulof disse...

Cara CCS,

Talvez se tivesse anteposto um "do" em vez de acrescentar um g à palavra Blog, a minha piada fosse mais preceptível...

Mas falando de piadas, a melhor do dia é ler que a tvi não é da prisa: é de rir à gargalhada! Então o Cebrian vai a a Queluz fazer o quê? Turismo? Se calhar vai aí tomar café à Tvi, não?

Pois pois, eles aí estão de novo, os Filipes, e termino este post citando "in latu sensus" a inspirada crónica que Cintra Torres fez na altura acerca da ( vergonhosa e subserviente) cobertura televisa das tv´s portuguesas aquando do casamento do D. Filipe de Espanha.

ccs disse...

eu não disse que a tvi não era da prisa. e continuo sem saber o que lhe diga sobre a história dos apelidos...lê mal.