sexta-feira, Março 10, 2006

DESPEDIDA

Estes meses de blogue foram um prazer e, sobretudo, uma educação. Mas não temos tempo para o fazer como ele deveria ser feito. Em princípio, talvez pudéssemos meter mais gente. Só que, para nós, grande parte da graça estava em não haver mais gente. Fica assim uma única solução razoável: parar.
Paramos com pena. E agradecemos muito a toda a blogosfera a paciência e o interesse.
ccs e vpv

A EXCEPÇÃO DE JPP

Há uns tempos, Pacheco Pereira estabeleceu um conjuntinho solene de dez regras sobre os debates na blogosfera. Obviamente não se incluiu nelas. Pacheco Pereira nunca se inclui em nada: no PSD que o lançou, na Comunicação Social que domina, no sistema sobre o qual disserta. Talvez por isso pode gastar impunemente duas páginas da revista Sábado a dissertar sobre o “regresso” de Paulo Portas sem ter visto o programa com o qual este regressava – e sem ter ninguém, obviamente, a aplicar-lhe uma regra qualquer que exemplificasse a mediocridade do exercício. Confesso que não me apetece perder muito tempo nem com o tema nem com a pessoa: por razões que talvez a psicologia explique, Pacheco Pereira sempre teve uma obsessão doentia por Paulo Portas e por tudo o que lhe possa cheirar a “portismo”. Agora transformar o Acidental e a Atlântico (juntamente com o grupo parlamentar do CDS) nas “forças” de que Portas “dispõe” seria pura e simplesmente ridículo se não fosse esta desagradável mania “maoísta” de enfiar tudo no mesmo saco. As origens raramente se perdem!
A propósito, sou amiga de Paulo Portas desde os tempos d’ O Independente. Raramente estive de acordo com ele em matéria política. E não vou sequer tentar explicar por que é que a revista Atlântico não é o Caderno 3 d’ O Independente que, aliás, nos seus melhores tempos, foi dirigido por Miguel Esteves Cardoso.
ccs

UM EXERCÍCIO INÚTIL

cavacoposse
A posse do dr. Cavaco foi surpreendente. Parece que à medida que o regime se degrada, precisa crescentemente de esconder a sua fraqueza com pompa e circunstância. Mas neste caso também a pompa e circunstância serviram para anunciar outra coisa: a ideia de Cavaco sobre o que deve ser a Presidência. E, pelos vistos, deve ser um Presidência majestática. Nem Eanes, nem Soares, nem Sampaio entraram com um estrondo comparável. Se houve um "período de transição", e se calhar houve, ninguém deu por isso. Não veio de fora um cortejo de notabilidades com incenso e mirra. E a cerimónia, ela própria, teve uma certa e democrática pobreza. É a diferença entre quem se considerava um funcionário da República e quem, no fundo, se considera um soberano.
O discurso inaugural do Presidente não se distinguiu pela originalidade. Os "cinco desafios" (detestável calão), que apresentou ao parlamento, não passam de lugares-comuns, que por toda a parte toda a gente papagueia. Portugal precisa de um "crescimento mais forte"; o futuro depende da educação e da formação; a justiça está a pedir uma reforma drástica; é urgente tratar da segurança social; e não seria mau que os políticos se tornassem (por milagre?) muito virtuosos. Fora esta lista seca e peca, nem uma palavra em que o país sentisse o sopro de um novo espírito. Verdade que o dr. Cavaco exigiu "acção", mas que espécie de acção para que espécie de Portugal? Se ele sabe, não disse.
Infelizmente, não disse, porque não sabe. O dr. Cavaco não desembarcou ontem de Boliqueime e a cabeça dele não é um mistério. Nunca percebeu o país que governava e, hoje como ontem, sempre o quis transformar num "bom aluno" da Europa: sério, cumpridor e "moderno". Como? Aplicando, "com rigor", o "modelo" de Bruxelas: no fundo, o modelo clássico da "social-democracia", corrigido por algum "liberalismo" relutante e forçado. Não lhe ocorreu que esse "modelo" pudesse não servir à nossa velha cultura de isolamento e miséria, e à nossa classe "dirigente" irresponsável, oportunista e crassa. O resultado não se recomenda. Mas Cavaco não aprendeu nada no exílio. Volta disposto a repetir a dose, "em comum" com o governo, se o governo deixar. Ou seja, ponto a ponto, "medida" a "medida" vai tentar refazer o Portugal imaginário do seu tempo de glória. Um exercício inútil, como já se provou.
vpv
(publicado no jornal Público)

