sexta-feira, março 10, 2006

DESPEDIDA

Estes meses de blogue foram um prazer e, sobretudo, uma educação. Mas não temos tempo para o fazer como ele deveria ser feito. Em princípio, talvez pudéssemos meter mais gente. Só que, para nós, grande parte da graça estava em não haver mais gente. Fica assim uma única solução razoável: parar.
Paramos com pena. E agradecemos muito a toda a blogosfera a paciência e o interesse.
ccs e vpv

A EXCEPÇÃO DE JPP

Há uns tempos, Pacheco Pereira estabeleceu um conjuntinho solene de dez regras sobre os debates na blogosfera. Obviamente não se incluiu nelas. Pacheco Pereira nunca se inclui em nada: no PSD que o lançou, na Comunicação Social que domina, no sistema sobre o qual disserta. Talvez por isso pode gastar impunemente duas páginas da revista Sábado a dissertar sobre o “regresso” de Paulo Portas sem ter visto o programa com o qual este regressava – e sem ter ninguém, obviamente, a aplicar-lhe uma regra qualquer que exemplificasse a mediocridade do exercício. Confesso que não me apetece perder muito tempo nem com o tema nem com a pessoa: por razões que talvez a psicologia explique, Pacheco Pereira sempre teve uma obsessão doentia por Paulo Portas e por tudo o que lhe possa cheirar a “portismo”. Agora transformar o Acidental e a Atlântico (juntamente com o grupo parlamentar do CDS) nas “forças” de que Portas “dispõe” seria pura e simplesmente ridículo se não fosse esta desagradável mania “maoísta” de enfiar tudo no mesmo saco. As origens raramente se perdem!
A propósito, sou amiga de Paulo Portas desde os tempos d’ O Independente. Raramente estive de acordo com ele em matéria política. E não vou sequer tentar explicar por que é que a revista Atlântico não é o Caderno 3 d’ O Independente que, aliás, nos seus melhores tempos, foi dirigido por Miguel Esteves Cardoso.
ccs

UM EXERCÍCIO INÚTIL

cavacoposse
A posse do dr. Cavaco foi surpreendente. Parece que à medida que o regime se degrada, precisa crescentemente de esconder a sua fraqueza com pompa e circunstância. Mas neste caso também a pompa e circunstância serviram para anunciar outra coisa: a ideia de Cavaco sobre o que deve ser a Presidência. E, pelos vistos, deve ser um Presidência majestática. Nem Eanes, nem Soares, nem Sampaio entraram com um estrondo comparável. Se houve um "período de transição", e se calhar houve, ninguém deu por isso. Não veio de fora um cortejo de notabilidades com incenso e mirra. E a cerimónia, ela própria, teve uma certa e democrática pobreza. É a diferença entre quem se considerava um funcionário da República e quem, no fundo, se considera um soberano.
O discurso inaugural do Presidente não se distinguiu pela originalidade. Os "cinco desafios" (detestável calão), que apresentou ao parlamento, não passam de lugares-comuns, que por toda a parte toda a gente papagueia. Portugal precisa de um "crescimento mais forte"; o futuro depende da educação e da formação; a justiça está a pedir uma reforma drástica; é urgente tratar da segurança social; e não seria mau que os políticos se tornassem (por milagre?) muito virtuosos. Fora esta lista seca e peca, nem uma palavra em que o país sentisse o sopro de um novo espírito. Verdade que o dr. Cavaco exigiu "acção", mas que espécie de acção para que espécie de Portugal? Se ele sabe, não disse.
Infelizmente, não disse, porque não sabe. O dr. Cavaco não desembarcou ontem de Boliqueime e a cabeça dele não é um mistério. Nunca percebeu o país que governava e, hoje como ontem, sempre o quis transformar num "bom aluno" da Europa: sério, cumpridor e "moderno". Como? Aplicando, "com rigor", o "modelo" de Bruxelas: no fundo, o modelo clássico da "social-democracia", corrigido por algum "liberalismo" relutante e forçado. Não lhe ocorreu que esse "modelo" pudesse não servir à nossa velha cultura de isolamento e miséria, e à nossa classe "dirigente" irresponsável, oportunista e crassa. O resultado não se recomenda. Mas Cavaco não aprendeu nada no exílio. Volta disposto a repetir a dose, "em comum" com o governo, se o governo deixar. Ou seja, ponto a ponto, "medida" a "medida" vai tentar refazer o Portugal imaginário do seu tempo de glória. Um exercício inútil, como já se provou.
vpv
(publicado no jornal Público)

quinta-feira, março 09, 2006

O CARTÃO "X em UM"


O que se esperava e nos garantiam que não ia suceder, sucedeu. O eng. Sócrates, disse taxativamente que espera "uma concorrência" entre os serviços de Estado para incluir "novos dados" no cartão "cinco em um". Isto significa que o cartão "cinco em um" se vai transformar não tarda nada no cartão "sete em um", "quinze em um", "vinte em um" e por aí fora. Este assalto à privacidade parece entusiasmar o Primeiro-Ministro, porque simplifica e moderniza a burocracia. Também simplifica e moderniza os meios do governo andar com um olho em cada um de nós, ninguém pode saber hoje porquê ou para quê. Pior ainda: qualquer indivíduo com acesso ao cartão (um empregado de bancário, por exemplo, ou um contabilista de hospital) fica (se quiser) a conhecer a nossa vida inteira. Basta uma fotocópia.
Um pequeno pensamento, próprio do dia: se estivesse em Belém, o dr. Soares não permitia isto.
vpv

GOSTAVA DE SABER...

Como foi parar a assessor político do dr. Cavaco o mais puro representante do ultra-conservadorismo americano? Precisa o Presidente de um capelão, por assim dizer, "civil"? Está preocupado com a dissolução dos costumes? Quer defender a família? Proibir o divórcio? Aumentar a natalidade? Tem saudades de João César das Neves? Partindo do princípio, não muito audacioso, que o dr. Espada não é um discípulo secreto do Prof. Marcelo, o que vai ele fazer para Belém? Francamente, gostava de saber.
vpv

O DISCURSO DA POSSE

Cavaco Silva fez hoje o discurso que José Sócrates poderia ter feito há um ano quando foi nomeado primeiro-ministro.
ccs

terça-feira, março 07, 2006

A DIREITA


A direita, ou o que se faz passar por ela, está a transformar-se num clube cada vez mais restrito. Não se identifica com nenhum partido – porque todos os partidos, do CDS ao Bloco de Esquerda, têm uma atracção fatal pelo Estado. Não é dada ao exercício da cidadania, como Manuel Alegre que, apesar de tudo, ainda acolheu no seu movimento “transversal” meia dúzia de “patriotas” extraviados. E parece não ter, em todo o universo político, um único representante à altura dos seus elevados princípios. Cavaco Silva? Não serve. Marques Mendes? Não conta. António Borges? Uma hipótese sumida para quem goste de Manuela Ferreira Leite e não leve a sério a política. Agora, como se pode ver aqui, nem Paulo Portas se adapta às exigências do grupo: "não pode ser ele a fazer renascer a direita porque a direita dele já morreu". A direita, portanto, vai renascer estando viva (o que não deixa de ser curioso), sem ter ninguém que possa falar em seu nome. Vai ser duro o "renascimento"!
Entretanto, e por vias das dúvidas, convém não dar por garantida a morte de Paulo Portas. Que me lembre, assim de repente, ele já "morreu" dezenas de vezes.
ccs

VALE A PENA?

Às vezes, vale a pena repescar o que já se escreveu. Neste caso, o que se escreveu a 20 de Fevereiro quando o Governo "ensaiou" o aumento das taxas moderadoras:
Animado dos melhores propósitos o ministro da Saúde achou que tinha chegado a altura de brindar o país com uma luminosa evidência: se a despesa não parar de aumentar, os doentes vão ter, mais dia, menos dia, que começar a pagar a Saúde. Caiu-lhe o país em cima, é claro. Os partidos da oposição mostraram-se imediatamente dispostos a defender com a vida o Serviço Nacional de Saúde. E até o CDS, num acesso de entusiasmo, recorreu à Constituição (a mesma que o partido quer alterar) para recordar “a gratuitidade tendencial” do sistema. Tentando (em vão) acalmar os ânimos, o PS prestou-se aos esclarecimentos habituais, esclarecendo que a ideia do ministro (a existir alguma ideia) só se concretizaria num futuro longínquo, depois de esgotadas todas as possibilidades do sistema e de se realizarem todos os estudos possíveis. Tudo isto, presume-se, não passou de um “balão de ensaio” para testar a abertura da sociedade a eventuais alterações na Saúde. Infelizmente, pelo caminho, testa-se também o funcionamento dos partidos. Na oposição, o PS criticou asperamente o aumento das taxas moderadoras proposto pelo defunto Governo de Santana Lopes. Agora, no Governo, “descobre” a necessidade de um novo financiamento do sistema. No governo, PSD e CDS propuseram o aumento das taxas moderadoras. Agora, na oposição, agarram-se com unhas e dentes à gratuitidade do sistema e aos pergaminhos da Constituição. Vale a pena levá-los a sério?
ccs

segunda-feira, março 06, 2006

ONDE CHEGOU O PSD


O dr. Filipe Menezes não deixa de ter razão: o PSD está em vias de se transformar numa brincadeira de mau gosto. Ele, pela parte que lhe toca, faz o que pode e ameaça que se candidatará à liderança do partido, caso seja confrontado com “circunstâncias” que não lhe agradem. É natural que o dr. Menezes engula, pelos tempos mais próximos, o seu profundo desagrado por essas e por outras circunstâncias. Mas há que reconhecer que um “tabu” desta envergadura dá cabo da credibilidade de qualquer partido que se preze.
ccs

EM FAMÍLIA

Graças ao mesmo professor, também tive notas muito razoáveis a matemática. Um dias destes explico.
ccs

