
Quem abre a televisão tem assistido dia a dia ao protesto geral contra a "racionalização" da rede escolar. Professores, pais, Juntas de Freguesia rebentam de indignação. O governo, Lisboa, a gente sem forma e figura humana que todo lo manda quer tirar ao bom povo a escola da aldeia e subtrair as criancinhas ao olho vigilante da família. Surpreendentemente, os manifestantes, quase sempre entre os 30 e os 40 anos, viveram toda a sua vida em democracia e assistiram, ou sofreram, a prodigiosa transformação do interior. Mas resistem à mudança, com um genuíno desespero, sem perceber que para os filhos uma escola com meia dúzia ou dúzia e meia de alunos, isolada e primitiva, só os pode prejudicar. Claro que o governo, como de costume, começou pelo fim, ou seja, começou a "racionalização" sem escolas modernas, que demonstrassem materialmente a superioridade do ensino e a diversidade da experiência de que os "transferidos" passariam a beneficiar. De qualquer maneira, é lógico supor que bastaria o alargamento do convívio, a especialização dos currículos e a maior competência dos professores para convencer os pais. Não bastou. A coisa foi vista como um insulto e uma imperdoável atropelo.
Sucedeu o mesmo com a "racionalização" da "rede de saúde". O ministério resolveu fechar umas dezenas ou centenas de "centros", que não serviam para nada ou quase nada e tinham um número ridículo de consultas, para concentrar e melhorar os meios de tratamento. Em princípio, esta pequena reforma parecia benéfica e urgente. Engano. Houve cenas de fúria, entre o melodrama e a violência, a que as Juntas de Freguesia também deram o seu autorizado contributo.
Políticos são políticos, estejam onde estejam, e quando chegou a vez delas, as Juntas por um pouco não morriam de raiva. Das 3.000 e tantas que existem por esse país fora, uma larga parte não é útil, nem justificável. Fundir as mais pequenas nas grandes traz vantagens de eficiência imediata e aumenta o poder negocial das que ficarem. Infelizmente, também aqui, não vale a pena argumentar. O bom povo quer ouvir. E porquê? Porque usa a Junta como posto médico, caixa de correio e pronto-socorro. Por causa da história, da tradição, da vizinhança. Numa palavra, por patriotismo. Por essa espécie patriotismo de paróquia que ainda em 1980 fazia com que as pessoas se matassem em nome da fronteira entre Vila Velha e Vila Meia.
Os retóricos da "inovação", de Cavaco a Sócrates, que se excitam com o Portugal da "Europa", do telemóvel e do computador, nunca medem bem o peso e a pertinácia do outro Portugal, do Portugal imóvel, arcaico, conservador, que detesta o governo como um inimigo e um ladrão e aspira principalmente a que o deixem em paz.
vpv
(publicado no Público)