quinta-feira, Março 09, 2006

O CARTÃO "X em UM"


O que se esperava e nos garantiam que não ia suceder, sucedeu. O eng. Sócrates, disse taxativamente que espera "uma concorrência" entre os serviços de Estado para incluir "novos dados" no cartão "cinco em um". Isto significa que o cartão "cinco em um" se vai transformar não tarda nada no cartão "sete em um", "quinze em um", "vinte em um" e por aí fora. Este assalto à privacidade parece entusiasmar o Primeiro-Ministro, porque simplifica e moderniza a burocracia. Também simplifica e moderniza os meios do governo andar com um olho em cada um de nós, ninguém pode saber hoje porquê ou para quê. Pior ainda: qualquer indivíduo com acesso ao cartão (um empregado de bancário, por exemplo, ou um contabilista de hospital) fica (se quiser) a conhecer a nossa vida inteira. Basta uma fotocópia.
Um pequeno pensamento, próprio do dia: se estivesse em Belém, o dr. Soares não permitia isto.
vpv

GOSTAVA DE SABER...

Como foi parar a assessor político do dr. Cavaco o mais puro representante do ultra-conservadorismo americano? Precisa o Presidente de um capelão, por assim dizer, "civil"? Está preocupado com a dissolução dos costumes? Quer defender a família? Proibir o divórcio? Aumentar a natalidade? Tem saudades de João César das Neves? Partindo do princípio, não muito audacioso, que o dr. Espada não é um discípulo secreto do Prof. Marcelo, o que vai ele fazer para Belém? Francamente, gostava de saber.
vpv

O DISCURSO DA POSSE

Cavaco Silva fez hoje o discurso que José Sócrates poderia ter feito há um ano quando foi nomeado primeiro-ministro.
ccs

terça-feira, Março 07, 2006

A DIREITA


A direita, ou o que se faz passar por ela, está a transformar-se num clube cada vez mais restrito. Não se identifica com nenhum partido – porque todos os partidos, do CDS ao Bloco de Esquerda, têm uma atracção fatal pelo Estado. Não é dada ao exercício da cidadania, como Manuel Alegre que, apesar de tudo, ainda acolheu no seu movimento “transversal” meia dúzia de “patriotas” extraviados. E parece não ter, em todo o universo político, um único representante à altura dos seus elevados princípios. Cavaco Silva? Não serve. Marques Mendes? Não conta. António Borges? Uma hipótese sumida para quem goste de Manuela Ferreira Leite e não leve a sério a política. Agora, como se pode ver aqui, nem Paulo Portas se adapta às exigências do grupo: "não pode ser ele a fazer renascer a direita porque a direita dele já morreu". A direita, portanto, vai renascer estando viva (o que não deixa de ser curioso), sem ter ninguém que possa falar em seu nome. Vai ser duro o "renascimento"!
Entretanto, e por vias das dúvidas, convém não dar por garantida a morte de Paulo Portas. Que me lembre, assim de repente, ele já "morreu" dezenas de vezes.
ccs

VALE A PENA?