O DESENVOLVIMENTO

Já temos um “plano”. Já escolhemos outro "modelo". E até já fizemos uma visita de reconhecimento ao local. Agora só temos que nos transformar numa nova e próspera Finlândia – já que percebemos a tempo que não valia a pena aproximarmo-nos da Irlanda. E assim vamos queimando etapas. Até que o desenvolvimento chegue até nós por osmose.
ccs

domingo, março 05, 2006

REMOINHOS


A iminente chegada do dr. Cavaco a Belém, com pompa e circunstância, já começou a provocar remoinhos na política portuguesa. O dr. Paulo Portas, sempre esse homem fatal, se não vai refazer "O Independente", vai, pelo menos, fazer um programa de opinião na SIC, para (adivinhem) afirmar a direita contra o "bloco central" PS- PSD, desta vez representado por Cavaco e Sócrates. A inspiração é, naturalmente, Marcelo. Não, claro, o Marcelo semi-domesticado da RTP, o Marcelo da "missa dominical" da TVI, que tratava Sampaio e o governo com a superioridade e a paciência, um pouco forçada, de um velho professor. Mas Portas quer "mais recuo". Quer "doutrinar" e não necessariamente criticar. Como um estadista. Talvez dê resultado. Se a SIC não se "arrepender".
Outro remoinho muito visível do advento de Cavaco é a crescente paixão de Sócrates por empresários. Cavaco disse constantemente na campanha que a primeira preocupação dele seria ajudar, promover e proteger essa criatura mítica "o empresário moderno português", que um dia nos tirará das garras da miséria. Sócrates não perdeu tempo. Toda a propaganda oficial, de resto eficiente, o tenta tornar o novo taumaturgo da economia. Não há dia em que caia do céu um novo milagre: um investimento, um projecto, um acto justiceiro contra a burocracia do Estado. Sócrates sua confiança e borbulha de vontade política. Ainda anteontem foi à "Lactogal", uma fábrica de leite, mostrar o exemplo, gabar a tecnologia, exortar ao optimismo e à fé. E, melhor: exibir o seu "carinho" por uma queijaria e a sua esperança num futuro radioso para o vinho e o azeite e até para a "linha" essencial e salvífica da hortofruticultura. Com este zelo e com as deambulações de Marques Mendes pelo Algarve e o Vale do Ave, sobra alguma coisa para Cavaco? Que espécie de solicitude e de amor pode ele derramar sobre o "empresário moderno português" que o "empresário moderno português" não haja previamente recebido do governo e da oposição? Que privilégios, que vantagens pode ele oferecer, que o governo e a oposição não ofereçam? Que obstáculos pode remover, que o governo e a oposição não queiram arrasar?
Será curioso ver como Cavaco resiste à concorrência. Como será curioso ver se, do seu poleiro da SIC, Paulo Portas consegue impedir ou atenuar a unanimidade do "centrão", que por aí se prepara. Os remoinhos só agora começaram.
vpv
(publicado no jornal Público)

COSTUMES


O dr. Jorge Sampaio, antes de acabar o mandato, foi à Argélia prestar homenagem ao penúltimo Presidente da I República, Teixeira Gomes. Todos nós podemos, aliviadamente, repousar na certeza que o dr. Jorge Sampaio nunca leu os romances (em geral, autobiográficos) do escritor Teixeira Gomes. Mas mesmo um ingénuo devia perceber que a veneranda figura que se refugiou em Bougie (e não, por exemplo, em Nice) tinha razões de um peso particular. Em 1924, o norte de África, como Gide amorosamente descreveu, era o paraíso dos pedófilos. Teixeira Gomes queria rapazinhos. E, de quando em quando, virgens de 11,12 anos, para como ele disse, lhes "colher as primícias". Costumes.
vpv

UMA "SANTANETE"


A hipotética "dra." Clara Ferreira Alves (chegou com dificuldade ao actual 12º ano), crítica literária que leu (jura ela) "os clássicos", especialista do último escritor inglês com quem almoçou, autora de um romance anunciado em 1984 e nunca até agora publicado, dona de uma coluna ilegível (e bem escondida) na "revista" do Expresso, foi um dia arvorada directora da "Casa-Museu Fernando Pessoa" pela conhecida irresponsabilidade de Pedro Santana Lopes, de quem ela tinha sido uma entusiástica partidária. Daí em diante, a importantíssima Ferreira Alves e o "Pedro", como ela dizia, ficaram muito amigos. Tão amigos que a "dra." Clara apareceu um dia presuntiva directora do "Diário de Notícias", coisa que me levou a sair antes que ela entrasse. Felizmente, não entrou, porque teve medo de cair na rua entre o "Expresso" e o DN, com a reputação de uma "santanete" obediente. Agora, morto o seu patrono, não perde uma para o maltratar, supondo que demonstra "independência". Ontem, a propósito de um "Audi", que o homem comprou, despejou em cima da cabeça dele todo o lixo do mundo. Santana não aprendeu que a certa espécie de pessoas não se fazem favores.
Se a "dra." Clara me quiser responder, sugiro que me responda em inglês e não meta na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo. Muito obrigado.
vpv

sábado, março 04, 2006

NÃO FUI FEITO PARA ISTO

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Chateaubriand dizia que, se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo que não se conhece e de que não se gosta. O mundo dele, entre 1815 e 1830, apesar de tudo, não mudou muito. O meu mudou para lá de qualquer possibilidade de reconhecimento. Já sei que vou dar um exemplo ridiculamente banal, mas no fim do dia, quando me levanto da secretária e ligo a televisão, tenho sempre o mesmo choque. Não há nada que, para mim, seja "normal". O fait divers, a política do sound-byte, o soft-core, as perseguições de carro, os peritos de coisíssima nenhuma não fazem parte da civilização em que nasci. Numa parte remota da minha cabeça, admito que devia aprovar a ignorância e a vulgaridade democrática. Infelizmente, não sou capaz. Desisto e leio. De facto, cada vez mais releio os livros de antigamente, suponho que à procura de um pequeno canto de sossego e sanidade.
O Estado também aflige. Por favor, não tomem isto como propaganda política. Imaginem o Estado durante Salazar e Caetano. Existia a PIDE e a censura: e mil tiranetes por aqui e por ali. Não vale a pena repetir o óbvio. Em compensação, o Estado não queria mandar na vida de ninguém. Não proibia que se fumasse. Deixava o trânsito largamente entregue a si próprio. Não andava obcecado com a saúde e a segurança. Não regulava, não fiscalizava, não espremia o imposto até ao último tostão. Um indivíduo, pelo menos da classe média, passava anos sem encontrar o Estado: em Portugal, em Inglaterra, em Itália, na Europa. Acreditam que nunca voltei a sentir o espaço e a liberdade desse tempo?
Estou a "sentimentalizar", a "idealizar" uma realidade, no fundo, horrível? Não me parece. Escrever, por exemplo. Quando comecei a escrever, escrevia. Sob o peso da Ditadura, claro, e sob a pressão do conformismo marxista. De qualquer maneira, escrevia desprevenidamente. Agora, escrever é uma variante de pisar ovos. Os mestres do "correcto" vigiam, como nunca vigiaram os coronéis de Salazar. Até a sociedade portuguesa de repente acordou puritana. Cada cidadão, cada medíocre, cada engraçadinho pode esconder um polícia. Pior ainda: um delator e um explorador do escândalo. Os grandes crimes (como de resto os pequenos delitos) contra o corpo ou qualquer espécie de igualdade não se toleram, nem se desculpam. E, entretanto, o indivíduo morreu. Não fui feito para isto.
vpv
(publicado no jornal Público)

sexta-feira, março 03, 2006

UM RETRATO


Já se sabia que Freitas do Amaral “compreendia” a violência suscitada pela "licenciosidade" do Ocidente e pelas ofensas da "extrema-direita". Ontem mesmo, na Assembleia da República, o ministro dos Negócios Estrangeiros achou por bem insistir na tese (e no futebol como instrumento de aproximação entre os povos) confirmando, com exuberância de pormenores, todas as críticas que lhe têm tem sido feitas. Não valeria a pena sequer voltar ao assunto, se Freitas do Amaral não estivesse em vias de transformar a política externa portuguesa numa graça de mau gosto. Infelizmente, o primeiro-ministro deve, também ele, considerar esta história dos cartoons uma "questão menor" que já deu o que tinha a dar. Com sorte, e com a posse de Cavaco Silva, pelo meio, já ninguém volta ao assunto: as polémicas não são eternas e os erros, como se sabe, desaparecem miraculosamente com elas.
Mas, com cartoons ou sem eles, o eng. Sócrates tem, no seu ministro dos Negócios Estrangeiros, um problema difícil de resolver. Nesse aspecto o debate foi esclarecedor e deixou para a posteridade (se a posteridade se vier a incomodar com estas coisas) o retrato exacto de um político movido pelo ressentimento e pela incompreensível opinião que tem de si mesmo. Freitas do Amaral visto por Freitas do Amaral é o combatente pela liberdade que dá lições de democracia a quem andava de cueiros, na altura, em que ele, como bom discípulo de Marcello Caetano, se especializava em Direito Administrativo e dirigia a Acção Académica (esse covil de revolucionários!); é o político que fala “grosso” com os ingleses obrigando-os finalmente a apresentar resultados depois do seu intolerável desleixo; é o líder renegado de um partido que se acha muito acima do partido que ele próprio abandonou quando lhe convinha; é o ministro que, com a sua superior qualidade, reforça o peso de um Governo de ilustres desconhecidos; é o eterno candidato à Presidência da República, capaz dos mais inesperados amuos e das mais improváveis ofensas. Ciente da sua importância e das muitas injustiças da história, Freitas do Amaral é o que sempre foi: um produto reciclado do Estado Novo, com o seu formalismo desajustado, as suas pequenas vaidades e as suas ilusórias hierarquias. Em tempos, referindo-se a Freitas do Amaral e às suas afinidades com o mestre, alguém dizia, a propósito destes desajustes do ego: “Marcello Caetano nunca percebeu por que é que o nome dele não aparecia na Bíblia”. Freitas do Amaral nunca há-de perceber por que é que o nome dele não aparece na história. E Sócrates, mais tarde ou mais cedo, vai acabar por perceber isto.
ccs

O DIREITO À BLASFÉMIA


Pena que os jornais não tenham publicado o texto completo da última homilia do cardeal-patriarca de Lisboa. As coisas que ele disse são importantes para perceber o Papa Bento e, em si próprias, merecem discussão. Para começar pelo princípio lógico, é bom notar que o cardeal Policarpo avisou (preveniu? ameaçou?) aqueles de nós que sofrem da inominável fraqueza de ser ateus. Segundo ele, a nossa "dificuldade (reparem na palavra) em acreditar em Deus não toca na insofismável realidade de Deus" e, por isso, é nosso dever "respeitar a fé": "o respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão, mesmo em nome da liberdade". O sr. cardeal, que manifestamente não pratica a tolerância que reclama ao próximo, não admite (e suponho que gostaria de eliminar) o "direito à blasfémia".

Sem esse direito, claro, não existiria grande parte da literatura e do pensamento português. Não que esse pormenor interesse hoje alguém, Mas não se percebe, por exemplo, que Sua Eminência não peça ao Estado a supressão imediata de Eça de Queiroz (em particular, de "A Relíquia"), de Ramalho (pelo menos, do primeiro Ramalho), de Guerra Junqueiro, de Gomes Leal, de certo Herculano, de Sérgio e, já agora, de grande parte da imprensa e do "Diário da Câmara dos Senhores Deputados" de 1821 a 1926. Uma boa limpeza viria a propósito. Como viria a propósito uma censura eclesiástica para meter na ordem o jornalismo contemporâneo.

