sábado, janeiro 28, 2006

Amadeus


Embora não tenha visto, ontem, o filme, reviu-o, hoje, quando li este texto do João Gonçalves sobre Salieri, o compositor a quem Deus terá deixado apenas “o talento do fracasso”. É verdade que Salieri foi mais do que o filme o “pinta”. Mas não é por acaso que o filme vale pela forma como Salieri é "pintado". A personagem de Salieri mostra, não a loucura do génio, mas a loucura de um homem que se sente preterido por Deus. Um homem a quem foi dado o talento para reconhecer o génio sem ter recebido, em contrapartida, a “graça” que lhe permitiria alcançá-lo. A “mediocridade” de Salieri vem deste reconhecimento: dos seus limites, da sua impotência, da sua solidão perante a gratuitidade do génio. Só ele, a quem Deus, na sua infinita injustiça, deu o talento de saber “ouvir”, é capaz de compreender a genialidade de Mozart. O homem normal, o “ouvido” da corte, desconhece estes abismos da criação: o esforço inglório de Salieri e a imensa facilidade dos que, como Mozart, foram tocados pela "graça" divina. A revolta de Salieri, a sua loucura final, acompanhada pela música de Mozart (concerto para piano nº 20, se não me engano) mostra o imenso “talento do fracasso”, como diz o João, perante a “normalidade” dos homens e o génio inalcansável daqueles que foram eleitos. O Mozart de Forman, na sua exterior vulgaridade, é uma caricatura que serve apenas de contraponto à personagem de Salieri. Deus é injusto. Até naqueles que escolhe!

"Um pouco mais de sol – eu era brasa/Um pouco mais de azul – eu era além/Para atingir, faltou-me um golpe de asa…/Se ao menos eu permanecesse aquém…"
Quase, Mário de Sá-Carneiro
ccs

12 comentários:

Blogger disse...

Extraordinário texto.

Parabens.

Anónimo disse...

É um filme ímpar, e que como diz o João Gonçalves vale sobretudo pela densidade da personagem Salieri. Só tenho um ponto a fazer ao seu texto, cara CCS: "mediocridade" não me parece a palavra correcta a utilizar no contexto. Porque não se trata da constatação dum valor absoluto mas sim relativo (ao mestre que tanto admirava). O reconhecimento desses limites levaria, diria eu, a frustração, tristeza, malogro - mas não a "mediocridade". Sobretudo tendo nós em conta que, no filme, Salieri está perfeitamente (até à loucura?) consciente dessa sua inferioridade.

Tiago Mendes

ccs disse...

É essa consciência da sua inferioridade que ele toma como mediocridade - "o rei dos medíocres". Pq mozart e a sua génio se tornam para ele um valor absoluto. Ele sabe que é superior à mediania - até pq é o único que sabe reconhecer em Mozart esse carácter absoluto. é isso que torna a sua situação dramática. e é aí que está a injustiça de Deus. se ele não fosse superior à mediania, não seria capaz de reconhecer o génio de Mozart.
de qualquer forma, percebo o seu ponto Tiago. por isso é que coloquei a palavra entre aspas.

umblogguer
Muito obrigada pela suas palavras

Tiago Mendes disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Tiago Mendes disse...

Ok... acho que a percebo. Aliás, até imagino, agora que releio a passagem, e olhando a foto, esse discurso na primeira pessoa (e, consequentemente, sem aspas em qualquer palavra):

[Salieri divagando]

«A minha mediocridade vem deste reconhecimento: dos meus limites, da minha impotência, da minha solidão perante a gratuitidade do génio.»

ccs disse...

essa divagação...

Musicologo disse...

Redimiu-se a tempo! :D Um blogue não pode (ou não deve) ser só política ;) Talvez o meu pequeno remate tenha tido efeito...

AA disse...

Hum... Salieri era um compositor excepcional, é pena não ser mais conhecido. Mas o seu percurso foi atravessado pelo génio de Mozart, um verdadeiro emissário de outras dimensões...

Isabel Coutinho disse...

Melhor que o filme Amadeus, era a peça. Eu tive a sorte de a ver. O filme faz o que pode, mas depois de ver o original ... enfim ...

Por exemplo: na peça, Salieri não é um velho que conversa com um padre: vem constantemente à boca de cena e dirige-se directamente a Deus. O que tem uma força que o filme não lhe pode dar. Até porque acompanha todo o desenrolar dos acontecimentos, possibilitando-nos assistir ao "crescendo" da sua atitude em relação a Deus.
É magnífico!

Morgado Louro disse...

Vejo um erro em todo este texto, parece tomar o filme de Forman como Verdade Absoluta e Incontestável... propagação da calunia. A meu ver é um belíssimo filme onde a reflexão sobre a mediocridade e a inveja, onde o reconhecimento do génio vem acompanhado da impossibilidade de o gozar plenamente. Utiliza no entanto veículo para expressão as personagens erradas.

João Pedro disse...

Já tinha postado sobre o mesmo assunto aqui há tempos, embora sem contemplar o "talento único" de Salieri. voltei a recordá-lo agora, graças a este post e ao do Portugal dos Pequeninos.

Repórter Global disse...

Sou suspeito para falar de Amadeus por ser "o filme" para mim, a verdadeira essencia está na importância da obra para além de quem são: o que escreve, neste caso interpreta, e o que escuta, neste caso inveja. É na densidade e na profundidade dada à obra de arte em si que reside a grande inspiração do filme. Porque só a obra de arte é capaz de calar e aniquilar qualquer das miserias do espirito humano que incorporam os personagens. Talvez Deus não tenha sido injusto e tenha escrito por linhas tortas ao mostrar que é a coisa em si, e não o sujeito, que realmente importa que dura e perdura enquanto existir humanidade.