Às vezes, vale a pena repescar o que já se escreveu. Neste caso, o que se escreveu a 20 de Fevereiro quando o Governo "ensaiou" o aumento das taxas moderadoras:
Animado dos melhores propósitos o ministro da Saúde achou que tinha chegado a altura de brindar o país com uma luminosa evidência: se a despesa não parar de aumentar, os doentes vão ter, mais dia, menos dia, que começar a pagar a Saúde. Caiu-lhe o país em cima, é claro. Os partidos da oposição mostraram-se imediatamente dispostos a defender com a vida o Serviço Nacional de Saúde. E até o CDS, num acesso de entusiasmo, recorreu à Constituição (a mesma que o partido quer alterar) para recordar “a gratuitidade tendencial” do sistema. Tentando (em vão) acalmar os ânimos, o PS prestou-se aos esclarecimentos habituais, esclarecendo que a ideia do ministro (a existir alguma ideia) só se concretizaria num futuro longínquo, depois de esgotadas todas as possibilidades do sistema e de se realizarem todos os estudos possíveis. Tudo isto, presume-se, não passou de um “balão de ensaio” para testar a abertura da sociedade a eventuais alterações na Saúde. Infelizmente, pelo caminho, testa-se também o funcionamento dos partidos. Na oposição, o PS criticou asperamente o aumento das taxas moderadoras proposto pelo defunto Governo de Santana Lopes. Agora, no Governo, “descobre” a necessidade de um novo financiamento do sistema. No governo, PSD e CDS propuseram o aumento das taxas moderadoras. Agora, na oposição, agarram-se com unhas e dentes à gratuitidade do sistema e aos pergaminhos da Constituição. Vale a pena levá-los a sério?
ccs

segunda-feira, Março 06, 2006

ONDE CHEGOU O PSD


O dr. Filipe Menezes não deixa de ter razão: o PSD está em vias de se transformar numa brincadeira de mau gosto. Ele, pela parte que lhe toca, faz o que pode e ameaça que se candidatará à liderança do partido, caso seja confrontado com “circunstâncias” que não lhe agradem. É natural que o dr. Menezes engula, pelos tempos mais próximos, o seu profundo desagrado por essas e por outras circunstâncias. Mas há que reconhecer que um “tabu” desta envergadura dá cabo da credibilidade de qualquer partido que se preze.
ccs

EM FAMÍLIA

Graças ao mesmo professor, também tive notas muito razoáveis a matemática. Um dias destes explico.
ccs

O DESENVOLVIMENTO

Já temos um “plano”. Já escolhemos outro "modelo". E até já fizemos uma visita de reconhecimento ao local. Agora só temos que nos transformar numa nova e próspera Finlândia – já que percebemos a tempo que não valia a pena aproximarmo-nos da Irlanda. E assim vamos queimando etapas. Até que o desenvolvimento chegue até nós por osmose.
ccs