Infelizmente, fora estas ridicularias, sucede que a homilia de D. José levanta um problema de fundo: a exegese bíblica é ou não é blasfematória? Que o dr. César das Neves pense que sim, não importa muito. Que o Patriarca de Lisboa pense que sim, indica com certeza um caminho novo da Igreja. Toda a gente sabe que o Cardeal Ratzinger começou a sua ascensão no Concílio Vaticano II, condenando a ideia da "suficiência material" da Bíblia em matéria de fé. Ratzinger temia que essa ideia erigisse a exegese em suprema autoridade da Igreja e que "acreditar" se viesse a tornar uma vulgar "opinião". Hoje ainda, e já Papa, considera que a "suficiência material" está na origem do "drama da era post-conciliar". É neste quadro que as palavras do sr. D. José sobre a blasfémia adquirem um especial significado, pela simples razão de que a exegese bíblica, como ele não ignora, acaba sempre por ser blasfematória.

Que sugere, portanto, o cardeal-patriarca? A exegese bíblica, mais do que qualquer outra coisa, criou a civilização secular do Ocidente. Chegou agora a altura de a proibir ou de a perseguir? Não era mau que Sua Eminência se explicasse.
vpv
(publicado no jornal "Público")

quinta-feira, março 02, 2006

UM DESEJO

O dr. Freitas do Amaral disse que foi um grande defensor da liberdade e da democracia. Com certeza que se enganou. O dr. Freitas do Amaral queria talvez dizer que gostava de ter sido um grande defensor da liberdade e da democracia. É um velho desejo que não se lhe pode levar a mal.
vpv

O CÍRCULO VICIOSO (II)

O reitor da Universidade de Coimbra declarou que Portugal está a perder uma "oportunidade de ouro" para reformar o ensino superior de acordo com a Declaração de Bolonha e pede a intervenção expeditiva do Estado. Ora o Estado parece relutante, porque a Universidade é autónoma. A autonomia garante que a Universidade (em sentido lato) continuará a ser governada no interesse de corporações, grupos de pressão e camarilhas várias, mas ninguém quer tocar nesse valor "sagrado" e, de resto, o Estado hoje tem má fama. De maneira que, como nunca nenhuma Universidade se reformou a si própria, nada vai mudar. Perfeito.
vpv

quarta-feira, março 01, 2006

UMA CONFISSÃO

Em Inglaterra, pais, empresas e grupos religiosos vão poder gerir as escolas públicas. Por proposta do Partido Trabalhista. Isto é a confissão do fracasso de uma geração de "educadores" (em Portugal, gente como Veiga Simão, Roberto Carneiro, Marçal Grilo e por aí fora). Em primeiro lugar, o ensino do Estado, de que se esperava a famosa "igualdade de oportunidades", é uma terrível fonte de desigualdade: as escolas são melhores ou piores, conforme os bairros são ricos ou são pobres. Em segundo lugar, a qualidade média do ensino desceu de tal maneira que ir ou não ir à escola se começa a tornar indiferente. Para salvar a Inglaterra da iliteracia (ou mesmo da "idiotia funcional"), Tony Blair tem agora de reinventar uma espécie de ensino "privado".
Quando os governos ou os partidos portugueses nos buzinam aos ouvidos que a educação (ou a "formação") nos vai salvar e nos propõem mais uma reforma para finalmente melhorar as escolas, seria bom que nos lembrássemos do erro histórico que hoje está à vista.
vpv

terça-feira, fevereiro 28, 2006

O CÍRCULO VICIOSO

De 2001 a 2005, o Estado empregou 121.000 funcionários, ou seja, pouco menos de metade da população activa que chegou ao mercado de trabalho (325.000). Estes novos funcionários são com certeza gente qualificada ou semi-qualificada (pelo menos com o 12ºano). O Estado continua assim, como desde o princípio do liberalismo, a criar e a sustentar a classe média. No fundo, pouco o separa de um Estado "socialista". Quem quiser perceber algumas das "doenças" típicas da sociedade portuguesa, do fracasso do crescimento à corrupção dos partidos, não precisa de ir mais longe. O círculo vicioso é, aliás, completo: nenhuma reforma essencial se fará contra a vontade da classe média e a classe média não se vai suicidar a benefício da Pátria.
vpv

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

CHOQUES

manifpaquistão
O Islão, na sua secular teimosia, não respeita a liberdade de expressão? O Ocidente não só compreende como se deslumbra perante a justa indignação de uma religião ofendida. A simples ideia de que há gente no mundo capaz de queimar bandeiras, de perseguir pessoas e de destruir embaixadas em defesa dos seus símbolos sagrados atrai qualquer descrente “civilizado”. O sagrado é um dom do Outro numa sociedade laica que não suporta as suas próprias origens. A exibição pública de um crucifixo, esquecido numa escola do interior, dá azo a luxuriantes cruzadas: de repente e à conta do crucifixo surgem laicos exacerbados, defensores intransigentes da separação entre a Igreja e o Estado, a espumar de indignação, nos cantos mais improváveis. A referência ao cristianismo no preâmbulo da finada constituição europeia foi pudicamente retirada a bem dos costumes e do respeito pelos princípios. Um padre católico, do alto do seu pequeno púlpito, é rapidamente trucidado pelas forças vivas da sociedade ao mais leve delito de opinião. A Igreja Católica imiscui-se excessivamente na vida dos homens. Mas a fúria do Islão, com a sua fé demente e o seu fanatismo impensável, merece todo o respeito. E a mais justa compreensão. Fala-se em choque de civilizações. Mas o choque está dentro de nós.
ccs
(publicado na revista Atlântico)

AS MULHERES E A POLÍTICA

vanity. charles allen gilbert
A revista do Expresso trazia, há uns tempos, um vasto artigo sobre as mulheres e a política. O tema é recorrente: sempre que por esse mundo fora aparece uma mulher sentada num cargo político, olha-se o país, com ar crítico, e vai-se conversar com Maria de Belém, Leonor Beleza ou Manuela Ferreira Leite. Segue-se a lenga-lenga do costume sobre as quotas e a política no feminino. Manuela Ferreira Leite faz política no feminino? Ninguém diria e a verdade é que ninguém o diz. De acordo com a cartilha oficial, a firmeza e o rigor são exclusivos masculinos. Uma mulher, para ser fiel à natureza, deve apresentar-se com ar dócil e dialogante, exibir uma apurada sensibilidade social e revelar uma notória falta de temperamento para exercer, de forma eficaz, o poder. Mandar é um verbo que não se conjuga no feminino. As mulheres mandam, como algumas delas confessam, apenas porque têm que se impor num “universo masculino”, com regras definidas por homens e carreiras que não se coadunam com filhos. Não fosse isso e elas seriam de uma simpatia asfixiante e de uma irreprimível bondade. Nunca apareceu nenhuma assim. E as poucas que por aí andam não se notabilizam pela bondade ou pelos seus rasgos de simpatia. Mas, segundo a tese corrente, a política tem sexo. E esta tese é mais forte que a realidade.
ccs
(publicada na revista Atlântico)

O INSURGENTE

Muitos parabéns a O Insurgente que faz hoje um ano.

UM DIREITO PORTUGUÊS

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A etimologia da palavra Carnaval é o latim "carne, vale" ou "adeus, carne". Por outras palavras, no Carnaval servia originalmente para os cristãos se despedirem da carne, antes da Quaresma. Carne, no sentido lato: da bebida, da comida e do sexo. Não conheço bem a evolução da festa, mas suponho que as pessoas se mascaravam para, pelo menos simbolicamente, não envolver a sua face normal e virtuosa em excessos de que se envergonhavam. A pouco e pouco, primeiro por influência dos Jesuítas (principalmente no sul de Itália) e depois por causa do geral enfraquecimento do "ethos" cristão, o Carnaval desapareceu ou, perdido o seu sentido original, acabou por se transformar em três dias de grosseria autorizada, supostamente humorística, que só servia para incomodar o público.

As descrições do Carnaval de Lisboa até ao Salazarismo metem dó. Nas ruas, bandos com fama de "elegância" e "estroina" atacavam transeuntes com "bombas de cheiro" e ovos podres. Das janelas, meninas sirigaitas despejavam penicos de urina. Miúdos penduravam rabos de papel e a gente crescida, em privado, expelia graciosamente gazes. Felizmente, a polícia da Ditadura suprimiu estas manifestações. Quando cheguei à adolescência, por volta de 1950, o Carnaval mudara. Havia "estalinhos", serpentinas, bisnagas de água com que se borrifava o próximo (sempre em risco de um estalo) e praticamente mais nada. Os mais velhos (entre os 15 e os 18, 19 anos) também "assaltavam" a casa de gente conhecida, para dançar e conversar, sempre, como é óbvio, a convite do "assaltado".

Com o tempo, do Carnaval só ficaram três dias de férias, que a tolerância portuguesa alargou a quatro e até a cinco (contando com 6ªfeira à tarde e a quarta-feira de cinzas). Na Madeira, no Algarve e numa dúzia de sítios na província ainda se tenta ressuscitar a tradição (invariavelmente imitando o Rio), com o propósito prático e honesto de atrair turismo e ganhar uns cêntimos. Duvido que os "foliões", como dantes se dizia, se divirtam. De qualquer maneira, não prescindem do seu sagrado direito a não trabalhar. Já ninguém macera a "carne" na Quaresma ou em qualquer outra ocasião. Já quase ninguém sabe o que a Quaresma é. Desgraçadamente, a derrota de Cavaco, quando tentou reduzir o Carnaval à terça-feira (um gesto patriótico), estabeleceu um direito em que tão cedo o Estado não se atreverá a tocar. Este fim-de-semana o país parou e muitos milhares de portugueses, que a crise alegadamente esmaga, foram passear. A crédito, claro.
vpv
(publicado no jornal Público)

CONTROLAR



A busca feita ao 24 Horas tinha, pelo menos, a vantagem de um mandado judicial. A nova "Entidade Reguladora para a Comunicação Social" dispensa este tipo de formalismos. Os novos “reguladores”, equiparados “a agentes da autoridade”, podem, de acordo com a lei, “aceder às instalações, equipamentos e serviços” das entidades que estão sujeitas à sua regulação e "requisitar documentos para análise e requerer informações escritas". Ou seja, a partir de agora, qualquer Redacção está sujeita a uma busca como a que foi feita ao 24 Horas com a diferença que, a partir de agora, os novos “reguladores” não necessitam sequer de um mandado judicial.
Paralelamente, as alterações ao Código Penal prevêem a instituição de um novo crime para jornalistas. Não o crime de violação do segredo de justiça mas “o crime de perigo”, um crime que se aplica a quem possa pôr em causa a investigação criminal e que é suficientemente ambíguo para, em nome da investigação criminal, pôr em causa a investigação jornalística. Como, à partida, todas as informações publicadas podem pôr em causa uma investigação criminal que se encontra em segredo de Justiça, só há uma forma do jornalista escapar à ambiguidade do “crime de perigo”: não publicar nada sobre nenhuma investigação em curso, abdicando da sua própria investigação.
O Governo, com o apoio explícito do PS (e o beneplácito de outros partidos) avança, assim, serenamente, com o maior ataque que alguma vez foi feito à liberdade de imprensa. Perante a gravidade do que está em causa, não deixa de ser estranha a mansa indignação com que estas medidas têm sido recebidas. Seria de esperar que Jorge Sampaio, que tão prestimosamente recebeu Marcelo Rebelo de Sousa, em Belém, quando este saiu da TVI, tivesse denunciado, agora, este claro atentado a um princípio essencial à democracia. Vamos ver o que fará Cavaco Silva. Mas independentemente disso seria ainda melhor ver o que vamos fazer nós – e quando digo “nós” não estou a referir-me apenas aos jornalistas.
ccs
Ler:
Francisco José Viegas, Origem das Espécies
Rui Costa Pinto, Mais Actual
Pedro F., Contra Factos&Argumentos
Francisco Trigo Abreu, Mau Tempo no Canil
Mário Bettencourt Resendes, Diário de Notícias
Editorial, Diário de Notícias

domingo, fevereiro 26, 2006

REPRESENTATIVIDADE

deserto

Dos 150 militantes da concelhia de Fafe do PSD, só votaram 11, que elegeram Marques Mendes, claro, e mais dois delegados. É imaginável pior?

vpv

NOMEAÇÕES DE CAVACO

O dr. Cavaco nomeou para Presidência da República a colecção mais parda de burocratas, que o país viu desde 1930. Para o Cavaco que nós conhecemos, nenhuma surpresa. Para um "salvador da Pátria", um sinal inquietante. Ainda falta o principal: assessores políticos. Mas não me parece que venham a destoar muito do resto. Para parafrasear um dito célebre, "Cavaco é um doido que julga que é Cavaco": não quer agentes de intervenção política, quer uma corte rastejante e obrigada. Espero que ele se divirta.
vpv

PORQUÊ, MARCELO?

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O "share" de Marcelo Rebelo de Sousa desceu de 32,3 por cento na TVI para 24,6 por cento na RTP. E não foi só o "share" que desceu, desceu a influência, desceu a graça, desceu o prazer. Quando Marcelo foi corrido da TVI, fui um "fan" zeloso, que protestou, gritou, rangeu os dentes. Mas parece que ele se perturbou menos com a coisa do que eu. Agora diz tranquilamente: “na TVI o show era meu" e na RTP o show "é mais rígido e limitativo". Mas, de qualquer maneira, ele acha "melhor aquilo" do que nada. "Na vida", explica ele, "convivemos muitas vezes com o possível". Erro crasso. Se não me engano, José Augusto-França um dia disse: "A maldição dos portugueses não está em que quem tem um olho é rei. Está em que muita gente tira um olho para ser rei". Marcelo tirou um olho para continuar "rei"; e até aceitou a "parceria" com António Vitorino, que não vale uma unha do pé dele. Por que raio Marcelo, o único comentador de génio da televisão, não esperou? Porquê? Ele que se explique. Como deve.
vpv

sábado, fevereiro 25, 2006

CRIMES DE ÓDIO (II)

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Matar um homossexual porque é homossexual, repito, não é o mesmo do que matar um vizinho ou o guarda de um banco. Mas, torno a repetir, na realidade não parece fácil estabelecer a homofobia como motivo único, principal ou até relevante. Basta pensar no caso do Porto. Alegadamente, 11 crianças resolveram agredir e matar um travesti. por ser um travesti ou por ser uma criatura fraca e indefesa, como o seriam, por exemplo, outra criança, um velho, uma prostituta, um deficiente, um sem-abrigo? Não vale a pena dissertar sobre a crueldade da infância e da adolescência. Ainda em 1950-60, vi torturar diariamente, e com assombrosa crueldade, o "maluquinho" (e o bêbado) de uma aldeia (a 15 quilómetros de Sintra), por crianças que não o liquidavam, imagino, para não acabar com o "jogo". O "crime de ódio" em larga escala (como há pouco tempo a perseguição e o espancamento de negros no Bairro Alto) tem uma clareza que o crime "individual" não tem. A lei não os pode confundir, nem lhes deve dar um tratamento igual. Misturar tudo, não.
vpv

A "MODERNIZAÇÃO" DA MORTE

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A Câmara Municipal de Lisboa resolveu fazer um leilão de jazigos do cemitério do Alto de S. João e do cemitério dos Prazeres e ainda de terrenos já "loteados" para novos jazigos no do Alto de S. João. A Câmara chama aos cemitérios, muito apropriadamente, "urbanizações funerárias". Perto de 50 pessoas foram ao leilão e o metro quadrado chegou aos 8.375 euros (num caso especialíssimo) e não desceu abaixo de 2.500, mesmo na categoria inferior de "ossários-columbários". Nada mau, se considerarmos que o valor médio do metro quadrado em habitação para vivos, na Área Metropolitana de Lisboa, é de 1500. Para seu gozo neste tempo de austeridade, a Câmara encaixou mais de meio milhão, apesar de não ter vendido tudo. Este amor pelos fiéis defuntos não deixa de ser estranho em 2006.

O jazigo é, por excelência, um monumento da sociedade burguesa. O estilo varia, como é sabido: neo-gótico, neo-clássico, neo-romântico, "Raul Lino" e por aí fora. Mas nunca varia a intenção: a de homenagear e perpetuar um homem venerável (ou mais raramente uma mulher) e uma família. A propriedade de um jazigo nos Prazeres, ou no Prado do Repouso do Porto, era um símbolo indispensável de ascensão social. Muita gente ambicionava a grande honra de um jazigo próprio e trabalhava a vida inteira para o vir a ter: com brasão, se possível, ou, pelo menos, com estatuária alegórica às virtudes que o haviam outrora ornamentado - a Fidelidade, a Caridade, a Justiça, a Fé. A vala comum para os muito pobres, sem nome ou distinção, e a campa rasa para a pequena-burguesia conservavam na morte a hierarquia do mundo.

Ontem, o leilão da Câmara interessou os jornais de Lisboa, porque o jazigo é um anacronismo. Ninguém seriamente acredita na imortalidade da alma ou na ressurreição da carne. A família, como coisa perene, desapareceu. O igualitarismo não percebe ou aceita o valor da superioridade que dura e se transmite. E toda a gente, obcecada pela saúde e a juventude do corpo, esconde e nega a morte. A morte, degradada em incidente hospitalar, para comodidade do próximo, é quase invisível. Os mortos, que atrapalham e deprimem, são expeditivamente despachados para o primeiro incinerador. A Câmara abriu um "núcleo museológico" nos Prazeres. Qualquer dia, nos Prazeres só há o "núcleo", não há o cemitério. A morte também se "modernizou" e o leilão de jazigos pertence ao Portugal que nós perdemos. É uma pena.
vpv
(publicado no jornal Público)

CARNAVAL


Ao contrário do Natal, que nunca consegui eliminar do meu calendário, só dou pelo Carnaval se ligar a televisão e vir um cortejo pindérico, a tiritar de frio, com biquinis e sambas, como se estivesse no Rio, debaixo de um imenso sol. Como não ligo a televisão, poupo-me a estas tristes exibições. Mas, hoje, com o tempo que está, talvez abra uma pequena excepção. Deve valer a pena ver os efeitos do mau tempo no nosso Carnaval que é, apesar do que se costuma dizer, uma das manifestações mais genuínas de Portugal.
ccs
(actualização)
Ler:
Francisco José Viegas, Há exactamente um ano, no Avis

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

MISÉRIA NACIONAL

Os jogadores convocados para a selecção nacional jogam nos clubes seguintes:

Sporting -2

Benfica -2

F.C. Porto-1

Chelsea -2

Estugarda-1

Desportivo da Corunha-1

Valência-1

Everton-1

Barcelona-1

Dínamo de Moscovo-1

Lyon-1

Manchester United-1

Paris Saint-Germain-1

Saint-Étienne-1

Inter de Milão-1

Entre os cinco portugueses, estão os dois guarda-redes.
Isto não é a selecção nacional é o retrato da miséria nacional.
vpv

QUEIMAR UMA BANDEIRA

O governo da Dinamarca resolveu:
1. Organizar uma conferência para promover o "diálogo religioso";
2. Dar uma "contribuição significativa" para o programa "Aliança de Civilizações" da ONU, que se destina a desfazer "preconceitos" do Ocidente sobre o Islão e do Islão sobre o Ocidente;
3. Organizar um festival muçulmano em Copenhaga.
Agora, confesso, é que dá vontade de queimar uma bandeirinha da Dinamarca.
vpv

A GUERRA CIVIL NO IRAQUE

iraque
A destruição da Mesquita Dourada de Samarra, o santuário xiita, onde está o mausoléu do décimo imã, Ali al-Hadi, e do décimo primeiro imã, Hassan al-Askari, o avô e o pai do "imã escondido", que voltará no fim do mundo, para restabelecer a justiça, prova que não haverá paz no Iraque. A guerra civil a que os peritos têm chamado "guerra de baixa intensidade", um eufemismo particularmente obsceno, passará pouco a pouco a uma "intensidade" sem qualificação, apesar do exército americano e da fantasia e de um governo "unitário" e de um parlamento "eleito". A experiência de nation building, que excedeu em cegueira e arrogância, qualquer precedente histórico moderno, acabou de vez. Mas não acabou ainda o efeito que vai ter sobre o Ocidente.
A América está metida, ou se quiserem ele própria se meteu, num beco sem saída. Não pode "pacificar", um "país", dividido por uma querela religiosa de um milénio e meio (já para não falar em divisões de etnia e de tribo), mesmo que aumente o número de tropas no terreno para um milhão ou mais (coisa que os militares insistentemente recomendam e que nem Bush se atreve a propor). Não pode escolher e apoiar um lado, no caso a maioria xiita, sem perder para sempre o Islão sunita (incluindo um aliado indispensável como a Arábia de Saud), perturbar catastroficamente o equilíbrio regional e, em última análise, entregar o Médio Oriente à hegemonia do Irão. E não pode, quanto mais não seja por razões de política doméstica e prestígio internacional, conservar indefinidamente cento e tal mil homens no Iraque, sem espécie de missão compreensível, no meio de um sarilho que não lhes diz respeito.
Infelizmente, inventar uma desculpa e fazer as malas também não é hoje uma solução. Se a América saísse do Iraque a guerra civil muito provavelmente alastraria aos territórios vizinhos, com consequências catastróficas para o Ocidente e para o mundo inteiro. Não há sequer a possibilidade de uma retirada parcial, que isole o Iraque do exterior e limite o conflito a fronteiras defensáveis. Bush criou um problema irresolúvel e, pior do que isso, incontrolável. E, como parte da "Europa" se comprometeu no exercício ou não tem força e resolução para intervir, o Ocidente ficou sem um único recurso eficaz, diplomático ou militar, e na iminência de uma derrota total. A bomba do Irão e a campanha contra os cartoons foram, de resto, o anúncio muito claro dessa nova realidade.
vpv
(publicado no Público)