domingo, Março 05, 2006

REMOINHOS


A iminente chegada do dr. Cavaco a Belém, com pompa e circunstância, já começou a provocar remoinhos na política portuguesa. O dr. Paulo Portas, sempre esse homem fatal, se não vai refazer "O Independente", vai, pelo menos, fazer um programa de opinião na SIC, para (adivinhem) afirmar a direita contra o "bloco central" PS- PSD, desta vez representado por Cavaco e Sócrates. A inspiração é, naturalmente, Marcelo. Não, claro, o Marcelo semi-domesticado da RTP, o Marcelo da "missa dominical" da TVI, que tratava Sampaio e o governo com a superioridade e a paciência, um pouco forçada, de um velho professor. Mas Portas quer "mais recuo". Quer "doutrinar" e não necessariamente criticar. Como um estadista. Talvez dê resultado. Se a SIC não se "arrepender".
Outro remoinho muito visível do advento de Cavaco é a crescente paixão de Sócrates por empresários. Cavaco disse constantemente na campanha que a primeira preocupação dele seria ajudar, promover e proteger essa criatura mítica "o empresário moderno português", que um dia nos tirará das garras da miséria. Sócrates não perdeu tempo. Toda a propaganda oficial, de resto eficiente, o tenta tornar o novo taumaturgo da economia. Não há dia em que caia do céu um novo milagre: um investimento, um projecto, um acto justiceiro contra a burocracia do Estado. Sócrates sua confiança e borbulha de vontade política. Ainda anteontem foi à "Lactogal", uma fábrica de leite, mostrar o exemplo, gabar a tecnologia, exortar ao optimismo e à fé. E, melhor: exibir o seu "carinho" por uma queijaria e a sua esperança num futuro radioso para o vinho e o azeite e até para a "linha" essencial e salvífica da hortofruticultura. Com este zelo e com as deambulações de Marques Mendes pelo Algarve e o Vale do Ave, sobra alguma coisa para Cavaco? Que espécie de solicitude e de amor pode ele derramar sobre o "empresário moderno português" que o "empresário moderno português" não haja previamente recebido do governo e da oposição? Que privilégios, que vantagens pode ele oferecer, que o governo e a oposição não ofereçam? Que obstáculos pode remover, que o governo e a oposição não queiram arrasar?
Será curioso ver como Cavaco resiste à concorrência. Como será curioso ver se, do seu poleiro da SIC, Paulo Portas consegue impedir ou atenuar a unanimidade do "centrão", que por aí se prepara. Os remoinhos só agora começaram.
vpv
(publicado no jornal Público)

COSTUMES


O dr. Jorge Sampaio, antes de acabar o mandato, foi à Argélia prestar homenagem ao penúltimo Presidente da I República, Teixeira Gomes. Todos nós podemos, aliviadamente, repousar na certeza que o dr. Jorge Sampaio nunca leu os romances (em geral, autobiográficos) do escritor Teixeira Gomes. Mas mesmo um ingénuo devia perceber que a veneranda figura que se refugiou em Bougie (e não, por exemplo, em Nice) tinha razões de um peso particular. Em 1924, o norte de África, como Gide amorosamente descreveu, era o paraíso dos pedófilos. Teixeira Gomes queria rapazinhos. E, de quando em quando, virgens de 11,12 anos, para como ele disse, lhes "colher as primícias". Costumes.
vpv

UMA "SANTANETE"


A hipotética "dra." Clara Ferreira Alves (chegou com dificuldade ao actual 12º ano), crítica literária que leu (jura ela) "os clássicos", especialista do último escritor inglês com quem almoçou, autora de um romance anunciado em 1984 e nunca até agora publicado, dona de uma coluna ilegível (e bem escondida) na "revista" do Expresso, foi um dia arvorada directora da "Casa-Museu Fernando Pessoa" pela conhecida irresponsabilidade de Pedro Santana Lopes, de quem ela tinha sido uma entusiástica partidária. Daí em diante, a importantíssima Ferreira Alves e o "Pedro", como ela dizia, ficaram muito amigos. Tão amigos que a "dra." Clara apareceu um dia presuntiva directora do "Diário de Notícias", coisa que me levou a sair antes que ela entrasse. Felizmente, não entrou, porque teve medo de cair na rua entre o "Expresso" e o DN, com a reputação de uma "santanete" obediente. Agora, morto o seu patrono, não perde uma para o maltratar, supondo que demonstra "independência". Ontem, a propósito de um "Audi", que o homem comprou, despejou em cima da cabeça dele todo o lixo do mundo. Santana não aprendeu que a certa espécie de pessoas não se fazem favores.
Se a "dra." Clara me quiser responder, sugiro que me responda em inglês e não meta na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo. Muito obrigado.
vpv