O ESFORÇO


Afinal parece que a “digestão” dos resultados eleitorais, no PS, está a ser mais difícil do que Sócrates nos quis fazer crer. Na sua primeira entrevista depois das eleições, Manuel Alegre disse que era “tratado como um inimigo” pelo PS. E lá veio mais uma vez com a velha história de Churchill que explicava que os inimigos se encontravam na sua própria bancada e não na dos seus adversários. A mesma história com que abrilhantou toda a sua campanha presidencial. No que toca ao PS, Churchill transformou-se na grande referência de Alegre: fala-se do PS, Alegre responde com Churchill, reduzindo o PS a um desprezível grupo de pequenas intrigas. Ele e Churchill, claro! é que sabem os inimigos com que se cosem. Tentando desfazer este desagradável equívoco, o PS e Vitalino Canas explicaram às hostes que Manuel Alegre não tinha razões de queixa: o partido, segundo dizem, está a fazer um “esforço grande e a todos os níveis para receber de novo o deputado Manuel Alegre”. Um esforço violento ao que parece!
ccs

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A LUSA E OS NEGÓCIOS

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O Bloco de Esquerda (nem sempre inútil) chamou a atenção pública para uma história interessante. Na altura em que Sampaio oscilava ainda entre nomear Santana e convocar eleições, dois jornalistas da Lusa entrevistaram sobre o assunto Miguel Horta e Costa (PT), António Mota (Mota-Engil), Horácio Roque (Banif), José Maria Ricciardi (BESI), Jorge Armindo (Semapa) e Diogo Vaz Guedes (Somague). Todos se pronunciaram contra eleições. Por outras palavras, todos queriam de Santana Lopes. No mesmo dia a Lusa também teve miraculosamente "acesso" a uma carta de Américo Amorim e de Ilídio Pinho ao Presidente da República, que pedia o poder para o dito Santana. O remate desta pressão insolente e aberta foi uma notícia, com o título: "Governo: empresários contra eleições".
Daqui só se pode concluir o seguinte: primeiro, a estupidez do capitalismo indígena é, de facto, insondável; segundo, a Lusa, que o Estado tutela, devia ser inteira e imediatamente "privatizada". Estou a ver a objecção: ir de mal em mal não adianta muito. Concordo. Mas, pelo menos, resta a consolação de que um privado paga certas misérias do seu próprio bolso e não faz propaganda em nosso nome.
vpv

DESCULPAS DE MAU FREITAS


Diogo Freitas do Amaral veio agora ao Público dizer que não disse o que disse e não escreveu o que escreveu. Tudo o que nós julgávamos que ele tinha dito e escrito foram deturpações da má-fé e citações fora de contexto. Não vale a pena contestar ponto a ponto esta patética tentativa de auto-reabilitação, que abundantemente exibe a mesma obtusidade e a mesma insensatez das reacções do ministro. Todos nós percebemos que Freitas não queira ser corrido. Ele, pelo menos, devia perceber que só se justifica, e ainda por cima neste tom rasteiro e choramingas, quem precisa muito de justificação.
vpv

O NOVO ESTILO


Neste último ano, o país não mudou: os principais problemas continuam por resolver e as chamadas reformas estruturais continuam à espera de melhores dias. Em contrapartida, surgiram as pequenas medidas que compõem o “novo estilo” da “nova maioria”. O “estilo”, como foi abundantemente referido, depois da sua vitória nas legislativas, é a principal arma do eng. Sócrates. O “estilo” é tudo: apaga “episódios” consecutivos, define políticas, apresenta “planos” e disfarça o desemprego, a despesa pública, o aumento dos impostos, o ministro dos Negócios Estrangeiros e tudo o mais que cheire a sarilho. A semana passada demitiu-se o presidente do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. Nove dias depois de ter tomado posse. Umas horas mais tarde, mostrando a extraordinária capacidade de resposta do governo, tomava posse o seu substituto. A partir daí, nunca mais ninguém ouviu falar do caso. Ainda hoje, não se conhecem as razões que levaram este amável senhor a bater inopinadamente com a porta. Num processo semelhante, o “plano tecnológico” acabou por aterrar nas mãos de Carlos Zorrinho, um indefectível socialista que tem, pelo menos, o mérito de não decepcionar socialistas. O “plano” para todos os efeitos é também um produto do “novo estilo”: as pessoas não vêem as suas vantagens mas acreditam na propaganda da Microsoft e na fortuna de Bill Gates; e acreditam num governo que consegue trazer até cá uma “estrela” mundial que se deixa fotografar ao lado do primeiro-ministro. Entretanto, entre medidas contra a burocracia e anúncios avulsos de outras medidas, o desemprego atinge níveis nunca vistos e Bruxelas desfaz as ilusões sobre o défice. O que nos vale é “o novo estilo”. E esperar que ele nunca deixe de ser "novo".
ccs

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

ANÓNIMOS

Confesso que não percebo a polémica à volta dos anónimos. Se calhar, por andar nisto há pouco tempo, dou pouca importância as essas subtilezas da blogosfera. Na maior parte dos casos, não distingo um anónimo de um ser frontal (e desconhecido) que assina com as suas iniciais: tanto um como outro valem (ou não) pelo que escrevem e pela forma como o conseguem escrever. O resto, salvo algumas excepções, são pormenores com que não costumo perder muito tempo. De qualquer forma, já ando nisto há tempo suficiente, para perceber que há anónimos e anónimos: há anónimos respeitáveis que são recomendados; e há anónimos desprezíveis que pura e simplesmente são insultados. Pelo que me é dado a ver, a caracterização do anónimo não depende do anonimato: depende das opiniões que emite e dos círculos que frequenta. O que mostra que o anonimato é apenas uma ficção num pequeno mundo de pequeninas polémicas.
ccs

DEZ ANOS

Jorge Sampaio termina o mandato como começou. Emocionado, com a lágrima ao canto do olho, profundamente empenhado numa “causa nacional” propícia ao sentimento fácil e à irrelevância política.
ccs

CRIMES DE ÓDIO

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O Bloco de Esquerda quer acrescentar o ódio homófobo aos "crimes de ódio", ou seja, aos crimes cometidos por razões de etnia, de religião, de género e de política. Claro que um matar ou insultar um negro ou um homossexual ou já agora um muçulmano, só porque ele é negro, homossexual ou muçulmano não é o mesmo do que matar o vizinho ou insultar um credor. A violência dirigida contra uma "classe", que se considera fora da sociedade ou maligna para a sociedade, pode acabar por se tornar militante e sistemática e, como tal, põe um problema único e, em princípio, pede um estatuto jurídico próprio. Infelizmente, a realidade complica o que à primeira vista parece simples. Tirando a propaganda organizada ou a assalto em massa, num momento preciso e a uma minoria definida, o "ódio" vem à mistura com motivos, por assim dizer, "normais", que provavelmente valeriam sem ele. Usando ainda o exemplo do assassínio e do insulto, quem garante que até o mais fanático racista, homófobo e cristão não liquidou ou insultou um negro, um homossexual ou um muçulmano por cálculo ou por medo ou por qualquer uma das paixões vulgares que notoriamente levam a extremos desse género? Os "crime de ódio" introduzem na lei penal uma área de obscuridade, propícia ao abuso e sem vantagem visível.
vpv

MARQUES MENDES

Marques Mendes "dedicou" uma semana ao turismo, para lembrar (a quem?):

1. Que a "área do turismo" é "uma área importantíssima, uma área do presente, uma área do futuro, uma área em que podemos ser competitivos".

2. Que o golfe é bom para o turismo e que Portugal precisa de mais golfistas.

3. Que é louvável promover o golfe e que o Presidente Sampaio promoveu o golfe.

4. Que em Portugal o dinheiro da formação profissional é frequentemente mal gasto.

Marques Mendes também conversou com empresários do turismo.
Descendo das nuvens: para que serve isto?
vpv

terça-feira, fevereiro 21, 2006

A OPOSIÇÃO


Há muitos anos que a oposição em Portugal é uma ficção democrática sem grande valor. A opinião pública despreza-a. O Parlamento ignora-a. E o país lembra-se dela, em momentos particulares, quando se quer vingar do Governo e dos “vigaristas” que o enganaram. Até lá, a oposição vegeta, entregue a meia dúzia de entusiastas que se arrastam pela paisagem, sem meios, sem apoios e sem vozes “autorizadas” que se dignem dar a cara por uma alternativa credível.
Ao contrário do que a expressão indica, o líder da oposição não é um líder: é uma figura ornamental do regime, uma sombra esbatida do primeiro-ministro, com um estatuto diminuído e um raio de acção diminuto. A Assembleia da República, o seu lugar por excelência, é vista pelo país (e pelos partidos) como um depósito de inutilidades avulsas que não sabem o que hão-de fazer na vida. Para cúmulo, o regimento não ajuda: os debates mensais com o Governo são feitos para o primeiro-ministro brilhar e não para a oposição debater qualquer política governamental.
Os governos-sombra acabam inevitavelmente na sombra: as caras são poucas, os porta-vozes têm mais que fazer e as venerandas figuras que cederam generosamente o seu nome não têm disponibilidade para criticar o Governo. Num país pequeno, onde as oportunidades são escassas, a sociedade civil (esse sonho de todos os renovadores) prefere ter boas relações com ministros e com secretários de Estado a dar apoio a uma oposição que tem apenas a oferecer um futuro remoto e nada prometedor.
O resto, as diferenças ideológicas e as alternativas políticas, não existe: a crise económica não oferece muitas saídas e o eleitorado não se revê em grandes reformas. O resultado salta à vista: um discurso cuidadoso que não assusta, nem compromete e que rende votos no famoso eleitorado do centro. Foi assim que Sócrates ganhou. E foi também assim que Cavaco Silva chegou a Belém. Perante isto e para responder ao Paulo Gorjão: tenho sérias dúvidas de que a oposição, apesar das condições adversas, pudesse ter feito melhor. Mesmo sem Santana Lopes!
ccs

"NEGACIONISMOS"

Há várias maneiras de negar o Holocausto, conforme os fins políticos de cada um:

1. Negar que o número de mortos fosse mais do que um milhão e meio, dois milhões. Esta "redução" parece em princípio moral e politicamente irrelevante, mas de facto refuta a ideia de genocídio.