sábado, Março 04, 2006

NÃO FUI FEITO PARA ISTO

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Chateaubriand dizia que, se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo que não se conhece e de que não se gosta. O mundo dele, entre 1815 e 1830, apesar de tudo, não mudou muito. O meu mudou para lá de qualquer possibilidade de reconhecimento. Já sei que vou dar um exemplo ridiculamente banal, mas no fim do dia, quando me levanto da secretária e ligo a televisão, tenho sempre o mesmo choque. Não há nada que, para mim, seja "normal". O fait divers, a política do sound-byte, o soft-core, as perseguições de carro, os peritos de coisíssima nenhuma não fazem parte da civilização em que nasci. Numa parte remota da minha cabeça, admito que devia aprovar a ignorância e a vulgaridade democrática. Infelizmente, não sou capaz. Desisto e leio. De facto, cada vez mais releio os livros de antigamente, suponho que à procura de um pequeno canto de sossego e sanidade.
O Estado também aflige. Por favor, não tomem isto como propaganda política. Imaginem o Estado durante Salazar e Caetano. Existia a PIDE e a censura: e mil tiranetes por aqui e por ali. Não vale a pena repetir o óbvio. Em compensação, o Estado não queria mandar na vida de ninguém. Não proibia que se fumasse. Deixava o trânsito largamente entregue a si próprio. Não andava obcecado com a saúde e a segurança. Não regulava, não fiscalizava, não espremia o imposto até ao último tostão. Um indivíduo, pelo menos da classe média, passava anos sem encontrar o Estado: em Portugal, em Inglaterra, em Itália, na Europa. Acreditam que nunca voltei a sentir o espaço e a liberdade desse tempo?
Estou a "sentimentalizar", a "idealizar" uma realidade, no fundo, horrível? Não me parece. Escrever, por exemplo. Quando comecei a escrever, escrevia. Sob o peso da Ditadura, claro, e sob a pressão do conformismo marxista. De qualquer maneira, escrevia desprevenidamente. Agora, escrever é uma variante de pisar ovos. Os mestres do "correcto" vigiam, como nunca vigiaram os coronéis de Salazar. Até a sociedade portuguesa de repente acordou puritana. Cada cidadão, cada medíocre, cada engraçadinho pode esconder um polícia. Pior ainda: um delator e um explorador do escândalo. Os grandes crimes (como de resto os pequenos delitos) contra o corpo ou qualquer espécie de igualdade não se toleram, nem se desculpam. E, entretanto, o indivíduo morreu. Não fui feito para isto.
vpv
(publicado no jornal Público)

sexta-feira, Março 03, 2006

UM RETRATO


Já se sabia que Freitas do Amaral “compreendia” a violência suscitada pela "licenciosidade" do Ocidente e pelas ofensas da "extrema-direita". Ontem mesmo, na Assembleia da República, o ministro dos Negócios Estrangeiros achou por bem insistir na tese (e no futebol como instrumento de aproximação entre os povos) confirmando, com exuberância de pormenores, todas as críticas que lhe têm tem sido feitas. Não valeria a pena sequer voltar ao assunto, se Freitas do Amaral não estivesse em vias de transformar a política externa portuguesa numa graça de mau gosto. Infelizmente, o primeiro-ministro deve, também ele, considerar esta história dos cartoons uma "questão menor" que já deu o que tinha a dar. Com sorte, e com a posse de Cavaco Silva, pelo meio, já ninguém volta ao assunto: as polémicas não são eternas e os erros, como se sabe, desaparecem miraculosamente com elas.
Mas, com cartoons ou sem eles, o eng. Sócrates tem, no seu ministro dos Negócios Estrangeiros, um problema difícil de resolver. Nesse aspecto o debate foi esclarecedor e deixou para a posteridade (se a posteridade se vier a incomodar com estas coisas) o retrato exacto de um político movido pelo ressentimento e pela incompreensível opinião que tem de si mesmo. Freitas do Amaral visto por Freitas do Amaral é o combatente pela liberdade que dá lições de democracia a quem andava de cueiros, na altura, em que ele, como bom discípulo de Marcello Caetano, se especializava em Direito Administrativo e dirigia a Acção Académica (esse covil de revolucionários!); é o político que fala “grosso” com os ingleses obrigando-os finalmente a apresentar resultados depois do seu intolerável desleixo; é o líder renegado de um partido que se acha muito acima do partido que ele próprio abandonou quando lhe convinha; é o ministro que, com a sua superior qualidade, reforça o peso de um Governo de ilustres desconhecidos; é o eterno candidato à Presidência da República, capaz dos mais inesperados amuos e das mais improváveis ofensas. Ciente da sua importância e das muitas injustiças da história, Freitas do Amaral é o que sempre foi: um produto reciclado do Estado Novo, com o seu formalismo desajustado, as suas pequenas vaidades e as suas ilusórias hierarquias. Em tempos, referindo-se a Freitas do Amaral e às suas afinidades com o mestre, alguém dizia, a propósito destes desajustes do ego: “Marcello Caetano nunca percebeu por que é que o nome dele não aparecia na Bíblia”. Freitas do Amaral nunca há-de perceber por que é que o nome dele não aparece na história. E Sócrates, mais tarde ou mais cedo, vai acabar por perceber isto.
ccs