2. Negar a existência ou o papel central das "fábricas da morte". Isto dá ao Holocausto um carácter vagamente aleatório e colateral à guerra e pretende passar a responsabilidade do regime para forças fora da cadeia hierárquica central, como os Einsatzgruppen SS e voluntários locais (nomeadamente da Ucrânia e dos países bálticos).

3. Negar que o Alto-Comando do exército soubesse o que estava a acontecer na sua própria área de operações. Neste caso, o objectivo é à superfície separar os militares do nazismo para absolver os militares. Só que implicitamente também separa a Alemanha (inocente e honrada), que o exército encarnava, da ignomínia nazi.

4. Negar que Hitler tivesse ordenado ou tivesse tido conhecimento do Holocausto. É uma tentativa radical de "limpar" o nazismo.

5. Negar que a natureza única do Holocausto, para o apresentar como uma resposta, se não legítima, pelo menos justificada ao Gulag: uma ideia que chegou a ganhar uma certa respeitabilidade durante a "guerra-fria" e se destinava a estabelecer a Alemanha como um parceiro democrático de confiança.

Nenhuma das cinco teses do "negacionismo" é historicamente sustentável.
vpv

LIBERDADE ACADÉMICA

Repito: um homem que falsifica deliberadamente a história não é um historiador. No caso de David Irving, por exemplo, não se trata só de um problema de interpretação, mas de modificar, truncar e suprimir documentos para "estabelecer" uma tese. Isto não pode ser considerado, sob nenhum pretexto, trabalho académico, ou julgado como trabalho académico. É pura propaganda. A liberdade política de fazer propaganda, mesmo a favor de uma causa abominável, não se confunde com a liberdade de investigação. Espero que o João Miranda concorde.
vpv

UM ANO (I)

Paulo Gorjão diz que o principal trunfo de José Sócrates não é a memória de Santana Lopes mas “o facto de Marques Mendes não ser (ainda?) uma alternativa credível”. Resta saber por que é que Marques Mendes não é ainda uma alternativa credível. Em parte, porque o PSD ainda não recuperou da liderança de Santana Lopes. Em parte, porque o estado de graça do governo se prolongou, para além do habitual, por causa do governo de Santana Lopes. Em parte também, por responsabilidade de Marques Mendes. Mas essa responsabilidade, por enquanto, dilui-se na responsabilidade maior de Santana Lopes. Daí o “ainda” e o ponto de interrogação que auspiciosamente o acompanha.
ccs

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

UM "NEGACIONISTA"


David Irving foi condenado a uma pena de prisão na Áustria, por ter negado o Holocausto. David Irving não é um historiador, é um homem que falsificou deliberada e muito competentemente a história. Não se enganou: quis fazer o que fez. Não se pode invocar a favor dele o "cepticismo" académico e o direito ao erro. Só se pode invocar o direito político que lhe assiste de escrever e publicar tudo o que entender. Há quem o ache "perigoso", porque, ao contrário do malfeitor comum, estudou com minúcia e seriedade a evidência arquivística para a distorcer. Talvez seja "perigoso". Mas não escapou ao exame da comunidade dos pares. Ninguém o leva a sério há mais de quinze anos. Desprezado, isolado e já sem sombra de influência, recebeu agora uma espécie de consagração perversa por culpa de uma lei estúpida e de uma atmosfera persecutória, num país que se quer livrar do seu abominável passado à custa de uma virtude postiça. David Irving estava na rua como o lixo. Se por acaso se conseguir levantar é porque esquecemos que a liberdade nos defende.
vpv

UM ANO DE SÓCRATES

Um ano de Sócrates, segundo o índice geral do Público:

1. Défice abaixo dos seis por cento: Conseguido pelo aumento de impostos (fundamentalmente, o IVA) e por uma maior eficácia na cobrança. A redução das despesas, ensaiada aqui e ali, com muito medo e uma grande tendência para fugir, continua a ser uma figura de propaganda.

2. Plano Tecnológico: Fora o amadorismo e o cheiro a "truque" da moda, é o que as corporações de interesses permitem que seja, por outras palavras, quase nada. Mas sempre deu a oportunidade para uma espécie de "Herman-SIC", com Bill Gates, convidado da noite, e o MIT, conjunto folclórico. Um orgasmo precoce.

3. Reestruturação da Administração Pública: Comissões, comissões, comissões. Quem se quer esconder e ficar quietinho, nomeia uma comissão. A farsa do costume.

4. Ota e TGV: Quando se deve muito dinheiro, só as dívidas nos salvam. Décimo quarto episódio do "Vigarista milionário", uma peça clássica portuguesa.

5. Fim dos regimes especiais de Segurança Social e de Saúde: Aqui, sim: contra a fraqueza a autoridade não cede. Bater nos criados foi sempre uma tradição indígena.

6. Lei das rendas: Com um tresloucado atrevimento, o governo lá se atreveu a um passinho oblíquo para evitar que os centros das cidades se tornem num montão de ruínas. Não resolveu nada, mas com certeza ficou muito bem com a sua inovadora consciência.

7. Colocações de professores por quatro anos: Consola saber que de quando em quando a FENPROF concorda com o ministro da Educação.

8. Lei da nacionalidade: Abrir a porta, com o pé firmemente na porta. Quem é xenófobo é o Portas.

9. Medicamentos fora das farmácias: Uma guerra contra o lobby das farmácias que excede as façanhas de Eurico, o Presbítero. Não toca no principal, isto é, no estatuto absurdamente privilegiado da "classe", uma excrescência do século XIX. Não se pode querer tudo.

10. Férias judiciais: Para o parolo ver. Um acto que passa com majestade ao lado dos problemas.

11. Combate a incêndios: Esperemos que da confusão estabelecida, saia luz. Não fogo.
12. Evasão fiscal: A esquerda sempre gostou de tosquiar a carneirada.

13. Fundos da "Europa": A sopa do convento ainda não acabou.
14. Acordo de Bolonha: Atrasado. Quanto mais tarde, melhor. Não se manda um coxo para os 100 metros de obstáculos.

15. Aborto: Por favor, não arranjem sarilhos ao sr. eng.

16. Taxa de carbono: Isso era na oposição.

Fora do índice geral do Público:

17. Nomeações: O Vara, o Gomes, o Oliveira Martins são beneméritos da Pátria e só por acaso criaturas do PS.
vpv

UM ANO

Um ano depois de ter ganho as eleições, o principal trunfo de Sócrates é a memória ainda viva do que foi Santana Lopes.
ccs

domingo, fevereiro 19, 2006

FÁTIMA

Ao país parecia que a hora do apocalipse tinha chegado e a ninguém mais do que aos católicos. Sob pretexto de que a Igreja insistia em manter comunidades religiosas (no caso, de freiras), seis bispos foram expulsos das suas dioceses só em 1917. A guerra, a mobilização geral e o exacerbamento da ditadura jacobina intensificaram também a perseguição ao clero menor. À medida que os desastres se acumulavam os padres e os católicos iam pagando o desespero dos "bons republicanos". Eram os culpados por excelência e as vítimas predestinadas de tudo o que corria mal, e quase tudo corria mal. Os portugueses não gostavam da guerra? Influência e perfídia da padralhada, mancomunada com os monárquicos. O povo revoltava-se nas cidades porque não tinha pão e, na província, por causa da requisição de cereais? Manobras do ultramontanismo. Os preços subiam? Intrigas dos jesuítas. Portugal não estimava o dr. Afonso Costa de acordo com os seus muitos méritos? "Monomania religiosa". As represálias vinham a seguir: padres presos por tocarem sinos; procissões interrompidas porque o bispo se atrevera a pôr vestes talares; igrejas fechadas porque tinham admitido mulheres e crianças durante o dia, ou porque o padre local dissera missa por um "conspirador", ou porque oficiais de uniforme haviam ajudado à missa (papel delicadamente descrito como "passar os panos"), ou porque o sacristão expendera na mercearia opiniões "defetistas" (derrotistas) e germanófilas.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de Dona Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade do antigo regime. Infelizmente, uns meses depois um pronunciamento (a "Vilafrancada") acabou com esta devoção. Em 1915 e 1916, os "pastorinhos" Lúcia de Jesus Santos, de 8 anos, e os seus primos, Jacinta e Francisco, de 7 e 5 anos, viram oito vezes, em várias freguesias de Fátima, um anjo que declarou ser o anjo de Portugal, estando evidentemente entendido que a República era demoníaca. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Mas pouco a pouco foi-se explicando. Ninguém deu importância a estas visitas, normais em adolescentes e na pastorícia. Em 1917, as coisas correram de outra maneira. Entre Maio e Outubro, a Virgem apareceu quatro vezes a Lúcia, Francisco e Jacinta (agora respectivamente com 10, 9 e 7 anos), sempre no dia 13, sempre à mesma hora e sempre na Cova da Iria (excepto em Agosto, por motivos de que não vale a pena explicar aqui). As relações das crianças com a Virgem variavam: Lúcia via, ouvia e falava; Jacinta via e ouvia, sem falar; e Francisco via, sem ouvir nem falar. Nunca se esclareceu a óbvia desconfiança da Virgem em Jacinta e, principalmente, em Francisco.
Lúcia e Jacinta receberam a "mensagem" do Céu, uma série de trivialidades evangélicas, com duas alusões à realidade, ambas sobre assuntos correntes. A Virgem comunicou, nomeadamente, que a II Guerra Mundial seria "horrível", quando o horror da primeira sufocava o país, e preveniu que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais e os padres anunciavam dia sim, dia não, desde de Fevereiro. As profecias, manifestamente corrigidas por quem de direito, resumiam as preocupações do conservadorismo indígena e reflectiam as opiniões e os sentimentos do clero, esmagado pela ditadura jacobina. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era um fenómeno insusceptível de espantar os bem-pensantes e a Igreja portuguesa em 1917. A fortuna posterior de Fátima deve muito à sobrevivência do regime até 1926 e à visão moderna da Virgem, que apareceu perto do Entroncamento, isto é, na confluência da vias férreas do centro e do norte do país. Tivesse ela aparecido em Tavira ou Bragança, dez anos mais tarde, nunca se teria sabido.
vpv
(Adaptação de A República Velha)