O DIREITO À BLASFÉMIA


Pena que os jornais não tenham publicado o texto completo da última homilia do cardeal-patriarca de Lisboa. As coisas que ele disse são importantes para perceber o Papa Bento e, em si próprias, merecem discussão. Para começar pelo princípio lógico, é bom notar que o cardeal Policarpo avisou (preveniu? ameaçou?) aqueles de nós que sofrem da inominável fraqueza de ser ateus. Segundo ele, a nossa "dificuldade (reparem na palavra) em acreditar em Deus não toca na insofismável realidade de Deus" e, por isso, é nosso dever "respeitar a fé": "o respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão, mesmo em nome da liberdade". O sr. cardeal, que manifestamente não pratica a tolerância que reclama ao próximo, não admite (e suponho que gostaria de eliminar) o "direito à blasfémia".

Sem esse direito, claro, não existiria grande parte da literatura e do pensamento português. Não que esse pormenor interesse hoje alguém, Mas não se percebe, por exemplo, que Sua Eminência não peça ao Estado a supressão imediata de Eça de Queiroz (em particular, de "A Relíquia"), de Ramalho (pelo menos, do primeiro Ramalho), de Guerra Junqueiro, de Gomes Leal, de certo Herculano, de Sérgio e, já agora, de grande parte da imprensa e do "Diário da Câmara dos Senhores Deputados" de 1821 a 1926. Uma boa limpeza viria a propósito. Como viria a propósito uma censura eclesiástica para meter na ordem o jornalismo contemporâneo.

Infelizmente, fora estas ridicularias, sucede que a homilia de D. José levanta um problema de fundo: a exegese bíblica é ou não é blasfematória? Que o dr. César das Neves pense que sim, não importa muito. Que o Patriarca de Lisboa pense que sim, indica com certeza um caminho novo da Igreja. Toda a gente sabe que o Cardeal Ratzinger começou a sua ascensão no Concílio Vaticano II, condenando a ideia da "suficiência material" da Bíblia em matéria de fé. Ratzinger temia que essa ideia erigisse a exegese em suprema autoridade da Igreja e que "acreditar" se viesse a tornar uma vulgar "opinião". Hoje ainda, e já Papa, considera que a "suficiência material" está na origem do "drama da era post-conciliar". É neste quadro que as palavras do sr. D. José sobre a blasfémia adquirem um especial significado, pela simples razão de que a exegese bíblica, como ele não ignora, acaba sempre por ser blasfematória.

Que sugere, portanto, o cardeal-patriarca? A exegese bíblica, mais do que qualquer outra coisa, criou a civilização secular do Ocidente. Chegou agora a altura de a proibir ou de a perseguir? Não era mau que Sua Eminência se explicasse.
vpv
(publicado no jornal "Público")