UM AVISO


Quem abre a televisão tem assistido dia a dia ao protesto geral contra a "racionalização" da rede escolar. Professores, pais, Juntas de Freguesia rebentam de indignação. O governo, Lisboa, a gente sem forma e figura humana que todo lo manda quer tirar ao bom povo a escola da aldeia e subtrair as criancinhas ao olho vigilante da família. Surpreendentemente, os manifestantes, quase sempre entre os 30 e os 40 anos, viveram toda a sua vida em democracia e assistiram, ou sofreram, a prodigiosa transformação do interior. Mas resistem à mudança, com um genuíno desespero, sem perceber que para os filhos uma escola com meia dúzia ou dúzia e meia de alunos, isolada e primitiva, só os pode prejudicar. Claro que o governo, como de costume, começou pelo fim, ou seja, começou a "racionalização" sem escolas modernas, que demonstrassem materialmente a superioridade do ensino e a diversidade da experiência de que os "transferidos" passariam a beneficiar. De qualquer maneira, é lógico supor que bastaria o alargamento do convívio, a especialização dos currículos e a maior competência dos professores para convencer os pais. Não bastou. A coisa foi vista como um insulto e uma imperdoável atropelo.
Sucedeu o mesmo com a "racionalização" da "rede de saúde". O ministério resolveu fechar umas dezenas ou centenas de "centros", que não serviam para nada ou quase nada e tinham um número ridículo de consultas, para concentrar e melhorar os meios de tratamento. Em princípio, esta pequena reforma parecia benéfica e urgente. Engano. Houve cenas de fúria, entre o melodrama e a violência, a que as Juntas de Freguesia também deram o seu autorizado contributo.
Políticos são políticos, estejam onde estejam, e quando chegou a vez delas, as Juntas por um pouco não morriam de raiva. Das 3.000 e tantas que existem por esse país fora, uma larga parte não é útil, nem justificável. Fundir as mais pequenas nas grandes traz vantagens de eficiência imediata e aumenta o poder negocial das que ficarem. Infelizmente, também aqui, não vale a pena argumentar. O bom povo quer ouvir. E porquê? Porque usa a Junta como posto médico, caixa de correio e pronto-socorro. Por causa da história, da tradição, da vizinhança. Numa palavra, por patriotismo. Por essa espécie patriotismo de paróquia que ainda em 1980 fazia com que as pessoas se matassem em nome da fronteira entre Vila Velha e Vila Meia.
Os retóricos da "inovação", de Cavaco a Sócrates, que se excitam com o Portugal da "Europa", do telemóvel e do computador, nunca medem bem o peso e a pertinácia do outro Portugal, do Portugal imóvel, arcaico, conservador, que detesta o governo como um inimigo e um ladrão e aspira principalmente a que o deixem em paz.
vpv
(publicado no Público)

TRÊS NOTAS

1.Já o disse e repito: considero grave a busca feita ao jornal 24 Horas. Por poder pôr em causa a liberdade de imprensa e o segredo profissional dos jornalistas. E por escamotear o que devia ser o verdadeiro objectivo do inquérito conduzido pela PGR: a existência do já famoso "envelope 9" com a sua comprometedora lista de números de telefone e respectivos contactos. Na ausência de outras explicações, pode-se concluir que o inquérito esqueceu o essencial e se centra apenas no acessório: ou seja, na forma como os jornalistas tiveram acesso às suas informações.

2.Exigir pronunciamentos da parte do Presidente da República ou do Primeiro-Ministro, sem estar na posse de todos os elementos, revela, no mínimo, alguma irresponsabilidade. O que se pode (e deve) exigir, agora com maioria de razão, é que o inquérito chegue rapidamente ao fim, conforme foi exigido por Jorge Sampaio há um mês. Não é admissível que uma situação, como esta, se mantenha, por mais tempo, embrulhada num inquérito obscuro, que se tornou ainda mais obscuro depois da busca ao jornal 24 Horas.
3.Os erros e o desnorte que vingam no Ministério Público e na Procuradoria-Geral da República justificam que se peça, como tem sido pedida, a demissão de Souto Moura. Mas, até prova em contrário, não justificam que se ponha em causa a seriedade e a honestidade do Procurador. Souto Moura terá muitos defeitos e uma acentuada inabilidade para pôr ordem na casa e para lidar com determinados processos. Mas transformá-lo num "inimigo" da liberdade de expressão, capaz das maiores patifarias para salvar a "honra" da coorporação corre o risco de ser um erro tão ou mais grave do que todos os que ele cometeu.
ccs

sábado, fevereiro 18, 2006

QUEM ANDA À CHUVA...

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Desde sempre, quando o PS ou PSD têm perante si um longo período de oposição começam a falar em "abrir" o partido, que presumivelmente estava antes "fechado". O exercício pressupõe a má fama dos políticos da casa e presume que "atrair" gente de fora, sem o estigma da corrupção, da intriga e do carreirismo, ligará por um processo obscuro a "máquina" à sociedade ou mesmo remeterá a "máquina" para um papel secundário. Na realidade, apesar de várias tentativas, nunca "abertura" alguma trouxe a mínima mudança ao PS e ao PSD, para lá da "adesão" provisória de "figuras" de puro valor ornamental ou de gente já marcada para um futuro governo. Há ainda no PSD quem insista nesta velha receita, mas muito pouca e muito "cavaquista". O populismo veio para ficar e a "abertura", como panaceia, foi largamente substituída pela "democratização" da "máquina".
Essa presuntiva reforma consiste sobretudo na eleição directa do Presidente. Só que não pára aqui. Os descendentes de Santana querem mais. Querem que os candidatos do PSD, das Juntas de Freguesia ao parlamento, sejam "ratificados" pelo "sufrágio universal" dos militantes. Que isto, num país pequeno e pobre como Portugal, possa transformar o PSD num perpétuo tumulto, não lhes passa pela cabeça. As "bases" tomaram um estatuto mítico. O homem de Gaia, Luís Filipe Menezes, fala do "poder das bases" como outrora Otelo falava do "poder do povo" e ataca com a maior seriedade o "centralismo democrático", que, segundo ele, é na prática o regime do partido.
Entretanto, Marques Mendes, que nem "abriu" o PSD e nem parece entusiasmado com a "democratização da máquina" (embora aceite a eleição directa do Presidente, a que até recentemente se opunha), perde o tempo e a paciência numa fronda tradicional contra o governo. Uma fronda que não leva a nada, como não levou com Guterres, com Barroso ou com Ferro, não por falta de autoridade, dele próprio ou de quem o segue, mas porque a retórica abstracta de protesto não interessa a ninguém. O mal do PSD não é ser "fechado" ou "centralizado e aparelhístico" (Menezes dixit), é o de fazer uma oposição arcaica. Vive, sem um único spin doctor, à mercê da oratória de S. Bento (que o regimento ainda por cima prejudica) e do lugar que a imprensa e as televisões lhe querem dar. Anda atrás da agenda do governo e do aleatório dia a dia do país. Não tem política, nem políticas. Ou um gabinete-sombra para dar uma cara a cada crítica e vigiar cada ministro. Não admira que nesse vácuo os "notáveis" resmunguem e os demagogos se agitem. Quem anda à chuva…
vpv
(publicado no jornal Público)

PORTUGAL E O AFEGANISTÃO

Caro Paulo Gorjão, fez bem em perguntar. "Advogo", as you put it, a retirada imediata da NATO do Afeganistão. Não acredito em qualquer espécie de nation building, sob ocupação estrangeira. De resto, falei num reforço de 300.000 homens, porque é o número geralmente indicado em Inglaterra. Por mim, acho que nem 3 milhões conseguiam mudar fosse o que fosse.
vpv

VALE A PENA?


Animado dos melhores propósitos o ministro da Saúde achou que tinha chegado a altura de brindar o país com uma luminosa evidência: se a despesa não parar de aumentar, os doentes vão ter, mais dia, menos dia, que começar a pagar a Saúde. Caiu-lhe o país em cima, é claro. Os partidos da oposição mostraram-se imediatamente dispostos a defender com a vida o Serviço Nacional de Saúde. E até o CDS, num acesso de entusiasmo, recorreu à Constituição (a mesma que o partido quer alterar) para recordar “a gratuitidade tendencial” do sistema. Tentando (em vão) acalmar os ânimos, o PS prestou-se aos esclarecimentos habituais, esclarecendo que a ideia do ministro (a existir alguma ideia) só se concretizaria num futuro longínquo, depois de esgotadas todas as possibilidades do sistema e de se realizarem todos os estudos possíveis. Tudo isto, presume-se, não passou de um “balão de ensaio” para testar a abertura da sociedade a eventuais alterações na Saúde. Infelizmente, pelo caminho, testa-se também o funcionamento dos partidos. Na oposição, o PS criticou asperamente o aumento das taxas moderadoras proposto pelo defunto Governo de Santana Lopes. Agora, no Governo, “descobre” a necessidade de um novo financiamento do sistema. No governo, PSD e CDS propuseram o aumento das taxas moderadoras. Agora, na oposição, agarram-se com unhas e dentes à gratuitidade do sistema e aos pergaminhos da Constituição. Vale a pena levá-los a sério?
ccs

CALADINHO

Os comentários, anónimos ou não, deixam pouca margem para dúvidas: sossegado e caladinho é como o CDS deve estar. O “défice de oposição” é um exclusivo do PSD que Marques Mendes tem que saber compensar com congressos, alterações de estatutos e eleições directas para a liderança do partido. O CDS, aparentemente, não entra nessas andanças: tem um presidente estimável que só não aparece porque não gosta de alaridos e de populismos fáceis. A moderação e a respectiva seriedade implicam uma dose grandiosa de invisibilidade. Conferências de imprensa, à meia-noite, com meia dúzia de jornalistas ensonados? Fazem parte da vida de um euro-deputado. Bruxelas ocupa-lhe a semana e o dia; Lisboa só às quintas-feiras, à hora de jantar, para reunir com os seus pares e fazer a uma comunicação ao país, de importância relativa, pela calada da noite. O partido é pequeno, basta-lhe uma liderança em part-time. Para todos os efeitos, o CDS só quer chegar ao governo em 2009, patrocinado pelo novo Presidente da República que, caladinho, ajudou a eleger. Criticar este feliz estado de coisas é pedir chinfrim, enviar recados, abrir o caminho a Paulo Portas e à sua insuportável visibilidade. O CDS deve continuar caladinho. E invisível, como de depreende. Paz à sua alma! É o que ocorre dizer.
ccs

AGRADEÇO A BONDADE

Agradeço ao Nuno Ramos de Almeida a bondade de me lembrar o período de retrocesso e decadência do Império Turco e as malfeitorias que lhe fizeram a Rússia, a Inglaterra e França. Mas talvez seja bom notar que foi por causa da hostilidade entre a Inglaterra e a Rússia que esse Império durou mais dois séculos do que duraria por si próprio. Sem a oposição constante da Inglaterra e a guerra da Crimeia contra a Inglaterra e a França, a Rússia teria com facilidade chegado a Constantinopla e acabado com o poder muçulmano no Médio Oriente. A Inglaterra, de resto, tirando obviamente o Egipto, não tocou na Turquia asiática e africana até 1918 e foi a Turquia que lhe declarou guerra, não o contrário.
De qualquer maneira, o Nuno parece que perdeu a moral da história. A saber: que desde a origem o Islão avançou agressivamente no Mediterrâneo e no coração da Europa e só parou quando não se conseguiu "modernizar". A partir do século XVIII, o Império era um "homem doente", que as potências trataram, apesar de tudo, com moderação.
vpv

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

DIAS SEM ÁGUA


A EPAL persiste em me deixar sem água entre 15 e vinte vezes por ano. Por causa de uma "ruptura" na minha rua, na rua do lado ou na rua da frente. Sempre uma ruptura "imprevista", que surpreende a EPAL e provoca "perturbações no abastecimento". Ontem e hoje, à mesma hora, houve imprevistamente "perturbações". Ontem, como de costume, telefonei à EPAL e fui informado por uma voz langorosa de que "a situação" seria "normalizada às 20" (eram três da tarde). Às 20, nada; e às 21, ainda sem água, fui informado de que a "situação" seria "normalizada às 23", coisa que de facto aconteceu, se a lama que saiu das torneiras se pode considerar normal. Hoje já me disseram (por volta das cinco) que "a situação" seria "normalizada" "às 20", para me dizerem depois que será "normalizada" às 23. Por respeito pelo consumidor, as mentiras da EPAL nunca são imprevistas. A EPAL só não consegue prever rupturas nos três colectores do bairro desde 1991. O longo prazo excede a capacidade da EPAL.
O meu problema é um velho problema do jornalismo português: o que fazer? Ramalho, a quem tinham cortado a água, não conseguiu cortar nada à "Companhia" da altura. Por mim, pensei em organizar uma campanha a exigir a privatização da EPAL, o que, pelo menos, dava uma causa ao "imparável movimento" de Alegre. Mas, privatizado ou não, um monopólio é um monopólio e não me cheira que ganhasse muito com isso. Fica a paciência. Em Portugal, um fim nada imprevisível para uma ruptura imprevista.
vpv

INVISÍVEL


Não sei onde andam os entusiastas da democracia-cristã que tanto rejubilaram com a eleição de Ribeiro e Castro para a presidência do CDS. No CDS não andam. Ou, se andam, não se dá por isso: o partido entrou na clandestinidade onde se arrasta penosamente perante a indiferença geral. Este súbito desaparecimento não causa sequer estranheza. Reduzido à sua total insignificância, o CDS deixou de merecer o benefício da dúvida ou o incómodo de uma crítica. No último congresso, quando se despediu de Paulo Portas, o partido ia deixar de ser “populista” e recuperar, com as luminárias do costume, a “respeitabilidade” perdida. Dez meses depois é o que se vê. Ou melhor, o que não se vê. Este novo CDS, moderado e centrista, tem a triste particularidade de ser...invisível.
ccs

O EMBAIXADOR E O MINISTRO

irao
O embaixador do Irão em Portugal, Mahommed Taheri, ficou satisfeitíssimo com a atitude do governo português no caso dos cartoons. Particularmente com "as coisas muito boas", que Freitas disse e redisse e que o primeiro-ministro em silêncio confirmou. Grato pela ajuda, Taheri presumiu que encontrara um amigo no Ocidente. Que havia ele de pensar? O primeiro comunicado de Freitas criticava a Dinamarca por não "compreender" o Islão e pedia respeito para Maomé, Cristo e a Virgem Maria, sem sequer falar na violência organizada da "rua" islâmica. Nunca ninguém na Europa fora tão longe. Como ninguém na Europa se lembrou de apontar o Ocidente como agressor por excelência do mundo muçulmano e de invocar a propósito as cruzadas (aparentemente, um episódio de "anteontem") e outros "crimes" da intolerância e da prepotência cristã. Freitas não percebeu que estava a inverter a história e a adoptar as mais grosseiras falsificações da ortodoxia "fundamentalista". Mas Taheri com certeza percebeu. O Islão, desde a origem militar e expansionista, conquistou, dominou e converteu à força quatro quintos do Mediterrâneo. Ainda em meados do século XVII Viena estava cercada pelo exército turco e mesmo hoje o sonho da ressurreição do Califado não morreu. Taheri, que provavelmente se orgulha dessas velhas façanhas, só podia interpretar as divagações de Freitas como fraqueza e arrependimento da "Europa".
Pior. Na cabeça iraniana de Taheri, se Freitas rejeitava com tanta intensidade os terríveis pecados do Ocidente, por maioria de razão rejeitava também o maior de todos: quem condena as cruzadas, condena logicamente o Estado de Israel. Taheri julgou que Portugal o compreendia e resolveu explicar em público que os cartoons não passavam de uma conspiração zionista e transgrediam a liberdade de imprensa (ponto com que o próprio Sócrates, de resto, concordara). Até aqui Taheri agira com a implícita aprovação de Freitas. Mas faltava o Holocausto e Taheri não resistiu e negou o Holocausto. Suspeito que o escândalo e o protesto o surpreenderam. Freitas tinha aberto o grande caminho da "compreensão". Que essa "compreensão" parasse no Holocausto não lhe ocorreu. Se não parara ou se inibira com a mentira, a demagogia, o terrorismo, a promessa de arrasar Israel e a ameaça nuclear, que diferença fazia o Holocausto? Taheri é um bom embaixador, porque representa com zelo o sentimento e as convicções do Islão. Freitas não é um bom ministro porque representa com excesso as mais torpes tendências de Portugal e da "Europa". Para conciliar a "rua" muçulmana, condenou, de facto, o que nós somos.
vpv
(publicado no jornal Público)

RIDÍCULO

Vários leitores pediram-me para explicar por que é que num post anterior considerei ridículas as afirmações de Pacheco Pereira sobre os “tempos miseráveis e humilhantes” que se arriscava a viver por criticar “livremente” a Procuradoria-Geral da República e os seus agentes. Confesso que o ridículo, o exagero levado até ao umbigo, me pareceu que dispensava explicações de maior. Aparentemente, não dispensava. Assim sendo e a bem dos leitores, passo a explicar: uma coisa é criticar as buscas feitas ao jornal 24 Horas (uma iniciativa, aliás, que ainda não ouvi ninguém defender e que ainda não foi também devidamente esclarecida) ; outra, completamente diferente, é ver na Procuradoria-Geral da República, nomeadamente em Souto Moura, um perigo à liberdade de opinião e, em particular, à liberdade de opinião de Pacheco Pereira. Ao longo dos últimos tempos, Souto Moura tem revelado um apreciável conjunto de defeitos: mas só por má fé ou por puro exibicionismo se pode considerá-lo uma perigosa ameaça à liberdade de Pacheco Pereira (ou de qualquer outro) opinar semanalmente sobre as mais diversas matérias.
P.S. Como não quero saber das "leis da blogosfera" para nada, não deixo de lembrar que Pacheco Pereira, no curto período de tempo que teve responsabilidades no grupo parlamentar do PSD, não se notabilizou propriamente pela defesa da liberdade de expressão. Por ele, os jornalistas não punham o pé nos corredores da Assembleia da República. Agora, pelos vistos, viraram heróis numa luta gloriosa contra os abusos do Procurador. Ridículo? No mínimo.
ccs

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

UMA VELHA CHANTAGEM

chirico10
Sócrates resolveu dizer, em defesa de Freitas, que Portugal precisa a todo o preço de conciliar o Islão, porque tem soldados em "países muçulmanos". Mas disse mais: disse que a nossa liberdade, se for responsável, deve ser limitada pela necessidade militar. Parece que não engolir humildemente a campanha de intimidação e violência, que se organizou a pretexto dos cartoons, prejudica a nossa "missão de paz" e que Freitas, por tabela, é um benemérito. Na minha idade, já ouvi este argumento torpe a Salazar, a Marcelo, a Johnson e a Nixon. Em vez de fazer chantagem, era bom que Sócrates nos conseguisse explicar que espécie de interesse nacional nos leva a apoiar as loucuras de Bush.
vpv

O INQUÉRITO

Sobre a busca policial ao jornal 24 Horas:

1. Antes de mais, é no mínimo estranho que depois de um mês de total quietude, o Ministério Público decida avançar contra o 24 Horas no dia seguinte ao ministro da Justiça ter referido a morosidade do processo. Se é apenas uma coincidência, não parece.

2. A questão levantada pelo Presidente da República (que deu origem ao inquérito da Procuradoria-Geral) não tinha a ver com a publicação do caso pelo 24 Horas mas sim com a existência do caso: ou seja, com o facto de haver no processo, sem que nada o justificasse, uma extensa lista de números de telefone de titulares de cargos públicos com o registo dos respectivos contactos. Seria de esperar que o Ministério Público, antes de se debruçar sobre “o acesso a dados pessoais” por parte dos jornalistas, esclarecesse a forma como esses dados pessoais foram parar ao processo. E é exactamente isso que ainda não foi feito.

3. A apreensão de instrumentos de trabalho (nomeadamente de computadores) de jornalistas põe naturalmente em causa o direito à confidencialidade das fontes. Ao que parece esse direito terá sido acautelado embora, para já, não se compreenda a que título foi feita a busca ao 24 Horas.

4. Dito isto, não vale a pena fechar os olhos à “investigação” que tem sido feita pelo jornalista em causa (Jorge Van Kriekan) ao serviço de um dos arguidos. O facto não desvaloriza a notícia dada pelo 24 Horas mas levanta algumas dúvidas sobre o papel dos advogados de defesa em todo este imbróglio.

P.S
. Ridículas as afirmações de Pacheco Pereira sobre a possibilidade de “viver tempos miseráveis e humilhantes” pelo simples facto de discordar, nas suas colunas de opinião, da actuação da Procuradoria-Geral da República.
ccs